Esplêndida
Capítulo 17
– Como estou?
Emma pulou na frente de Ned, o corpo pequeno todo vestido de preto. Usava uma calça escura que fora do primo quando ele tinha 14 anos. Ned cou apenas encarando-a.
– Consigo me passar por um rapaz? – insistiu Emma. – Vou prender os cabelos em um coque e esconder com um gorro, é claro.
Ned engoliu em seco.
– Hum, Emma, a questão é que… bem, não. Você não está nem um pouco parecida com um rapaz.
– Não? – disse ela com um suspiro. – Inferno… E eu estava tão feliz de ter encontrado uma calça que me servisse. Está um pouco larga na cintura – disse, e afastou o cós da calça para mostrar. – Mas qualquer coisa menor teria cado apertada demais no quadril. Calças não são cortadas para vestir um corpo feminino.
– Creio que exista uma boa razão para isso – disse Ned baixinho, reparando na forma indecente como a calça se ajustava às formas da prima. – Que bom que eu sou seu primo. Não gostaria que mais ninguém visse você assim.
– Não seja tão rigoroso. Para ser sincera, estou achando esta calça extremamente confortável. É espantoso que as mulheres ao redor do mundo ainda não tenham se revoltado. Se quer saber por que as mulheres vivem desmaiando por aí, experimente amarrar um espartilho ao redor da cintura.
– Além disso, Emma, você precisa, hum, isto é…
Ned se interrompeu e, quando Emma olhou para ele, viu que sua expressão era quase sofrida.
– Eu preciso o quê?
– Talvez você queira, hum, bem, amarrar o seu…
Ele acenou com a mão na direção dos seios dela.
Ned e Emma costumavam ser bastante francos um com o outro, mas ele não conseguiria se forçar a falar sobre as partes íntimas da prima.
– Ah, sim – disse Emma lentamente. – Hum, talvez você esteja certo. Espere só um pouquinho…
Emma voltou cinco minutos depois, mas seu peito parecia exatamente o mesmo.
– Desculpe – disse, constrangida. – Estava desconfortável demais. Vou ter que usar um casaco largo.
Ned achou que era melhor esquecer o assunto e ofereceu um de seus antigos casacos.
– Experimente este. Acho que vai car arrastando no chão, mas temos que ir.
Não chegou a arrastar no chão, mas quase. Emma examinou o casaco.
– Pareço uma criança abandonada indo a um enterro.
A dupla de conspiradores seguiu sorrateiramente pelo corredor e desceu pela escada dos fundos.
– Cuidado com o terceiro degrau – sussurrou Emma. – Ele range. Você precisa segurar na parede.
Ned lançou a ela um olhar irônico.
– Você se esgueira com frequência por esta escada?
Emma corou ao se lembrar do dia em que ela e Belle desceram escondidas a escada dos fundos, vestidas de criadas. O dia em que conhecera Alex.
– Belle que me contou – murmurou.
Seguindo o conselho de Belle, os dois desceram em silêncio a escada dos fundos, atravessaram a cozinha deserta na ponta dos pés e escapuliram pela porta lateral para o veludo negro da noite.
A festa de lady Mottram já ia avançada quando Alex e Dunford, os dois impecáveis em roupas de noite pretas, surgiram no salão de baile.
– Está vendo as duas? – perguntou Alex em voz baixa, valendo-se de sua altura para examinar acima das cabeças dos convidados.
– Não – respondeu Dunford, esticando o pescoço.
– Emma não está aqui.
– Como não? Ela tem que estar.
– Pois não está. Sou capaz de avistá-la a mais de um quilômetro de distância.
– Espere! – exclamou Dunford subitamente. – Estou vendo Belle.
Alex acompanhou a direção dos olhos de Dunford até localizar os cabelos loiros de Belle. Ela estava cercada pela horda usual de admiradores.
– Woodside está se atirando sobre ela.
Dunford franziu a testa.
– E ela não está fazendo nada para impedir… Venha comigo.
Dunford avançou resoluto por entre os convidados, com Alex logo atrás.
– Belle! – exclamou Dunford jovialmente quando a alcançou. – Você está ainda mais adorável do que o normal.
Ele se inclinou e beijou a mão dela. Belle o encarou, cheia de descon ança.
– Visconde Benton! – Dunford deu um tapa camarada nas costas do homem. – Não o vejo há séculos. Venho querendo perguntar sobre o colete que está usando. Já estou admirando a peça há algum tempo. Onde mandou fazê-lo?
Depois que Dunford desviou satisfatoriamente a atenção de Woodside, Alex concentrou suas energias em Belle.
– Lady Arabella – disse brevemente, dispersando o restante dos rapazes com um olhar severo. – Preciso falar com a senhorita em particular.
– Não tenho nada a tratar com Vossa Graça – retrucou Belle, erguendo ligeiramente o queixo.
Alex se virou para Dunford e Woodside.
– Se importariam se eu roubasse lady Arabella só por um instante? Prometo devolvê-la logo – disse ele, piscando para Woodside. – Sei o afeto que ela tem por você, por isso não vou privá-lo da companhia dela por muito tempo.
Então Alex lançou um sorriso sinistro na direção de Belle, segurou-a pelo pulso e praticamente a arrastou até a varanda.
– Onde está a sua prima?
– Não está de nhando em casa por sua causa, se é com isso que está preocupado.
Belle se calou abruptamente, ciente de que falara demais a Alex.
Ele percebeu na mesma hora o olhar culpado dela.
– Onde ela está? Ela está em perigo? Só Deus sabe em que tipo de encrenca Emma pode se meter sem ninguém tomando conta dela.
Não havia qualquer fundamento racional para o medo que dava um nó em suas entranhas, mas de algum modo Alex sabia que Emma estava envolvida em algo perigoso. E também sabia que não havia a menor possibilidade de simplesmente sentar e assistir enquanto ela corria perigo.
– Ela é perfeitamente capaz de tomar conta de si mesma. Além do mais, eu não sabia que Vossa Graça ainda se importava com minha prima.
– Não brinque comigo, milady – alertou Alex. – Onde ela está?
– Escute aqui, Vossa Graça – retrucou Belle em um tom mordaz –, o senhor se comportou de forma abominável. Não sei o que disse a Emma, mas deve ter sido algo terrível, porque ela não quer nem falar a respeito. Minha prima anda pela casa com a expressão mais taciturna que já vi e de vez em quando começa a chorar. Espero que esteja satisfeito. Então estamos fazendo o possível para manter a mente dela ocupada, para que não tenha que pensar no porco que a estava cortejando! Por sorte, tivemos…
– Por sorte o quê? – perguntou Alex. – O que a senhorita está planejando hoje à noite para manter Emma ocupada?
– Eu disse “porco”? – perguntou Belle, improvisando, enquanto inclinava a cabeça e tamborilava com um dedo no queixo. – Pois quis dizer “verme”. Agora me deixe em paz… a mim e Emma!
Belle se desvencilhou da mão dele e voltou para o salão de baile, indo direto na direção de Woodside e Dunford.
– Sinto muito pelo comportamento rude de Ashbourne – falou, encantadora, sorrindo para os olhos claros de Woodside. – Ele estava me perguntando sobre minha prima. Está louco por ela, como o senhor sabe.
Woodside retribuiu o olhar de Belle com uma expressão perspicaz.
– Tive a impressão de que o sentimento era recíproco.
– Não mais. Na verdade, foi por isso que ela cou em casa esta noite. Emma ainda está um pouco aborrecida com toda a situação. Mas não quero falar sobre ela esta noite. Gostaria de saber um pouco mais sobre o senhor, milorde. Ned me falou muito a seu respeito.
Um brilho lascivo cintilou nos olhos de Woodside, provavelmente convencido de que Ned havia resolvido oferecer a irmã em troca das 10 mil libras.
– Imagino – sussurrou ele.
Dunford conteve um gemido ao ver Alex indo na direção deles com cara de poucos amigos.
– Woodside, não se importaria se eu dançasse esta valsa com lady Arabella, não é mesmo? Sei que Ashbourne já a roubou por algum tempo, mas preciso muito conversar com ela também.
– Não quero dançar, Dunford – falou Belle.
– Acho que quer, sim – disse ele em um tom excessivamente suave, puxando-a na direção da pista de dança.
Woodside deixou escapar um suspiro de irritação enquanto observava sua presa ser mais uma vez levada para longe dele. Estava prestes a ir em busca de um drinque quando Alex apareceu ao seu lado.
– Peço perdão por isso – falou Alex com um sorriso rígido. – Tenho certeza de que está ansioso para passar mais tempo com lady Arabella esta noite. Ela é mesmo adorável.
Woodside olhou para Alex com descon ança.
– O que ele precisa dizer de tão importante?
Alex se obrigou a engolir o desprezo que sentia pelo homem e abriu um sorriso amável.
– Na verdade, Woodside, a culpa é minha. Por acaso sabe que eu estava cortejando a prima de lady Arabella?
Um sorriso conspiratório surgiu no rosto de Woodside. Ele jamais acreditara que o poderoso duque de Ashbourne se casaria com uma ninguém, sem título, vinda das Colônias, por isso não sentiu necessidade de falar de Emma com respeito.
– A mocinha americana, é? Ela é bonita, mas não imaginei que um homem como você estaria interessado em alguém das Colônias.
Alex teve que controlar a ânsia de arrancar a língua do homem.
– Tivemos um pequeno desentendimento, sabe como é, e ela não quer falar comigo.
– Mande ores – aconselhou Woodside em um tom condescendente. – Ou uma joia, se achar que a família dela não consideraria muito ousado. Sempre funciona – a rmou, tirando um o imaginário da manga do paletó. – É muito fácil manipular as mulheres.
Alex se perguntou quanto esforço extra teria de empregar para arrancar os pulmões dele junto com a língua.
– Pedi a Dunford que intercedesse por mim junto a Belle, já que obviamente não tive sucesso nisso. Ele está tentando convencê-la a convencer Emma a falar comigo, para que possamos resolver nossas diferenças.
Woodside assentiu.
– Uma abordagem inteligente. E, se funcionar, muito mais barata do que uma pulseira.
Alex sorriu, com os dentes cerrados.
– Mais um motivo para rezarmos para ele estar sendo bem-sucedido.
Ele não estava.
Dunford tentou praticamente todas as táticas imagináveis para fazer com que Belle revelasse o paradeiro de Emma, mas ela permaneceu implacável. Finalmente, ele decidiu que seu único recurso restante era a chantagem. Dunford pigarreou algumas vezes, encarou os olhos azuis de Belle e, sorrindo com malícia, disse:
– Belle, se não me contar agora mesmo onde está sua prima, juro que vou criar uma cena com a qual você terá que conviver por anos.
Belle o encarou com uma expressão zombeteira.
– Estamos em um salão de baile lotado, Dunford. O que você poderia fazer, em nome de Deus?
– Eu vou beijar você.
– Ah, por favor – disse Belle, sem achar grande coisa.
– E vou beijar de língua – disse ele muito lentamente, em um tom signi cativo.
Belle arquejou diante da ousadia.
– Você não faria isso. Você nem sequer se sente atraído por mim. Já me disse isso antes. Em várias ocasiões.
– Não importa.
– Você vai acabar com a minha reputação se zer isso.
– No momento, Belle, eu não me importo.
Bastou examinar os olhos castanhos muito sérios de Dunford para que ela se desse conta de que havia julgado mal o amigo. Havia uma dureza sob a fachada tranquila, e ele acabara de levar a melhor sobre ela.
– Não tenho escolha, certo?
– Não.
Belle suspirou, sentindo-se enjoada de desespero, ainda que se perguntasse se talvez, apenas talvez, Dunford e Ashbourne não poderiam ajudar Emma e Ned no plano deles.
– Não tenho a noite toda, Belle.
– Está certo – concordou ela. – Emma e Ned estão invadindo a casa de Woodside. Ned está devendo dinheiro a ele, uma dívida de jogo. Então os dois foram lá para tentar roubar a promissória.
– O quê? Essa é uma das coisas mais estúpidas que eu já ouvi!
– A dívida é muito alta – disse Belle, sem rodeios.
– O seu irmão precisa aprender a honrar as próprias dívidas de jogo como um cavalheiro. Ou ao menos aprender a não apostar mais do que pode pagar.
– Woodside estava trapaceando. Nada mais justo do que recuperar a promissória.
Dunford balançou a cabeça.
– E suponho que sua parte no plano seja manter Woodside entretido, para que ele não descon e de nada enquanto seu irmão e sua prima revistam os pertences dele.
Belle assentiu e fez a cortesia devida quando a valsa terminou.
Dunford pegou o braço dela e levou-a de volta até onde estavam Alex e Woodside.
– Cuidado com a forma como vai realizar a sua tarefa, minha cara – sussurrou ele no ouvido de Belle. – Tenho a impressão de que você e o visconde têm ideias diferentes a respeito do signi cado de “entreter”. Ah, Woodside, aqui está você – disse ele em um tom animado, pousando a mão de Belle no braço do outro cavalheiro. – Estou devolvendo lady Arabella aos seus cuidados. Ela não parava de falar em você.
Woodside assentiu lentamente para Belle e um sorriso sinistro curvou seus lábios.
– Lamento, mas eu e Ashbourne precisamos partir – continuou Dunford. – Espero que vocês dois tenham uma noite agradável.
– Tenho a certeza de que teremos – disse Woodside em voz baixa. – Estou pensando em mostrar os jardins a lady Arabella. Os jardins de lady Mottram estão entre os melhores de Londres.
Belle fez uma careta, que disfarçou rapidamente com um breve acesso de tosse.
– Na verdade, temo estar pegando um resfriado. Acho que é melhor não me expor ao ar úmido da noite.
Dunford assentiu para os dois e puxou Alex na direção da porta.
– Consegui – sussurrou. – Explico tudo na carruagem.
– Pare aqui.
O coche de aluguel que Ned e Emma tinham contratado para levá-los até a casa de Woodside parou a uma quadra de distância do destino. Não queriam que o som dos cascos dos cavalos alertasse algum criado de sono leve de que havia alguém entrando. Ned pagou o cocheiro e Emma
cou calada para que a voz não arruinasse seu disfarce.
Desceram a rua a um passo ligeiro até a casa de Woodside. Ele alugava uma casa modesta na cidade, fato pelo qual Emma cou imensamente grata. Uma mansão exigiria muito tempo para ser revistada e provavelmente teria um bando de criados sempre alerta. Era pouco provável que a casa relativamente pequena tivesse muitos deles.
– Acho que devemos dar a volta pela lateral – sussurrou Ned. – Vamos ver se ele deixou a fresta de alguma janela aberta. A noite está razoavelmente quente.
Emma assentiu e seguiu o primo pelo beco estreito que corria ao longo da lateral da casa. Tiveram sorte. Woodside largara a janela dos fundos parcialmente aberta, provavelmente para deixar entrar um pouco de ar fresco em um cômodo que parecia ser mal ventilado.
– É um pouco alta – comentou Ned com uma careta.
– Você só vai precisar me levantar.
– E como eu vou entrar?
– Acho que não vai – respondeu Emma com um sorriso nervoso. – A menos que encontre um calço para apoiar o pé na parede.
– Não gosto da ideia.
Emma também não gostava, mas sabia que o primo nunca a deixaria fazer aquilo se percebesse como ela estava apreensiva.
– Vai ter que me dar um sinal se vir alguém chegando.
– Que tal eu tossir?
Emma assentiu e ele juntou as mãos para que ela apoiasse o pé, e a sustentou com rmeza enquanto ela se erguia ao nível da janela.
– Parece ser o escritório dele! – sussurrou empolgada, erguendo lentamente o vidro da janela para aumentar o espaço por onde passaria. – E a porta está fechada, portanto não preciso me preocupar com o surgimento de algum criado.
– Vou empurrar você mais para cima agora – avisou Ned. – Tente passar uma das pernas por cima do parapeito. Se conseguir fazer isso, vai entrar com facilidade.
Enquanto Ned impulsionava o corpo dela para cima, Emma cerrou os dentes e usou toda a força da parte superior do corpo para se sustentar contra o parapeito enquanto levantava a perna e a passava através da janela aberta. Depois disso, foi fácil passar o restante do corpo e ela se deixou cair com suavidade em cima do carpete, abençoando mentalmente os sapatos de sola macia que usava.
– Já estava na hora de a minha experiência de subir em árvores servir a propósitos mais úteis – falou baixinho.
O brilho suave da lua entrava pela janela aberta, mas, mesmo depois que os olhos de Emma se ajustaram à escuridão, ela se deu conta de que não conseguia enxergar o bastante para fazer a busca. Emma en ou a mão no bolso do casaco, pegou uma vela e acendeu. Com a ajuda da luz extra, examinou o cômodo e seu olhar nalmente encontrou a fresta embaixo da porta que dava para o corredor. Qualquer criado que passasse poderia facilmente ver a luz através daquela fresta. Emma rapidamente tirou o casaco e cobriu a abertura.
– Tudo certo – sussurrou para si mesma. – Se eu fosse um bandido trapaceiro, tentando arrancar dinheiro de um bom rapaz, onde eu colocaria a promissória que ele assinou?
A escrivaninha parecia o lugar mais lógico por onde começar. A nal, Woodside certamente não estava esperando que Ned e Emma invadissem a casa dele, por isso não devia ter se dado o trabalho de esconder o papel. Emma abriu a primeira gaveta. Algumas penas, papel de carta, mas nada que se parecesse com a promissória que Ned lhe descrevera. Emma passou à próxima gaveta. E mais uma vez não teve sorte. Então puxou a terceira gaveta, mas parecia trancada.
O coração de Emma estava à mil quando correu até a janela.
– Ned? – chamou em um sussurro.
– O quê?
– Uma das gavetas está trancada.
– Tente um grampo cabelo. A maioria dessas escrivaninhas antigas não têm fechaduras muito boas.
– Está bem.
Emma voltou correndo para a escrivaninha, arrancou o gorro que usava e tirou um grampo dos cabelos. Mordeu o lábio inferior, deixou escapar um leve suspiro e en ou o grampo na fechadura. Nada. Emma virou o grampo algumas vezes. Nada ainda. Por m, ela encarou a gaveta irritada que não estava colaborando e sussurrou:
– Gavetinha idiota. Não faço a menor ideia do que estou fazendo e você sabe disso.
A fechadura girou. Emma abriu um largo sorriso.
– Ora, ora, não foi tão difícil.
Ela vasculhou o conteúdo. Havia alguns documentos jurídicos, um papel que parecia o contrato de aluguel da casa e até algum dinheiro, mas nem sinal da promissória. Emma devolveu rapidamente os papéis à gaveta, na ordem em que os encontrara, e fechou-a, certi cando-se de trancá-la de novo.
Ela voltou a correr até a janela.
– Não estava na gaveta trancada – avisou a Ned.
– Continue procurando!
Emma soltou mais um suspiro e voltou a atenção para uma estante embutida na parede perto da porta. Ela imaginou que talvez Woodside tivesse colocado a promissória dentro de um dos livros. Felizmente, aquela não era uma biblioteca na plena acepção da palavra. Emma imaginou que devia haver entre trinta e quarenta volumes ali. Não levaria muito tempo para examinar todos.
Ela subiu em um banquinho e começou da prateleira mais alta, que parecia conter a obra completa de Shakespeare. Hum, pensou com um sorrisinho malicioso, talvez Belle realmente tivesse alguma coisa em comum com Woodside.
A carruagem de Alex parou diante da casa de Dunford depois de atravessar as ruas de Londres a uma velocidade temerosa. Woodside morava a apenas três quarteirões, por isso os dois homens resolveram deixar a carruagem ali, onde não levantaria qualquer suspeita.
– Vou esganar Emma – declarou Alex, as longas pernas atravessando rapidamente a rua.
Bastou um olhar para a expressão furiosa do amigo para que Dunford percebesse que Alex talvez estivesse falando sério.
Em minutos, os dois estavam diante da casa de Woodside.
– Não estou vendo nenhum sinal de arrombamento – sussurrou Alex, examinando a fachada da casa.
– Acho que há um beco na lateral – informou Dunford. – Vamos.
Os dois caminharam até o início da lateral do prédio e se detiveram para espiar em silêncio pelo canto. Havia um homem parado mais ao fundo, olhando ansiosamente para uma janela.
– Já encontrou? – perguntou o sujeito, baixinho.
Alex e Dunford recuaram.
– Nosso caro amigo, lorde Edward – zombou Dunford.
– O próximo que irei esganar assim que terminar com Emma – murmurou Alex em um tom ameaçador.
– Espere aqui.
Dunford se moveu como um raio e, antes que Alex percebesse o que estava acontecendo, ele já havia colocado a mão sobre a boca de Ned. Alex se juntou rapidamente a eles.
– Emma está lá dentro? – perguntou.
Ned assentiu, os olhos azuis arregalados de surpresa e também de uma dose saudável de medo.
– Que diabo deu em você para esperar aqui enquanto ela está lá dentro?
Dunford não tirou a mão da boca de Ned, portanto ele não pôde responder – uma circunstância pela qual cou extremamente grato, já que não sabia o que dizer. Ned vinha se perguntando a mesma coisa ao longo dos últimos dez minutos, sentindo-se um tolo parado ali enquanto Emma revistava a casa.
Alex continuou com o interrogatório.
– Ela está procurando a promissória, não está? Como você espera que a sua prima encontre uma folha de papel aí dentro?
Mais uma vez, Dunford não tirou a mão de cima da boca de Ned, por isso o rapaz fez a única coisa que poderia fazer para se libertar. Lambeu a mão do outro.
Dunford deu um pulo para trás, absolutamente enojado. Estava prestes a secar a mão no casaco quando pensou melhor e fez isso no casaco de Ned.
– Eu não tinha como responder às perguntas com a mão dele tapando minha boca – explicou Ned, tenso.
– E então? – cobrou Alex.
– Eu não sei. Acho que estávamos só torcendo para ter sorte. Isso tudo foi ideia dela.
– Tenho certeza que sim.
Alex não tinha dúvida de que Emma havia armado todo aquele plano. Ele teria que mantê-la na rédea curta quando estivessem casados.
– Mas você não deveria ter concordado.
Ned tou-o com uma expressão condescendente.
– Já tentou deter Emma quando ela está determinada a fazer alguma coisa? Ela teria vindo até aqui sozinha se eu não a acompanhasse.
– Vou entrar – declarou Alex.
– Não acho que seja uma boa ideia – disse Ned, hesitante.
Alex lançou a ele um olhar gelado.
– Sua capacidade de julgamento não se mostrou das melhores até aqui.
Ned engoliu em seco e recuou.
– Dunford, pode me dar impulso?
Enquanto isso, no escritório de Woodside, Emma havia terminado de inspecionar a estante e estava pronta para desistir de encontrar a promissória naquele cômodo. Parecia que teria que se aventurar pelo resto da casa, no m das contas. Uma ideia que não a deixava exatamente animada.
Ela estava prestes a se debruçar pela janela para atualizar Ned sobre a busca quando lembrou subitamente que o grampo de cabelo estava em cima da escrivaninha. Com certeza não queria deixar qualquer evidência que a incriminasse. Embora imaginasse que aquilo na verdade não importava. Quando Woodside desse falta da promissória, saberia quem a pegara. O homem não era burro. A nal, havia conseguido que Ned contraísse uma dívida de 10 mil libras. Emma imaginava que era preciso ter certo grau de inteligência para trapacear com tamanha habilidade.
Ainda assim, ela não queria deixar para trás nada que Woodside pudesse levar às autoridades, por isso voltou até a escrivaninha e pegou o grampo.
Foi quando viu a caixa de rapé.
A caixa estava em cima da mesa e era muito ornamentada, parecendo ter sido importada da Ásia.
– Ah, por favor, meu Deus, por favor, meu Deus, por favor, meu Deus – invocou Emma, esquecendo-se completamente do grampo de cabelo.
Ela fechou os olhos em prece enquanto levantava a tampa da caixa. Então respirou fundo e abriu os olhos. E viu ali dentro um pequeno pedaço de papel, dobrado várias vezes. Mal conseguindo respirar, ela desdobrou o papel.
Eu, Edward William Blydon, visconde Burwick, prometo pagar a
lorde Anthony Woodside, visconde Benton, a soma de 10 mil libras.
Abaixo do texto, Emma viu a assinatura de Ned. E foi nesse momento de supremo alívio que Emma se deu conta de como o seu coração estava batendo rápido.
– Obrigada, meu Deus – sussurrou enquanto fechava a caixa de rapé e a colocava no lugar.
– Ned! – chamou baixinho. – Encont…
E então se virou bem a tempo de ver Alex erguer o corpo pela janela aberta e aterrissar no carpete com a graça de uma pantera.
– Você! – disse ela com a voz engasgada, recuando em choque.
A boca dele estava cerrada em uma linha severa.
– Você me deve algumas explicações, minha cara dama.