Esplêndida
Capítulo 24
Emma desceu o corredor pisando rme e entrou no quarto de Shipton e Ames.
– Eu a encontrei. Belle está no quarto número sete.
– Ela parece bem? – apressou-se em perguntar Ames.
Emma assentiu.
– Não está ferida. Ainda.
Emma respirou fundo e tentou acalmar a ardência em seu estômago.
– Está sob o poder de dois bandidos. Precisamos tirá-la daquele quarto.
– Talvez devêssemos esperar Sua Graça chegar – sugeriu Shipton em um tom esperançoso.
– Não temos tempo – disse Emma, andando de um lado para o outro. – Acho que ela foi sequestrada a mando de Woodside.
Diante dos olhares confusos de Ames e Shipton, ela explicou:
– É uma longa história, mas Woodside está obcecado por Belle, e acho que ele pode querer vingança contra a nossa família. Eu… eu o insultei certa vez.
Emma engoliu em seco ao se lembrar de como rira de Woodside quando ele lhe dissera que se casaria com Belle. E não havia dúvida de que o visconde estava furioso por ter perdido a promissória da dívida de jogo. Ned o acusara de tentar receber o pagamento duas vezes, e Woodside fora publicamente humilhado. Aquilo com certeza doía mais do que perder o dinheiro. Quanto mais Emma pensava a respeito, mais preocupada cava.
– Temos que tirá-la daqui antes que ele chegue.
– Mas como? – perguntou Shipton. – Ames e eu não somos tão fortes quanto os dois bandidos.
– E eles estão armados – lembrou Emma. – Vamos ter que ser mais espertos do que eles.
Os dois criados a taram em expectativa. Emma retribuiu o olhar, nervosa.
– A janela do quarto está aberta – disse de repente, e então correu até a janela, abriu-a e en ou a cabeça para fora. – Há uma cornija na parede!
– Santo Deus, Vossa Graça – disse Ames, horrorizado. – Não pode estar pensando em…
– Não há outra forma de entrar no quarto quando os homens não estiverem lá para abrir a porta. Não tenho escolha. E a saliência na parede não é muito estreita.
Ames colocou a cabeça para fora da janela.
– Está vendo? Deve ter uns 30 centímetros de largura. Vai dar certo. É só eu não olhar para baixo.
– Deus tenha piedade das nossas almas, Shipton – lamentou-se Ames, balançando a cabeça. – Porque o duque vai nos matar.
– Precisamos de uma distração. Algo que faça os dois saírem do quarto.
Os três caram sentados em silêncio por alguns minutos até Shipton
nalmente sugerir:
– Bem, a senhora sabe que homens gostam de cerveja.
Um pequeno raio de esperança começou a cintilar no coração de Emma.
– Como assim, Shipton?
Shipton pareceu constrangido, já que não estava acostumado a ter suas ideias ouvidas com tanta atenção pela nobreza.
– Bem, só estou dizendo que homens gostam de cerveja. Só um tolo recusaria uma bebida de graça.
– Shipton, você é um gênio! – comemorou Emma, passando os braços espontaneamente ao redor do criado e dando um beijo estalado no rosto dele.
Shipton cou roxo de vergonha e começou a balbuciar.
– Não sei, Vossa Graça, eu só…
– Quieto. Escutem bem o que vamos fazer. Um de vocês vai até a rua e vai começar a se gabar por ter acabado de car rico. Alguém morreu, ou alguma coisa assim, e você herdou algum dinheiro. Então vai começar a bradar que pretende pagar bebidas para a cidade inteira. Há uma taberna no andar de baixo. O outro vai car de guarda no corredor, esperando para ver se os homens saem do quarto. Se isso acontecer, vou me esgueirar pela cornija do lado de fora, entrar pela janela, pegar Belle e voltar para cá. De acordo?
Os dois assentiram, ambos parecendo inseguros.
– Ótimo. Então qual de vocês quer ser o que compra as bebidas?
Nenhum dos dois disse uma palavra. Emma fez uma careta.
– Muito bem. Ames, você é mais animado, então essa tarefa é sua.
Emma colocou várias moedas nas mãos dele.
– Agora vá.
Ames franziu a testa, respirou fundo e saiu do quarto. Poucos minutos depois, Emma e Shipton ouviram os gritos.
– Fiquei rico! Rico! Vinte anos de serviço e o velho nalmente bateu as botas e me deixou mil libras!
– Rápido, Shipton, vá para o corredor – sussurrou Emma com urgência enquanto corria para a janela e espiava do lado de fora.
Ela não tinha uma visão direta da rua, mas quando olhou para o beco viu Ames a caminho da entrada da estalagem.
– É um milagre! – gritou ele, rindo histericamente. – Um milagre! Um sinal de Deus! Não vou mais precisar servir a nenhum lorde ou dama arrogantes pelo resto dos meus dias.
Emma sorriu e resolveu esquecer o comentário sobre a arrogância. Se Ames tivesse sucesso em afastar os raptores de Belle, poderia passar o resto da vida sem precisar trabalhar graças à recompensa que os patrões arrogantes lhe dariam.
Ames caiu de joelhos e começou a beijar o chão.
– Bom Deus – disse Emma. – O homem revelou sua vocação. Ele deveria ser ator. Ou pelo menos um bom vigarista.
Naquele momento, um dos dois bandidos colocou a cabeça para fora, duas janelas abaixo. Emma recuou rapidamente e começou a rezar. Na rua, Ames continuou cumprindo seu papel.
– Quero pagar uma bebida para cada trabalhador aqui presente! Para cada homem que teve que labutar, usar as mãos para ganhar a vida. Todos para o e Hare and Hounds! Merecemos nossa recompensa!
Uma boa quantidade de aplausos seguiu a última declaração e Emma ouviu os sons de uma horda de pessoas entrando às pressas na estalagem. Enquanto esperava que Shipton a avisasse da saída dos dois bandidos, o impulso de prender a respiração era tão grande que ela precisou se lembrar de exalar o ar.
Uma eternidade se passou nos trinta segundos que Shipton levou para voltar correndo para o quarto.
– Morderam a isca, Vossa Graça! Saíram do quarto e desceram a escada. Pareciam muito empolgados.
O coração de Emma disparou no peito. Uma coisa era falar em se esgueirar por saliências nas paredes… outra muito diferente era fazer isso. Ela olhou para fora da janela. Era um longo caminho até o chão. Se a queda não a matasse, certamente quebraria vários ossos.
– Só não olhe para baixo – murmurou para si mesma.
Ela respirou fundo, subiu no parapeito da janela e se equilibrou na cornija. Felizmente a janela não dava para a rua. No beco, provavelmente ninguém perceberia a estranha cena de uma mulher com o corpo pressionado contra a lateral do prédio, dois andares acima.
Colada à parede, Emma deu pequenos passos, sussurrando um pedido de desculpas silencioso a Eustace e sua companheira ao passar pelo quarto deles. Finalmente, chegou à janela de Belle. Dobrou as pernas bem lentamente, concentrada em manter o equilíbrio, então ergueu o corpo para dentro da janela aberta, aterrissando um tanto dolorosamente no chão.
Belle deixou escapar um gritinho de surpresa quando Emma entrou voando no quarto, mas não foi um grito muito alto porque ela estava com uma mordaça apertada.
– Vou tirar você daqui em um instante – disse Emma rapidamente, engolindo a fúria que sentiu ao ver a prima presa à coluna da cama. – Maldição, esses nós estão apertados!
Belle fez um movimento brusco com a cabeça, tentando indicar a cômoda do outro lado do quarto.
– O que foi? Ah.
Emma correu e pegou uma faca que estava em cima da cômoda, perto da bandeja que ela mesma deixara ali um pouco mais cedo. Não era muito a ada, mas serviu, e em menos de um minuto ela já havia soltado Belle.
– Vou tirar a mordaça quando chegarmos no meu quarto – falou, em um tom urgente. – Quero sair daqui o mais rápido possível.
Emma en ou a faca no bolso, agarrou a mão de Belle e puxou-a pela porta.
Quando as duas já estavam no quarto de Emma, Shipton saiu para
car de guarda, e Emma rapidamente cortou a mordaça de Belle.
–Você está bem? – perguntou, preocupada. – Eles machucaram você?
Belle balançou rapidamente a cabeça.
– Estou bem. Eles não me tocaram, mas…
Ela respirou fundo, tentando se recompor, e caiu em lágrimas na mesma hora.
– Ah, Emma… Eu estava tão assustada. Acho que foi Woodside quem armou todo esse plano. Eu não conseguia parar de pensar nele me tocando. Isso fez com que eu me sentisse tão suja, e…
Os soluços não a deixaram continuar.
– Shh… – consolou Emma, abraçando a prima para acalmá-la. – Está tudo bem agora, Woodside nunca vai chegar perto de você.
– Eu só conseguia pensar que teria que me casar com ele, então a minha vida estaria arruinada para sempre.
– Não se preocupe – sussurrou Emma, acariciando os cabelos dela.
– Eu não poderia sequer me divorciar dele.
Belle soluçou alto e enxugou o nariz com o dorso da mão, sem se preocupar com a elegância.
– Tenho certeza de que eu não conseguiria me divorciar e, além do mais, seria banida da sociedade. Alex provavelmente nem deixaria mais você me ver.
– É claro que eu ainda poderia vê-la.
Mas Emma sabia que a maior parte do que Belle estava falando era verdade. Não havia lugar para uma mulher divorciada na sociedade de Londres.
– De qualquer modo, não importa. Você não vai ter que se casar com Woodside, portanto não há motivo para falar sobre divórcio. Infelizmente, estamos presas nesta estalagem porque só temos um cavalo no momento. Eu pedi para um dos criados perguntar por aí e não há um único cavalo ou carruagem para alugar em toda a cidade.
– E quanto à diligência?
Emma balançou a cabeça.
– Não passa por aqui. Lamento, mas vamos ter que esperar por Alex. Ele não deve demorar muito. Bottomley partiu para Westonbirt há mais de uma hora. Acho que não teremos que esperar muito mais do que isso.
Emma espiou pela janela, nervosa.
– Acho que será mais seguro permanecer aqui, atrás de uma porta trancada, do que se aventurar lá fora, a pé.
Belle assentiu, fungando alto. Então piscou algumas vezes, nalmente se lembrando de comentar sobre a estranha aparência da prima.
– Ah, Emma – falou, com uma risadinha. – Você está horrível.
– Obrigada! – disse Emma, entusiasmada. – É um disfarce brilhante, não acha? Você nem me reconheceu.
– E não teria reconhecido se você não tivesse começado a citar Shakespeare a cada frase que dizia. Por sorte aqueles dois são ignorantes. Tive que me controlar para não rir alto depois que percebi o que você estava fazendo. Mas o que quei me perguntando foi… como você chegou aqui?
– Ah, Belle, tivemos tanta sorte… Fui visitar Sophie ontem e decidi passar para ver você hoje. Por acaso eu estava dobrando a esquina no exato momento em que você era levada para dentro da carruagem. Quando vi que não estava indo para a reunião do Clube Literário das Damas, quei descon ada.
Belle cou séria ao perceber o papel que o destino tivera em seu resgate.
– E o que vamos fazer agora?
– Eu vou tirar esta fantasia horrível. Aqueles homens podem vir procurar por você, e é melhor que eu tenha a aparência da mulher que alugou este quarto algumas horas atrás – disse Emma, tirando a peruca e deixando os cabelos ruivos caírem pelas costas. – Pronto. Já me sinto melhor.
Se Bottomley estava cansado quando chegou a Westonbirt, ao chegar à casa de Alex, em Londres, três horas depois, mal conseguia se aguentar de pé. Nunca estivera na casa de solteiro do patrão, mas havia crescido em Londres, por isso conseguiu localizar facilmente o endereço que Norwood lhe passara.
Com os olhos cheios de desespero, subiu os degraus da frente e bateu à porta. Smithers atendeu quase na mesma hora.
– Entregas são feitas pelos fundos – disse o mordomo em um tom autoritário.
– Não é por isso que estou aqui. Eu…
– Assim como pedidos de emprego – disse Smithers, ainda mais frio.
– Pode calar a boca por um segundo? – explodiu Bottomley. – Eu trabalho para Sua Graça em Westonbirt. Sou o cocheiro da carruagem dele.
Bottomley se apoiou no batente da porta, com os joelhos bambos, e fez uma pausa, ainda respirando pesadamente.
– É a duquesa. Ela está em perigo. A prima dela foi raptada. Preciso falar com Sua Graça imediatamente.
– Ele não está aqui – disse Smithers, agora nervoso.
– O quê? Me disseram que ele estava vindo para Londres, e eu…
– Sim, o duque está em Londres. Ele só não está aqui. Foi ao White’s. É melhor você ir procurá-lo imediatamente. Vou lhe passar o endereço.
Trinta segundos depois, Bottomley estava de volta ao cavalo, sentindo-se ainda mais cansado do que antes do breve descanso. Ele logo chegou ao White’s, mas o homem na porta da frente se recusou a deixá-lo entrar.
– Você não está entendendo – implorou Bottomley. – É uma emergência. Tenho que ver Sua Graça imediatamente.
– Sinto muito, mas só é permitida a entrada de membros do clube – disse o porteiro, com desdém. – E você obviamente não é um membro.
Bottomley agarrou o homem pelas lapelas, os olhos ensandecidos de exaustão e pânico.
– Preciso ver o duque de Ashbourne agora!
O homem empalideceu diante da atitude desequilibrada.
– Posso mandar buscá-lo se você esperar só um…
– Isso também não serve. Ah, inferno.
Bottomley armou o golpe e acertou um soco no rosto do homem. Então passou por cima do corpo caído e entrou apressado nos sacrossantos salões do clube.
– Vossa Graça! Vossa Graça!
Então, ao se dar conta de que poderia muito bem haver várias “Vossas Graças” ali, ele começou a gritar:
– O duque de Ashbourne! Preciso falar com o duque imediatamente.
Vinte cabeças com cabelos elegantemente penteadas se voltaram na direção do cocheiro.
– Graças a Deus, aqui está o senhor, Vossa Graça – falou Bottomley, ofegante, deixando o corpo cair contra a parede.
Alex se levantou, o terror envolvendo lentamente o seu coração.
– Bottomley, pelo amor de Deus, o que aconteceu?
O cocheiro se esforçou para recuperar o fôlego.
– Uma emergência, Vossa Graça! É a duquesa. Ela…
Alex atravessou correndo o salão e sacudiu o criado pelos ombros.
– O que aconteceu? Ela está bem?
– Sim, está, Vossa Graça. Mas talvez não por muito tempo!
Pela quarta vez naquele dia, Bottomley se viu de volta em cima sela e, daquela vez, só teve forças para se agarrar ao pescoço do cavalo.
O vilarejo de Harewood raramente via membros da aristocracia passeando por suas ruas estreitas, e se todos os seus habitantes não estivessem aglomerados no e Hare and Hounds, aproveitando a oferta
generosa de Ames, teriam cado bastante surpresos ao verem a elegante
gura de lorde Anthony Woodside, o visconde Benton, descendo de uma
carruagem. A chegada de Emma já causara certo rebuliço, mas receber ali um elegante lorde era outra coisa.
Woodside estava, de um modo geral, muito satisfeito consigo mesmo. Raptar a bela lady Arabella tinha sido uma sacada de gênio. De uma tacada só, ele resolvera todos os seus problemas. Se vingara do irmão dela, conseguira a mulher que desejava e, em menos de uma hora, teria acesso à fortuna dos Blydons.
O visconde se encaminhou para a igreja local a m de nalizar seu acordo com o vigário, que concordara em fazer um casamento às pressas e em passar por cima de trivialidades como o consentimento da noiva. Mas nem chegou a pisar na igreja, porque, ao dobrar a esquina que dava para o pátio, viu uma carruagem elegante, ainda mais elegante do que a dele. E como ele bem sabia, carruagens elegantes não eram comuns em Harewood. A nal, aquela fora exatamente a razão que o levara a mandar Arabella para lá. Woodside apertou o passo, se aproximou do veículo indesejado e examinou o brasão.
Ashbourne.
Ou seja, o duque e a duquesa.
Ou seja, primos em primeiro grau de Arabella e amigos muito próximos dela.
Woodside deu meia-volta e seguiu na direção do e Hare and
Hounds. Algo havia saído muito errado.
Ele chegou à estalagem dois minutos depois e encontrou uma enorme confusão. Era como se toda a cidade estivesse aglomerada na taberna e, ao que parecia, a maioria das pessoas ali já havia dado os primeiros passos em direção à embriaguez. No centro da multidão estava um homem animado, vestido com um uniforme de criado, bradando em alto e bom som sobre os dramas dos trabalhadores. Woodside se aproximou um pouco mais. A roupa do criado era muito distinta. Muito mais do que se esperaria em um vilarejo longe de tudo, como aquele. Na verdade, pensou Woodside, melancólico, era o tipo de uniforme que se encontraria na casa de um visconde… se esse visconde não estivesse com as economias perigosamente minguadas.
Ou poderia ser o tipo de uniforme que se encontraria na casa de um duque.
Woodside sentiu as entranhas se apertarem com uma mistura de pânico e fúria. Seu humor não melhorou quando percebeu que os dois bandidos que contratara para raptar Arabella estavam ali embaixo, bebendo, em vez de estarem guardando a dama. Alguém havia interferido nos planos dele, e Woodside apostaria a própria vida que havia sido aquela prima enxerida de Arabella, a nova duquesa de Ashbourne.
Maldita americana. Ela era uma ninguém. Não vinha de linhagem aristocrática.
Nem era parente de sangue do conde de Worth, apenas da condessa, e, se não lhe falhava a memória, lady Worth não havia nascido na nobreza.
Woodside saiu pisando rme da taverna e voltou para a recepção da estalagem. Empertigou o corpo o máximo que pode, foi até o balcão e tocou a campainha. Um homem robusto se adiantou para atendê-lo.
– Acho que minha esposa se registrou na estalagem mais cedo – falou Woodside, com um sorriso simpático. – Quero fazer uma surpresa a ela.
– Qual é o nome dela, milorde? Eu poderia checar nos registros.
– Bem, vou lhe dizer a verdade, duvido que ela tenha usado seu nome verdadeiro – disse ele, se inclinando para a frente, e então falou, em um tom de con dência: – Tivemos uma briguinha, e vim pedir perdão.
– Ah, entendo. Bem, então talvez o senhor pudesse descrevê-la para mim.
Woodside sorriu.
– Se ela estiver aqui, o senhor se lembrará dela. Pequena, com os cabelos cor de fogo.
– Ah, sim! – exclamou o homem. – Ela está aqui. No quarto número três. No andar de cima.
Woodside agradeceu e começou a se afastar, mas recuou depois de alguns passos.
– Na verdade, quero muito surpreendê-la. Poderia me dar uma cópia da chave do quarto?
– Não creio, milorde – falou o estalajadeiro, parecendo desconfortável. – Temos a política de não dar cópias extras de chaves. Por razões de segurança, entende?
Woodside sorriu de novo, os olhos de um azul pálido cintilando, animado.
– Isso realmente signi caria muito para mim – insistiu o visconde, colocando algumas moedas sobre o balcão.
O estalajadeiro olhou para o dinheiro, então para Woodside, avaliando a possibilidade de dois aristocratas sem nenhuma ligação um com o outro aparecerem em Harewood no mesmo dia. Ele pegou o dinheiro e empurrou a chave por cima do balcão.
Woodside assentiu e guardou a chave no bolso, mas quando deu meia-volta para subir a escada já não havia simpatia em seus olhos. Tinham se transformado em duas pedras de gelo.
Emma e Belle estavam en adas no quarto havia cerca de quatro horas quando a fome cou grande demais e pediram a Shipton que fosse até a cozinha buscar algo para comerem.
– Por que será que Alex está demorando tanto? – perguntou Belle, folheando distraidamente a cópia de Hamlet que Emma pegara emprestada de Sophie.
Emma voltou a andar de um lado para o outro, como vinha fazendo nas últimas horas.
– Não faço ideia. Ele deveria ter chegado há duas horas. Bottomley só levaria cerca de uma hora e meia até Westonbirt e mais uma hora e meia para voltar. Só consigo pensar que Alex não estava em casa. Talvez estivesse visitando os arrendatários. Só que Bottomley não deveria estar demorando tanto para encontrá-lo.
– Bem, ele logo estará aqui – a rmou Belle, com mais esperança do que certeza.
– Espero que sim. Já z a parte mais difícil resgatando você. O mínimo que ele poderia fazer era chegar logo aqui para me resgatar.
Belle sorriu.
– Ele virá. E, nesse meio-tempo, estamos sãs e salvas em um quarto com a porta trancada.
– Sim, mas eu não quero estar aqui quando Woodside chegar e descobrir que você escapou.
Emma suspirou e se sentou na cama ao lado de Belle.
Então, no silêncio que só era quebrado pelo som da respiração das duas, elas ouviram o barulho terrível da chave virando na fechadura. Emma prendeu a respiração, apavorada. Se fosse Alex chegando para salvá-las, ele com certeza não entraria sem avisar. Provavelmente derrubaria a porta, berrando com ela por ser tola e descuidada, mas não seria tão cruel a ponto de apavorá-la daquela maneira.
A porta se abriu, revelando Woodside, os olhos pálidos cintilando perigosamente.
– Olá, miladies – disse de um jeito monótono e ameaçador.
Havia uma pistola em sua mão direita.
Nem Emma nem Belle conseguiram encontrar palavras para expressar o medo que sentiam. As duas caram sentadas na cama, abraçadas e aterrorizadas.
– Foi tolice da sua parte, Vossa Graça, deixar sua carruagem na frente da igreja. Ou não se deu conta de que lady Arabella e eu estávamos planejando casar hoje à noite?
– Ela não estava planejando nada, seu maldito – disse Emma, com raiva. – E Belle nunca irá...
Woodside bateu a porta, atravessou o quarto e deu uma bofetada em Emma.
– Cale a boca, sua megerazinha! E jamais questione a minha legitimidade. Sou o visconde Benton e você é uma ninguém vinda das Colônias.
Emma levou a mão ao rosto, que já estava cando vermelho com a marca da mão de Woodside.
– Sou a duquesa de Ashbourne – disse, incapaz de conter seu orgulho.
– Shh… – implorou Belle, pegando a outra mão da prima.
– O que você disse? – perguntou Woodside em uma voz suave.
Emma o encarou em silêncio.
– Você me responda quando eu lhe zer uma pergunta! – ordenou ele, arrancando-a da cama e segurando-a com brutalidade pelos ombros.
Emma cerrou os dentes para não gemer de dor.
– Por favor, solte-a – implorou Belle, saltando da cama e tentando se colocar entre Woodside e a prima.
– Saia do caminho – falou ele, empurrando-a de lado. – Agora, Sua Sem Graça, repita o que disse.
Ele apertou os braços dela com mais força, machucando a pele delicada.
– Eu disse – arquejou Emma, erguendo o queixo em desa o – que sou a duquesa de Ashbourne.
Os olhos de Woodside se estreitaram, e ele acertou o outro lado do rosto dela com mais uma bofetada, que a derrubou no chão. Belle correu imediatamente para junto da prima, ajudando-a a se levantar e a voltar para a cama. Belle encarou Woodside com uma expressão acusadora nos enormes olhos azuis, mas não disse nada que pudesse provocá-lo.
Emma tentou engolir a dor que se espalhava por toda a face, mas não conseguiu evitar que duas lágrimas rolassem. Então en ou a cabeça no colo de Belle, pois não queria que Woodside a visse vacilar.
– Ela me irrita – disse Woodside para Belle. – É difícil acreditar que vocês duas são parentes. Acho que teremos que amarrá-la.
Ele pegou a fantasia de criada de Emma, que estava jogada em cima da cômoda, e rapidamente rasgou-a em tiras, que estendeu para Belle.
– Amarre as mãos dela.
Belle o encarou, horrorizada.
– Você com certeza não está insinuando que eu…
– Não acha que eu mesmo vou fazer isso, acha? Ela não vai chutar e arranhar você.
– Seu covarde – sibilou Emma. – Com medo de uma mulher com metade do seu tamanho?
– Emma, eu imploro, por favor, que quieta – pediu Belle.
Ela engoliu em seco, nervosa, enquanto passava uma tira de tecido ao redor dos pulsos da prima e amarrava com delicadeza.
– Mais forte – ordenou Woodside. – Acha que sou idiota?
Belle apertou com um pouco mais de força.
Furioso, Woodside arrancou as pontas do tecido das mãos de Belle e deu um puxão com força, amarrando as mãos de Emma bem apertadas atrás das costas. Depois pegou outra faixa de tecido e se abaixou na direção dos tornozelos dela.
– Não se atreva a tentar me chutar – avisou.
Emma cou imóvel.
– Anthony – disse Belle, em um tom suave, tentando fazê-lo escutar a voz da razão –, talvez devêssemos nos dar mais tempo para nos conhecermos melhor. Não acho que um casamento feliz esteja fora de questão, mas um casamento forçado não será um bom começo para nós.
– Esqueça, milady – retrucou ele, com uma gargalhada. – Vamos nos casar esta noite, está decidido. O vigário daqui não tem as mulheres em alta conta, portanto não acha que o seu consentimento seja um pré-requisito indispensável para nos casar. Estou só esperando o sol se pôr para levá-la até a igreja. Não quero uma multidão de espectadores nos assistindo boquiabertos.
Emma olhou de relance para a janela. O sol estava baixo no céu, mas ainda não começara a se pôr. Ela e Belle provavelmente ainda tinham uma hora. Onde estava Alex?
Woodside jogou outra faixa de tecido para Belle.
– Amordace a sua prima. Não estou com a menor vontade de car ouvindo esse lamentável sotaque americano.
Belle passou a faixa de pano ao redor da cabeça de Emma e deixou a mordaça frouxa. Por sorte, Woodside estava olhando pela janela e não percebeu o tratamento gentil que Belle dispensava à prima.
– É bom que eu ainda tenha cerca de uma hora antes de irmos para a igreja – disse ele de repente, voltando o olhar perverso para Emma. – Isso vai me dar tempo de bolar um plano para arruiná-la completamente, minha duquesa americana. Sei que foi você quem roubou a promissória. Deixou um grampo em cima da minha escrivaninha.
Emma desviou os olhos, sem conseguir encarar o homem.
– Eu não precisaria ter raptado minha esposa se você não tivesse metido o nariz nos meus negócios… Olhe para mim quando falo com você!
Woodside foi rapidamente até a cama e levantou com brutalidade o queixo de Emma, forçando-a a olhar para ele.
– Blydon é um fraco – disse ele com desdém. – Ele jamais conseguiria o dinheiro, e eu já teria lady Arabella em minha cama há semanas.
Woodside soltou Emma bruscamente, fazendo com que a cabeça dela batesse na parede.
– Anthony, por favor! – implorou Belle.
Os olhos gelados dele cintilaram de desejo quando se voltaram para ela.
– A preocupação com a sua prima é tocante, minha cara, embora seja lamentável.
Emma mordeu o tecido que a amordaçava em um esforço para conter a raiva. Jamais se sentira tão impotente como naquele momento, mas seu único o de esperança era saber que qualquer plano de Woodside para expô-la com certeza fracassaria. Porque Alex con ava nela. Emma agora sabia disso. O marido con ava nela e a amava, e nunca acreditaria mais na palavra de Woodside do que na sua.
Emma só desejava que ele chegasse logo, antes que Woodside pudesse colocar em ação mais um de seus planos nefastos.