Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 3 de 27

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Esplêndida

Capítulo 2

 

Emma ouviu vozes antes de abrir os olhos.

– Ah, Alex! – disse uma voz chorosa de mulher. – E se essa mocinha não estivesse aqui? Charlie teria sido atropelado! Sou uma péssima mãe. Deveria ter tomado conta dele com mais atenção. Nunca deveria tê-lo deixado sair da carruagem antes de mim. Temos que voltar para casa. No interior ele não se mete em tanta confusão.

– Não, Sophie – disse uma voz masculina, rme. – Você não é uma péssima mãe. Mas precisa parar de gritar antes que apavore essa pobre moça.

– Ah, sim, é claro – concordou Sophie, mas em um instante estava soluçando de novo. – Não consigo acreditar que isso aconteceu. Se Charlie tivesse se machucado, eu não sei o que faria. Simplesmente morreria. É sério. Eu de nharia e morreria.

O homem suspirou.

– Sophie, por favor, se acalme. Está me ouvindo? Charlie está bem. Deve ter sofrido no máximo um arranhão. Só temos que nos dar conta de que ele está crescendo, e de que precisamos car mais atentos.

Emma gemeu baixinho. Ela sabia que devia demonstrar que havia recuperado a consciência, mas, para ser sincera, suas pálpebras pareciam terrivelmente pesadas e a cabeça latejava.

– Ela está recobrando os sentidos? – perguntou Sophie. – Ah, Alex, não sei como agradecer a ela. Que mocinha corajosa. Talvez eu deva contratá-la. Talvez as pessoas para quem ela trabalha no momento não a tratem com gentileza. Partiria o meu coração saber que ela é maltratada.

Alexander Edward Ridgely, o duque de Ashbourne, suspirou. Sophie, sua irmã, sempre falara muito, mas parecia car ainda mais tagarela quando estava nervosa ou aborrecida.

Foi então que Charlie falou.

– O que aconteceu, mamãe? Por que você está chorando?

A voz de Charlie só serviu para fazer Sophie chorar ainda mais.

– Ah, meu bebê – disse ela aos soluços, puxando o lho contra o peito.

Sophia segurou o rosto dele entre as mãos e começou a cobri-lo de beijos estalados.

– Mamãe! Pare com isso! Vai me deixar todo molhado!

Charlie tentou se desvencilhar do abraço da mãe, mas ela o apertou com mais força até ele sussurrar, irritado:

– Mamãe, o tio Alex vai pensar que eu sou um fracote!

Alex riu.

– De jeito nenhum, Charlie. Não prometi que ensinaria você a jogar uíste? Você sabe que não jogo cartas com fracotes.

Charlie assentiu com todo o vigor enquanto a mãe o soltava repentinamente.

– Você está ensinando o meu lho a jogar uíste? – perguntou ela, entre soluços. – Sinceramente, Alex, ele só tem 6 anos!

– Na minha opinião, nunca se é jovem demais para aprender. Certo, Charlie?

O menino abriu um largo sorriso com vários dentes faltando.

Sophie suspirou alto, desanimada com o esforço de sempre ter que manter a mão feminina rme sobre o irmão e o lho.

– Vocês são dois patifes. Isso mesmo, patifes.

Alex riu.

– É claro, somos parentes.

– Eu sei, eu sei. E lamento. Mas já chega de falar sobre jogos de cartas. Precisamos cuidar dessa pobre moça. Você acha que ela vai car bem?

Alex pegou a mão de Emma e sentiu seu pulso. Estava forte e rme.

– Acho que sim.

– Graças a Deus.

– Mas vai acordar com uma dor de cabeça dos infernos amanhã.

– Alex, olhe o linguajar!

– Sophie, pare de tentar bancar a puritana. Não combina com você.

Sophie deu um sorrisinho.

– Não, acho que não mesmo. Mas tenho que dizer alguma coisa quando você pragueja.

– Se sente uma necessidade tão forte de dizer alguma coisa, por que não pragueja também?

Em meio a esses gracejos, Emma deixou escapar um gemido baixo.

– Ah, meu Deus! – exclamou Sophie. – Ela está voltando a si.

– Quem é ela? – perguntou Charlie, de repente. – E por que ela pulou em cima de mim?

Sophie encarou o lho, boquiaberta.

– Não acredito que você acabou de dizer isso. Você, meu caro menino, quase foi atropelado por um coche. Se essa moça bondosa não tivesse se jogado, você teria sido pisoteado pelos cavalos!

Charlie tou a mãe, boquiaberto.

– Achei que ela talvez fosse um pouco louca.

– O quê? – perguntou Sophie, com um gritinho agudo. – Você não viu o coche? É, vejo que vai ter que aprender a ser mais cuidadoso.

A voz alta de Sophie estava fazendo a cabeça de Emma latejar ainda mais. Ela gemeu de novo, desejando que aquelas pessoas lhe dessem ao menos um minuto de silêncio.

– Quieta, Sophie – repreendeu Alex. – Seus gritinhos obviamente estão incomodando a moça. Ela precisa de um pouco de silêncio para que a dor de cabeça que deve estar sentindo amenize e ela consiga abrir os olhos.

Emma suspirou. Felizmente havia ao menos uma pessoa com bom senso naquela carruagem.

– Eu sei, eu sei. Estou tentando. Estou, sim. Só que…

– Soph – interrompeu Alex –, por que não vai ao mercado comprar alguns ovos para repor os que a moça deixou cair? Olhe só a bagunça ali, parece que quase todos estão quebrados.

– Você quer que eu vá comprar ovos?

Sophie ergueu as sobrancelhas diante de uma ideia tão improvável.

– Não pode ser assim tão difícil comprar ovos, Sophie. Pelo que sei, as pessoas fazem isso todos os dias. Vi um mercado alguns quarteirões atrás. Leve o cocheiro com você. Ele carregará os ovos até aqui.

– Não sei se é adequado que você que sozinho com ela dentro da carruagem.

– Sophie – falou Alex entre dentes. – Ela é uma copeira. Ninguém vai exigir que eu me case com ela depois de passarmos alguns minutos sozinhos em uma carruagem. Pelo amor de Deus, vá comprar os benditos ovos!

Sophie recuou. Sabia que não devia provocar demais o humor do irmão mais velho.

– Ah, tudo bem, tudo bem.

Ela se virou e desceu com elegância da carruagem.

– Leve Charlie com você! – falou Alex. – E que de olho nele dessa vez!

Sophie mostrou a língua para o irmão e pegou a mão de Charlie.

– Muito bem, Charlie – disse ela. – Você sempre precisa olhar para os dois lados antes de atravessar uma rua. Veja como eu faço.

Sophie virou o pescoço com exagero em todas as direções. Charlie riu alto e cou pulando.

Alex sorriu e se virou para a criada, que estava recostada contra o assento acolchoado da carruagem. Ele não conseguira acreditar nos próprios olhos ao vê-la atravessar a rua correndo e se jogar em cima de Charlie para afastá-lo do caminho do coche. Bravura não era algo que Alex estava acostumado a ver em mulheres, mas aquela jovem criada misteriosa acabara de demonstrar exatamente isso. Ele estava interessado nela, tinha que admitir. E não sabia bem por quê. A moça com certeza não era do tipo que costumava chamar sua atenção. Bem, ele na verdade não tinha um “tipo” no que se referia a mulheres, mas, se tivesse, tinha quase certeza de que aquela ruiva pequenina não se encaixaria. Ainda assim, Alex podia dizer que a moça não era nada parecida com as mulheres com quem costumava se relacionar. Com certeza não conseguia imaginar as jovens da aristocracia – que a mãe estava constantemente empurrando para cima dele – arriscando a vida para salvar Charlie. E o mesmo valia para as mulheres maduras com quem ele passava as noites. Aquela mulher incomum o intrigava.

Depois de bater com a cabeça com um estrondo doloroso, ela agora estava inconsciente. Alex baixou o rosto e afastou dos olhos dela um cacho dos macios cabelos ruivos. Ela gemeu de novo, e Alex decidiu que nunca ouvira um som tão doce e delicado.

Maldição, o que havia de errado com ele? Sabia que não deveria se envolver romanticamente com uma criada. Desprezando as emoções primitivas que percorriam seu corpo, Alex soltou um gemido. Não poderia negar que, por algum motivo, aquela jovem o afetara profundamente. Ele sentira o coração disparar no momento em que a vira deitada, aparentemente morta, na rua. E não se acalmara até ter certeza de que ela não estava gravemente ferida. Depois de examiná-la em busca de alguma fratura, ele a pegou no colo e acomodou-a gentilmente no assento da carruagem. A moça era pequena e leve, e se encaixou perfeitamente contra o corpo grande dele.

Sophie, é claro, chorara o tempo todo. Graças a Deus ele conseguira convencer a irmã a ir comprar mais ovos. As lágrimas e os soluços dela quase o deixaram louco, e, o mais importante, ele queria estar sozinho com a criada quando ela acordasse.

Alex se ajoelhou no chão ao lado dela.

– Vamos, meu bem – disse ele, pressionando os lábios com gentileza contra a têmpora dela. – Está na hora de abrir os olhos. Estou louco para ver de que cor eles são.

Emma gemeu de novo quando sentiu uma mão grande acariciando seu rosto. A dor latejante em sua cabeça começou a ceder, e ela deixou escapar um suspiro de alívio. Então abriu lentamente as pálpebras e por um instante o brilho do sol que entrava pelas janelas da carruagem a cegou.

– Aaaah – gemeu ela, e fechou os olhos com força.

– A luz a incomoda?

Alex cou de pé na mesma hora e baixou as cortinas. E voltou imediatamente para o lado dela.

Emma soltou outro longo suspiro e abriu um pouco os olhos. E logo arregalou-os. Havia um homem tando-a atentamente, o rosto moreno a poucos centímetros do dela. Um cacho de cabelos negros caía de forma jovial sobre sua testa. Emma sentiu vontade de tocá-los para conferir se eram tão macios quanto pareciam. E então ele tocou novamente o rosto dela.

– Você nos deu um susto e tanto, sabia? Esteve inconsciente por quase dez minutos.

Emma o encarou sem compreender, ainda incapaz de formular uma frase coerente. A culpa era daquele homem, pensou… ele era bonito demais e estava próximo demais.

– Consegue falar, meu bem?

Emma abriu a boca. “Verdes” foi a única palavra que saiu.

Que sorte a minha, pensou Alex. A criada de cozinha mais linda de toda Londres aterrissa na minha carruagem, e é completamente louca. Os olhos dele se estreitaram enquanto a tava mais atentamente e Alex perguntou:

– O que você disse?

– Seus olhos são verdes – disse ela, com a voz estrangulada.

– Sim, eu sei. Eles são dessa cor há décadas, na verdade. Desde que eu nasci, imagine só.

Emma fechou os olhos com força. Santo Deus, ela realmente acabara de dizer àquele homem que os olhos dele eram verdes? Que coisa absurdamente estúpida para se dizer. É claro que ele sabia qual era a cor dos próprios olhos. As damas provavelmente se aglomeravam ao redor dele para elogiar aqueles olhos verdes lindos e cativantes. Mas o homem estava tão perto e a encarava com tanta intensidade, com um olhar absolutamente hipnotizante… Emma decidiu que imputaria sua idiotice momentânea à dor de cabeça.

Alex riu.

– Ora, devemos car gratos por seu acidente não ter deixado você cega. Agora, acha que é capaz de me dizer o seu nome?

– Emm… ahn – Emma tossiu para disfarçar a hesitação. – Meg. Meu nome é Meg.

– É um prazer conhecê-la, Meg. O meu é Alexander Ridgely, mas pode me chamar de Alex. Ou, se preferir, Ashbourne, como me chamam muitos dos meus amigos.

– Por quê?

A pergunta escapou antes que Emma conseguisse se conter. Criadas de cozinha não deveriam fazer esse tipo de pergunta.

– Na verdade, é o meu título. Sou o duque de Ashbourne.

– Ah.

– Você tem um sotaque interessante, Meg. Por acaso veio das Colônias?

Emma fez uma careta. Havia poucas coisas que odiava mais do que ouvir os ingleses se referirem ao país dela como as “Colônias”.

– Venho dos Estados Unidos da América – disse ela com atrevimento, esquecendo-se novamente do seu disfarce de criada de cozinha. – Já somos independentes há várias décadas e não devem se referir a nós como sendo colônias suas.

– Muito bem corrigido. Você está absolutamente certa, minha cara, e devo dizer que co feliz ao ver que você já recuperou parte da vivacidade.

– Perdão, Vossa Graça – disse Emma, baixinho. – Não deveria ter falado dessa forma com o senhor.

– Ora, Meg, não faça papel de acanhada comigo. Posso ver que não há um único osso frágil no seu corpo. Além do mais, acho que você pode falar comigo da forma que quiser depois de ter salvado a vida do meu sobrinho.

Emma estava pasma. Ela havia se esquecido completamente do menininho.

– Ele está bem? – perguntou, ansiosa.

– Está, não precisa se preocupar com Charlie. É com você que estou preocupado, meu bem.

– Estou bem, de verdade. Acho… acho que preciso voltar agora.

Santo Deus, ele estava acariciando o rosto dela de novo, e Emma com certeza não conseguia manter um único pensamento no lugar quando aquele homem a tocava. Ela continuou com os olhos xos nos lábios carnudos do duque, imaginando como seria senti-los nos próprios lábios. Então gemeu e enrubesceu ao se dar conta dos pensamentos escandalosos.

Alex ouviu o som na mesma hora, e seus olhos caram nublados de preocupação.

– Tem certeza de que não está se sentindo tonta, meu bem?

– Acho que o senhor não deveria me chamar de “meu bem”.

– Ah, acho que deveria.

– Não é nem um pouco adequado.

– Raramente ajo de forma adequada, Meg.

Emma mal teve tempo de digerir aquelas palavras antes que ele demonstrasse claramente como era capaz de ser inapropriado. Faltou-lhe o ar quando sentiu os lábios do homem capturando os dela em um beijo suave. Durou apenas um breve instante, mas foi o bastante para que todo o ar se esvaísse dos pulmões de Emma, deixando sua pele quente e formigando. Ela cou olhando para Alex sem entender, subitamente insegura de si mesma e da estranha sensação que dominara seu corpo.

– Isso é só um gostinho do que ainda está por vir, meu bem – sussurrou Alex em um tom apaixonado contra a boca de Emma.

Ele levantou a cabeça e olhou dentro dos olhos dela. Viu apreensão e confusão no rosto da jovem e na mesma hora cou horrorizado com seu comportamento atrevido. Alex se afastou rapidamente dela e sentou-se no banco acolchoado do outro lado da carruagem. Sua respiração estava acelerada e irregular. Não conseguia se lembrar de alguma vez ter cado tão abalado com um único beijo. E tinha sido um beijo curto, rápido. Seus lábios mal haviam tocado os de Meg. Ainda assim, o desejo disparava por suas veias e tudo o que ele queria fazer era… bem, era melhor nem pensar no que queria fazer, porque estava certo de que acabaria se sentindo ainda pior.

Alex levantou o olhar e viu Meg encarando-o com olhos arregalados e inocentes. Diabos, ela provavelmente desmaiaria se conseguisse ler os pensamentos dele. Ele não tinha nada que se envolver com uma moça como aquela, que mal devia ter 16 anos. Alex praguejou baixinho. Ela provavelmente ia à igreja aos domingos.

Emma começou a se sentar, esfregando as têmporas ao sentir uma onda de tonteira atingi-la.

– Acho que devo ir para casa – falou ela.

Emma pousou os pés no piso da carruagem enquanto estendia a mão para a porta. Os primos haviam lhe dito que as ruas de Londres eram perigosas, mas ninguém lhe avisara dos perigos que se escondiam dentro da carruagem de um nobre.

Alex segurou-a pelo pulso antes que ela alcançasse a maçaneta. E, gentilmente, fez com que ela se recostasse de volta no assento, acomodando-a sentada.

– Você não vai a lugar algum. Acabou de bater com a cabeça, e provavelmente acabaria desmaiando pelo caminho. Vou levar você de volta agorinha mesmo. Além do mais, minha irmã foi comprar mais alguns ovos para você. Precisamos esperar que ela volte.

– Os ovos – disse Emma com um suspiro, e levou a mão à testa. – Eu tinha me esquecido. A Cozinheira vai me matar.

Os olhos de Alex se estreitaram imperceptivelmente. Será que Sophie tinha razão ao temer por ela? Meg seria maltratada na casa da família que a empregava? Ele não caria impassível vendo uma jovem delicada como ela ser exposta à crueldade. Ele mesmo a contrataria antes de permitir que ela retornasse a uma vida de sofrimento.

Alex gemeu quando uma nova onda de desejo disparou por seu corpo. É claro que não poderia contratá-la. Em poucos dias a moça terminaria na cama dele. Sophie estava certa. Meg deveria ir trabalhar para ela, onde estaria protegida de tipos como ele. Santo Deus, ele estava espantado com o próprio cavalheirismo. Já fazia muito tempo desde que sentira qualquer preocupação por qualquer mulher, a não ser, é claro, a mãe e a irmã, a quem adorava.

Era bem sabido por toda Londres que Alex era um solteiro convicto. Ele sabia que teria que se casar em algum momento, mesmo que fosse só para produzir um herdeiro, mas não via razão para apressar esse sacrifício. Mantinha distância de todas as damas da aristocracia, preferindo a companhia de cortesãs e de cantoras de ópera. Tinha pouca paciência para a maior parte da elite social de Londres e não con ava nem um pouco nas mulheres. Ainda assim, as damas se aglomeravam ao seu redor nos poucos eventos sociais a que comparecia, encarando seus modos indiferentes e seu cinismo como um desa o. Alex raramente tinha pensamentos gentis a respeito de qualquer uma delas. Se uma dama bem-nascida ertava com ele, Alex presumia que ela era

extremamente tola ou que sabia exatamente o que – ou, melhor, quem – ela queria. Ele ocasionalmente ia para a cama com todas, mas nada além disso.

Alex levantou a cabeça e viu que Meg ainda estava sentada muito ereta, os olhos xos modestamente nas próprias mãos cruzadas no colo.

– Não precisa car tão assustada, Meg. Não vou beijá-la de novo.

Foi a vez dela de levantar a cabeça e encará-lo com os olhos violeta muito abertos. Emma não sabia o que dizer. No momento, duvidava sinceramente de sua capacidade de formar uma frase coerente.

– Eu disse que você não precisa ter medo, Meg – repetiu Alex. – A sua virtude está a salvo comigo… ao menos pelos próximos minutos.

Ela cou boquiaberta diante da audácia dele. Então, ofendida, cerrou os lábios e desviou os olhos.

Alex gemeu internamente de novo enquanto observava aqueles lábios cheios. Deus, ela era linda. Os cabelos, que haviam cintilado, muito vermelhos, sob a luz do sol, agora que as janelas estavam fechadas pareciam de um vermelho escuro. E os olhos… primeiro, Alex achou que fossem azuis, depois violeta, mas agora pareciam negros.

Emma tinha a sensação de que estava prestes a explodir, tensa com a arrogância do homem à sua frente. Ela respirou fundo algumas vezes, tentando conter o temperamento que já a tornara famosa em duas casas, em dois continentes. Mas perdeu a batalha.

– Realmente não acho que deveria falar comigo desse modo escandaloso. É muito injusto da sua parte tirar vantagem da minha condição vulnerável de forma tão lasciva, principalmente levando em conta que a única razão pela qual estou sentada aqui com um inchaço na cabeça… isso sem mencionar o fato de estar diante do homem mais rude que já tive a infelicidade de conhecer… é que estava prestando atenção no seu sobrinho tendo em vista que o senhor e a sua irmã foram descuidados demais para tomar conta dele direito.

Emma se recostou, satisfeita com o próprio discurso, e encarou-o com uma expressão dura.

Alex cou impressionado com aquelas palavras, mas teve o cuidado de não demonstrar surpresa.

– Você tem um excelente vocabulário, Meg – comentou, lentamente. – Onde aprendeu a falar tão bem?

– Não é da sua conta – retrucou Emma enquanto tentava desesperadamente inventar uma história crível.

– Mas estou terrivelmente interessado. Poderia me contar um pouquinho do seu passado?

– Se quer mesmo saber, minha mãe trabalhou como ama de três crianças. O pai e a mãe delas eram muito gentis e permitiram que eu assistisse às aulas com eles.

Sim, aquilo parecia bom.

– Entendo. Muito generoso da parte deles.

Emma suspirou e revirou os olhos diante do sarcasmo dele.

– Alex – chamou uma voz aguda. – Voltei! Compramos duas dúzias de ovos. Espero que seja o bastante.

Duas dúzias! O coração de Emma afundou no peito. Ela não conseguiria carregar sozinha aqueles ovos todos. Agora, teria que deixar o duque levá-la para casa de carruagem.

A porta do veículo foi aberta e o rosto de Sophie apareceu.

– Ah, você está acordada! – exclamou, olhando para Emma e pegando suas mãos com força. – Não sei se algum dia serei capaz de lhe agradecer. – Se eu puder ajudá-la de algum modo, por favor, me diga como. O meu nome é Sophie Leawood, condessa de Wilding, e estarei em débito com você para sempre. Tome – disse ela, e en ou um cartão na mão de Emma –, que com isto. É o meu endereço. Você pode aparecer a qualquer hora, de dia ou de noite, se porventura precisar de alguma coisa.

Emma só conseguiu tá-la enquanto a mulher de olhos verdes à sua frente parava para tomar fôlego.

– Ah, meu Deus – continuou Sophie. – Onde estão os meus modos? Qual é o seu nome?

– O nome dela é Meg – respondeu Alex, tranquilamente. – E ela não parece inclinada a nos dizer seu sobrenome.

Emma cou irritada. Ele nem sequer perguntara qual era o sobrenome dela.

– Não tem problema, minha querida – falou Sophie. – Você não tem que nos dizer nada que não queira…

Emma olhou para Alex com uma expressão triunfante.

– … desde que se lembre de que serei sua amiga pelo resto da vida, e que pode contar comigo para tudo.

– Muito obrigada, milady – disse Emma, baixinho. – Vou me lembrar disso. Mas realmente gostaria de voltar para casa. Já estou fora há algum tempo e a Cozinheira deve estar se perguntando onde eu me meti.

– Talvez você possa nos dizer onde trabalha – falou Alex.

Por um instante, Emma o encarou sem entender.

– Você trabalha mesmo em algum lugar? Não estava planejando comer esses ovos sozinha, não é?

Ah, maldição, ela havia se esquecido de novo do disfarce.

– Hum, trabalho para o conde e a condessa de Worth.

Alex sabia o endereço e instruiu o cocheiro. Sophie não parou de falar nem um instante pelo curto caminho de carruagem até chegarem à mansão Blydon.

Emma quase saiu correndo da carruagem.

– Espere! – disseram Alex e Sophie em uníssono.

Sophie a alcançou primeiro.

– Preciso agradecer devidamente. Caso contrário passarei semanas tendo pesadelos.

A condessa levou as mãos às orelhas, tirou rapidamente os brincos de esmeralda e diamantes que usava e en ou-os nas mãos de Emma.

– Por favor, que com eles. É só um pequeno sinal de

reconhecimento pelo que você fez, eu sei, mas talvez eles a ajudem se você algum dia precisar.

Emma estava estupefata. Não podia simplesmente dizer àquela mulher que era a única herdeira de um negócio de navegação gigante, mas ao mesmo tempo conseguia ver que Sophie precisava desesperadamente lhe dar alguma coisa em agradecimento.

– Que Deus a abençoe.

Sophie beijou o rosto de Emma e subiu na carruagem.

Emma se virou para o cocheiro e pegou os ovos que estavam com ele. Então sorriu para Sophie e começou a caminhar na direção da entrada lateral da mansão.

– Não tão rápido, meu bem – disse Alex, surgindo ao lado dela. – Eu levo isso para você.

– Não! – disse Emma, em um tom um pouco ríspido demais. – Quer dizer, realmente pre ro que o senhor não faça isso. Ninguém vai se incomodar por eu estar atrasada se eu explicar sobre Charlie, mas não vão gostar se eu entrar com um estranho.

– Tolice – falou Alex.

Ele estendeu a mão para pegar os ovos com a autocon ança suprema de quem espera que suas ordens sejam obedecidas. Emma recuou. Seria uma confusão sem tamanho se ele a acompanhasse até a cozinha e Belle – a quem quase com certeza ele já teria sido apresentado – começasse a chamá-la pelo nome verdadeiro.

– Por favor – pediu Emma. – Por favor, vá embora. Eu terei problemas se não zer isso.

Alex pensou ter visto um medo sincero nos olhos dela e se perguntou mais uma vez se ela seria maltratada naquele lugar. Como não queria criar qualquer problema para a moça, cedeu.

– Muito bem – disse ele, inclinando-se em uma breve cortesia. – Foi um prazer conhecê-la, minha cara Meg.

Emma deu as costas e correu para a entrada de serviço da mansão, sentindo o olhar ardente de Alex em suas costas por todo o caminho. Quando nalmente entrou, apressada, pela porta da cozinha, sentiu como se tivesse acabado de sair do purgatório.

– Emma! – gritaram todos em uníssono.

– Onde você estava? – perguntou Belle, as mãos nos quadris. – Estávamos morrendo de preocupação.

Emma suspirou enquanto pousava os sacos de ovos em cima da bancada.

– Belle, podemos conversar sobre isso mais tarde?

Ela lançou um olhar signi cativo na direção dos criados, que a encaravam abertamente, boquiabertos.

– Muito bem então – concordou Belle. – Vamos subir agora.

Emma suspirou. Sentiu-se subitamente exausta, e sua cabeça voltou a latejar. E ela não sabia o que fazer a respeito dos malditos brincos, e…

– Ah, meu Deus! – disse Belle em um gritinho agudo.

Emma, sua prima irreprimível e cheia de energia, havia desmaiado de repente.