Esplêndida
Capítulo 1
Londres, Inglaterra
Abril de 1816
– Você tem consciência, é claro, de que o inferno se abaterá sobre nós se a minha mãe nos pegar, certo?
Arabella Blydon examinou a própria roupa com uma expressão cética. Ela e Emma haviam pegado uniformes emprestados com as camareiras – para o desalento das tais camareiras – e, naquele momento, desciam sorrateiramente a escada dos fundos da casa de Belle em Londres.
– O inferno será ainda pior se ela pegar você falando desse jeito – comentou Emma em um tom sarcástico.
– Não me importo nem um pouco. Se eu tiver que supervisionar a confecção de mais um único arranjo de ores para a sua festa, vou começar a gritar.
– Acho que di cilmente seria apropriado gritar quando pretendemos descer a escada sorrateiramente.
– Ah, cale a boca – resmungou Belle, sem o menor bom humor, descendo outro degrau na ponta dos pés.
Emma olhou ao redor enquanto seguia a prima. A escada dos fundos com certeza era bem diferente da que ela e Belle costumavam usar no saguão principal, que se curvava graciosamente, coberta por luxuosos tapetes persas. Os degraus de madeira encerada da escada dos fundos eram estreitos, e as paredes eram caiadas e sem qualquer decoração. A simplicidade da escada fez Emma se lembrar de sua casa em Boston, que não era decorada no estilo opulento de Londres. A mansão Blydon, localizada na elegante Grosvenor Square, era da família deles havia mais de um século, e era cheia de relíquias inestimáveis e retratos muito ruins dos Blydons anteriores.
Emma voltou a olhar para as paredes nuas e suspirou baixinho enquanto lutava contra uma onda de saudade do pai.
– Não consigo acreditar que estou me esgueirando pela minha própria casa como uma ladra para evitar a minha mãe – resmungou Belle quando chegou à base do primeiro lance de escada e deu a volta para começar a descer o segundo. – Sinceramente, eu preferiria estar enroscada na cama com um bom livro, mas ela com certeza iria me encontrar lá e me fazer repassar mais uma vez o cardápio.
– Um destino pior do que a morte – sussurrou Emma.
Belle a encarou, irritada.
– Eu já revi aquele maldito cardápio com a minha mãe um milhão de vezes. Se ela me emboscar mais uma vez com perguntas sobre a musse de salmão, ou o pato assado com laranja, acho que não me responsabilizarei pelos meus atos.
– Está vislumbrando a possibilidade de um matricídio?
Belle a olhou de lado mas não respondeu enquanto descia a escada com cautela.
– Cuidado com esse degrau, Emma – sussurrou, apoiando-se na parede. – Ele range no meio.
Emma seguiu rapidamente o conselho da prima.
– Posso deduzir que você costuma descer essa escada com frequência, certo?
– Eu costumava fazer isso. É bastante oportuno saber como andar por aqui sem que ninguém tenha ideia do que pretendemos fazer. Só não costumo fazer isso vestida como a minha camareira.
– Ora, não poderíamos usar vestidos de seda se vamos ajudar a Cozinheira a preparar toda a comida para a noite.
Belle não pareceu convencida.
– Sinceramente, não acho que ela vá gostar de ter nossa ajuda. A Cozinheira é muito tradicional e não acha nem um pouco adequado que a família frequente a cozinha – disse Belle, e abriu a porta da cozinha. – Olá, pessoal. Viemos ajudar.
Todos caram horrorizados.
Rapidamente, Emma se virou para a Cozinheira e abriu um largo sorriso, tentando consertar a situação.
– A senhora caria feliz em ter quatro mãos extras, não é?
A Cozinheira jogou os braços para o alto e deu um grito de susto, fazendo nuvens de farinha voarem pelo ar.
– O que, em nome de Deus, vocês duas estão fazendo aqui embaixo?
Uma das copeiras parou de sovar a massa por um momento e se arriscou a perguntar:
– Perdão, miladies, mas por que estão vestidas assim?
– Não acho que vocês deveriam estar na minha cozinha – continuou a Cozinheira, levando as mãos aos quadris formidáveis. – Só vão atrapalhar.
Como nenhuma das duas moças mostrou qualquer intenção de sair, a mulher cerrou os dentes e começou a acenar com a colher de pau para elas.
– Caso vocês ainda não tenham percebido, temos muito trabalho extra aqui embaixo. Agora, fora daqui antes que eu chame a condessa.
Belle deu um grito abafado ao ouvir a menção à mãe.
– Por favor, nos deixe car, Cozinheira.
Ela estava certa de que a Cozinheira tinha um nome de verdade, mas todos a chamavam assim havia tanto tempo que ninguém lembrava mais qual era o nome dela.
– Prometemos não atrapalhar. Na verdade, tenho certeza de que vamos ser de grande ajuda. E também caremos em silêncio.
– Não é certo vocês carem aqui embaixo. As senhoritas não têm nada melhor para fazer do que brincar de criadas da cozinha?
– Na verdade, não – respondeu Belle, com sinceridade.
Emma sorriu para si mesma, concordando silenciosamente com a prima. Ela e Belle tinham se metido em uma encrenca após outra desde que haviam chegado, três semanas antes. Não que Emma tivesse a intenção de se meter em encrencas. Mas é que parecia haver muito pouco para fazer em Londres. Em Boston, o Estaleiro Dunster a mantinha ocupada. Em Londres, no entanto, cuidar da contabilidade não era visto como um passatempo apropriado para mulheres, e parecia que as jovens damas educadas da cidade não tinham qualquer outro dever a não ser experimentar vestidos e aprender a dançar.
Emma estava profundamente entediada.
Não que estivesse infeliz. Por mais saudade que sentisse do pai, Emma gostava de ser parte de uma família grande. O problema era que em Londres ela não se sentia útil. Ela e Belle haviam começado a ultrapassar alguns limites para se entreterem. Emma sorriu para si mesma, culpada, ao se lembrar das peripécias. Certamente não lhes ocorrera que o gato de rua que haviam levado para casa apenas duas semanas antes pudesse estar infestado de pulgas. Não imaginaram que todo o primeiro andar da mansão Blydon precisaria ser arejado. E Emma realmente não tivera a intenção de permitir que todos da casa dessem uma boa olhada em suas roupas de baixo quando subiu em uma árvore para resgatar aquele mesmo gato.
Na verdade, os parentes deveriam lhe agradecer. Durante a semana em que precisaram se livrar das pulgas na casa, a família toda saiu de Londres e passou dias adoráveis no campo, montando a cavalo, pescando e se entretendo até altas horas jogando cartas. Emma havia ensinado os parentes a jogar pôquer – em Boston, ela subornara um vizinho para que ele a ensinasse.
Caroline balançara a cabeça e suspirara, dizendo que Emma era uma má in uência. Antes da chegada de Emma, Belle era só uma rata de biblioteca. Agora, era uma rata de biblioteca e agitadora.
– Deus do céu – retrucara Emma. – O que é bem melhor do que se fosse apenas agitadora, certo?
Mas Emma sabia que podia testar os limites de Caroline sem se encrencar. O amor da tia por ela era aparente tanto nos agrados quanto nas repreensões, e elas agiam muito mais como mãe e lha do que como tia e sobrinha. Por isso Caroline estava tão empolgada com a apresentação de Emma à sociedade londrina. Embora soubesse que a sobrinha pretendia voltar para junto do pai, torcia secretamente para que Emma se apaixonasse por um inglês e se estabelecesse em Londres. Talvez então John, que fora criado na Inglaterra e por lá vivera até se casar com uma americana, também retornasse à cidade, para car perto da irmã e da lha.
Assim Caroline organizara um enorme baile para apresentar Emma à aristocracia inglesa. O evento aconteceria naquela noite, e Emma e Belle haviam fugido para a cozinha porque não queriam ser convocadas para ajudar a resolver as últimas pendências. A Cozinheira, no entanto, não gostou nada da ideia e não parava de repetir que as duas moças só atrapalhariam ali.
– Por favor, não podemos ajudá-la? Está um horror lá em cima – pediu Emma, suspirando. – Ninguém fala de outra coisa a não ser do baile.
– Ora, você vai descobrir que aqui estamos todos falando da mesma coisa, mocinha – retrucou a Cozinheira, balançando o dedo. – Sua tia vai receber quatrocentos convidados hoje à noite, e precisamos cozinhar para todos eles.
– Exatamente por isso a senhora precisa da nossa ajuda. O que gostaria que zéssemos primeiro? – indagou Belle.
– Eu gostaria que saíssem da minha cozinha antes que a sua mãe encontre vocês aqui! – exclamou a Cozinheira.
As duas já haviam descido para a cozinha antes, mas aquela era a primeira vez que se vestiam com roupas das criadas e se ofereciam para ajudar.
– Mal posso esperar que a temporada social comece e vocês tenham o que fazer – acrescentou a Cozinheira.
– Bem, ela começa hoje à noite – declarou Belle –, com o baile que vai apresentar Emma à aristocracia. Talvez a senhora tenha sorte e apareçam tantos pretendentes que vamos acabar sem tempo para perturbá-la.
– Deus a ouça – murmurou a Cozinheira.
– Mas, por favor – pediu Emma –, tenha piedade de nós. Se não nos deixar ajudá-la aqui, tia Caroline vai nos colocar para fazer arranjos de
ores. De novo.
– Por favor – pediu Belle, em tom bajulador. – A senhora sabe que adora mandar em nós.
Era verdade. Belle e Emma realmente alegravam o pessoal que trabalhava na cozinha com suas travessuras. Também animavam a Cozinheira… que só não queria que elas soubessem disso.
– Santo Deus… Está bem – resmungou a Cozinheira. – Imagino que vocês vão me atormentar a manhã toda se eu não ceder, suas diabinhas. Mas estou agindo contra o meu bom senso. Vocês deveriam estar lá em cima se arrumando, e não zanzando pela minha cozinha.
– Mas a senhora adora a nossa encantadora companhia, não é mesmo, Cozinheira? – perguntou Belle, com um sorriso.
– Encantadora companhia, hum, até parece – resmungou a mulher enquanto pegava um saco de açúcar na despensa. – Estão vendo aquelas tigelas em cima da bancada? Quero seis xícaras de farinha em cada uma delas. E duas xícaras de açúcar. Sejam cuidadosas e não atrapalhem os outros, hein?
– Onde está a farinha? – perguntou Emma, olhando ao redor.
A Cozinheira suspirou e já estava prestes a voltar a entrar na despensa quando se deteve.
– Prestem atenção, vocês duas. Se estão tão dispostas a fazer o meu trabalho, levantem vocês mesmas aqueles sacos grandes de farinha.
Emma riu enquanto trazia com facilidade o saco até Belle, que estava medindo o açúcar.
Belle riu também.
– Graças a Deus escapamos de mamãe. Ela provavelmente iria querer que já começássemos a nos arrumar, e ainda faltam oito horas para o baile.
Emma assentiu. Mas, para ser sincera, ela estava bastante empolgada para o seu primeiro baile em Londres, ansiosa para colocar em uso o que aprendera nas aulas de etiqueta e de dança. Mas tia Caroline, muito perfeccionista, não parava de distribuir ordens para todo lado como um general do Exército. Depois de semanas de escolha de vestidos, ores e músicas, nem Emma nem Belle queriam ser vistas em nenhum local próximo ao salão de baile enquanto a condessa deixava tudo a seu gosto. A cozinha era o último lugar onde Caroline procuraria por elas.
Enquanto mediam o açúcar e a farinha, Belle se virou para Emma, os olhos azuis muito sérios.
– Está nervosa?
– Por causa de hoje à noite?
Belle assentiu.
– Um pouco. Vocês, ingleses, podem ser um tanto assustadores, sabe, com todas as suas regras de comportamento e de etiqueta.
Belle deu um sorriso solidário para a prima e afastou uma mecha de cabelos ruivos dos olhos dela.
– Você vai se sair bem. Tem autocon ança. Sei por experiência própria que se agir como quem sabe o que faz, as pessoas acreditam em você.
– Sabichona – falou Emma, com carinho. – Você lê demais.
– Eu sei. E isso ainda será a minha ruína. Jamais vou arrumar um marido se passar o tempo todo com o nariz en ado em um livro – disse Belle, revirando os olhos em um horror ngido.
– Sua mãe disse isso?
– Sim, mas ela tem boa intenção, você sabe. Mamãe jamais me obrigaria a casar só por casar. Ela me deixou recusar um pedido de casamento do conde de Stockton no ano passado, e ele foi considerado o melhor partido da temporada.
– O que havia de errado com ele?
– O conde pareceu ter cado preocupado demais com o fato de eu gostar de ler.
Emma sorriu enquanto derramava mais farinha nas tigelas.
– Ele me falou que ler não era apropriado para o cérebro feminino – continuou Belle. – Disse que dava ideias às mulheres…
– Ah, que Deus não permita que tenhamos ideias, não é mesmo?
– Eu sei, eu sei. Mas ele disse que eu não me preocupasse, que estava certo de que conseguiria acabar com esse meu hábito depois que nos casássemos.
Emma lançou um olhar de soslaio para a prima.
– Você deveria ter perguntado ao conde se ele achava que você conseguiria acabar com o hábito dele de ser tão arrogante.
– Tive vontade, mas não perguntei.
– Eu teria perguntado.
– Eu sei – disse Belle, sorrindo para Emma. – Você tem um talento especial para falar o que lhe vem à cabeça.
– Isso é um elogio?
Belle pensou na pergunta por um instante antes de responder.
– Acho que sim. Ruivas não estão muito na moda atualmente, mas prevejo que você… e essa sua boca escandalosa… serão um sucesso tão grande que no mês que vem eu serei informada… pelas Pessoas Que Informam… de que cabelos ruivos passaram a ser a última moda e se isso não é uma sorte para a minha pobre prima que teve a má sorte de nascer na América.
– Por algum motivo, duvido, mas é muito gentil da sua parte dizer isso.
Emma sabia que não era tão encantadora quanto Belle, mas estava satisfeita com a própria aparência, e decidira muito tempo antes que se não podia ser uma beldade, ao menos seria fora do comum. Certa vez, Ned a chamara de camaleão, dizendo que os cabelos da prima mudavam de cor cada vez que ela balançava a cabeça. Bastava um facho de luz para fazer com que os cachos parecessem em chamas. E os olhos, normalmente de um tom claro de violeta, cavam nublados e
perigosamente escuros quando Emma estava furiosa.
Ela jogou um pouco de farinha na última tigela e limpou as mãos no avental.
– Cozinheira! – chamou. – E agora? Já medimos toda a farinha e o açúcar.
– Ovos. Quero três em cada tigela. E sem nem um pedacinho de casca, ouviram? Se eu encontrar casca de ovo nos meus bolos, vou deixá-los aqui na cozinha e servir a cabeça de vocês no lugar.
– Nossa, ela está nervosa hoje, hein? – comentou Belle, com uma risadinha.
– Eu ouvi isso, mocinha! Não pense que não! E não vou aceitar brincadeirinhas. Se vão car na minha cozinha, ao trabalho!
– Onde a senhora guarda os ovos? – perguntou Emma enquanto investigava a caixa onde eram guardados os insumos perecíveis. – Não estou achando em lugar algum.
– Ora, então não deve estar procurando direito. Eu sabia que vocês duas não tinham noção de como é uma cozinha.
A Cozinheira foi pisando rme até onde elas estavam e abriu a caixa. No entanto, sua busca se provou tão infrutífera quanto a de Emma.
– Ora, vejam só… Estamos sem ovos – disse ela, e então, furiosa, gritou: – Quem foi a tola que se esqueceu de pegar ovos no mercado?
Não foi surpresa o fato de ninguém ter levantado a mão.
A Cozinheira olhou lentamente ao redor e seu olhar nalmente pousou em uma jovem copeira que estava debruçada sobre uma pilha de frutas vermelhas.
– Mary – chamou. – Já terminou de lavar isso?
Mary enxugou as mãos no avental.
– Não, senhora, ainda tenho baldes delas para lavar. Nunca vi tantas frutas vermelhas.
– Susie?
Susie estava com os braços en ados até os cotovelos na água com sabão enquanto lavava apressadamente a louça.
Emma olhou ao redor. Havia mais de dez pessoas na cozinha, e todas pareciam absurdamente ocupadas.
– Ora, que beleza – resmungou a Cozinheira. – Preciso cozinhar para quatrocentas pessoas e não tenho ovos. E não há um par de mãos livre para ir buscá-los.
– Eu posso ir – ofereceu-se Emma.
Tanto Belle quanto a Cozinheira a encararam com expressões que
cavam em algum lugar entre o choque e o horror.
– Está louca? – perguntou a Cozinheira.
– Emma, isso simplesmente não se faz – disse Belle ao mesmo tempo.
Emma revirou os olhos.
– Não, não estou louca. E por que não posso ir ao mercado? Sou perfeitamente capaz de escolher alguns ovos. Além do mais, gostaria de um pouco de ar fresco. Passei a manhã toda presa dentro de casa.
– Mas alguém pode vê-la – protestou Belle. – E você está coberta de farinha, pelo amor de Deus!
– Belle, ninguém me conhece. Como alguém saberia quem eu sou?
– Mas você não pode sair por aí em um uniforme de criada.
– Este uniforme é exatamente o que me faz poder sair – explicou Emma com paciência. – Se eu usar um dos meus vestidos, todos vão se perguntar o que uma dama da aristocracia está fazendo na rua sem acompanhante, isso sem mencionar o fato de estar indo ao mercado comprar ovos. Mas ninguém vai sequer olhar para mim se eu estiver vestida como uma criada. Você certamente não pode me acompanhar; você, sim, seria reconhecida em um segundo.
Belle suspirou.
– Mamãe me mataria.
– Então veja… se a Cozinheira precisa da ajuda de todas as criadas na cozinha, eu sou a única solução.
Sentindo o cheiro da vitória, Emma sorriu. Belle não estava convencida.
– Não sei, Emma. Isto é muito errado, deixar você sair sozinha.
Emma soltou um suspiro exasperado.
– Veja, vou prender o meu cabelo bem para trás, como as nossas criadas fazem – disse ela, arrumando rapidamente o cabelo em um coque. – E vou derramar um pouco mais de farinha no uniforme. E talvez sujar um pouco o rosto com ela.
– Já basta – interveio a Cozinheira. – Não precisamos desperdiçar a minha boa farinha.
– Então, Belle? – perguntou Emma. – O que acha?
– Não sei. Mamãe não vai gostar nem um pouco disso.
Emma aproximou bem o rosto do da prima.
– Ela não vai car sabendo, vai?
– Ah, que seja então… – disse Belle, rendendo-se, e virou para todas as criadas na cozinha, balançando o dedo. – Nem uma palavra sobre isso para mamãe. Todas entenderam?
– Não gosto nada disso – manifestou-se a Cozinheira. – Nada mesmo.
– Bem, não temos escolha, não é? – argumentou Emma. – Não se a senhora quiser servir bolos no baile. Agora, por que não coloca Belle para trabalhar espremendo aqueles limões? Prometo que estarei de volta antes mesmo que percebam que saí.
E, com isso, Emma pegou algumas moedas da mão da Cozinheira e saiu pela porta.
Chegando à rua, respirou fundo o ar fresco de primavera. Liberdade! Era tão bom escapar do con namento da casa dos primos de vez em quando. E, vestida como criada, poderia caminhar sem ser notada. Depois do baile, nunca mais conseguiria deixar a mansão Blydon sem estar acompanhada.
Emma dobrou a última esquina antes de chegar ao mercado. Foi caminhando lentamente pela calçada, parando para olhar a vitrine de cada loja. Como havia imaginado, ninguém dentre as damas e os cavalheiros que passaram por ela lançou mais do que um rápido olhar na direção da criada pequena e ruiva, coberta de farinha.
Ela cantarolava alegremente quando entrou no mercado cheio e comprou várias dúzias de ovos. Era um pouco difícil carregá-los, mas Emma teve o cuidado de não fazer careta. Uma copeira estaria acostumada a carregar aquele tipo de compra, e Emma não queria estragar o disfarce. Além do mais, ela era bem forte e estava a apenas cinco quarteirões de casa.
Emma sorriu para o vendedor, se despedindo com um aceno de cabeça.
– Muito obrigada, senhor.
Ele devolveu o sorriso.
– Ora, você é nova por aqui? Fala como se tivesse acabado de chegar das Colônias.
Os olhos de Emma se arregalaram de surpresa. Não havia esperado ter que responder às perguntas do vendedor.
– Ah, sim, eu cresci lá, mas já moro em Londres há muitos anos – mentiu.
– Ora, eu sempre quis conhecer a América – disse ele.
Emma gemeu por dentro. O homem parecia disposto a ter uma longa conversa, e ela realmente precisava voltar correndo para casa, antes que Belle começasse a se preocupar. Por isso começou a recuar na direção da porta, sorrindo o tempo todo.
– Volte sempre, mocinha. Para quem você disse que trabalha?
Mas Emma já havia saído correndo pela porta, ngindo não ter ouvido a pergunta. A meio-caminho de casa, sentia-se animada e assoviava, feliz, certa de ter encenado sua farsa sem deixar pistas. Caminhava lentamente, ansiosa para prolongar sua pequena aventura. Além do mais, estava gostando de observar os londrinos cuidando de seus afazeres diários. Com o uniforme de criada, ninguém prestava atenção nela, assim podia olhar para tudo sem o menor pudor, desde que desviasse os olhos se alguém a olhasse de volta.
Emma esticou o pescoço para ver um menininho adorável, de 5 ou 6 anos, que descia de uma carruagem elegante, puxada por uma parelha de cavalos idênticos. Ele carregava um lhotinho de cocker spaniel e fazia carinho na cabecinha do bicho. O cãozinho preto e branco retribuiu o afeto lambendo o rosto do menino, que deixou escapar uma risadinha aguda. Nesse momento, a mãe dele en ou a cabeça para fora da carruagem para ver o que estava acontecendo. Era uma mulher linda, de cabelos escuros e olhos verdes, que cintilavam com um amor evidente pelo lho.
– Não saia daí, Charlie – disse ela ao menino. – Estarei com você em um instante.
A mulher se virou para dentro da carruagem, provavelmente para falar com alguém. O menino de cabelos escuros revirou os olhos e cou mudando o peso do corpo de um pé para o outro enquanto esperava a mãe.
– Mamãe – pediu –, anda logo.
Emma sorriu ao ouvir a impaciência óbvia na voz dele. Pelo que o pai lhe contara, ela fora exatamente daquele jeito quando pequena.
– Só um minuto, danadinho. Já vou descer.
E então um gato malhado atravessou correndo a rua. O cachorrinho subitamente soltou um latido alto e pulou dos braços de Charlie, para perseguir o gato pela rua.
– Wellington! – gritou Charlie, e saiu em disparada atrás do cachorro.
Emma cou sem ar. Um coche de aluguel descia a rua e o condutor, concentrado na conversa com o homem sentado ao seu lado, não estava prestando a menor atenção à sua frente. Charlie seria esmagado sob os cascos dos cavalos.
Emma gritou e não parou para pensar antes de largar os ovos e atravessar a rua correndo. Quando estava a poucos metros do menino, mergulhou no ar, rezando para conseguir impulso su ciente para derrubá-lo e sair do caminho com ele antes que os dois fossem atropelados pelo coche.
Charlie gritou, sem entender por que uma mulher estranha havia se jogado em cima dele e caído ao seu lado.
Pouco antes de atingir o chão, Emma ouviu mais gritos.
Depois disso, veio a escuridão.