Folhas inúteis
Capítulo 9
No silêncio e na solidão de seu quarto, a srta. Thriplow passou muito tempo sentada diante de um caderno de anotações aberto, com a caneta na mão.
“Querido Jim” escreveu. “Hoje você retornou de maneira tão repentina e inesperada que quase comecei a chorar diante de toda aquela gente. Teria sido por acaso que peguei aquela folha da árvore de Apolo e a esmaguei entre os dedos? Ou era você que estava lá? Foi você quem soprou no meu inconsciente para que eu a pegasse? Gostaria de saber; ah, como gostaria! Às vezes acredito que não existe acaso, que nada acontece por acaso. Esta noite tive certeza. Mas por que quis que eu me lembrasse da pequena barbearia do mr. Chigwell, em Weltringham? Por que quis que eu o visse sentado naquela cadeira, tão rijo e maduro, a escova mecânica ainda funcionando sobre sua cabeça e o mr. Chigwell dizendo: ‘O cabelo está muito seco, mr. Thriplow?’ E a correia elástica sempre me lembrava...”
A srta. Thriplow recordou-se da semelhança com a serpente ferida, que lhe havia ocorrido anteriormente naquela noite. Não havia nenhuma razão especial para ter antedatado o conceito e remontá-lo à sua infância. Era uma questão de tato literário; simplesmente pareceria mais interessante se alguém dissesse que o havia inventado quando ainda era criança. “Pergunto-me se existe alguma importância especial nessa lembrança. Ou se talvez você tenha me achado desatenta e esquecida — pobre e querido Jim —, e aproveitou a oportunidade para me lembrar de que você existia, que ainda existe. Perdoe-me, Jim. Todo mundo esquece. Seríamos todos gentis, bons e altruístas se nos lembrássemos sempre... nos lembrássemos de que as outras pessoas estão tão vivas e são tão únicas e complexas quanto nós, que todas podem ser feridas com a mesma facilidade, que precisam de amor tanto quanto nós, que a única razão visível de estarmos no mundo é amar e sermos amados. Mas isso não me desculpa. Não desculpa ninguém que diga que as pessoas são más. Eu não devia ter permitido que minha mente fosse tomada pelas ervas daninhas. Não foi só a sua memória que ficou encoberta, mas também tudo o que há de melhor, de mais delicado e mais fino. Talvez você tenha me lembrado do mr. Chigwell e da loção de folhas de louro para que eu não me esquecesse de amar mais, admirar mais, sentir mais simpatia e estar mais atenta. Querido Jim.”
Ela abandonou a caneta e, olhando o céu cheio de estrelas pela janela aberta, tentou pensar nele, pensar na morte. Mas era difícil pensar na morte. Achava tão difícil manter o pensamento na ideia de extinção, de não vida ao invés de vida, de nada. Lê-se nos livros sobre sábios que meditam. Ela tentou meditar várias vezes. Mas em nenhuma delas conseguiu muita coisa. Todo tipo de pensamento pequeno e irrelevante insistia em vir-lhe à cabeça. Não era possível focalizar a morte, mantê-la sob os olhos da mente. Por fim ela voltou a ler o que escrevera, pondo um ponto aqui e ali, corrigindo deslizes de estilo onde lhe parecia estar formal demais, rebuscado demais, insuficientemente espontâneo e portanto inadequado para um diário secreto.
No final do último parágrafo acrescentou outro “Querido Jim” e pronunciou essas palavras outras vezes, cada vez mais alto. O exercício provocou o efeito de sempre; seus olhos se encheram de lágrimas.
Os puritanos rezam quando o espírito os comove; mas deixar-se ser comovido pelo espírito é uma árdua tarefa. Igrejas mais mundanas e benevolentes, com sentimentos pela fraqueza humana, proveem seus fiéis com rituais, litanias, contas e rosários.
“Querido Jim, querido Jim.” A srta. Thriplow encontrara as palavras de sua prece. “Querido Jim.” As lágrimas lhe faziam bem; ela se sentia melhor, mais amável, mais terna. E então, de repente, foi como se, fora dela mesma, se ouvisse dizendo: “Querido Jim”. Mas ela se importava realmente com isso? Não seria tudo uma comédia, uma farsa? Ele morrera havia tanto tempo; não tinha mais nada a ver com ela agora. Por que deveria se importar, para que se lembrar? E todo esse pensamento sistemático sobre ele, as coisas escritas num diário secreto dedicado à sua memória não seriam apenas para manter as emoções em funcionamento? Não estaria ela arranhando deliberadamente o coração para fazê-lo sangrar, só para depois escrever suas histórias com o fluido vermelho?
A srta. Thriplow abandonou esses pensamentos tão logo a assaltaram; colocou-os de lado, indignada. Eram pensamentos monstruosos e mentirosos.
Pegou outra vez a caneta e começou a escrever rapidamente, como se registrasse palavras exorcizantes que, quanto mais depressa fossem colocadas no papel, mais depressa fariam desaparecer os pensamentos malignos.
“Lembra-se, Jim, daquela vez em que saímos numa canoa e que afundamos?...”