Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 22 de 43

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Folhas inúteis

Capítulo 6

 

O sol se punha. Contra a polidez esverdeada do céu, as montanhas purpúreas e azuladas projetavam silhuetas denteadas. O mr. Cardan viu-se sozinho na planície, no sopé das montanhas. Estava parado à beira de uma grande depressão, cheia de água até a borda, que se estendia em linha reta aparentemente por quilômetros, a perder de vista na vaga distância ao lusco-fusco. Aqui e ali, uma fileira de álamos finos e altos marcava a posição de outros canais como aquele, seccionando a planície em todas as direções. Não havia nenhuma casa vizinha à vista, nenhum ser humano, nem sequer uma vaca ou um jumento. Ao longe, nas encostas azuis e purpúreas que rapidamente se tornavam de um índigo profundo e uniforme, pequenas luzes amarelas começavam a surgir, isoladas ou em grupos, atestando a presença de um vilarejo ou de uma fazenda solitária. Irritado, o mr. Cardan olhava; muito bonito, sem dúvida, mas já vira cenário melhor em muitos palcos de comédias musicais. Afinal, que vantagem havia em uma luz a oito ou nove quilômetros de distância nas montanhas, se ele estava ali, no meio da planície, sem ninguém por perto, a noite chegando e aqueles horríveis canais impedindo-o de encontrar o caminho óbvio para a civilização? Fora um tolo, refletia, três ou quatro horas atrás; tolo em recusar a oferta de Lilian para usar o carro e ter preferido andar (ah, esse fetiche do exercício!); tolo por ter saído de casa tão tarde; tolo por ter acreditado nas estimativas italianas de distância; e tolo por ter seguido indicações de caminho fornecidas por pessoas que confundiam esquerda com direita e, se você insistisse em saber ao certo, ofereciam-se para acompanhá-lo aonde quisesse ir. O caminho que o mr. Cardan tomara parecia ter chegado ao fim nas águas daquele canal; talvez fosse um caminho suicida. O lago de Massaciuccoli deveria estar em algum lugar do outro lado do canal; mas onde? E como atravessá-lo? Escurecia rapidamente. Em poucos minutos o sol teria baixado dezoito graus na linha do horizonte e seria totalmente noite. O mr. Cardan praguejou; mas não adiantava muita coisa. Por fim, decidiu que o melhor a fazer era continuar andando devagar e contornar com muito cuidado o canal, na esperança de a qualquer momento chegar a algum lugar. Enquanto isso, era melhor fortalecer-se comendo alguma coisa e bebendo um trago. Ele se sentou no capim e abriu a jaqueta; procurou nos bolsos fundos de pescador, do lado de dentro, e exibiu primeiro um pão, depois um bom pedaço de salsicha e, por fim, uma garrafa de vinho tinto. O mr. Cardan estava sempre preparado para as emergências.

O pão estava seco e a salsicha temperada com muito alho; mas o mr. Cardan, que nada comera na hora do chá, serviu-se à vontade. Com mais prazer ainda ele bebeu. Em pouco tempo sentiu-se mais bem-disposto. Essas são as pequenas cruzes, refletia ele filosoficamente, que se devem carregar quando se está disposto a ganhar algum dinheiro. Se conseguisse sobreviver àquela noite sem cair num daqueles canais, estaria pagando pouco pelo tesouro. O que mais o aborrecia eram os mosquitos; ele acendeu um cigarro, tentando afugentá-los até uma distância respeitosa. Sem muito sucesso, contudo. Talvez os brutos fossem também maláricos. Devia existir malária naquele pântano; não se podia saber. Seria desagradável terminar os dias com febres periódicas e o baço dilatado. Fosse como fosse, é sempre muito desagradável agonizar na cama ou fora dela, natural ou inaturalmente, por um ato de Deus ou dos inimigos do rei. Os pensamentos do mr. Cardan começavam a assumir um caráter lúgubre. Velhice, doença, decrepitude; o banho de assento, o médico; a enfermeira vistosa e eficiente; a longa agonia, a dificuldade de respirar, a densa escuridão, o fim e depois — como era mesmo aquela cantiga infantil?

 

Mais trabalho para o agente funerário

Um servicinho para o coveiro.

Eles estão muito ocupados no cemitério

Preparando uma cova novinha em folha.

E no inverno o defunto estará quentinho.

 

O mr. Cardan cantarolou em voz baixa. E seu rosto forte e encaroçado foi endurecendo e cristalizando uma expressão amargurada; a melancolia surgiu em seus olhos e na fronte enrugada; qualquer um que o visse se assustaria. Mas não havia ninguém naquele lusco-fusco para vê-lo. Ele estava só.

 

Eles estão muito ocupados no cemitério

Preparando uma cova novinha em folha.

 

Ele murmurava a melodia. Se eu ficasse doente, pensava, quem cuidaria de mim? Se eu tivesse um ataque: hemorragia cerebral, paralisia parcial, dificuldade para falar; a língua não articulando mais o que o cérebro pensa; sendo alimentado como um bebê; clister; o médico esfregando as mãos que cheiram a desinfetante e água-de-colônia; não vendo ninguém mais além da enfermeira; nenhum amigo; ou somente alguém uma vez por semana durante uma hora, só por caridade. “Coitado do Cardan, já está no fim; vamos mandar um dinheirinho; ele não tem nada, sabia? Façamos uma coleta; que chateação! É espantoso que ele tenha durado tanto.”

 

E no inverno o defunto estará quentinho.

 

A melodia terminou numa espécie de brado de trompete, subindo da dominante para a tônica — uma dominante, três tônicas repetidas, desce para a dominante e, na última sílaba de “quentinho”, a tônica final. E fim; sem da capo nem segundo movimento.

O mr. Cardan bebeu outro gole no gargalo; a garrafa estava quase vazia.

Talvez devesse ter se casado. Kitty, por exemplo. Hoje ela estaria velha e gorda; ou velha e magra, um esqueleto mal disfarçado. Mesmo assim se apaixonara por Kitty. Talvez fosse bom se estivessem casados. Ha, ha, ha! — numa explosão de sarcasmo, o mr. Cardan dá uma gargalhada alta e selvagem. Casar, realmente! Sem dúvida ela era muito recatada; mas pode apostar que por dentro era bem leviana e, depois de se dormir com ela, muito lasciva. Ele se lembrava de Kitty com raiva e desprezo. Portentosas obscenidades reverberavam nas câmaras de sua mente.

Ele pensava na artrite, na gota, na catarata, na surdez... Em qualquer dos casos, quantos anos lhe restariam? Dez, quinze, vinte no máximo. E que anos, que anos!

O mr. Cardan entornou a garrafa e jogou-a vazia na água escura do canal. O vinho não melhorara em nada o seu humor. Ele rogava a Deus poder voltar ao palácio e ter com quem conversar. Não tinha como defender-se sozinho. Tentava pensar em algo mais vital, mais interessante; nos esportes de salão, por exemplo. Mas em vez disso descobria-se contemplando a doença, a decrepitude, a morte. Dava no mesmo se pensasse em coisas mais sérias, mais racionais. O que é a arte, por exemplo? Ou qual era a estimativa de sobrevivência das espécies com olhos, asas e plumagem colorida no seu estado rudimentar, antes que essas características se desenvolvessem para ver, voar e se proteger? Por que os indivíduos que possuem a principal, porém quase inútil, variante para realizar algo de proveitoso sobreviviam mais eficazmente do que os que são prejudicados por alguma deficiência? Temas absorventes. A paralisação generalizada do insano, refletia ele, não era, felizmente, uma enfermidade para a qual fora qualificado no passado; felizmente e milagrosamente! Mas cálculo, neurite, obesidade e diabetes... Oh, céus, como gostaria de poder conversar com alguém!

E no mesmo instante, como se em resposta imediata à sua prece, ele ouviu vozes se aproximarem na escuridão.

— Graças a Deus — disse o mr. Cardan, e de um salto começou a andar na direção das vozes. Duas silhuetas, uma masculina e mais alta, e outra feminina e muito menor, assomaram na escuridão. O mr. Cardan removeu o cigarro da boca, tirou o chapéu e curvou-se diante delas.

 

Nel mezzo del cammin di nostra vita,

Mi ritrovai per una selva oscura, che la diritta via era smarrita.[21]

 

— Com que felicidade Dante também teria se perdido, seiscentos e vinte e quatro anos atrás! Em resumo — continuou o mr. Cardan — ho perso la mia strada; embora eu tenha minhas dúvidas de que isso seja

muito idiomático. Forse potrebbero darmi qualche indicazione.[22]

Diante dos estranhos e ouvindo o som da própria voz, toda a sua depressão desaparecera. Estava deliciado com a extraordinária direção que conseguira dar à conversa desde o início. Talvez um pouco mais de ingenuidade e encontraria uma desculpa para brindá-los com um pequeno Leopardi. Era muito divertido assombrar aqueles nativos.

As duas silhuetas estavam paradas a uma pequena distância. Quando o mr. Cardan concluiu sua macarrônica autoapresentação, a mais alta delas respondeu numa voz áspera e, para um homem, bastante aguda.

— Não precisa falar italiano. Somos ingleses.

— Fico encantado — retrucou o mr. Cardan. E explicou longamente, na sua língua materna, o que havia lhe acontecido. Ao mesmo tempo, ocorria-lhe que aquele era um lugar muito estranho para encontrar um casal de turistas ingleses.

A voz áspera se manifestou outra vez.

— Há um caminho para Massarosa pelo campo — disse. — E outro na direção oposta, que vai dar na estrada de Viareggio. Mas nenhum deles é fácil de ser encontrado à noite com todos esses canais.

— Só se pode perecer nessa tentativa — disse o mr. Cardan galantemente.

Desta vez quem falou foi a mulher:

— Acho melhor o senhor passar a noite em nossa casa. Nunca irá encontrar o caminho. Eu mesma quase caí em um canal agora há pouco. — Ela riu com estridência e, para o mr. Cardan, muito além do necessário.

— Mas nós temos lugar? — perguntou o homem, num tom demonstrativo de que relutava em aceitar o hóspede.

— É claro que temos — respondeu a voz feminina, espantada como uma criança. — Embora seja rústico.

— Isso não tem importância — assegurou o mr. Cardan. — Fico muito agradecido pelo convite — acrescentou, deixando claro que o aceitava, antes que o homem voltasse atrás. Não tinha vontade de ficar vagando durante a noite no meio dos canais. Além disso, a perspectiva de ter companhia, embora bizarra, era animadora. — Muito agradecido — insistiu.

— Bem, se você diz que temos lugar... — disse o homem, de má vontade.

— É claro que sim — replicou a mulher ruidosamente. — Não temos seis quartos na casa? Ou seriam sete? Venha conosco, senhor... senhor...

— Cardan.

— Mr. Cardan. Estamos indo mesmo para lá. Que divertido! — acrescentou, repetindo o riso exagerado.

O mr. Cardan acompanhou-os, falando da maneira mais agradável possível durante todo o caminho. O homem ouvia num silêncio lúgubre. Mas sua irmã — o mr. Cardan descobriu que eram irmãos e que se chamavam Elver — ria ao final de cada frase, como se tudo o que ele dissesse fosse uma gloriosa piada; ria exageradamente e depois fazia algum comentário que mostrava não ter entendido nada do que acabara de ouvir. O mr. Cardan notou que suas frases foram se tornando cada vez mais elementares; e quando estavam quase chegando ao destino elas eram claramente dirigidas a uma criança de dez anos.

— Finalmente chegamos — disse a mulher, ao emergirem da escuridão da noite em uma pequena floresta de álamos. Adiante erguia-se um grande volume quadrado, a casa totalmente escura, exceto por uma única janela iluminada.

Eles bateram e a porta foi aberta por uma velha com uma vela na mão. O mr. Cardan pôde então ver os seus salvadores pela primeira vez. Que o homem era alto e magro ele já percebera na escuridão; agora se revelava uma criatura curvada, com o peito fundo e cerca de quarenta anos de idade; as pernas e os braços eram compridos e finos como os de uma aranha; o rosto estreito e amarelado, de nariz comprido e queixo alongado, era iluminado por um par de olhos cinzentos e furtivos, que quase todo o tempo estavam voltados para o chão, como se temessem encontrar os de outra pessoa. O mr. Cardan suspeitou algo de clerical na sua aparência. O homem devia ser um pastor arruinado — arruinado e, possivelmente, levando em conta o olhar furtivo, destituído da batina. Ele usava um terno preto bem-talhado e não muito velho, mas frouxo nos joelhos e abaulado na altura dos bolsos do casaco. As unhas das mãos ossudas e grandes estavam sujas e os cabelos acastanhados já encobriam as orelhas e a nuca.

A srta. Elver talvez fosse uns trinta centímetros menor do que o irmão; mas era como se a natureza tivesse pretendido originalmente fazê-la tão alta quanto ele. Porque a cabeça era grande demais para o corpo, e as pernas muito curtas. Um ombro era mais alto que o outro. O rosto de certa forma assemelhava-se ao do irmão. Via-se nele o mesmo nariz, embora mais delicado, o mesmo queixo fino; a boca, em compensação, era sempre sorridente e amável e os grandes olhos cor de avelã, não tão furtivos nem desconfiados, transmitiam, ao contrário, confiança, embora tivessem um brilho pálido e aguado e não fossem mais expressivos do que os de um recém-nascido. A idade dela, supunha o mr. Cardan, seria de vinte e oito a trinta anos. Ela usava um vestidinho esquisito, como um saco com buracos para a cabeça e os braços, feito de um tecido branco com grandes desenhos vermelho-vivos, uma versão inferior das estampas chinesas. Em volta do pescoço, duas ou três voltas de umas contas berrantes. Além de pulseiras nos braços, ela carregava uma sacola feita com correntes douradas e entrelaçadas.

Utilizando-se de gestos para complementar o vocabulário reduzido, o mr. Elver deu instruções à velha. Ela deixou a vela com ele e saiu. Segurando-a no alto, o mr. Elver os conduziu a uma sala grande. Todos se sentaram em cadeiras duras e desconfortáveis diante de uma lareira apagada.

— Esta casa não tem nenhum conforto — disse a srta. Elver. — Eu não gosto da Itália.

— Ora — disse o mr. Cardan — , isso é uma pena. Não gosta nem de Veneza? Todos aqueles barcos e as gôndolas? — E ao encontrar os olhos infantis teve vontade de continuar a brincadeira. O gato está no mato. O porco no toco é um porco gordo. O rato no saco é o rato fraco. E assim por diante.

— Veneza? — perguntou ela. — Nunca estive lá.

— E Florença? Também não gosta de Florença?

— Não, eu não conheço.

— Roma? Nápoles?

A srta. Elver balançava a cabeça negativamente.

— O único lugar em que já estivemos foi aqui — disse. — O tempo todo.

O irmão, que estava sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas na frente e os olhos fixos no chão, rompeu o silêncio.

— O fato é — disse com sua voz áspera e fina — que minha irmã precisa ficar quieta; ela está em tratamento de repouso.

— Aqui? — perguntou o mr. Cardan. — Não é um lugar quente demais? Excessivamente modorrento?

— Sim, também acho muito quente — disse a srta. Elver. — Sempre digo isso a Philip.

— Talvez estivesse melhor perto do mar ou nas montanhas — aconselhou o mr. Cardan. O mr. Elver meneou a cabeça negativamente.

— Os médicos... — disse misteriosamente e não continuou.

— E o risco de malária?

— Isso é tudo besteira — cortou o mr. Elver, com tanta violência e indignação que o mr. Cardan só pôde supor que ele quisesse desenvolver em sua propriedade uma casa de saúde.

— Oh, certamente a malária já está erradicada — disse o mr. Cardan suavemente. — A marema não é mais o que era.

O mr. Elver não disse nada e, carrancudo, ficou olhando fixo para o chão.