Folhas inúteis
Capítulo 7
A sala de refeições também era ampla e quase vazia. Quatro velas ardiam sobre a mesa longa e estreita; nas extremidades, a luminescência dourada esvanecia num pálido lusco-fusco; as sombras eram negras e enormes. Nesse ambiente o mr. Cardan imaginou-se como Don Juan entrando na câmara mortuária do comandante para cear.
O jantar foi lúgubre e ao mesmo tempo excessivamente animado. Enquanto a irmã falava e ria sem parar com o convidado, o mr. Elver preservou todo o tempo um silêncio inquebrantável. Melancolicamente ele se serviu da refeição mista e fragmentada que a velha trazia da cozinha, um alimento após o outro, em pequenas vasilhas. Melancolicamente também, como quem bebe para dar coragem e ilusão de força a si mesmo, ele esvaziava um copo atrás do outro de um forte vinho tinto. A maior parte do tempo seus olhos se mantinham fixos na toalha da mesa, em frente ao prato; mas de tempos em tempos dava uma espiadela para os outros dois, só por um instante, e, então, temeroso de ser flagrado e ter que encontrar os olhos de alguém, voltava a olhar fixamente para a toalha.
O mr. Cardan apreciou o jantar. Não que a comida fosse particularmente boa. A velha era uma dessas ineptas praticantes da culinária que disfarçam suas limitações inundando tudo com molho de tomate levemente temperado com alho, para tornar o disfarce impenetrável. Não, o que o mr. Cardan apreciou foi a companhia. Havia muito tempo não se sentava à mesa com espécimes tão interessantes. Nosso círculo de relações, pensou ele, é extremamente pequeno e limitado. Não conhecemos muita gente, nossos relacionamentos não são suficientemente diversificados. Ladrões, milionários, imbecis, religiosos, hotentotes, capitães do mar, por exemplo; a nossa familiaridade com esses interessantíssimos espécimes é absurdamente pequena. Pareceu-lhe que naquela noite realmente ampliaria o seu círculo.
— Estou muito contente por termos encontrado o senhor — dizia a srta. Elver. — Em plena escuridão; não imagina o susto que levei! — Ela riu estridentemente. — Nós nos aborrecemos muito por aqui, não é mesmo, Phil? — Ela se dirigiu ao irmão, mas o mr. Elver não disse nada nem sequer a olhou. — É muito aborrecido. Estou realmente contente por termos encontrado o senhor.
— Não tanto quanto eu — disse o mr. Cardan, galantemente.
A srta. Elver dirigiu-lhe um olhar tímido mas confidencial; então cobriu o rosto com as mãos, como se estivesse se escondendo do mr. Cardan, e virou-se para abafar uma risada. Ela estava rubra. Olhava-o por entre os dedos e ria.
Ao mr. Cardan ocorreu que, se não tivesse cuidado, acabaria se metendo num caso de quebra de compromisso matrimonial. Taticamente mudou de assunto; perguntou a ela o que mais gostava de comer e soube que eram morangos, sorvete de creme e chocolates variados.
Depois de servida a sobremesa, o mr. Elver ergueu os olhos da toalha e disse:
— Grace, é hora de dormir.
O rosto da srta. Elver, resplandecente num largo sorriso, tornou-se instantaneamente anuviado. Com os olhos lacrimejantes ela suplicou ao irmão:
— Tenho mesmo que ir? Só desta vez — tentava comovê-lo. — Só desta vez!
Mas o mr. Elver não se deixou comover.
— Não, não — disse asperamente. — Precisa ir.
O irmão suspirou chorosamente. No mesmo instante ela se levantou e, obediente, dirigiu-se para a porta. Quase chegando lá, parou, deu meia-volta e veio correndo dizer boa-noite ao mr. Cardan.
— Estou feliz por tê-lo conhecido. Foi muito divertido. Boa noite. E não precisa me olhar desse jeito — disse, cobrindo novamente o rosto com as mãos. — Ah, assim não. — Rindo sempre, ela saiu correndo da sala.
Fez-se um longo silêncio.
— Beba um pouco de vinho — disse por fim o mr. Elver, empurrando a garrafa para o mr. Cardan.
Ele completou seu copo e polidamente fez o mesmo com o de seu anfitrião. Vinho: era a única coisa capaz de fazer com que aquele demônio sinistro falasse. Com um olho clínico e profissional, o mr. Cardan detectou na expressão do outro certos sintomas quase imperceptíveis de embriaguez. Não seria de esperar, pensou o mr. Cardan desdenhosamente, que uma criatura aracnídea como aquela assimilasse bem o álcool; bebera ininterruptamente durante todo o jantar. Um pouco mais e estaria maleável como o barro nas mãos de um interrogador sóbrio (o mr. Cardan podia contar com a sobriedade pelo menos por mais três garrafas de vinho, coisa que uma pobre criatura fraca como aquela não poderia suportar); ele falaria, falaria; a única dificuldade seria fazê-lo parar de falar.
— Obrigado — disse o mr. Elver, levando à boca o copo reabastecido.
Assim é que se faz, pensou o mr. Cardan; e no seu estilo mais eloquente começou a contar a história da escultura do irmão do merceeiro e de seu próprio empenho em encontrá-la, finalizando com uma versão de como se perdera ainda mais floreada do que a anterior.
— Consola-me a superstição — concluiu — de que o destino não me colocaria diante desses pequenos problemas e inconveniências se não pretendesse, no final, brindar-me com algo muito valioso. Só estou pagando adiantado; mas estou certo de que o faço por algo que realmente valerá a pena. De qualquer maneira, essa caça ao dinheiro é mesmo uma maldição.
O mr. Elver assentiu.
— É a raiz de todos os males — disse, esvaziando o copo.
Discretamente, o mr. Cardan encheu-o mais uma vez.
— Certíssimo — confirmou. — E dupla maldição, se me permite fazer o papel de Pórcia por um momento: maldito é o que tem. O senhor pode pensar em alguém de suas relações que seja realmente rico e que não seria menos avarento, menos tirano, amante da boa vida e obeso se não pagasse impostos altíssimos? E também maldito é o que não tem, porque é obrigado a cometer todo tipo de absurdos, humilhações e desabonos, coisas que jamais pensaria em cometer se das sebes crescessem frutas-pães, bananas e uvas suficientes para que a comida e o vinho fossem gratuitos.
— Maldito é o que não tem, é o que acontece na maioria das vezes — disse o mr. Elder, com uma animação súbita e selvagem. Obviamente ali estava um assunto que o interessava. Por um momento ele manteve um olhar profundo sobre o mr. Cardan e em seguida voltou a mergulhar o nariz no copo.
— Talvez — disse o mr. Cardan judiciosamente. — De qualquer maneira, as pessoas queixam-se mais dessa maldição do que da outra. Aqueles que não têm se queixam da própria sina. Os que têm não o fazem; mas somente os que estão perto deles... e, como os que têm são poucos, estes também o são... é que se queixam da maldição de ter. Na minha juventude, pertenci às duas categorias. Já tive uma vez; e vejo que para os meus companheiros eu devia ser intolerável. Hoje — o mr. Cardan deu um profundo suspiro e soprou o ar por entre os lábios apertados para indicar como o dinheiro desaparecera —, hoje não tenho mais. A maldição da insolência e da avareza foi afastada de mim. Mas a que baixos ardis, a que abjeções o não ter me obrigou! Por exemplo, a trapacear com camponeses por suas propriedades artísticas...
— Ah, mas isso não é quase nada diante do que eu tive que fazer — gritou o mr. Elver. — Não é nada! O senhor nunca foi um vendedor de anúncios publicitários.
— Não — admitiu o mr. Cardan —, nunca fui.
— Então não sabe realmente o que é a maldição de não ter. Nem faz ideia. Nem sequer tem o direito de falar em maldição. — A voz áspera e instável do mr. Elver mudava de intensidade enquanto ele falava. — Não tem o direito — repetiu.
— Talvez não — disse o mr. Cardan suavemente. Ele aproveitou a chance para despejar mais vinho no copo do outro. Ninguém tem o direito, refletia, de ser mais miserável do que somos. Cada um de nós é a criatura mais infeliz do mundo. Por isso é um grande crédito a nosso favor que consigamos suportar e prosseguir tão bem como o fazemos.
— Ouça — continuou o mr. Elver confidencialmente, tentando fixar o rosto do mr. Cardan —, deixe-me dizer-lhe. — Para enfatizar o que dizia e chamar a atenção do outro, ele inclinou-se para a frente e bateu com as mãos na mesa. — Meu pai era um pároco do interior — excitado, ele falava muito rápido. — Éramos muito pobres, muito pobres. Meu pai não se importava com isso; costumava ler Dante o tempo todo. Isso aborrecia minha mãe, não sei por quê. O senhor já sentiu o cheiro de comida de pobre? Chouriço defumado; só de pensar sinto-me enjoado — disse, dando de ombros. — Nós éramos quatro filhos. Meu irmão foi morto na guerra e minha irmã mais velha morreu de gripe. Restamos eu e a outra que o senhor conheceu. — Ele bateu o dedo na testa. — Ela nunca cresceu, ficou estacionada em algum ponto. É débil mental. — Ele riu, sem nenhuma compaixão. — Não sei por que estou lhe dizendo isso. É bastante óbvio, não é?
O mr. Cardan não disse nada. Seu anfitrião esquivou-se da meia piscadela, do meio olhar por baixo das sobrancelhas, fortalecendo-se com mais vinho do copo que um momento antes o mr. Cardan havia enchido.
— Quatro filhos — continuou. — Pode imaginar que não era fácil para meu pai. E minha mãe morreu quando ainda éramos pequenos. Mesmo assim, ele deu um jeito de nos mandar a uma espécie de escola bastante miserável. Nós poderíamos ter ido para a universidade e adquirido certa cultura. Mas nada disso aconteceu. — O mr. Elver, a quem o vinho começava a fazer efeito, riu estrondosamente, como se a piada fosse muito boa. — Então meu irmão começou a trabalhar numa firma de engenharia, e ficou decidido, sabe Deus à custa de que sacrifícios, que eu me tornaria um advogado, quando, plop!, meu pai foi vitimado por um ataque cardíaco. Para ele foi bom, ficou vagando pelo paradiso. Mas eu tive que pegar o primeiro trabalho que apareceu. Foi então que me tornei vendedor de anúncios. Oh, Deus! — Ele cobriu o rosto com as mãos, como se fugisse de uma visão desagradável. — Essa é a verdadeira maldição de não ter! Eu trabalhava para uma revista mensal, uma dessas com grande quantidade de pequenos anúncios para curar a indigestão; de cintas elétricas para modelar o corpo; de arte por correspondência; de “Por que usar braçadeiras?”; de supérfluos descolorantes para cabelos; de pílulas que arredondam as curvas femininas; de máquinas de lavar vendidas a prestação; de “Aprenda a tocar piano sem praticar”; de trinta e seis reproduções de nus do Salão de Paris por cinco xelins; de remédios especialmente embalados, estritamente confidenciais; e de tudo o mais. Eram centenas e mais centenas de pequenos anúncios. Eu passava os dias percorrendo lojas e escritórios, persuadindo antigos anunciantes e tentando conseguir novos. Deus, como era terrível! Arrastava-me como um verme para a sala de pessoas que não queriam me ver, para quem eu não passava de um incômodo, um mendigo insistente atrás de dinheiro. E como tive que ser delicado com os subalternos insolentes, fortalecidos por trás de suas mesas, esperando apenas uma oportunidade para bancar o tirano! E a gentileza, franqueza e coragem que era preciso ter o tempo todo! Usar o “permita-me mostrar-lhe, senhor” como um soco direto e bem aplicado; a honestidade persuasiva, a sinceridade e a falsa intimidade, sempre mantidas arduamente para que acreditassem no que se estava dizendo, vissem a velha revista como uma proposta esplêndida, considerassem o inventor dos anúncios como o maior benfeitor da raça humana. E a presença que era preciso ter! Não sei por que, isso nunca consegui. Nem sequer podia parecer limpo. Era necessário impressionar aqueles demônios, fazendo-me passar por um vendedor competente e incisivo. Oh, céus, era terrível! E a maneira como me tratavam! Como se eu fosse o chato mais execrável do mundo, isso era o melhor que eu podia esperar. Às vezes tratavam-me como um ladrão e um vigarista. Era minha culpa se um certo número de imbecis não comprasse as cintas galvanizadas ou não aprendesse a tocar piano como Busoni sem praticar. A culpa era minha; e eles começavam a xingar e a atacar, e eu sendo gentil, delicado, tático, mantendo o entusiasmo o tempo todo. Oh, Deus, não há nada pior do que enfrentar um homem irado. Não sei por que, mas acho profundamente humilhante participar de uma briga, mesmo sendo o agressor. Um cachorro se sentiria melhor. Mas ser vítima da ira alheia chega a ser terrível. Simplesmente horrível — repetiu, batendo as mãos na mesa para enfatizar as palavras. — Não fui feito para esse tipo de coisa. Não sou briguento nem valentão. Essas cenas deixavam-me doente. Eu não dormia pensando nelas, ou porque já haviam passado, ou porque ainda iriam acontecer. Fala-se dos sentimentos de Dostoiévski ao ser levado para o pátio do quartel, amarrado ao poste diante do pelotão alinhado para o fuzilamento e, com os olhos já vendados, ouvir a notícia de que a execução fora suspensa. Garanto-lhe que eu vivia experiências parecidas meia dúzia de vezes por dia, criando coragem para enfrentar alguma entrevista inevitável, que só de pensar me deixava doente. Para mim, a execução não podia ser adiada. Ela se processava até o final. Meu Deus, quantas vezes hesitei diante da porta do escritório de um valentão, molhado de suor, temendo cruzar a soleira! Quantas vezes no último instante voltei e corri para um bar em busca de um conhaque para acalmar os nervos ou de uma farmácia para um tranquilizante! O senhor não pode imaginar como sofri. — Ele esvaziou o copo, tentando afogar um pavor crescente. — Ninguém imagina — prosseguiu com a voz trêmula de angústia e autopiedade. — E o pouco que recebi de volta! Sofria torturas diárias pelo privilégio de ser capaz de viver. E eu pensava em todas as coisas que poderia fazer se tivesse dinheiro. Sabia com absoluta certeza que, se tivesse dez mil, poderia em dois anos transformá-los em cem mil. Planejava tudo nos mínimos detalhes, sabia exatamente como viveria se fosse rico, mas enquanto isso vivia na miséria, na imundície, na escravidão. Essa é a verdadeira maldição. Foi o que eu sofri. — Dominado pelo vinho e pelas emoções, o mr. Elver irrompeu em lágrimas.
O mr. Cardan deu palmadinhas no ombro dele. Era muito tático para oferecer ao seu anfitrião o consolo filosófico de que nove décimos da raça humana padeciam do mesmo sofrimento. O mr. Elver jamais o perdoaria por tamanho menosprezo à sua originalidade.
— É preciso ter coragem — disse o mr. Cardan, e, fechando a mão em torno do copo, ofereceu: — Beba um pouco mais. Vai lhe fazer bem.
O mr. Elver bebeu e enxugou os olhos.
— Mas eles vão se arrepender por tudo isso um dia — disse, golpeando a mesa com o punho cerrado. A violenta autocompaixão do momento anterior se transformara num ódio igualmente violento. — Eles me pagarão por todo esse sofrimento. Quando eu for rico.
— Assim é que se diz — encorajou-o o mr. Cardan.
— Treze anos nessa vida — continuou o mr. Elver. — E dois anos e meio na guerra, usando um uniforme e preenchendo formulários numa cabana de madeira em Leeds. Mas isso foi melhor do que correr atrás de anúncios. Treze anos de servidão penal acrescida de tortura! Mas eles me pagam, eles me pagam! — concluiu, golpeando a mesa.
— Entretanto — disse o mr. Cardan —, agora parece que o senhor já está livre de tudo isso. Viver aqui na Itália é um sinal dessa liberdade; pelo menos assim espero.
Ao ouvir isso, a ira do mr. Elver contra “eles” desapareceu instantaneamente. Seu rosto adquiriu uma expressão misteriosa e astuta. Ele sorriu de uma maneira pretensamente obscura, secreta, satânica; um sorriso que certamente não passaria despercebido aos olhos mais atentos. Mas o próprio mr. Elver descobriu que, em sua embriaguez, o sorriso se ampliava, tornava-se cada vez mais largo. Não que ele pretendesse mostrar os dentes, rir em voz alta ou que fosse muito engraçado o que ele pensava secretamente. Não era, nem se ele estivesse sóbrio. Mas agora o mundo parecia nadar em um mar borbulhante de hilaridade. Além do mais, os músculos de sua face, ao iniciar-se o riso satânico, fugiram-lhe do controle e começaram a transformar o que deveria ser a expressão dos pensamentos mais obscuros e temíveis de Lúcifer no riso forçado de um imbecil. Depressa o mr. Elver escondeu-se dentro do copo, na esperança de poder ocultar de seu hóspede o riso rebelde. Emergiu de dentro dele engasgado. O mr. Cardan voltou a dar tapinhas em suas costas. Quando tudo passou, o mr. Elver reassumiu a fisionomia misteriosa e meneou a cabeça significativamente.
— Talvez — disse de uma maneira dúbia, não tanto em resposta a qualquer coisa que o mr. Cardan tivesse dito sobre princípios gerais, por assim dizer, mas para indicar que a situação toda era, enfim, dúbia, obscura e contingente, contingente de toda uma cadeia de futuras contingências.
A curiosidade do mr. Cardan foi despertada pelo espetáculo dessa estranha pantomima; completou o copo do anfitrião.
— Entretanto, se o senhor não tivesse se libertado, como poderia estar aqui... — Ele quase acrescentou “neste pântano horrível”, mas pensou melhor e disse: — Na Itália.
O outro balançou a cabeça.
— Vou lhe dizer — e novamente o riso satânico ameaçava expandir-se até a imbecilidade.
O mr. Cardan voltou a ficar em silêncio, satisfazendo-se em esperar. Na fisionomia do mr. Elver ele podia ver que o esforço para manter seu segredo era intoleravelmente grande. A fruta amadurecera na hora certa. Ele não disse nada e ficou olhando pensativo para um dos cantos escuros da câmara mortuária, como se estivesse ocupado com os próprios pensamentos.
Com o semblante carregado, o mr. Elver curvou-se sobre a mesa. De vez em quando bebia um gole de vinho. Seu humor, mutável com a embriaguez, de hilariante tornou-se profundamente melancólico. O silêncio, a escuridão amenizada funereamente pelas quatro velas tremeluzentes afetavam sua mente. O que no momento anterior parecera uma grande anedota apresentava-se-lhe agora como algo aterrador. Ele sentia grande necessidade de desabafar, de transferir responsabilidades para outros ombros, de ouvir conselhos que lhe confirmariam a própria maldição. Ele espiou furtivamente seu hóspede. Com que abstração e distanciamento fixava o vazio! Não havia nele nenhum pensamento, nenhum sentimento de solidariedade pelo pobre Philip Elver. Ah, se ele soubesse...
Por fim, rompeu o silêncio.
— Diga-me — começou bruscamente, e em sua embriaguez pareceu-lhe exibir uma incrível sutileza em seu método de abordar o assunto. — Acredita em vivissecção?
O mr. Cardan foi surpreendido pela pergunta.
— Se acredito? — repetiu. — Não sei como se pode acreditar em vivissecção. Acho útil, se é isso que quer saber.
— Não acha que seja errado?
— Não — disse o mr. Cardan.
— Acha que não tem importância dissecar animais?
— Não, se servir a algum propósito útil ao ser humano.
— Não acha que os animais possuem direitos? — prosseguiu o mr. Elver com uma clareza e tenacidade que, para um bêbado, chegaram a surpreender o mr. Cardan. Estava claro que esse era um assunto sobre o qual o mr. Elver tinha meditado longamente. — Tal como os seres humanos?
— Não — disse o mr. Cardan —, não sou um desses tolos que acham que uma vida é tão boa quanto outra, simplesmente porque é vida; um gafanhoto não vale tanto quanto um cão, nem um cão vale tanto quanto um homem. É preciso reconhecer a hierarquia da existência.
— A hierarquia — exclamou o mr. Elver, encantado com a palavra. — Hierarquia, é isso, é exatamente isso. Hierarquia. Também entre os seres humanos?
— Sim, é claro — afirmou o mr. Cardan. — A vida do soldado que matou Arquimedes não vale a vida de Arquimedes. É uma falácia fundamental da democracia e do humanismo cristão suporem que seja. Embora, é claro — acrescentou pensativamente —, não existam razões justas para se afirmar isso, exceto por uma questão de preferências instintivas. Porque, afinal, o soldado pode ter sido bom pai e bom marido, pode ter passado as porções não profissionais de sua vida oferecendo a outra face e fazendo crescer duas folhas de grama onde antes nascia apenas uma. Se, como Tolstói, nossas preferências forem pela paternidade, por oferecer a outra face e pela agricultura, então podemos dizer que a vida do soldado vale tanto quanto a de Arquimedes; muito mais até, porque Arquimedes era um mero geômetra que se ocupava de linhas e ângulos, de curvas e superfícies, e não do bem e do mal, dos relacionamentos conjugais e da religião. Mas, se, ao contrário, as preferências forem de uma cepa mais intelectual, então se pode pensar como eu: a vida de Arquimedes vale mais que a vida de vários bilhões dos mais corajosos soldados. Mas quanto a dizer qual dos pontos de vista é correto — o mr. Cardan encolheu os ombros —, companheiro, isso é com você.
O mr. Elver parecia desapontado com a circunvolução inconclusiva do discurso do seu hóspede.
— Mesmo assim — insistiu —, é óbvio que um sábio vale mais que um imbecil. Há uma hierarquia.
— Bem, pessoalmente eu diria que sim — concordou o mr. Cardan. — Mas não posso falar pelos outros. — Ele percebeu que se deixara levar pelos prazeres da especulação e dissera coisas que seu anfitrião não queria ouvir. Para quase todos os homens, mesmo quando sóbrios, a expectativa de uma opinião é algo extraordinariamente desagradável. E o mr. Elver estava longe da sobriedade; além disso, o mr. Cardan começava a suspeitar que aquela conversa filosófica era uma introdução tortuosa a confidências pessoais. Quando alguém queria fazer confidências precisava concordar com as possíveis opiniões do confidente. Isso era óbvio.
— Ótimo — disse o mr. Elver. — Então admite que um homem inteligente vale mais que um imbecil, um débil mental; ha, ha, um débil mental... — Com essas palavras ele soltou uma gargalhada violenta e selvagem, que, à medida que se prolongava, ia se transformando num choro convulsivo e incontrolável.
Da cadeira onde estava sentado, com as pernas cruzadas, os dedos de uma das mãos tamborilando delicadamente no copo e os da outra manipulando o cigarro, o mr. Cardan via as lágrimas escorrerem pelas faces de seu anfitrião, seu rosto magro e distorcido quase irreconhecível pelo riso e soluços alternados, ele jogado na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, e depois caído sobre a mesa com a testa descansando sobre os braços cruzados, o resto do corpo sendo sacudido pelos espasmos incontroláveis. Muito desagradável, pensou o mr. Cardan, é um tipo muito desagradável. Começou, então, a ter uma vaga ideia do que havia de errado com seu amigo. Bastava traduzir “homem inteligente” e “débil mental” por “eu” e “minha irmã” — em geral, deve-se sempre converter o que existe de filosófico no discurso de qualquer pessoa ao particular e pessoal, se se quiser entendê-la — e interpretar em termos pessoais o que ele dissera sobre vivissecção, direitos animais e hierarquia humana, e chegaria, pela decodificação do cifrado, a quê? A algo que parecia ser tremendamente ignóbil, pensou o mr. Cardan.
— Suponho, então — disse ele com muita tranquilidade, quando o outro se mostrou mais recomposto —, que sua irmã seja a dona do dinheiro.
O mr. Elver olhou-o com uma expressão de surpresa quase alarmada. Esquivou-se, então, do olhar fixo do mr. Cardan, buscando refúgio em seu copo.
— Sim — disse depois de beber. — Como adivinhou?
O mr. Cardan ergueu os ombros.
— Por acaso.
— Depois que meu pai morreu — começou a explicar o mr. Elver —, ela foi morar com a madrinha, a dona da maior casa da região. Era uma velha muito ruim. Mas recebeu Grace e adotou-a. Quando a galinha velha morreu, no começo deste ano, Grace soube que ela lhe havia deixado vinte e cinco mil libras.
O único comentário do mr. Cardan foi estalar a língua no céu da boca e erguer as sobrancelhas.
— Vinte e cinco mil — repetiu o outro. — Para uma débil mental, uma imbecil! O que ela vai fazer com tudo isso?
— Pode trazer o senhor para a Itália — sugeriu o mr. Cardan.
— Oh, é claro que podemos viver muito bem com os rendimentos desse dinheiro — disse o mr. Elver com desdém —, mas quando penso em como esse capital poderia ser multiplicado... — Ele inclinou-se, animado, pousando por alguns instantes os olhos no rosto do mr. Cardan, mas desviando-os em seguida e fixando-os em um dos botões da jaqueta de seu hóspede, de onde ocasionalmente ele os erguia para um rápido reconhecimento e logo retornava. — Eu já planejei tudo, ouça. — Começou a falar tão rápido que suas palavras tropeçavam umas nas outras, tornando-se quase incoerentes. — O ciclo comercial, sabe? Posso prognosticar exatamente o que poderá acontecer em determinado momento. Por exemplo... — E passou a divagar, fazendo uma série de complicadas explanações.
— Bem, se tem tanta certeza de tudo — disse o mr. Cardan, quando o outro concluiu —, por que não convence sua irmã a lhe emprestar o dinheiro?
— Por quê? — repetiu o mr. Elver, desanimado, encostando-se novamente na cadeira. — Porque a maldita velha prendeu todo o dinheiro. Ele não pode ser tocado.
— Talvez ela não confiasse no ciclo comercial — sugeriu o mr. Cardan.
— Maldita seja! — exclamou o outro ardentemente. — Quando penso no que poderia fazer com aquele dinheiro, multiplicá-lo muito mais... Ciência, arte...
— Sem falar na vingança contra seus velhos conhecidos — disse o mr. Cardan, cortando-o. — Já pensou nisso também?
— Pensei em tudo — disse o mr. Elver. — A vingança não poderia ser mais terrível. E essa maldita bruxa dá o dinheiro a uma débil mental, e ainda por cima impossibilita-me de tocar nele. — Seus dentes rangiam de ódio e desespero.
— Mas, se sua irmã morrer solteira, o dinheiro será seu.
O outro assentiu.
— É a própria questão hierárquica — concluiu o mr. Cardan. Na câmara mortuária fez-se um silêncio prolongado.
O mr. Elver atingira o último estágio da intoxicação. Começou a sentir-se fraco, profundamente cansado, extenuado. Raiva, hilaridade, sensação de poder satânico — tudo desaparecera. Restou-lhe apenas a vontade de ir para a cama o mais depressa possível; ao mesmo tempo, duvidava que pudesse chegar até lá. Ele fechou os olhos.
O mr. Cardan observou cientificamente a figura fraca e encharcada com seus olhos de especialista. Era claro que aquela criatura não faria mais nada; chegara a um estado em que não pensaria em outra coisa exceto na náusea crescente. Chegara a hora de mudar de tática. Ele se inclinou para a frente e, dando dois ou três tapinhas no braço do seu anfitrião, desferiu o ataque direto.
— Então o senhor trouxe a pobre moça para cá para se livrar dela?
O mr. Elver entreabriu pesadamente as pálpebras e dirigiu um olhar atormentado ao implacável perseguidor. Seu rosto estava lívido. Ele virou a cabeça.
— Não, não, isso não — a voz ia se dissolvendo num sussurro instável.
— Isso não? — ecoou o mr. Cardan com desprezo. — Mas é óbvio que sim! Foi só o que ouvi de sua boca na última meia hora.
O mr. Elver continuou murmurando:
— Não, não...
O mr. Cardan ignorou a negação.
— E como pretende fazer isso? Seja qual for sua escolha, é sempre arriscado; e eu não diria que o senhor é um homem especialmente corajoso. Como? Como?
O outro balançava a cabeça.
— Arsênico? — insistiu o mr. Cardan. — Um punhal? Não, o senhor não teria estômago para isso. Ou será que pretende que ela caia num daqueles canais tão convenientes?
— Não, não. Não!
— Mas eu insisto em que me conte — disse o mr. Cardan com truculência, batendo na mesa; os reflexos das velas nos copos cheios de vinho chegaram a tremer e balançar.
O mr. Elver chorava com o rosto entre as mãos.
— O senhor é tirânico — soluçou ele —, como todos os outros.
— Vamos lá — protestava o mr. Cardan. — Não leve tudo tão a sério. Sinto muito por estar aborrecendo o senhor. Não deve pensar — acrescentou — que eu tenha preconceitos vulgares contra essas coisas. Longe disso. Não usarei suas palavras contra o senhor. Só estou lhe perguntando por pura curiosidade. É pura curiosidade. Ânimo, vamos lá! Beba mais um pouco de vinho.
O mr. Elver estava deploravelmente mal para poder pensar em vinho sem sentir repugnância. Recuou, o corpo inteiro estremecendo.
— Não pretendo fazer nada — murmurou. — Só espero que aconteça.
— Só espera que aconteça? O senhor deve ser um homem muito crédulo — disse o mr. Cardan.
— Está em Dante, o senhor sabe. Meu pai me educou com Dante; e eu que tinha horror a tudo aquilo... — acrescentou, como se se tratasse de óleo de rícino. — Mas aquelas coisas acabaram ficando
dentro de mim. Lembra-se da mulher que conta como morreu? “Siena mi fe; disfecemi Maremma”?[23] O
marido prende-a num castelo nos pântanos e ela morre de febre? Lembra-se?
O mr. Cardan meneou a cabeça afirmativamente.
— Essa é a ideia. Eu tomo quinino; desde que cheguei tomo dez gramas por dia; só por segurança. Mas parece que não há mais malária por aqui. Já chegamos há nove semanas.
— E nada aconteceu! — O mr. Cardan jogou-se para trás na cadeira, soltando uma gargalhada. — Bem, a moral dessa história é — acrescentou ao recobrar o fôlego e conseguir falar: — Como as autoridades locais são modernas!
Mas o mr. Elver não entendeu a piada. Levantou-se cambaleando de sua cadeira e apoiou-se na mesa.
— Pode ajudar-me a ir para o quarto? — pediu debilmente. — Não estou me sentindo muito bem.
O mr. Cardan primeiro o ajudou a chegar ao jardim.
— Deve aprender a beber seu vinho com mais segurança — disse, quando o pior havia passado. — Essa é a outra moral da noite.
Depois de deitar seu anfitrião na cama, o mr. Cardan foi para o quarto que lhe fora indicado e se despiu. Ficou um longo tempo acordado. Em parte os mosquitos, em parte seus próprios pensamentos eram responsáveis pela insônia.