Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 12 de 43

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Folhas inúteis

Capítulo 3

 

Lembro-me de um anúncio — creio que era de uma pastilha para tosse — que durante grande período da minha infância figurou na contracapa de alguns semanários. Sobre a legenda “Em cada lar, uma floresta de pinheiros” aparecia uma ilustração com três ou quatro pinheirinhos noruegueses crescendo no tapete de uma sala de estar em que a dona de casa, seus filhos e alguns convidados tomavam chá sob sua sombra aromática e salutar, incrivelmente à vontade, como se fosse muito natural ter uma sequoia brotando dentro da lareira. “Em cada lar, uma floresta de pinheiros”... Mas eu pensava em algo ainda melhor: “Um Luna Park em cada escritório”, “Uma Feira de Diversões do Império Britânico em cada banco”, “Um Earl’s Court em cada fábrica”. É verdade que não posso pretender trazer todas as atrações de um parque de diversões para o meu local de trabalho — só a montanha-russa, o trenó aquático ou o trenzinho que atravessa morros. Está além do poder de minha mágica fazer surgir como por encanto os vários tipos de carrossel. O movimento horizontal e o giro rápido não sou capaz de reproduzir; minha especialidade são as descidas vertiginosas, a perda de fôlego, o frio no estômago, essa deliciosa sensação de que as vísceras foram deixadas num patamar superior. Aqueles que ressentem a monotonia e mesmice da vida em um escritório, que anseiam por um pouco de excitação para diversificar a rotina cotidiana deveriam experimentar minha receita e introduzir um trenó aquático em um escritório de contabilidade. É bem simples. Tudo o que se tem a fazer é parar por um momento o trabalho e perguntar a si mesmo: por que estou fazendo isto? De que me serve, afinal? Terei eu vindo ao mundo, provido de uma alma provavelmente imortal, apenas para me sentar todos os dias diante desta mesa? Faça a si mesmo essas perguntas com toda a sinceridade e seriedade. Reflita por um momento sobre a importância delas e garanto-lhe que, sentado como provavelmente você está em um assento duro ou almofadado, sentirá imediatamente um vazio se abrir sob a cadeira e começará a deslizar de cabeça, cada vez mais rápido, para dentro do nada.

Para os que não podem dispensar as fórmulas e orações prontas recomendo este pequeno catecismo para ser lido durante o expediente, toda vez que o tempo começar a se arrastar.

P.: Por que estou trabalhando aqui?

R.: Para que os judeus corretores da Bolsa possam trocar seus Rovers por Armstrong-Siddeleys, comprar os últimos discos de jazz e passar os fins de semana em Brighton.

P.: Por que continuo a trabalhar aqui?

R.: Pela esperança de um dia também poder passar um fim de semana em Brighton.

P.: O que é o progresso?

R.: Progresso é: corretores da Bolsa, mais corretores da Bolsa e ainda mais corretores da Bolsa.

P.: Qual é o objetivo dos reformistas sociais?

R.: O objetivo deles é criar um Estado no qual todo indivíduo tenha o máximo de liberdade e tempo livre.

P.: O que farão os cidadãos desses Estados reformados com tanta liberdade e tempo livre?

R.: Provavelmente o que fazem os corretores da Bolsa hoje em dia, ou seja, passar o fim de semana em Brighton, dirigir seus veículos em alta velocidade e ir ao teatro.

P.: Quais são as condições para que eu possa ter uma vida de prazeres?

R.: A condição é que você não pense.

P.: Qual a função dos jornais, do cinema, do rádio, das motocicletas, das bandas de jazz etc.?

R.: A função deles é evitar que você pense e ajudá-lo a passar o tempo. São os instrumentos mais poderosos da felicidade humana.

P.: O que Buda considera o mais mortal dos pecados mortais?

R.: A inconsciência e a estupidez.

P.: E o que acontecerá se eu me tornar consciente, se começar a pensar realmente?

R.: A sua cadeira giratória se transformará em um vagonete de montanha-russa, o chão do escritório se abrirá suavemente embaixo dele e você se verá escorregando para dentro do abismo.

Caindo, caindo, caindo! A sensação, embora vertiginosa, é muito boa. Sei que a maioria das pessoas poderá achar isso um pouco exagerado e consequentemente parará de pensar; nesse caso, o vagonete se reconverterá em cadeira giratória, o chão voltará a se fechar e as horas diante da escrivaninha parecerão outra vez um tempo que passa de maneira perfeitamente razoável. Também é possível, embora seja mais raro, que as pessoas fujam em pânico do escritório e enterrem a cabeça, como avestruzes, numa religião ou não sei que mais. Para os mais fortes e inteligentes, tanto uma saída como a outra são inadmissíveis; a primeira porque é estúpida e a segunda porque é covarde. Nenhum homem respeitável as aceitará sem refletir ou, se o fizer, fugirá irresponsavelmente da realidade da vida. Orgulho-me de ter escolhido a direção correta. Tendo procurado o coração da realidade — Gog’s Court, para ser mais explícito —, assumo minha posição lá; e, embora esteja completamente consciente da realidade que me rodeia e lembre-me sempre da completa imbecilidade do que estou fazendo, mesmo assim permaneço heroicamente em meu posto. Passo todo o tempo na montanha-russa; minha vida é um constante escorregar para dentro do nada.

Insisto em dizer que isso faz parte de toda a minha vida porque não é apenas em Gog’s Court que introduzo com minhas mágicas as delícias de um parque de diversões. Também minha vida particular é organizada de modo que eu possa sempre escorregar, mesmo não estando dentro do escritório. Meu coração, como diz o poeta, é como um pássaro cujo ninho foi construído num esqui aquático. Posso assegurar que a pensão da srta. Carruthers em Chelsea é um lugar tão adequado para se escorregar quanto qualquer Temple Bar do leste de Londres. Sou um dos pilares daquele estabelecimento, moro lá há quatro anos e todas as noites, quando me sento para jantar com os outros hóspedes, é como se ocupasse o meu lugar num vagonete de montanha-russa, familiar e especialmente espaçoso. Todos a bordo e lá vamos nós! A toda velocidade o vagonete é arremetido no vazio.

Deixe-me descrever uma noite nesse vagonete doméstico. À cabeceira da mesa senta-se a própria srta. Carruthers; 37 anos, gorda, apesar de solteira, um rosto que se alarga na base, bastante flácido nas faces e no queixo — em resumo, como um buldogue; o nariz arrebitado espia através das narinas erguidas e os pequenos olhos castanhos confirmam a comparação. E que atividade! Nunca caminha, mas corre pela casa como uma endemoniada; nunca fala, mas grita estridentemente; fatia o rosbife com uma fúria científica; ri como um pica-pau gigante. Vem de uma distinta família, que nos dias de glória jamais teria sonhado que uma de suas filhas viesse a se tornar o que a srta. Carruthers chama — conferindo-se o mais humilhante dos títulos e rindo ao fazê-lo, para enfatizar o contraste pitoresco entre o que ela foi por nascimento e ao que está reduzida por força das circunstâncias — de “dona de pensão”. Ela crê firmemente em sua classe, e para os hóspedes mais distintos deplora a necessidade de ter que admitir em seu estabelecimento pessoas não muito, muito... Sempre tem o cuidado de não misturar pessoas de espécies diferentes. Os hóspedes mais bem-educados sentam-se à mesa perto dela; isso subentende que nas proximidades da srta. Carruthers eles poderão se sentir mais em casa. Durante anos tive a honra de me sentar à esquerda dela; embora eu fosse menos próspero do que a sra. Cloudesley Shove, a viúva do corretor (ela se senta gloriosamente à direita), pelo menos frequentei, na minha juventude, um respeitável centro de aprendizado.

O gongo reverbera; pontualmente desço correndo para a sala de jantar. Com fúria e precisão, como um maestro regendo uma abertura de Wagner, a srta. Carruthers está cortando a carne.

— Boa noite, mr. Chelifer — cumprimenta-me ela em voz alta, sem interromper sua atividade. — Que notícias da cidade nos traz hoje?

Sorrio afavelmente e, como um profissional, esfrego as mãos.

— Hoje não há muito para contar.

— Boa noite, sra. Fox. Boa noite, mr. Fox. — Os dois velhos ocupam os lugares perto da extremidade oposta da mesa. Eles não são muito, muito... — Boa noite, srta. Monad. — Essa senhorita faz um responsável trabalho de secretariado e se senta perto do mr. Fox. — Boa noite, mr. Quinn. Boa noite, srta. Webber. Boa noite, mr. Crotch. — Mas o tom com que ela responde ao cortês cumprimento do mr. Dutt é muito menos afável. O mr. Dutt é um indiano, um negro, como diz a srta. Carruthers. Seu “boa noite, mr. Dutt” demonstra que ela conhece seu lugar e espera que o homem de raça inferior saiba qual é o dele. A copeira entra com uma travessa de verduras. Crambe ripetita — aroma inspirador! Mentalmente irrompo num poema.

 

Estas verduras, como o remorso vicioso,

Trazem à lembrança e profetizam

Futuros banquetes em que a sra. Cloudesley Shove

Recordará o saudoso Cloudesley.

Ainda,

Por entre os cedros de lua iluminados,

Lembra sempre, sempre mais o rouxinol,

A velha dor, a eterna dor;

E ainda, viciosamente, o ar assombrado

Lembra que as rosas são vermelhas

E amanhã também o serão.

Mas “Cloudesley, Cloudesley!”, soluça em vão

Pela noite o rouxinol; pois Cloudesley Shove está morto.[7]

 

E em carne e osso, como que irresistivelmente atraída pela minha mágica, a sra. Cloudesley enegrece o vão da porta com sua viuvez.

— Hoje não foi um bom dia — diz ela ao sentar-se.

— Não foi mesmo — a srta. Carruthers concorda vigorosamente. E sem desviar a atenção da carne, sem reduzir por um instante a velocidade do corte, prossegue: — Fluffy! — grita por sobre o vozerio crescente. — Por que está rindo dessa maneira?

Educadamente, o mr. Chelifer se ergue um pouco da cadeira quando a srta. Fluffy aproxima-se, agitada, na esteira de sua risada, e senta-se ao lado dele. Sempre o perfeito cavalheiro.

— Eu não estava rindo, srta. Carruthers — protesta Fluffy. O sorriso revela acima da raiz dos dentes uma linha de gengivas quase brancas.

— É verdade — diz o jovem mr. Brimstone, seguindo Fluffy de maneira menos tumultuosa e sentando-se à frente dela, perto da sra. Cloudesley. — Ela não estava rindo. Só estava gargalhando.

Todos riem ruidosamente, inclusive a srta. Carruthers, mas sem interromper o corte da carne. O mr. Brimstone permanece sério. Por trás do pince-nez sem aro percebe-se no máximo uma piscadela. Quanto à srta. Fluffy, ela quase morre de rir.

— Você é mesmo terrível! — grita ela, sempre rindo, assim que lhe é possível retomar o fôlego para articular as palavras. E, pegando o pão, finge atirá-lo por sobre a mesa no rosto do mr. Brimstone.

— Tenha cuidado — adverte ele, erguendo um dedo. — Se não se comportar, irá para o canto de castigo e dormirá sem jantar.

As risadas irrompem novamente. A srta. Carruthers intervém:

— Pare de provocá-la, mr. Brimstone.

— Provocar? — diz o mr. Brimstone com ares de quem está sendo mal interpretado. — Mas eu só estava aplicando uma persuasão moral, srta. Carruthers.

O inigualável Brimstone! Ele é a alma e a vida do estabelecimento da srta. Carruthers. Um jovem tão sério, tão culto e tão perspicaz — mas também tão requintadamente pândego e galante! Vê-lo brincar com Fluffy é tão divertido quanto assistir a uma comédia.

— Pronto! — diz a srta. Carruthers, depondo suas facas ruidosamente. Com energia e espalhafato ela desempenha suas funções de anfitriã. — Fui ao Buzard’s esta tarde — anuncia, sem disfarçar o orgulho. As antigas famílias do condado, como eram as nossas, sempre compravam seu chocolate nas melhores lojas. — Mas já não é como antes. — Ela balança a cabeça; os áureos tempos feudais pertencem ao passado. — Não é a mesma coisa. Pelo menos desde que o abc assumiu o controle.

— Vocês sabiam — pergunta o mr. Brimstone, retomando a seriedade — que a nova Lyons Corner House, em Piccadilly Circus, servirá catorze mil refeições por ano? — O mr. Brimstone é sempre uma mina de estatísticas interessantes.

— Não! É mesmo? — A sra. Cloudesley está atônita.

Mas o velho mr. Fox, que por acaso lê o mesmo vespertino, toma para si quase todo o crédito de erudição do mr. Brimstone ao acrescentar, antes que o outro tivesse tempo de fazê-lo: — Sim, é duas vezes o número de refeições que qualquer restaurante norte-americano consegue servir.

— Grande Inglaterra! — grita a srta. Carruthers patrioticamente. — Esses ianques ainda não nos venceram em tudo.

— Sempre achei essas Corner Houses muito boas — diz a sra. Cloudesley. — A música que tocam lá é mesmo bastante clássica, às vezes.

— Bastante — diz o mr. Chelifer, saboreando com volúpia o prazer de lançar-se alcantiladamente da extremidade da mesa para dentro do espaço interestelar.

— E com que luxo elas são decoradas! — continua a sra. Cloudesley.

Mas o mr. Brimstone sabiamente a informa de que o mármore nas paredes tem menos de uma polegada de espessura.

E a conversa prossegue.

— Os bárbaros — diz a srta. Carruthers — apenas se fingem de mortos.

O mr. Fox é a favor de um governo negociador. O mr. Brimstone gostaria de ver alguns grevistas baleados, para intimidar os demais; a srta. Carruthers concorda. Por sob o saleiro, a srta. Monad diz uma palavra em favor da classe trabalhadora, mas seu comentário é tratado com o desprezo que merece. A sra. Cloudesley acha Charles Chaplin muito vulgar, mas gosta de Mary Pickford. A srta. Fluffy gostaria que o príncipe de Gales se casasse com uma boa e simples moça inglesa. O mr. Brimstone diz qualquer coisa engraçada sobre a sra. Asquith e lady Diana Manners. A sra. Cloudesley, que tem profundo conhecimento da família real, menciona a princesa Alice. Contraponteando, a srta. Webber e o mr. Quinn discutem as últimas peças de teatro e o mr. Chelifer junta-se à srta. Fluffy numa conversa sobre as moças modernas que logo ocupa a atenção de todos os que se sentam próximos à cabeceira da mesa. A sra. Cloudesley, a srta. Carruthers e o mr. Brimstone concordam em que essas moças são educadas com muita liberdade. A srta. Fluffy adere com tons penetrantes à opinião oposta. O mr. Brimstone faz algumas piadas esplêndidas sobre a educação mista, e todos convêm nas mais variadas e lastimáveis opiniões. A srta. Carruthers, que é pouco paciente com os dissidentes, gostaria de vê-los cobertos de alcatrão e penas — todos, menos os pacifistas, que, assim como os grevistas, poderiam ser aniquilados com um rápido tiroteio. A linfática sra. Cloudesley, com súbita e surpreendente ferocidade, quer o mesmo tratamento para os judeus. (O pranteado Cloudesley tinha conexões com Belfast.) Mas nesse momento ocorre um lamentável incidente. O mr. Dutt, o indiano, que de sua esfera inferior nem sequer poderia ter ouvido a conversa chegar aonde chegou, inclina-se para a frente e, falando em voz alta por sobre o abismo que se interpõe entre ele e os demais, abraça ardorosamente a causa judia. Sua eloquência reverbera pela mesa entre duas barreiras de horrorizado silêncio. Por um momento nada é ouvido senão os ardorosos suspiros nacionalistas e o polido regurgitar de sementes de ameixa nos pratos. Na presença desse fenômeno chocante e desconhecido, ninguém sabe exatamente o que fazer. Mas, passado o primeiro momento, a srta. Carruthers se mostra à altura das circunstâncias.

—Ah, mr. Dutt — diz ela, interrompendo o discurso veemente —, mas é bom lembrar que a sra. Cloudesley Shove é uma inglesa. É improvável que o senhor possa sentir o que ela sente. Ou será que é possível?

Todos nós tivemos vontade de aplaudir. Sem esperar pela resposta do mr. Dutt e deixando três ameixas intactas no prato, a srta. Carruthers se levanta e se dirige com dignidade para a porta. Em voz alta, já no corredor, ela comenta a insolência do negro.

— Quanta ingratidão! Depois de eu ter concordado em abrir uma exceção à minha regra de não aceitar pessoas de cor!

Todos compartilhamos esse sentimento. Na sala de estar a conversa continua. O vagonete mergulha de cabeça.

“Um lar longe de casa” — era assim que a srta. Carruthers descrevia seu estabelecimento nos prospectos. Foi a distância o que primeiro me atraiu para ele. O longo caminho percorrido entre aquilo que eu chamava de lar até o momento em que aqui cheguei; isso me fez decidir ficar para sempre na casa da srta. Carruthers. Esta casa me pareceu tão distante daquela em que nasci quanto qualquer outro lugar que eu pudesse convenientemente encontrar.

“Eu me lembro, eu me lembro...” Uma ocupação fútil e sem sentido, embora seja difícil não se entregar a ela. Eu me lembro. Nossa casa em Oxford era alta, estreita e escura. Dizia-se que o próprio Ruskin a havia projetado. As janelas frontais davam para Banbury Road. Nos dias de chuva, quando eu era criança, costumava passar manhãs inteiras olhando para a rua. A cada vinte minutos um bonde puxado por dois velhos cavalos sonolentos passava com movimentos ondulatórios, mais devagar do que um homem caminhando. O pequeno jardim atrás da casa me parecia enorme e romântico, o cavalinho da escola maternal tão grande quanto um elefante. A casa foi vendida e hoje me alegro por isso. Esses lugares e objetos habitados pela memória são perigosos. É como se, por um processo de metempsicose, a alma dos eventos mortos se desprendesse e se alojasse numa casa, numa flor, numa paisagem, num grupo de árvores visto da janela de um trem contra o horizonte, numa antiga fotografia, num velho estojo, num livro, num perfume. Nesses lugares carregados de memórias, entre os objetos perseguidos por fantasmas de outras épocas, somos tentados a meditar com muito carinho sobre o passado, a revivê-lo de maneira mais elaborada, mais conscienciosa, mais bela e harmoniosa, quase como se fosse uma vida imaginada no futuro. Rodeados por esses fantasmas, podemos negligenciar o presente em que vivemos corporalmente. Fico feliz que a casa tenha sido vendida; era perigosa. E viva a srta. Carruthers!

Mesmo assim, enquanto eu flutuava na água naquela manhã, meus pensamentos se transferiram do “lar longe de casa” para o outro, do qual eu estava tão distante. Lembrei-me da última visita que fizera à velha casa, um ou dois meses antes de minha mãe ter decidido mudar de lá. Sentira-me como um coveiro à beira de um túmulo ao subir os degraus para o pórtico ogival. Puxei com força o fio de metal preso ao sino; um rangido, um ruído metálico, e ao longe, como se por acidente, depois de uma reflexão tardia, o sino rachado tilintou. Em instantes a porta se abriu, eu entrei e, lá dentro, no quarto ainda mobiliado, a velha mãe estava repousando — a minha mãe.

Nada jamais mudava entre aquelas paredes góticas. Imperceptivelmente, os móveis tinham envelhecido; o papel de parede e a tapeçaria lembravam, pela neutralidade dos tons castanhos e verdes discretos, o refinamento de outra época. E minha mãe, pálida e grisalha, usando como sempre seus imemoráveis vestidos cinza, continuava igual. Como sempre, seu sorriso era gentil e sem brilho; a voz continuava suavemente modulada, como música erudita bem ensaiada, passando de uma nota a outra. Os cabelos estavam muito brancos — haviam embranquecido cedo e ela me tivera muito tarde. As rugas no rosto eram mais profundas e em maior quantidade. Ela andava ereta, parecia tão ativa quanto sempre fora, não emagrecera nem engordara.

E continuava rodeada por uma matilha de cães abandonados, pobrezinhos, horrivelmente pródigos em sua malcheirosa gratidão. Possuía ainda os mesmos velhos gatos, que eram recolhidos nas ruas para serem alimentados com luxúria, embora a dieta fosse, por princípio, estritamente vegetariana. As crianças pobres continuavam chegando para ganhar pão doce, chá e participar dos tradicionais jogos no jardim — tão tradicionais que quase ninguém, além de minha mãe, ouvira falar deles. Elas vinham também, quando era inverno, para receber luvas e meias de lã e para participar dos tradicionais jogos de salão. E como sempre a escrivaninha na biblioteca continuava cheia de papéis, formulários impressos para alguma obra de caridade. Como sempre, minha mãe, com sua bela caligrafia, endereçava os envelopes que continham esses pedidos; subscrevia-os lentamente, um após o outro — cada um, um pequeno trabalho artístico, como uma página de um missal medieval, e todos destinados, tão logo eram recebidos, à cesta de lixo.

Tudo estava como sempre esteve. Ah, mas não exatamente tudo! Porque, apesar de ser uma radiante tarde de final de verão, o pequeno jardim atrás da casa estava abandonado e silencioso. Onde estariam os

dançarinos de moms , os acordes medievais? Lembrando-me da música, daquelas danças, das tardes

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longínquas, senti vontade de chorar.

A um canto do gramado, minha mãe se sentava diante do pequeno órgão; eu ficava ao lado dela para virar as páginas da partitura. Do outro lado do gramado agrupavam-se os dançarinos. Minha mãe olhava por sobre o instrumento e melodiosamente perguntava:

— Qual será a próxima dança, mr. Toft? Trenchmore ou Omnium Gatherum? Ou John, venha me beijar agora? Ou que tal Todos para cima? Ou Vou acariciá-la com uma palha? Ou Um velho é uma cama cheia de ossos? É mesmo um embarras de richesse, não?

E o mr. Toft se desprendia do pequeno grupo de dançarinos e cruzava o gramado, limpando o rosto com um lenço — porque a Hoite-cum-Toite, recém-terminada, fora uma apresentação das mais furiosas. Ele tinha um rosto cinzento de feições vagas e indeterminadas e um sorriso quase celestial brincava no meio dele. Ao falar, fazia-o com uma voz muito melódica.

— O que acha de tentarmos a Desvanecer, sra. Chelifer? É uma ótima dança. Lembra-se das palavras imortais da Esposa do Cidadão, em O cavaleiro do pilão ardente? Ha, ha! — Ele expressou uma leve risada em louvor à própria espiritualidade. Porque para o mr. Toft qualquer alusão literária era uma brincadeira, e, quanto mais obscura fosse, mais refinada era a pilhéria. Infelizmente era raro encontrar alguém que compartilhasse sua hilaridade. Minha mãe era uma das poucas pessoas que esboçavam um sorriso quando o mr. Toft ria de si mesmo. Ela o fazia mesmo que não fosse capaz de acompanhar a alusão até sua fonte. Às vezes chegava a rir. Mas minha mãe não ria com facilidade; pela própria natureza, era alguém de sorriso grave e delicado.

Então seria Desvanecer. Minha mãe tocou as teclas e uma melodia medieval triste, porém festiva, ressonou do órgão, como um hino estranhamente dissipado.

— Um, dois, três... — contou vigorosamente o mr. Toft.

E então, em uníssono, todos os cinco dançarinos — o professor, os dois alunos e as duas senhoritas de North Oxford — bateram os pés no chão e começaram a rodopiar e saltitar, até que as ligas adornadas com pequenos sinos, que prendiam as pernas da calça de flanela cinza dos cavalheiros (por alguma razão indefinida era fato consumado que as mulheres não deviam usá-las), começassem a retinir como os sinos de um cavalo de fiacre correndo em disparada. Um, dois, três... A esposa do cidadão (ha, ha!) estava certa. Desvanecer era realmente uma ótima dança. Todos dançam Desvanecer. O pobre mr. Toft desvanecera de Oxford, dançara exclusivamente pela vida, como Lycidas (hi! hi!) em seu apogeu. E dos alunos que ali dançavam com o mr. Toft, quantos teriam dançado Desvanecer sob o fogo alemão? O jovem Flint, que sempre se dirigia ao seu professor como “mr. Toft — oh, quero dizer, Clarence” (porque o mr. Toft era um desses mestres joviais e inteligentes que insistem em ser chamados pelo nome de batismo), o jovem Flint certamente estaria morto. E Ramsden também, tenho a impressão de que ele também morreu.

Havia ainda as duas senhoritas de North Oxford. Que tal, por exemplo, as bochechas da srta. Dewball? Como aquelas rosas-de-cem-pétalas teriam suportado a passagem dos anos? E para a srta. Higlett, é claro, não havia mais o que desvanecer, nenhuma dessecação futura. Ela já era uma campânula azul ressecada na areia. A perecível Higlett e a corada Dewball...

E eu, eu também desvanecera. O Francis Chelifer que ao lado do órgão desvanecido virava as páginas da partitura para a mãe também se extinguira tanto quanto o mr. Toft. Sua múmia repousava dentro daquela tumba gótica. Minhas visitas de fim de semana eram expedições arqueológicas.

— Agora que o mr. Toft está morto — perguntei à minha mãe enquanto andávamos de um lado para o outro no jardim atrás da casa — , não há mais ninguém por aqui que pratique a dança moms? — Ou será que aqueles dias folclóricos, perguntei a mim mesmo, também haviam desvanecido para sempre?

Minha mãe meneou a cabeça.

— Já não existe interesse por isso — disse ela com tristeza. — As novas gerações não se entusiasmam mais por essas coisas. Nem sei realmente em que eles estão interessados.

Em quê, realmente? Na minha juventude o interesse era pelo serviço social e pelo fabianismo; pelas longas e entusiasmadas caminhadas pelo campo, a quatro quilômetros por hora, que sempre terminavam com muita cerveja Five X, um poema rabelaisiano e conversas com os camponeses nos pequenos e incrivelmente pitorescos botequins de beira de estrada; pelos grupos de leitura nos lagos e pelas escaladas no Jura; por cantar no coro de Bach e mesmo — embora de certa forma eu nunca tenha me mostrado à altura — pela dança moms com o mr. Toft... Mas Desvanecer é uma ótima dança, e todas essas atividades pareciam-me agora um pouco esquisitas. Mesmo assim, surpreendi-me cobiçando o ser que existira dentro de minha pele e participara delas.

— Pobre Toft! — meditei. — Lembra-se de como costumava chamar os grandes homens por apelidos que ele mesmo inventava? Só para mostrar que tinha certa familiaridade com eles, suponho. Shakespeare era sempre Shake-bake, que por sua vez era a abreviatura de Shake-Bacon. E Oven, tout court, era Beethoven.

— E J.S.B. era Bach — continuou minha mãe com um sorriso elegíaco.

— Sim, e Pee Em era Philipp Emanuel Bach. E Madame Dudevant era George Sand; lembro-me de que de vez em quando ele a chamava de “A enfermeira mensalista da rainha”, porque Dickens a achara parecida com isso na única vez em que a viu. — Lembrei-me da prolongada e deliciosa gargalhada que acompanhava essa alusão.

— Você nunca deu muito para a dança, meu querido. — Minha mãe meneou tristemente a cabeça, lembrando-se do passado.

— Ah, mas pelo menos fui um fabianista — respondi. — E fiz longas caminhadas pelo campo. Também bebi várias Five X no Red Lion.

— Preferia que não tivesse necessitado da cerveja — disse minha mãe. O fato de eu não ter escolhido ser um abstêmio sempre a deixava um pouco angustiada. Além disso, eu gostava de carne.

— Substituí-a pela dança moms, se a senhora me entende.

Mas acho que ela não entendeu. Nós cruzamos o gramado duas ou três vezes em silêncio.

— Como vai seu trabalho no jornal? — perguntou-me ela por fim.

Contei-lhe com grande entusiasmo sobre o cruzamento de angorás com himalaias que acabávamos de publicar.

— Teria sido melhor — disse ela, após uma pausa — se você tivesse aceitado a oferta de bolsa do seu colégio. Seria muito bom tê-lo aqui, preenchendo o lugar deixado por seu pai.

Ela me olhava com tristeza. Sorri-lhe de volta, como se entre nós houvesse um abismo. A criança, pensei, cresce e se esquece de que é feita da mesma carne de seus pais. Mas eles não se esquecem. Desejei, pelo bem de minha mãe, ter apenas cinco anos de idade.