Folhas inúteis
Capítulo 2
— Nós dois — dizia o mr. Cardan, num final de tarde, quinze dias após a chegada de Chelifer —, parece que acabamos ficando de fora.
— De fora de quê? — perguntou o mr. Falx.
— De fora do amor — disse o mr. Cardan.
Por sobre a balaustrada, ele olhava para baixo. No terraço imediatamente inferior, Chelifer e a sra. Aldwinkle caminhavam devagar, de um lado para o outro. No outro terraço, mais abaixo, as figuras reduzidas de Calamy e da srta. Thriplow faziam o mesmo.
— E os outros dois — continuou o mr. Cardan, prosseguindo em voz alta a contagem que ele e seu companheiro pareciam fazer em silêncio, somente com os olhos —, o seu jovem discípulo e a pequena sobrinha, estão caminhando pelas montanhas. E o senhor ainda pergunta de que nós ficamos de fora?
O mr. Falx meneou a cabeça.
— Se quer que lhe diga a verdade — continuou —, não gosto muito da atmosfera desta casa. A sra. Aldwinkle é uma excelente pessoa, é claro, em muitos aspectos. Mas... — ele hesitou.
— Sim, mas... — concordou o mr. Cardan. — Sei aonde quer chegar.
— Vou me sentir melhor quando tiver levado o jovem Hovenden daqui — disse o mr. Falx.
— Ficarei surpreso se conseguir levá-lo sozinho.
Balançando a cabeça, o mr. Falx continuou:
— Há uma complacência moral, uma certa permissividade... Confesso que não gosto deste estilo de vida. Posso ser preconceituoso, mas não gosto.
— Todo mundo tem seu vício preferido — disse o mr. Cardano. — É bom não se esquecer, mr. Falx, de que nós provavelmente não gostemos do seu estilo de vida.
— Protesto! — disse o mr. Falx, inflamado. — Como é possível comparar o meu estilo de vida com o desta casa? Trabalhando incessantemente por uma causa nobre, devoto-me ao bem comum...
— Mesmo assim — replicou o mr. Cardan —, dizem que não há nada mais intoxicante do que falar a uma multidão de pessoas e movê-las da maneira que se quer; dizem também que é profundamente prazeroso ouvir os aplausos. E aqueles que experimentaram uma coisa e outra disseram-me que as alegrias do poder são de longe preferíveis, no mínimo por serem bem mais duradouras, àquelas que derivam do vinho e do amor. Não, mr. Falx; se escolhemos montar os nossos altos cavalos, estamos amplamente justificados, da mesma forma, por desaprovarmos a sua complacência e permissividade, assim como o senhor por desaprovar a nossa. Já percebi que as mais graves e terríveis denúncias de obscenidade na literatura são feitas precisamente por periódicos cujos diretores são conhecidos alcoólatras. E os religiosos e políticos mais vaidosos, com a mais desmedida comichão por poder e notoriedade, são sempre aqueles que denunciam com maior fúria as corrupções de sua época. Um dos maiores triunfos do século xix foi limitar a conotação da palavra “imoral”, de modo que, para propósitos práticos, só eram imorais os que bebiam demais ou faziam amor copiosamente. Os que se entregavam a quaisquer outros ou a todos os demais pecados mortais podiam baixar os olhos com justa indignação diante da lascívia e da gula. Podiam e podem, ainda hoje. Essa exaltação de apenas dois dentre todos os pecados mortais é muito injusta. Em nome de todos os libertinos e beberrões, quero protestar solenemente contra as injustas distinções cometidas em nosso detrimento. Acredite, mr. Falx, não somos menos repreensíveis do que o resto de vocês. Na verdade, comparando-me a alguns de seus amigos políticos, sinto-me no direito de me considerar um santo.
— Mesmo que queira — disse o mr. Falx, cujo rosto, onde não estava coberto pela profética barba branca, tinha se tornado muito vermelho com a indignação mal reprimida —, o senhor não me demoverá de minha convicção de que este não é o ambiente mais saudável para um rapaz como Hovenden, no período mais delicado de sua vida. Por mais paradoxal e ingênuo que lhe pareça, repito que não me demoverá.
— Não é preciso repetir — disse o mr. Cardan, meneando negativamente a cabeça. — Pensa que tenciono demovê-lo de alguma coisa? O senhor não pode ter imaginado que eu perderia meu tempo tentando convencer um homem maduro com opiniões cristalizadas sobre a verdade daquilo que ele acredita. Se o senhor tivesse doze anos de idade, eu até tentaria. Mas na sua idade, não.
— Então por que argumenta, se não quer me convencer?
— Só por argumentar — respondeu o mr. Cardan —, e porque temos que matar o tempo de alguma forma.
Come ingannar questi noiosi e lenti
Giorni di vita cui si lungo tedio
E fastidio insoffribile accompagna
Or io t’insegnero.[17]
— Eu teria feito um manual das artes melhor do que o velho Parini.
— Sinto muito — disse o mr. Falx —, mas não conheço italiano.
— Eu também não conheceria — disse o mr. Cardan — se tivesse as suas mesmas fontes inesgotáveis para matar o tempo. Infelizmente não nasci com muito entusiasmo pelo bem-estar das classes trabalhadoras.
— As classes trabalhadoras... — O mr. Falx agarrou-se a essas palavras e começou a falar apaixonadamente.
Que texto era aquele, pensou o mr. Cardan, sobre a “medida com a qual tu medes”? Como era perigosamente adequado! Durante os últimos dez minutos ele aborrecera o mr. Falx. Agora, o mr. Falx se vingava e devolvia na sua própria medida — mas, oh, Senhor!, uma medida impressa e, que Deus nos acuda!, revisada. O mr. Cardan olhava lá para baixo, por sobre a balaustrada. Nos terraços inferiores, os casais desfilavam para lá e para cá. Gostaria de saber sobre o que estariam conversando, gostaria de estar lá para ouvi-los. Retumbantemente, o mr. Falx representava seu papel de profeta.