Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 20 de 43

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Folhas inúteis

Capítulo 4

 

— Por que você tem andado tão estranha todos esses dias? — lorde Hovenden finalmente formulou a pergunta premeditada havia tanto tempo.

— Estranha? — ecoou Irene em outro tom, tentando fazer uma brincadeira, como se não tivesse entendido o que ele queria dizer. Mas certamente entendera, e muito bem.

Eles estavam sentados à sombra quase escura das oliveiras. Por entre as esparsas folhas bicolores, o céu espiava. Na grama ressecada que crescia sobre as raízes das árvores, os raios de sol espalhavam inúmeras moedinhas douradas. Estavam sentados à beira de um pequeno degrau esculpido no declive íngreme, as pernas balançando e as costas apoiadas no tronco de uma velha árvore.

— Você sabe — disse Hovenden. — Por que de repente começou a me evitar?

— Eu fiz isso?

— Sabe que fez.

Irene ficou em silêncio por um momento antes de admitir:

— Sim, talvez tenha feito.

— Mas por quê? — insistiu ele. — Por quê?

— Eu não sei — respondeu ela tristemente. Não podia contar a ele sobre tia Lilian.

O tom da voz dela incentivou lorde Hovenden a se tornar mais insistente.

— Não sabe? — repetiu com sarcasmo, como um advogado interrogando a testemunha da outra parte. — Talvez estivesse agindo o tempo todo como uma sonâmbula.

— Não seja bobo — disse ela com uma vozinha cansada.

— Mas não tão bobo para não perceber que você corria o tempo todo atrás de Chelifer. — Lorde Hovenden ficara com o rosto vermelho ao falar. Com toda sua dignidade de homem, era uma pena que a sua dificuldade com os “tr” soasse tão infantil.

Irene não disse nada; ficou quieta, com a cabeça baixa e os olhos fixos no arvoredo inclinado. Seu rosto, emoldurado pelo corte reto dos cabelos, estava triste.

— Se está tão interessada nele, por que sugeriu que saíssemos para passear esta tarde? Será que me confundiu com Chelifer? — Ele estava tomado pela necessidade de dizer coisas desagradáveis e ferinas, embora o tempo todo ciente de que se comportava como um tolo e estava sendo indelicado. Mas era irresistível.

— Por que está querendo estragar tudo? — perguntou ela, exasperada de tristeza, mas com profunda paciência.

— Não estou estragando nada — respondeu Hovenden, irritado. — Apenas fiz uma pergunta.

— Sabe que não tenho nenhum interesse por Chelifer.

— Então por que corre atrás dele o dia inteiro como um cachorrinho? — A estupidez do rapaz e sua insistência começavam a aborrecê-la.

— Não faço isso — disse com raiva. — E, se o fizesse, não seria de sua conta.

— Ah, não seria de minha conta, não é? — disse Hovenden num tom provocativo. — Obrigado pela informação. — E ficou em silêncio.

Por longo tempo nenhum deles disse nada. Um carneiro com uma coleira de sinos passou tilintando sob as árvores pouco abaixo deles. Os dois, bastante tristes, seguiram-no com o olhar. O som doce e delicado dos sinos, por alguma razão, deixou-os ainda mais tristes. Triste, também, estava o céu entrevisto através da folhagem; a luz avermelhada do sol poente coloria as folhas prateadas, os troncos cinzentos, a grama ressecada, e provocava uma profunda melancolia. Foi Hovenden quem primeiro quebrou o silêncio. A raiva, a necessidade de dizer coisas desagradáveis e ferinas tinham desaparecido, restava-lhe apenas a convicção de que se comportara como um tolo e fora indelicado — isso, e a dor profunda, responsável por toda a raiva e a necessidade de ser cruel. “Sabe que não tenho nenhum interesse por Chelifer.” Ele não sabia. Mas agora que ela o dissera, e naquele tom de voz, ele ficara sabendo. Não havia como duvidar; e, mesmo que houvesse, valeria a pena?

— Olhe — disse, por fim, numa voz abafada —, acho que me comportei mal. Disse o que não deveria. Sinto muito, Irene, você me perdoa?

Irene voltou para ele a estreita fresta retangular dos cabelos. Por trás, os olhos estavam sorrindo. Ela estendeu-lhe a mão.

— Um dia eu lhe contarei tudo — disse.

Eles ficaram ali de mãos dadas por um tempo prolongado. Não diziam nada um ao outro, mas estavam felizes. O sol se pôs. Um cinzento começo de noite surgia sobre as árvores. Por entre as silhuetas negras da folhagem o céu ia escurecendo.

— É hora de voltarmos — disse ela com relutância.

Hovenden ergueu-se primeiro e ofereceu a mão a Irene. Ela aceitou, e ao se levantar chegou mais para a frente. Por um momento eles ficaram muito próximos um do outro. Lorde Hovenden, então, tomou-a nos braços e beijou-a muitas vezes. Irene se assustou. Lutou, tentando afastá-lo.

— Não, não — protestava entre um beijo e outro, virando o rosto, jogando a cabeça para trás. — Por favor, pare! — Quando por fim ele a soltou, ela cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. — Quer estragar tudo outra vez? — perguntou entre soluços. Lorde Hovenden estava arrependido. — Poderíamos ser tão amigos, tão felizes... — Ela secou os olhos com o lenço, mas sua voz continuava embargada.

— Sou um bruto — disse lorde Hovenden, condenando-se com tanta veemência que Irene não pôde deixar de rir. Havia algo de muito cômico naquele enfático arrependimento.

— Não, você não é bruto — disse ela. Soluços e risadas se misturavam de maneira curiosa. — É muito querido e alguém de quem gosto muito. Muito, muito. Mas não deve fazer mais isso. Por que eu não sei. Você quase estragou tudo e eu fui uma boba por ter chorado. Mesmo assim — ela balançou a cabeça —, gosto muito de você. Mas não desse jeito. Algum dia, talvez. Não vai mais fazer isso? Promete?

Lorde Hovenden prometeu solenemente. Os dois voltaram para casa pelo pomar de oliveiras sob a noite cinzenta.

Mais tarde, durante o jantar, a conversa girou sobre o feminismo. Sob pressão do mr. Cardan, a sra. Aldwinkle admitiu com relutância que havia uma diferença significativa entre Maud Valerie White e Beethoven, e que Angelica Kauffmann era comparável, desfavoravelmente, a Giotto. Mas protestou, por outro lado, que em se tratando de amor as mulheres eram definitivamente injustiçadas.

— Exigimos toda a liberdade de que gozam vocês, homens — disse com dramaticidade.

Sabendo que tia Lilian apreciava que participasse da conversa e lembrando-se — pois tinha boa memória — de uma frase que ela usara com frequência durante certa época, mas que recentemente tinha desaparecido do seu catálogo de locuções favoritas, Irene declarou gravemente:

— A prevenção da gravidez — pronunciou — tornou a castidade supérflua.

O mr. Cardan jogou-se para trás na cadeira e explodiu numa gargalhada.

Mas pelo rosto profético do mr. Falx passou uma expressão de dor. Ele olhou aflito para o seu discípulo, desejando que não tivesse ouvido, ou que pelo menos não tivesse entendido o que acabara de ser dito. Captou a piscadela do mr. Cardan e franziu o cenho. Até que ponto chegariam a corrupção e a permissividade?, pareciam indagar seus olhos. Ele se voltou para Irene; espantava-o que uma aparência jovem e inocente como a dela pudesse estar ligada a uma mente tão corrupta. Pelo bem de Hovenden, era um alívio não lhes restar mais muito tempo naquela casa. Não fosse apenas pela necessidade de ser polido, sairia imediatamente. Como Ló, espanando a poeira dos pés.