Folhas inúteis
Quinta parte - Conclusões
Quinta parte
Conclusões
Capítulo 1
— Em que você está pensando?
— Em nada — disse Calamy.
— Estava sim. Devia estar pensando em alguma coisa.
— Nada em particular — ele repetiu.
— Conte-me — insistiu Mary. — Quero saber.
— Bem, se quer mesmo saber — começou Calamy lentamente... mas ela o interrompeu.
— Por que ergueu a mão daquele jeito? E abriu os dedos contra a janela? Eu vi, sabe? — O quarto estava escuro, mas do outro lado da janela aberta as estrelas brilhavam.
Calamy riu; um riso bastante sem graça.
— Ah, você viu... a mão? Bem, pois era exatamente nela que eu estava pensando.
— Em sua mão? — perguntou Mary, incrédula. — Que coisa estranha para se pensar!
— Mas interessante, quando se pensa seriamente.
— As suas mãos — disse ela suavemente, em outro tom de voz —, as suas mãos. Quando elas me tocam... — Com um movimento feminino de gratidão, de reconhecimento pelos benefícios recebidos, ela se aproximou dele; na escuridão, beijou-o. — Eu o amo demais — sussurrou —, amo muito. — E nesse momento era quase verdadeiro. O espírito forte e completo, escrevera ela em seu caderno de notas, deve ser capaz de amar com fúria, selvageria e insensatez. Ela se orgulhava de sentir-se forte e completa. Certa vez saíra para jantar com um argentino moreno, de pele azeitonada; desdobrando o guardanapo, ele deu início à conversa da noite, num fantástico francês transpirenaico, o único substituto para o seu castelhano, e disse, revirando os olhos para cima e com um sorriso de marfim: “Jé vois qué vous avez du temmperramenk”. “Oh, à revendre”, respondera ela jovialmente, arriscando seu humor parisiense. Que deliciosa diversão! Mas aquilo era Vida, e somente Vida. Ela havia transformado o incidente num conto, havia muito tempo. Mas o argentino a vira com olhos de especialista; e estava certo.
— Eu o amo demais — sussurrou mais uma vez na escuridão. Sim, era verdade, quase verdade naquele momento, naquelas circunstâncias. Pegou a mão dele e beijou-a. — É isso o que penso de sua mão — disse.
Calamy permitiu que sua mão fosse beijada e, tão logo foi decentemente possível, retirou-a com delicadeza. Invisível na escuridão, seu rosto se contraiu numa ligeira careta de impaciência. Naquele momento não estava interessado em beijos.
— Sim — disse meditativamente —, é uma maneira de pensar nesta minha mão; é uma das maneiras de ela existir e ser real. Certamente. E era nisso que eu pensava: em todas as diferentes possibilidades de estes cinco dedos — ele ergueu novamente os dedos e os abriu contra a luminosidade pálida e oblonga da janela — ganharem realidade e existirem. As várias possibilidades — repetiu devagar. — Quando penso nisso, mesmo que por alguns minutos, vejo-me mergulhado até os olhos num dos mais portentosos mistérios. — Ficou um momento em silêncio, e então acrescentou num tom muito sério: — Acredito que se alguém pudesse suportar o esforço de pensar com firmeza em alguma coisa, nesta mão, por exemplo, com muita firmeza e por muitos dias, meses e até anos, seria possível escavar o caminho até o âmago do mistério e chegar realmente a alguma coisa, a algum tipo de verdade ou explicação. — Ele fez uma pausa. Submergir na escuridão, pensou. Lentamente, penosamente, como o Demônio de Milton, abrindo caminho através do caos; no final é possível emergir para a luz, enxergar o universo, esfera dentro de esfera, penduradas no teto do céu. Mas seria um processo lento e trabalhoso; seria preciso tempo e liberdade. Sobretudo liberdade.
— Por que não pensa em mim? — perguntou Mary Thriplow. Erguendo-se com o cotovelo, ela se inclinou sobre ele; com a outra mão, acariciava-lhe a cabeça. — Não mereço que pense em mim? — Ela tinha entre os dedos um punhado de cabelos dele; delicadamente, começou a puxá-los, testando-o, como se estivesse se preparando para algo pior, firmando a mão para um puxão mais violento. Sua vontade era machucá-lo. Mesmo em seus braços, pensava ela, ele lhe escapava, simplesmente não estava ali. — Não mereço que pense em mim? — repetiu, puxando o cabelo com mais força.
Calamy não disse nada. A verdade, refletia ele, é que ela não merecia. Assim como muitas outras coisas. A vida das pessoas é um deslizar sobre gelo fino, uma corrida de baratas-do-mar sobre a pele invisível do oceano. Basta pisar um pouco mais forte, apoiar-se um nadinha a mais, para atravessá-la e afundar num elemento perigoso e desconhecido. O amor, por exemplo, não é algo em que se possa pensar; só se pode suportá-lo quando não se pensa nele. Mas pensar é necessário, é preciso atravessar as suas profundezas, mergulhar nelas. Mesmo assim, de maneira desesperada e insana, permanece-se deslizando na fina superfície.
— Você me ama?
— É claro — respondeu ele, mas o tom de voz não demonstrava muita convicção.
Ameaçadoramente, ela puxou a mecha de cabelos presa em seus dedos. Irritava-a que ele pudesse escapar, que não se entregasse completamente. E o ressentimento por não se sentir amada produzia a convicção complementar de que o amava demais. A raiva e a gratidão física misturadas faziam-na sentir-se, nesses momentos, peculiarmente apaixonada. Ela representava o papel da grande amoureuse, a apaixonada de Lespinasse, e o fazia espontaneamente, sem a menor dificuldade.
— Eu poderia odiá-lo — disse, ofendida — por fazer com que eu o ame tanto.
— E eu? — disse Calamy, pensando em sua liberdade. — Não deveria odiá-la também?
— Não. Porque não me ama tanto.
— Mas isso não importa — disse Calamy, evitando declarar seu protesto contra aquela maldita acusação. — Ninguém se ressente do amor por si mesmo, mas sim por aquilo em que ele interfere.
— Ah, entendo — disse Mary amargamente. Ela estava tão ofendida que só desejava puxar o cabelo dele. Virou-se de costas. — Sinto muito por ter interferido nas suas importantes ocupações — disse com sarcasmo. — Como pensar em sua mão — riu desdenhosamente. Houve um longo silêncio. Calamy nada fez para quebrá-lo; estava magoado com aquele tratamento derrisório dado a um assunto que, para ele, era sério, quase sagrado. Foi Mary quem primeiro falou.
— Por que não me diz, então, no que estava pensando? — perguntou, submissa, virando-se novamente para ele. O amor exige que se engula o orgulho e que se renda. — Por que não me diz? — repetiu, inclinando-se sobre ele. Começou a beijar-lhe uma das mãos, e então mordeu a ponta de um dedo com força. Calamy gritou de dor.
— Por que me faz tão infeliz? — perguntou ela entre os dentes cerrados. Ao dizer isso, viu-se deitada de bruços, chorando desesperadamente. Era preciso ter um espírito muito forte para suportar tanta infelicidade.
— Fazê-la infeliz? — perguntou Calamy, irritado; ainda sentia a dor da mordida. — Isso não é verdade. Eu a faço incrivelmente feliz.
— Sinto-me miserável — respondeu ela.
— Bem, nesse caso é melhor eu ir embora e deixá-la em paz. — Ele retirou o braço que estava sob os ombros dela, como se estivesse realmente se preparando para sair.
— Não, não — implorou Mary. — Não vá. Não fique aborrecido comigo. Desculpe-me. Comportei-me muito mal. Diga-me, por favor, o que pensava sobre sua mão. Estou realmente interessada. Estou interessada de verdade — ela falava com sinceridade, quase infantilmente, como uma garotinha nas palestras da Royal Institution.
Calamy não pôde evitar o riso.
— Mas agora já destruiu o meu entusiasmo pelo assunto — disse. — É difícil retomá-lo assim, a frio.
— Por favor, por favor — insistiu Mary. Errara e devia conseguir o perdão, persuadi-lo com agrados. Quando se ama...
— Você tornou impossível falar de qualquer coisa importante — objetou Calamy. Mas, por fim, deixou que ela o persuadisse. Envergonhado, quase canhestramente, porque a atmosfera na qual as ideias tinham sido ruminadas já se dissipara e era no vazio, por assim dizer, que seus pensamentos agora tentavam retomar fôlego, ele começou sua explicação. Mas aos poucos, à medida que ia falando, o estado de espírito retornava; começava a sentir-se à vontade com o que estava dizendo. Mary ouvia com total atenção, o que, mesmo na escuridão, ele podia perceber de alguma forma.
— Bem, como vê — ele parou, hesitante —, é assim. Eu pensava sobre as várias possibilidades de uma determinada coisa existir; a minha mão, por exemplo.
— Entendo — disse Mary, compreensiva e inteligente. Ela estava ansiosa para provar que ouvira tudo, entendera perfeitamente; podia enxergar até onde não houvesse nada para ver.
— É algo extraordinário a quantidade de maneiras diferentes que uma coisa tem para existir, quando se começa a pensar — continuou Calamy. — E quanto mais se pensa, mais obscura e misteriosa ela se torna. O que parecia sólido se desfaz; o que era óbvio e compreensível torna-se um mistério. Abismos começam a se abrir em toda a volta, mais e mais abismos, como se o chão rachasse num terremoto. Estar na escuridão provoca uma sensação estranha de insegurança. Mas acredito que pensar muito e com firmeza é o caminho para sair dessa escuridão e chegar a algum lugar. Mas aonde se chega, precisamente aonde? Essa é a questão. — Ele ficou em silêncio. Se eu fosse livre, pensava, poderia explorar a escuridão. Mas a carne é fraca; sob a ameaça da deliciosa tortura ela se acovarda e trai.
— E depois? — perguntou Mary, chegando mais perto e delicadamente roçando o queixo dele com os lábios, deslizando as mãos de leve em seu ombro e ao longo do braço. — Continue.
— Muito bem — disse ele, agora muito interessado, afastando-se um pouco dela. Ergueu novamente a mão contra a luminosidade da janela. — Veja: é apenas uma forma que interrompe a luz. Para uma criança que ainda não aprendeu a interpretar o que vê, não passa de um borrão colorido, tão importante quanto um daqueles alvos que representam a cabeça e os ombros de um homem quando se aprende a atirar. Agora, vamos olhá-la como se fôssemos um físico.
— Certo — disse Mary; e pelo movimento dos cabelos arrastando em seus ombros Calamy sentiu que ela balançava a cabeça afirmativamente.
— Nesse caso, então — continuou ele —, devemos imaginar um número quase inconcebível de átomos, cada um deles composto por um número maior ou menor de partículas de eletricidade negativa, que gira vários milhões de vezes por minuto ao redor de um núcleo de eletricidade positiva. As vibrações dos átomos próximos da superfície peneiram, por assim dizer, as radiações eletromagnéticas que caem sobre eles, fazendo com que apenas essas ondas alcancem nossos olhos e nos deem a sensação de uma cor rosada. Rapidamente, poder-se-ia ressaltar que o comportamento da luz é explicado por uma teoria da eletrodinâmica, enquanto o comportamento dos elétrons no átomo só pode ser explicado por uma teoria totalmente inconsistente. Sabe-se que dentro do átomo os elétrons se movem de uma órbita para outra sem levar tempo algum para percorrer esse caminho e sem percorrer qualquer espaço. Na verdade, dentro do átomo não há tempo nem espaço. E assim por diante. Tenho que confiar na maior parte disso, porque na verdade não entendo quase nada dessas coisas. Apenas o suficiente para me sentir mais confuso quando penso nelas.
— Sim, confuso — disse Mary. — É esta a palavra: confuso. — Ela prolongou e acentuou o som do s.
— Bem, são então duas maneiras de esta mão existir — continuou ele. — Há ainda o ponto de vista da química. Esses átomos compostos de mais ou menos elétrons, que giram em torno de um núcleo de maior ou menor carga, são átomos de elementos diferentes que se edificam dentro de um determinado padrão arquitetônico e formam complicadas moléculas.
Compreensiva e inteligente, Mary repetiu:
— Moléculas.
— Mas se, como Cranmer, eu puser minha mão direita no fogo para puni-la por ter cometido algo errado ou indigno (diga-se de passagem que essas palavras nada têm a ver com a química); se eu puser minha mão no fogo, essas moléculas se desagruparão e voltarão a ser os átomos que a constituem, que, por sua vez, se edificarão em outras moléculas. Mas isso nos leva a um conjunto de realidades totalmente diferentes. Porque se eu puser minha mão no fogo sentirei dor; e a menos que, como Cranmer, faça um esforço enorme para mantê-la, ela própria se afastará, independentemente de minha vontade, antes que eu possa perceber. Porque estou vivo, e esta mão faz parte de um ser vivo; e a primeira lei da existência é preservar a vida. Por estar viva, esta minha mão, se for queimada, dará um jeito de se recuperar. Vista por um biólogo, então, ela se revelará um conjunto de células agrupadas que jamais ultrapassarão umas às outras, jamais se proliferarão em loucas aventuras de crescimento, mas que vivem, morrem e se desenvolvem até o final, desde que o todo que elas compõem tenha alcançado o seu propósito, como se obedecessem a um plano preestabelecido. Digamos que a mão se queime: ao redor da queimadura as células saudáveis produzirão novas células, a partir delas mesmas, para recuperar e cobrir os pontos danificados.
— A vida é maravilhosa — disse Mary. — A vida...
— A mão de Cranmer — continuou Calamy — cometeu um ato ignóbil. Ela faz parte não só de um ser humano mas de um ser que conhece o bem e o mal. Esta minha mão pode fazer coisas boas e más. Ela mata um homem, por exemplo; escreve todo tipo de palavras; auxilia um ferido; toca este seu corpo. — Ele pousou a mão sobre um seio; ela levou um susto e estremeceu involuntariamente sob a carícia. Ele devia ter achado isso bastante lisonjeiro, um símbolo de seu poder sobre ela, ou do poder dela sobre ele. — E quando minha mão toca em seu corpo, está tocando também em sua mente. Ela se move, assim, tanto em sua consciência quanto aqui, em sua pele. É minha mente que a ordena; e ela traz o seu corpo até minha mente. Ela existe, então, em minha mente; tem realidade como parte da minha alma e parte da sua.
A srta. Thriplow não pôde deixar de pensar que naquilo tudo havia material para uma profunda digressão, numa de suas novelas. “Esta escritora jovem e séria...”, rabiscariam os revisores na contracapa de seu próximo livro.
— Continue — disse ela.
Calamy continuou:
— São essas, então, algumas das maneiras, existem muitas outras, de minha mão existir e ser real. Esta forma que interrompe a luz: basta pensar nela por cinco minutos para perceber que existe simultaneamente em uma dúzia de mundos paralelos. Existe como cargas elétricas; como moléculas químicas; como células vivas; como pane de um ser moral; como instrumento do bem e do mal; existe no mundo físico e mental. A partir disso é inevitável que se pergunte quais as relações entre esses diferentes modos de existir. O que há em comum entre vida e química, entre bem e mal e cargas elétricas; entre um conjunto de células e a consciência de uma carícia. É neste ponto que os abismos começam a se abrir. Porque não há nenhuma conexão visível. O universo repousa no topo dele próprio, em camadas distintas e separadas.
— Como um sorvete napolitano — a mente de Mary voou imediatamente para essa fantástica e inesperada comparação. “Esta escritora jovem e espirituosa...” Isso já estava escrito na contracapa de seu livro.
Calamy riu.
— Sim — concordou —, como um sorvete napolitano. O que é verdadeiro para a camada de chocolate, na base do sorvete, pode não valer para a última camada de baunilha. E uma verdade para o sorvete de limão é diferente da que o é para o sorvete de morango. E cada um deles tem tanto direito de existir e de se considerar real quanto todos os outros. Certamente não se pode explicar um em termos dos outros, como a baunilha em termos de quaisquer das outras camadas inferiores. Não se explica a mente como mera vida, química ou física. Essa é a única coisa perfeitamente clara e evidente.
— É claro — concordou Mary. — E qual é o resultado de tudo isso? Realmente não consigo perceber.
— Nem eu — disse Calamy, com uma explosão melancólica de riso. — A única esperança é que, se continuarmos a pensar com firmeza e por muito tempo, talvez possamos chegar a uma explicação do chocolate, do limão, do morango e da baunilha. Quem sabe seja tudo baunilha, tudo mente ou tudo espírito. O resto será só aparência, só ilusão. Mas ninguém pode afirmar uma coisa dessas se não estiver livre para pensar muito.
— Livre?
— É preciso ter a mente aberta, tranquila, vazia, vazia de pensamentos irrelevantes, silenciosa. Os pensamentos não entrarão na mente ruidosa; eles são tímidos, permanecem em seus obscuros esconderijos sob a superfície, onde não podem ser alcançados se a mente estiver repleta de bobagens e ruídos. Muitos de nós passamos pela vida sem saber sequer que esses pensamentos existem. Se quisermos convidá-los a sair, teremos que abrir espaço para eles, limpar a mente e esperar. E não poderão existir preocupações irrelevantes espreitando por trás das portas. É preciso estar livre desse tipo de problema.
— Suponho que eu seja uma dessas preocupações irrelevantes — disse Mary Thriplow, depois de um tempo.
Calamy riu, mas não negou.
— Se é assim — continuou ela —, por que fez amor comigo?
Calamy não respondeu. Por que, realmente? Ele já se fizera essa mesma pergunta muitas vezes.
— Acho que é melhor — disse ela, após um silêncio — terminarmos tudo por aqui. — Ela se retiraria, se mortificaria por ele.
— Terminar? — ecoou ele. Desejava isso, é claro, mais que qualquer outra coisa: acabar com tudo, ver-se livre. Mas acabou acrescentando, com uma espécie de riso contido na superfície da voz: — Você acha que pode terminar?
— Por que não?
— E se eu não permitir? — Pensava ela que não estava sob seu poder, que não era obrigada a obedecer a tudo o que ele desejasse? — Pois não permito que o faça — disse com a voz trêmula de júbilo. Curvou-se sobre ela e começou a beijá-la na boca; suas mãos a prendiam e a acariciavam. Que insanidade, dizia para si mesmo!
— Não, não — Mary resistiu um pouco, mas no final deixou que ele a dominasse. Permaneceu deitada, trêmula, como se acabasse de ser torturada.