Folhas inúteis
Capítulo 5
— An pris caruns flucuthukh. — O mr. Cardan acenou para o guia. — Traga a luz mais para perto — disse em italiano, e quando o homem aproximou a lanterna ele continuou a ler lentamente a inscrição em grego antigo, na parede do túmulo: — Flucuthukh nun tithuial khues khathc anulis mulu vizile ziz riin puiian acasri flucuper pris an ti ar vus ta aius muntheri flucuthukh. — Ele se ergueu. — Que língua adorável! — disse. — Adorável! Desde que eu soube que os etruscos chamavam o deus do vinho de Fufluns, tomei profundo interesse por sua língua. Fufluns... é incomparável, tão mais apropriado que Baco, Líber ou Dionísio! Fufluns, Fufluns — repetiu com ênfase. — Melhor impossível. Aquelas criaturas possuíam o verdadeiro gênio linguístico. Que poetas devem ter dado! “Quando Fufluns flucuthukhs o ziz...” Imagine as odes ao vinho que começavam assim. Você não seria capaz de juntar em inglês tantas sílabas suculentas e embriagantes quanto essas, seria?
— O que acha de “Ale in a Saxon rumkin”?[25] — sugeriu Chelifer.
Mr. Cardan balançou a cabeça.
— Não se compara aos etruscos. Não possui consoantes suficientes. É leve demais, é efervescente e trivial. Sem dúvida, você poderia estar falando de água gaseificada.
— Mas até onde se sabe — disse Chelifer — flucuthukh, em etrusco, pode significar água gaseificada. Fufluns, garanto-lhe, é apropriado. Mas talvez seja apenas uma coincidência. Não há qualquer evidência de que os etruscos adequassem o som ao sentido com tanta competência em outras palavras. “Quando Fufluns flucuthukhs o ziz” poderia ser traduzido por “Quando Baco gaseificou o vinho branco”. O senhor não sabe.
— Você tem razão — concordou o mr. Cardan. — Não sei. E ninguém sabe. Deixei-me levar pelo entusiasmo que Fufluns me causou. Flucuthukh pode não ter a saborosa conotação que uma palavra com esse som deveria ter; talvez, como você diz, signifique mesmo água gaseificada. Mesmo assim, tenho esperanças; acredito nos meus etruscos. Um dia, quando descobrirem a chave dessa linguagem fossilizada, creio que me farão justiça; flucuthukh se revelará tão apropriada quanto Fufluns, escreva o que estou lhe dizendo! É uma grande língua, insisto; uma grande língua. Quem sabe? Talvez dentro de algumas gerações surja um novo Busby ou Keats para percutir a sintaxe e a prosódia etruscas nas costas das criancinhas britânicas. Nada me proporcionaria maior satisfação. O latim e o grego possuem um valor prático infinitesimal. Mas o etrusco é total e absolutamente inútil. Poderia existir uma base melhor para a educação de um cavalheiro? Será a grande língua morta do futuro. Se o etrusco não existisse, teria que ser inventado.
— É exatamente o que os pedagogos terão que fazer — disse Chelifer —, uma vez que não há outra literatura etrusca além das inscrições e palavras desconexas nas múmias de Agram.
— Melhor ainda — retrucou o mr. Cardan. — Se nós próprios a escrevêssemos, poderíamos achar a literatura etrusca muito interessante. Aquela criada pelos próprios etruscos seria tão aborrecida quanto qualquer outra literatura antiga. Mas, se você escrevesse os épicos, eu os diálogos de Sócrates, e um mestre da ficção como a srta. Thriplow escrevesse a história, teríamos então um arcabouço pelo qual os raros estudantes que aproveitam alguma coisa do estudo mostrariam algum interesse real. E daqui a uma geração, quando nós nos tivermos tornado tão obsoletos quanto nossas ideias, tal como Tully ou Horácio, a literatura da Etrúria seria então reescrita por nossos descendentes. Cada geração usaria essa língua morta para expressar suas ideias. E, expressas em um idioma tão rico quanto me parece o etrusco, essas ideias parecerão mais significativas e memoráveis. Porque venho notando com frequência que uma ideia que se expressa na língua nativa parece ser sempre estúpida, comum e sem brilho; mas se for materializada numa língua estrangeira e não familiar tornar-se-á transparente aos olhos da mente e ganhará nova importância. Um mote jocoso em latim soa muito mais pesado e verdadeiro do que o mesmo mote em inglês. Se o estudo das línguas mortas tem de fato alguma importância, o que lamento muito refutar, essa importância reside no fato de nos ensinar o significado do meio verbal por intermédio do qual os pensamentos são expressos. Conhecer a mesma coisa em várias línguas é sabê-la, quando se tem sensibilidade, de maneira mais profunda e mais rica do que se fosse apenas em uma. Se a juventude soubesse que em etrusco o deus do vinho é chamado Fufluns, teria um conhecimento muito maior dos atributos dessa personalidade divina do que os que só a conhecem pelo nome de Baco. Se desejo que os arqueólogos descubram a chave da linguagem etrusca é meramente para que eu tenha uma percepção muito mais profunda da coisa ou da ideia que palavras suntuosas como flucuthukh ou khathc conotam . O resto não importa. Se descobrirão ou não o significado dessas inscrições é, para mim, absolutamente indiferente. Porque, afinal, o que descobririam eles? Nada que já não soubéssemos. Descobririam que antes de os romanos conquistarem a Itália os homens comiam e bebiam, faziam amor, acumulavam bens, oprimiam os vizinhos mais fracos e assim por diante. Poder-se-ia deduzir a mesma coisa andando por Piccadilly num dia de semana. Além disso, temos os desenhos. — Ele estendeu o braço.
O guia, que estivera ouvindo pacientemente esse discurso incompreensível, reagiu ao gesto erguendo sua lanterna de acetileno. Chamadas magicamente à vida pelo brilho da luz, uma multidão de formas alegres e coloridas surgiu na parede da câmara mortuária em que se encontravam. Emoldurados por um cenário de árvores estilizadas, dois lutadores com a tez marrom-avermelhada, olhos egípcios e perfil grego, desses que se veem nas laterais dos vasos mais antigos, estavam prontos para atracar-se. De cada lado, atrás das árvores, viam-se dois pares de cavalos negros, de longas pernas. Acima deles, no segmento de um círculo entre a linha superior dos desenhos e o teto abobadado da câmara mortuária, estava deitado um grande leopardo de pele clara com uma decoração de pintas negras como a dos cães e gatos de porcelana chinesa de uma época posterior. Na parede da esquerda, festejava-se: etruscos de tez marrom-avermelhada estavam reclinados em seus divãs; sentadas a seu lado, mulheres brancas como porcelana, que contrastavam voluptuosamente com seus escuros companheiros, como as pálidas e roliças ninfas de Boucher com seus morenos amantes pastorais. Com gestos hieráticos de amor recíproco, bebiam à saúde um do outro em gamelas de vinho. Na parede oposta, caçadores de aves se ocupavam com suas atiradeiras; outros, com redes. O céu enxameava de pássaros. Embaixo, no mar azulado, eles bicavam os peixes. Uma longa inscrição cruzava a parede da direita para a esquerda. O teto da câmara mortuária era quadriculado de vermelho, preto e branco. Sobre a porta baixa e estreita, que levava da tumba à antecâmara, estava deitado um touro branco. Dois mil e quinhentos anos antes, era ali que se pranteavam os que acabavam de morrer.
— Nós os vemos caçando, bebendo, divertindo-se e fazendo amor — continuou o mr. Cardan. — O que mais se esperava que fizessem? Essa inscrição não diz nada além do que já sabemos. É verdade que eu preferia saber o que significa, mas só porque espero que o homem moreno esteja dizendo à dama branca: “Flucuthukh-me apenas com teus olhos”, ou algo da mesma intensidade, “e eu te flucuthukh com os meus”. Se estiverem mesmo dizendo isso, uma luz inteiramente nova seria lançada sobre a noção de beber; uma luz inteiramente nova...
— Mas não haveria nada de novo quanto ao amor, se eles forem amantes — disse a sra. Aldwinkle melancolicamente.
— Será que não? — retrucou o mr. Cardan. — Imagine que flucuthukh signifique, em vez de beber, amor. Asseguro-lhe que os sentimentos que essa palavra denota são bem diferentes dos que nós costumamos resumir como “amor”. Pode-se adivinhar pelo som da palavra, seja em que língua for, o que quer dizer uma pessoa quando fala de amor. Amour, por exemplo. Esse som “u” prolongado, ligado ao “r” gutural no fim da palavra, é muito significativo. “U”... os lábios formam um bico como se fossem beijar. Depois “rrr”, rapidamente; o rosnado de um cão. Não seria possível expressar melhor a prosaica lascívia traduzida por amor em nove décimos da ficção e do teatro franceses. E Liebe... Que som pálido, lunático e sentimental possui esse “i” prolongado! E como é adequado também o balido labial que o segue: “be”. É um carneiro com a voz abalada pela emoção. Todo o romantismo germânico está implícito no som dessa palavra. E o romantismo germânico, um pouco détraqué, se transforma com cena lógica no expressionismo e na selvagem extravagância erótica da ficção germânica contemporânea. Quanto ao inglês love, é caracteristicamente esquivo e hesitante. Esse pequeno e obscuro som monossilábico ilustra a relutância dos ingleses em chamar uma coisa pelo seu nome. É o símbolo da repressão nacional. Toda a nossa hipocrisia e o belo platonismo da nossa poesia estão aí. Love... — o mr. Cardan sussurrou a palavra e, erguendo o dedo para pedir silêncio, voltou uma orelha para o alto de modo a captar os leves ecos de sua voz ressoando entre as paredes. — Love... A emoção inglesa é completamente diferente da que conota a palavra amore. Amore... A segunda sílaba é cantada com alegria, em um timbre de barítono saindo do fundo do peito e um leve vibrato superficial na garganta que torna o som mais palpitante. Amore é o nome daquela qualidade que Stendhal tanto admirava nos italianos e cuja ausência em seus próprios conterrâneos, especialmente nas mulheres, o fez classificar Paris abaixo de Milão ou Roma. Eis o nome adequado e perfeitamente expressivo da paixão!
— É verdade — disse a sra. Aldwinkle, reluzindo por um instante por trás de sua melancolia. O elogio à língua e ao caráter italianos, que lhe pertenciam, a agradou. — O som de amore é apaixonado. Se os ingleses soubessem o que significa a paixão, teriam encontrado uma palavra mais expressiva do que love. Isso é certo. Mas eles não sabem — suspirou.
— Isso mesmo — continuou mr. Cardan. — Amore, como vimos, nada mais é do que a paixão do sul. Mas então suponhamos que flucuthukh seja a palavra etrusca para amor. Se amour conota lascívia, Liebe, sentimento, e amore, paixão, a que aspecto do complexo fenômeno do amor se refere flucuthukh? O micróbio Staphylococcus pyagenes produz furúnculos em alguns pacientes; em outros, inflamação nos olhos; em outros casos ainda, é responsável pela keratitis punctata. O mesmo se dá com o amor: os sintomas variam de indivíduo para indivíduo. Mas, graças à ilimitada sugestionabilidade e capacidade imitativa do homem, os sintomas mais comuns em uma dada época tendem a tornar-se universais a toda uma sociedade. Todos os povos são contaminados de uma maneira ou de outra; uns sofrem de amour; outros, de Liebe; e assim por diante. Agora imaginem um povo que sofria de flucuthukh; quais teriam sido os sintomas de um mal amoroso que recebeu esse nome? Não é possível saber. Mas ao menos é fascinante especular.
Um atrás do outro, o grupo passou pela porta estreita, cruzou a antecâmara do sepulcro e subiu um lance de escadas para a superfície. Depois de adaptar os olhos à claridade do sol da tarde, saíram para a colina escalvada, onde o vento soprava forte.
Era um lugar solitário. Os arcos de um aqueduto arruinado se repetiam ao longo das elevações, e, seguindo suas reentrâncias, o olho finalmente descansava nos muros e nas altas torres de Corneto. À esquerda, as colinas escarpadas desciam para o mar; a distância, ao lado de uma estreita planície aos pés das colinas, via-se o Mediterrâneo. Do lado direito havia um vale profundo, fechado num dos lados por um morro alto e arredondado. Os flancos desse morro haviam sido vincados e esculpidos por mãos humanas. Outrora existira ali a cidade sagrada dos etruscos, Tarquínia. O longo declive em que eles estavam fora — por quantos séculos? — a necrópole desse povo. Inúmeros mortos repousavam naquelas câmaras escavadas na pedra gredosa. Às vezes o teto de uma delas ruía e desse buraco escuro emanava, mesmo em pleno verão, um frescor imemorial; outras, a superfície do declive se inchava em túmulos cobertos de relva. Foi de dentro de um destes que eles tinham acabado de sair. O guia desligou a lanterna e fechou a porta sobre os fantasmas etruscos. Eles continuaram a andar através do tempo geológico: entre o mar e as colinas, sob as nuvens que flutuavam no céu azul, a Idade Média espetava o horizonte com suas torres; sob a relva, as relíquias arrasadas da Etrúria formavam ondulações quase imperceptíveis; da estrada romana que cruzava a planície chegava até eles o ronco distante dos motores.
Uma buzina despertou Irene do transe em que, tristonha e infantil, agora quase patética, ela acompanhava os outros. Estivera calada e melancólica desde a manhã do dia anterior, quando deixaram Roma. Lorde Hovenden ficara lá com o mr. Falx. O longo gemido da buzina parecia lembrar-lhe alguma coisa. Ela ficou olhando a planície à beira-mar. Uma nuvem branca de poeira avançava pela estrada da marema, vinda da Civita Vecchia. Opaca, pairava sobre a estrada e ia esvanecendo lentamente até tornar-se transparente em sua cauda. Na frente, onde a poeira era mais densa, um pequeno objeto negro se movia como um inseto rastejante, cruzando a planície em toda a sua extensão e arrastando a nuvem atrás de si. Na direção oposta vinha outro cometa de poeira com a cabeça negra. Como duas serpentes, as nuvens se aproximavam uma da outra para travar uma batalha. Chegavam cada vez mais perto. Irene as observava em silêncio, tomada por uma terrível apreensão. Era impossível que não colidissem. Mais perto, mais perto... As cabeças quase se tocavam agora. E se num dos carros estivesse o seu... A colisão era inevitável agora. Oh, que horror! Irene fechou os olhos. Logo em seguida voltou a abri-los. As duas serpentes haviam se fundido e estavam agora muito mais densas e opacas. Por um terrível momento Irene pensou que estivessem destruídas. Mas elas reapareceram logo em seguida, afastando-se uma da outra e não se aproximando mais. As duas serpentes eram ainda uma só, mas com duas cabeças, uma longa anfisbena. Então, gradualmente, o meio da anfisbena começou a afinar-se e diluir-se; um pequeno arvoredo surgiu através dela, a princípio indistinto, depois mais nítido. A anfisbena se dividira ao meio e as duas serpentes brancas arrastavam-se agora uma para o norte, outra para o sul, e entre as duas caudas esvanecidas o espaço vazio ia se tornando cada vez maior. Irene deu um profundo suspiro de alívio e correu para alcançar os outros. Fora a observadora de uma catástrofe milagrosamente evitada. Sentia-se agora muito mais feliz do que durante todo o dia. Numa estrada larga, dois automóveis tinham se cruzado. Foi só isso que aconteceu.
O guia destrancara a porta de acesso a outro túmulo escavado. Acendeu novamente a lanterna e seguiu na frente, descendo os íngremes degraus da tumba. Em uma das paredes figuras corriam a cavalo e lutavam com gestos hieráticos, todos de perfil. Uma deusa, ou talvez fosse apenas a prefeita da cidade, usando um daqueles penteados altos em forma de touca que mais tarde as matronas romanas emprestaram de suas vizinhas, distribuía prêmios. Nas outras paredes festejava-se. Homens de tez marrom-avermelhada e mulheres brancas reclinavam-se sobre divãs. Havia ao lado deles um músico que tocava uma flauta dupla; uma bailarina que parecia usar um traje persa dançava, para divertir os comensais, a dança dos véus.
— Parece que eles tinham gostos simples — disse o mr. Cardan. — Aqui não se vê nada muito sofisticado ou fin de siècle. Não há acrobatas nuas perseguindo touros, como em Cnossos, nem lutas de gladiadores, matanças de animais ou boxeadores com luvas metálicas, como nas arenas romanas. É um povo encantador, quase infantil, não acham? E também não tão civilizado a ponto de ser exigeant quanto aos seus prazeres.
— Nem tão civilizado — acrescentou Chelifer — para ser realmente vulgar. Quanto a isso, estão muito aquém dos romanos. Vocês já viram aquele imenso mosaico que está no museu Lateran? Veio de um dos balneários imperiais, não me lembro de qual, e é composto de retratos dos principais heróis desportistas da época, lutadores de boxe e gladiadores, juntamente com seus treinadores e financiadores; estes últimos, tratados com muito respeito pelo autor do mosaico, que os representa de toga e em posições nobres. Vê-se logo que são gens bien, esportistas e amadores. Em resumo, o interesse financeiro. Os atletas são retratados em estado natural, na verdade tão exageradamente naturais que facilmente se pode confundir aqueles pesos-pesados com gorilas sem os pelos supérfluos. Sob cada retrato há uma legenda com o nome do herói. O mosaico lembra uma página de revista esportiva, só que uma página com doze metros de largura por nove de altura e feita não de polpa de madeira, mas com os materiais mais duráveis já descobertos pela engenhosidade do homem para a materialização e a eternização visual de seus pensamentos. Penso que sejam precisamente a dimensão e a eterna durabilidade dessa coisa assustadora o que a tornam pior do que as páginas similares de nossas revistas ilustradas. Fazer dos esportistas profissionais e disputadores de prêmios heróis efêmeros já é bastante mau; mas querer imortalizar-lhes a fama é certamente indicativo de profunda vulgaridade e degradação. Tal como a turba romana, as turbas de nossas modernas capitais deleitam-se com esportes e exercícios que elas próprias não praticam; mas, de qualquer maneira, a fama de nossos esportistas dura apenas alguns dias após os seus triunfos. Não gravamos suas efígies em mármore para que atravessem centenas de gerações. Gravamo-las em polpa de madeira, que é quase o mesmo que os gravar na água. É confortante pensar que por volta do ano 2100 todo o nosso jornalismo, a literatura e a filosofia estarão reduzidos a pó. O mosaico, entretanto, permanecerá em seu estado atual, perfeitamente preservado. Nada menos que uma dinamite ou um terremoto poderá destruir totalmente as efígies daqueles boxeadores imperiais. Mas também é uma boa coisa para os futuros historiadores de Roma. Porque ninguém poderá dizer que entende realmente o Império Romano até ter estudado esse mosaico. Lá está contida a quintessência da realidade romana. Uma gota dessa realidade bastará para encolher todas as utopias já criadas pelos historiadores, ou que ainda serão criadas, ao escreverem suas crônicas sobre a antiga Roma. Depois de ver aquele mosaico não se pode mais ter ilusões generosas sobre as pessoas que o admiraram ou sobre a época em que foi feito. Ficará claro que a civilização romana não foi apenas tão sórdida quanto a nossa, mas até um pouco mais. Nestes túmulos etruscos — acrescentou Chelifer, olhando os afrescos ao redor — não se tem a impressão de bestialidade organizada e eficiente como a transmitida pelo mosaico romano. Como o senhor diz, mr. Cardan, há uma pureza, uma certa alegria infantil nessas diversões aí representadas. Mas não duvido, é claro, de que essa impressão seja inteiramente falaciosa. Esta arte tem certo charme arcaico; mas seus artistas talvez tenham sido tão sofisticados e repulsivos quanto seus sucessores romanos.
— Ah — disse o mr. Cardan —, mas você se esquece de que eles chamavam Baco de Fufluns. Dê-lhes ao menos esse merecido crédito.
— Os romanos também tinham uma bela língua — refutou Chelifer. — Ainda assim, fizeram imensas ampliações de uma página de esportes do Daily Sketch em mosaicos de mármore sobre bases de cimento.
Eles subiam para a superfície. Os degraus eram altos e as pernas da srta. Elver tão curtas que foi preciso que a ajudassem. Suas risadas e gritinhos estridentes ressoavam por toda a tumba. Por fim, emergiram para a luz do sol.
Sobre uma elevação mais alta, a cem ou duzentos metros de onde eles estavam, havia um homem parado, seu contorno bastante nítido contra o azul do céu. Ele protegia os olhos da luz com a mão e procurava alguma coisa. Irene subitamente enrubesceu.
— Acho que é Hovenden — disse, num tom de voz que tentava ser o mais casual possível.
Quase ao mesmo tempo, o homem virou a cabeça na direção deles. Com a mão que protegia os olhos começou a acenar. Um alegre “Ei!” soou por sobre as tumbas, e o homem desceu o morro aos saltos, correndo para onde eles estavam. Era Hovenden. Irene enxergara bem.
— Procurei vocês por toda parte — falou quase sem fôlego. Com muita animação, foi apertando a mão de todos os presentes, exceto, diplomaticamente, a de Irene. — Disseram-me na cidade que um grupo de estrangeiros fora visitar um cemitério ou algo parecido. Então vim correndo atrás de vocês, até encontrar o velho Ernest com o carro, do outro lado da estrada. Estavam dentro do túmulo, então? — Ele olhou para a entrada escura. — Foi por isso que não os vi...
A sra. Aldwinkle interrompeu-o:
— Você não devia estar em Roma com o mr. Falx?
O rosto infantil e cheio de sardas de lorde Hovenden tornou-se instantaneamente vermelho.
— Na verdade — disse, olhando para o chão —, eu não estava me sentindo muito bem. O médico recomendou que eu saísse logo de Roma. O ar da cidade, sabe... Então deixei um bilhete para o mr. Falx e... aqui estou. — Ele ergueu novamente os olhos e sorriu.