Folhas inúteis
Capítulo 12
A srta. Thriplow escrevia em seu caderno de anotações secreto:
“Existem pessoas que parecem não ter capacidade de sentir qualquer coisa profunda e apaixonadamente. É uma espécie de impotência emocional, o que só é possível lamentar profundamente. Talvez haja mais gente assim nos dias de hoje do que em épocas passadas. Mas isso é só uma impressão; não há nada que o comprove, nenhum documento que o justifique. Contudo, se for verdade, deve-se, suponho, à nossa educação intelectualizante. É preciso possuir uma forte constituição emocional para ser capaz de suportá-la. E depois as pessoas vivem de maneira tão artificial que muitos dos instintos mais profundos raramente têm oportunidade de se manifestar. O medo, por exemplo, e todas as paixões desesperadas provocados pelo instinto de autopreservação diante do perigo ou do ódio. Milhares de pessoas civilizadas passam a vida condenadas à ignorância quase completa dessas emoções.”
A srta. Thriplow traçou uma linha sob esse parágrafo e começou novamente, um pouco mais embaixo da página:
“Amar primitivamente, furiosamente. Não ser mais civilizado e sim selvagem. Não ser mais crítico e sim convictamente passional. Não ter mais uma mente dúbia e problemática e sim um corpo jovem e saudável, infalível e determinado nos seus desejos. A besta sabe de tudo, diz tio Yerochka em Tolstói. Tudo não. Mas sabe, de qualquer maneira, coisas que a mente não sabe. O espírito forte e completo deve conhecer o que sabe a besta, tanto quanto o que sabe a mente.”
Escreveu em outra linha: “As mãos dele são fortes e firmes, e ao mesmo tempo tocam com muita suavidade. Seus lábios são macios. Onde o pescoço se une ao corpo, na frente, entre os dois grossos tendões, quando eles convergem para os ossos da clavícula, existe uma depressão audaciosamente marcada na carne, que parece ter sido feita pelo polegar de um deus artista, tal é a sua beleza. E tão belo...”.
Ocorreu à srta. Thriplow que poderia escrever um excelente artigo sobre o tema da beleza masculina. No Cântico de Salomão ela é descrita com tanto lirismo quanto a feminina. É raro encontrar poetisas modernas que exprimam francamente sua admiração. Nos salões de Paris é o nu feminino que prevalece; o masculino é excepcional, e se for completo parecerá chocante. Como era diferente esse estado de coisas em Pompeia! A srta. Thriplow mordeu a ponta da caneta. Sim, decididamente daria um excelente artigo.
“A pele dele é branca e suave. Ele é tão forte! Seus olhos sonolentos às vezes parecem despertar, e então ele olha para mim de modo tão penetrante e exigente que chego a me assustar. Mas gosto de ser assustada — por ele.”
Outra linha. A srta. Thriplow teria escrito mais sobre esse assunto, mas temia que alguém encontrasse seu caderno de anotações e o lesse. Não queria que isso acontecesse enquanto estivesse viva. Ela fez um asterisco ao lado da primeira anotação da noite. Na margem da folha em branco, do outro lado, rabiscou um sinal similar, indicando que o que iria escrever agora estava relacionado, como um apêndice ou corolário, ao que estava escrito na primeira nota.
“Certas pessoas incapazes de sentir profundamente estão convencidas, embora intelectualmente, de que devem fazê-lo. Acham que os mais primitivos possuem instintos formidáveis. Também querem tê-los. São os esnobes emocionais. Estou certa de que se trata de um novo tipo de pessoa. No século xviii elas tentavam provar que eram racionais e educadas. No século xix teve início o culto à emoção, que no século xx sofreu novo impulso com o bergsonismo e o rollandismo. Hoje está na moda ser exatamente o oposto do que se era no século xviii. Por isso há pessoas impotentes que estimulam sua paixões com a cabeça. São os hipócritas do instinto, que em geral enganam parcialmente a si mesmos. Se são inteligentes, enganam completamente a todos, exceto aos mais observadores. Exercitam sua parte emocional muito mais do que aqueles que verdadeiramente sentem as emoções. É o paradoxo do ator de Diderot na vida real: quanto menos ele sente, melhor representa o sentimento. Mas, enquanto o ator representa no palco apenas para quem a ele assiste, as pessoas na vida real representam da mesma maneira, tanto para uma plateia externa quanto interna; pedem aplausos para si mesmas e, o que é pior, os recebem. Mas suponho que sempre com algumas reservas secretas. Que tipos curiosos! Conheço muitos exemplos deles.”
A srta. Thriplow parou de escrever e pensou nos exemplos que conhecia. Era um número surpreendentemente grande. Em geral, todo ser humano vê nos outros suas próprias qualidades e fraquezas. É inevitável, já que os atributos mentais e morais de cada um são os únicos de que se tem alguma experiência pessoal. O homem que visualiza sua tábua de multiplicar numa imagem definida e fantástica acha que todos os demais devem fazer o mesmo; o músico não concebe uma mente que não seja receptiva à música. De modo similar, o ambicioso presume que todas as pessoas são movidas pelo seu próprio desejo de notoriedade e poder. O sensualista vê sensualidade em todo lugar. O homem mediano tem como certo que todos à sua volta são medianos. Mas não se deve pensar que o viciado, que vê sua própria fraqueza em todos os que o rodeiam, tolere, por isso, essa fraqueza. Raramente damos nomes específicos às nossas fraquezas e só temos consciência delas de maneira vaga e empírica. A nossa parte racional e educada condena o vício ao qual estamos congenitamente subjugados. Ao mesmo tempo, o conhecimento pessoal que temos dele, um conhecimento não racional ou intelectual, mas obscuro, prático e instintivo, tende a dirigir a atenção da parte mais superficial e educada da mente para as manifestações dessa determinada fraqueza, a fazer com que a mente detecte essas manifestações até quando elas não existem; e assim somos constantemente atingidos pelo espetáculo ridículo de um avarento condenando apaixonadamente a avareza em outros muito mais generosos do que ele; do lascivo acusando a lascívia; do usurário criticando a usura. A educação nos ensinou que essas fraquezas são censuráveis, mas o conhecimento pessoal e empírico provoca em nós um interesse especial por elas, fazendo-nos enxergar seus vestígios em todos os lugares.
Se era grande o número de amigos da srta. Thriplow que pertenciam ao tipo emocionalmente impotente, isso se devia à tendência da própria Mary Thriplow para essa fraqueza espiritual. Sendo por natureza mais perspicaz e autoanalítica do que a maioria dos homens e das mulheres que, indignados, condenam os próprios pecados arraigados, ela não deixava de perceber, ao criticar os outros, o defeito similar em si mesma. Não podia evitar a suspeita, ao ler Dostoiévski e Tchekhov, de que ela era organizada diferentemente daqueles russos. Parecia-lhe não sentir nada com tanta profundidade, com prazer ou sofrimento tão intrínsecos quanto eles. E mesmo antes de começar a ler os russos a srta. Thriplow chegara à dolorosa conclusão de que, se as irmãs Brontë eram emocionalmente normais, então ela devia ser anormal. E mesmo que as irmãs não fossem tão normais assim, mesmo que fossem febris, preferia ser como elas; pareciam-lhe admiráveis. Foi a consciência dessa anormalidade (que ela chegou a atribuir à falta de oportunidades causada por uma vida excessivamente protegida e artificial) que levou a srta. Thriplow a admirar tanto os sentimentos espontâneos. Simultaneamente, provocou-lhe desejos incontroláveis de abraçar todas as chances que se apresentassem para testar as suas reações. É a experiência que nos faz conscientes daquilo que somos; não fossem os contatos com o mundo exterior, não teríamos nenhuma emoção. Para poder conhecer o seu eu emocional latente, a srta. Thriplow desejava ter muitas experiências e estabelecer o máximo de contatos possíveis com a realidade exterior. Quando essa realidade tinha um caráter pouco comum e parecia ser particularmente fértil em revelações emocionais, ela a perseguia com uma ânsia especial. Dessa maneira, um envolvimento com Calamy lhe parecera repleto das possibilidades emocionais mais interessantes. Teria gostado dele mesmo que aquela sua sonolência não ocultasse fogos interiores. Mas a convicção de que havia alguma coisa “estranha”, como dissera a sra. Aldwinkle, e perigosa naquele homem levou-a a imaginar, em cada estágio de sua intimidade, que gostasse dele mais do que realmente gostava. Ansiava por estágios mais avançados, na esperança de que, à medida que ele fosse se revelando, outras verdades mais amplas e interessantes de sua própria alma oculta estariam prontas para se mostrar. A srta. Thriplow fora recompensada. Calamy a assustara de verdade e já se revelara excitantemente brutal.
— Você me deixa tão exasperado — dissera ele — que sinto vontade de torcer o seu pescoço.
E houve momentos em que ela acreditou realmente que ele fosse matá-la. Era uma nova espécie de amor. Ela se entregava a esse amor com um fervor admirável. Era arrastada pela torrente de paixão; e durante o trajeto a srta. Thriplow ia anotando suas sensações, na esperança de que existissem outras ainda mais intensas a serem registradas no futuro.