Folhas inúteis
Capítulo 8
Desde o princípio ninguém confiou muito no médico local; sua própria aparência já inspirava desconfiança. Mas quando, sobre o corpo prostrado da paciente, ele se gabou de ter se diplomado na Universidade de Siena, o mr. Cardan achou que era hora de procurar outro.
— Siena é famosa — cochichou ele. — É para lá que vão os imbecis que não são aprovados em Bolonha, Roma ou Pisa, para se graduar em medicina.
A sra. Aldwinkle, que surgira de repente no meio do tumulto (Irene não sabia de onde), expressou seu horror. Os médicos eram uma de suas especialidades, sua experiência com eles era muito grande. Ela já contraíra algumas doenças interessantes no decorrer de sua vida: três colapsos nervosos, uma apendicite, gota e várias gripes, pneumonias e similares, mas todas reconhecidamente aristocráticas; porque a sra. Aldwinkle fazia distinções muito claras entre os males vulgares e aqueles do tipo mais cavalheiresco. Constipação crônica, hérnia e varizes (“perna ruim”, como diziam os pobres, grotescamente) eram doenças vulgares das quais nenhuma pessoa decente poderia padecer ou mesmo mencioná-las. As dela tinham sido refinadas e caras. Se ela não conhecesse um especialista francês, inglês, suíço, alemão, sueco ou mesmo japonês, não valia a pena. A observação do mr. Cardan sobre a Universidade de Siena deixou-a muito impressionada. .
— A única coisa que se tem a fazer — disse, decidida — é pedir a Hovenden que vá até Roma e traga um especialista. Imediatamente. — Era um conforto para ela, em seu presente estado de infortúnio, poder fazer alguma coisa, providenciar, dar ordens, mesmo que fosse para si mesma. — A princesa deu-me o nome de um homem maravilhoso. Eu o escrevi em algum lugar. Vamos. — E lançou-se para fora do quarto.
Obediente, lorde Hovenden seguiu-a, anotou o nome talismânico e saiu. Chelifer o esperava ao pé da escada.
— Se não se importa, gostaria de ir também — disse. — Eu só atrapalharia ficando aqui.
Eram quase cinco e meia da manhã quando eles partiram. O sol ainda não nascera, mas estava quase claro. Um céu cinzento de nuvens escuras cobria o horizonte. Havia neblina nos vales e o lago Bolsena estava encoberto pelo que pareciam águas de um mar esbranquiçado. Fazia frio. Saindo da cidade, eles encontraram uma caravana de mulas carregadas, subindo devagar uma rua íngreme em meio ao retinir de sinos, a caminho do mercado.
Viterbo ainda dormia quando a atravessaram. Do alto dos montes Ciminianos avistaram pela primeira vez o sol. Por volta das sete horas estavam chegando a Roma. Os obeliscos, os telhados e as cúpulas surgiam dourados da sombra contra a palidez azul do céu. Eles seguiram para Corso. Na Piazza Venezia pararam para um café e, enquanto esperavam, procuraram no catálogo o endereço do médico da sra. Aldwinkle. Ele morava num bairro novo, perto da estação.
— Explique você o que está acontecendo — disse Hovenden, enquanto bebiam o café. — Não sou muito bom com o italiano.
— Como se arrumou quando precisou de um médico no outro dia? — perguntou Chelifer.
— Bem — disse lorde Hovenden, corando —, na verdade ele era inglês. Mas já não está mais aqui — acrescentou rapidamente, com medo de que Chelifer sugerisse que levassem também esse médico. — Foi para Nápoles — especificou em seguida, esperando que o acúmulo de detalhes circunstanciais tornasse a história mais verossímil — fazer uma cirurgia.
— Ah, é um cirurgião — disse Chelifer, erguendo as sobrancelhas.
Hovenden assentiu.
— Um cirurgião — ecoou, mergulhando o rosto dentro da xícara de café.
Eles seguiram caminho. Ao saírem da praça e entrarem no Foro de Trajano, Chelifer notou uma pequena multidão, a maioria de meninos de rua, espremidos contra as grades, do outro lado do foro. No meio deles havia uma mulher magra, de vestido cinza, que mesmo a distância era impossível não reconhecê-la como inglesa ou certamente não italiana. Essa senhora estava debruçada sobre a grade e baixava com muito cuidado a ponta de uma corda à qual estava engenhosamente presa, por quatro cordas laterais que passavam por buracos feitos em sua parede, uma panelinha de alumínio cheia de leite. Balançando lentamente enquanto descia, a panelinha tocou o chão do foro afundado. No mesmo instante, meia dúzia de gatinhos, miando e ronronando, veio correndo e começou a lamber o leite. Outros os seguiram; cada fresta tinha o seu gato. Alguns, mais espertos, saltavam de seus pedestais de mármore e vinham trotando pelo espaço aberto com a marcha ondulada e decidida de um leopardo. Os mais novos cambaleavam sobre as pernas tortas. Em poucos minutos, a panelinha estava sitiada por uma horda de gatos. Os meninos de rua gritavam de alegria.
— Quem diria! — exclamou lorde Hovenden, que diminuíra a velocidade para observar a cena curiosa. — Não é sua mãe?
— Acho que sim — disse Chelifer, que desde o princípio a reconhecera.
— Devemos parar? — perguntou Hovenden.
Chelifer balançou a cabeça.
— É melhor encontrarmos logo esse médico.
Enquanto o carro se afastava, Chelifer viu sua mãe, fiel a seus princípios vegetarianos, atirar para dentro do covil de gatos pedacinhos de pão e batatas fritas. Sabia que à noite ela estaria lá novamente. Não levara muito tempo para encontrar com que se ocupar em Roma.