Folhas inúteis
Capítulo 3
Ao longo dos últimos dias, as anotações no caderno da srta. Mary Thriplow tinham mudado de caráter. De amorosas, passaram a ser místicas. A paixão selvagem e insensata dera lugar à plácida contemplação. De Lespinasse cedera a Guyon.
“Lembra-se, querido Jim”, escrevera ela, “quando tínhamos dez anos, como costumávamos discutir sobre quais seriam os pecados que se podem cometer contra o Espírito Santo? Lembro-me de que ambos concordávamos em que usar o altar como W.C. era provavelmente um pecado imperdoável. Sinto muito dizer que não o é, pois então seria muito fácil não cometê-lo. Temo que não seja assim tão direito pecar contra o Espírito Santo. Asfixiar as vozes interiores, encher a mente com todo esse lixo terreno e impedir que Deus tenha espaço para entrar, não dar ao espírito nenhuma chance, isso sim é pecar contra o Espírito Santo. E são pecados que não merecem perdão porque são irremediáveis. Os arrependimentos de última hora não valem. O pecado e a sua virtude correspondente são ocupação para toda uma vida. E quase todos os cometem; morrem sem obter perdão e imediatamente iniciam uma nova vida. Somente quando alguém leva uma vida com as virtudes do Espírito Santo é que o perdão pode ser obtido, é que se está livre das dores da vida e se tem permissão para unir-se ao Todo. Não é esse o significado do texto? É terrivelmente difícil não pecar. Sempre que paro para pensar nisso, espanto-me com as maldades em minha própria vida. Oh, Jim, Jim, como se esquece com facilidade, como as pessoas impensadamente deixam-se soterrar por avalanches de interesses terrenos tão pequenos! Calam-se as vozes, bloqueia-se a mente, não se dá lugar para o Espírito Santo. Se estou trabalhando, sinto que está tudo bem. Porque então estou fazendo o melhor que posso. Mas, o resto do tempo, vou muito mal. Não se pode trabalhar o tempo todo nem se dar incessantemente. É preciso ser passivo e receber. Por isso falho ao fazer. Dou voltas e mais voltas, encho minha mente com bobagens, impossibilito a mim mesma receber. Não é possível continuar dessa maneira, não se pode seguir pecando contra o Espírito Santo. Não depois de se ter entendido isso.”
Uma linha em branco e começou a anotação seguinte: “Pensar com firmeza e intensamente sobre alguma coisa é um excelente exercício mental; serve para desvendar os mistérios que residem por baixo da superfície comum da existência. Talvez seguir pensando com muita persistência torne possível ir além do mistério para chegar à sua explicação. Se penso, por exemplo, em minha mão...”. A anotação era longa; preenchia, na escrita clara e correta da srta. Thriplow, mais que duas páginas do caderno.
“Recentemente”, escrevera depois, “voltei a fazer minhas orações como quando era criança. Pai nosso, que estais no céu — palavras que ajudam a clarear a mente, a livrá-la do lixo e deixá-la limpa para a chegada do espírito.”
As três anotações seguintes estavam ali por engano. O lugar delas não era no caderno secreto, mas em outro volume, onde eram registrados pequenos trechos que poderiam ser úteis aos romances. É claro que as anotações desse caderno secreto poderiam ser usadas eventualmente nas ficções da srta. Thriplow, mas não eram registradas ali com esse propósito.
“Um homem vestindo culote faz leves ruídos ao caminhar, roçando tecido contra tecido, tal como os cisnes, ao voar, adejando suas imensas asas brancas.”
Depois duas linhas de um diálogo cômico:
“Eu: — Achei A queda da casa de Usher uma história de coagular o sangue.
Francês: — Sim, sim, sangrou também o meu coágulo.”
A terceira anotação lembrava que “o musgo ao ser regado num dia de sol é como uma esponja ainda úmida depois de um banho quente”.
Em seguida, um corolário sobre a nota da oração: “Não há dúvida de que a técnica utilizada para orar, de joelhos, o rosto entre as mãos, as palavras pronunciadas em voz audível e dirigidas para o nada, ajuda, pela mera dessemelhança com as ações da vida diária, a colocar a pessoa num estado mental de devoção...”.
Nessa noite ela ficou sentada algum tempo diante do caderno aberto, caneta na mão, mas sem escrever. Numa atitude reflexiva, mordiscava a ponta da caneta. Finalmente conseguiu escrever que “santo Agostinho, são Francisco e santo Inácio de Loyola tiveram vidas dissolutas antes de converterem-se”. Depois, abrindo o outro caderno não secreto, escreveu: “X e Y são amigos desde a infância. X é arrojado, Y é tímido; Y admira X; Y se casa, enquanto X está na guerra, com uma criatura ardente que o aceita mais por pena do que por amor (Y está muito triste). Eles têm um filho. X retorna e apaixona-se por A, mulher de Y. Um grande amor nasce em meio à crescente angústia — dela, por estar enganando Y, a quem ama e respeita, e não ousa separar-se dele por medo de perder o filho; dele, por sentir que deve desistir de tudo e devotar-se a Deus etc.; na verdade, sentem-se premonições da conversão. Uma noite eles decidem que é hora de se separar; não podem mais continuar — ela, pela infidelidade; ele, pelo misticismo etc. A cena é das mais comoventes: resta-lhes uma última e casta noite. Infelizmente Y descobre, por alguma razão — a criança adoece ou qualquer outra coisa —, que A não está na casa da mãe como dissera, mas em algum outro lugar. Logo pela manhã, Y chega ao apartamento de X para pedir que o ajude a procurar A. Vê o casaco e o chapéu dela sobre o sofá da sala e entende tudo. Furioso, avança sobre X, que, para defender-se, mata o amigo. Fim. Contudo, uma pergunta: não termina de repente demais? Epigramaticamente demais, digamos? No século xx, posso me permitir a luxúria de artifícios dramáticos tão efetivos? Não deveria ser mais horizontal? Mais terra a terra, mais vida real? Sinto que concluir dessa maneira é quase me aproveitar indelicadamente do leitor. Teria que ser diferente. Mas como? Fazer com que se separem e mostrar como vivem, ela en bonne mère de famille, ele como um cenobita? Isso não iria prolongar à exaustão? Pensar sobre isso com cuidado”.
Ela fechou o caderno e tampou a caneta com a certeza de que tivera uma boa noite de trabalho. Calamy estava a salvo na montanha, esperando para ser consumido sempre que ela estivesse desprovida de recursos ficcionais.
Depois de despir-se, lavar-se, escovar os cabelos, polir as unhas, passar creme no rosto e limpar os dentes, a srta. Thriplow apagou a luz e se ajoelhou ao lado da cama para dizer em voz alta algumas orações. Depois se deita de costas na cama, com todos os músculos relaxados, e começou a pensar em Deus.
Deus é espírito, dizia para si mesma, espírito, espírito. Tentava visualizar algo imenso e vazio, mas vivo. Uma grande extensão plana de areia; e, sobre a areia, tudo tremulando e bruxuleando por causa do calor — vazio, mas mesmo assim vivo. Um espírito, espírito todo-penetrante. Deus é espírito. Três camelos surgiram no horizonte de areia plana, caminhando pachorrentamente, com incrível deselegância, movendo-se da esquerda para a direita. A srta. Thriplow esforçou-se para fazê-los desaparecer. Deus é espírito, disse em voz alta. Mas de todos os animais os camelos são os mais estranhos; quando se pensa naquelas pálpebras assustadoras, nos lábios protuberantes como os dos últimos Habsburgos, reis de Espanha... Não, não. Deus é espírito, todo-penetrante, onipresente. Todos os universos se encontram Nele. Camadas e mais camadas... Um sorvete napolitano surgiu diante dela na escuridão. Nunca mais provou sorvete napolitano, desde aquela feira franco-britânica, quando depois de tomar um foi passear numa daquelas Máquinas Voadoras de Sir Hiram Maxim. Voltas e mais voltas, Senhor, como passara mal, mais tarde, na Gruta Azul de Capri! “Seis pennies por pessoa, senhoras e senhores, apenas seis pennies para um passeio na famosa Gruta Azul de Capri; a famosa Gruta Azul, senhoras e senhores...” Que náusea! Para os adultos devia ser pior... Mas Deus é espírito. Todos os universos encontram-se Nele. Mente e matéria, em todas as suas manifestações, unidas no espírito. Todas — ela, as estrelas, as montanhas, as árvores, os animais, o espaço entre as estrelas e os peixes... os peixes... peixes do Aquário de Mônaco. Belos peixes! Fantasias extravagantes! Não mais extravagantes que as mulheres pintadas e cobertas de joias do outro lado do vidro. Isso daria um bom episódio em um livro: um par de velhas como aquelas, olhando através do vidro dos aquários. Descritas com delicadeza e de uma forma bonita; a similaridade fundamental com as criaturas dentro do aquário estaria delicadamente implícita; não de uma maneira evidente; não, isso não. Seria demasiado vulgar, estragaria tudo; mas implícita na descrição, de modo que o leitor inteligente percebesse. E depois no cassino... Bruscamente, a srta. Thriplow interrompeu a si mesma. Deus é espírito. Sim, onde estava? Todas as coisas são uma só. Ah, sim, sim. Todas, todas, todas, repetiu. Mas para chegar à compreensão dessa unidade é preciso alcançar o espírito. O corpo separa, o espírito une. É preciso desistir do corpo, do eu; é preciso perder a vida para alcançar a unidade. Perder a própria vida, esvaziar-se do eu separatista. Ela cruzou as mãos com força, muita força, como se quisesse espremer entre elas sua vida pessoal. Se conseguisse, se pudesse esvaziar-se, outra vida viria correndo para ocupar o lugar.
A srta. Thriplow ficou muito quieta, mal respirava. Vazia, dizia para si mesma de vez em quando, muito vazia. Sentia uma incrível tranquilidade. Certamente Deus estava por perto. O silêncio tornou-se mais profundo, o espírito mais calmo e mais vazio. Sim, Deus estava por perto.
Talvez tenha sido o ruído de um trem passando ao longe no vale que a fez lembrar de uma broca espiralada; talvez o estreito facho de luz que entrava por uma fresta da velha porta empenada e incidia no meio do teto, acima de sua cabeça; quem sabe essa longa sonda brilhante a fizesse lembrar de um instrumento cirúrgico. Qualquer que tenha sido a causa, a srta. Thriplow viu-se pensando em seu dentista. Um homem adorável, aquele; havia um buldogue de porcelana sobre o console da lareira do consultório, ao lado da fotografia da mulher e dos gêmeos. Os cabelos dele nunca estavam penteados. Os olhos eram cinzentos. E era um entusiasta. “Este é um instrumento do qual me orgulho particularmente, srta. Thriplow”, dizia ele, tirando uma pinça curva de dentro do armário. “Abra um pouco mais a boca, por favor...” Que tal a história de um dentista que se apaixona por uma de suas pacientes? Ele lhe mostra todos os instrumentos, entusiasmado, e quer que ela aprecie da mesma forma os seus favoritos. Finge que há um problema sério com os dentes dela para poder vê-la com mais frequência.
O dentista desvanecia; repetia várias vezes o mesmo gesto, muito lentamente, sem jamais concluí-lo, esquecendo-se, no meio do caminho, do que pretendia fazer. Por fim tudo desapareceu. A srta. Thriplow caíra num sono tranquilo e profundo.