Folhas inúteis
Capítulo 6
— Mas em Montefiascone — dizia o mr. Cardan, concluindo a história do bispo alemão que batizara o famoso vinho local com um curioso nome — o ajudante do bispo Defuk encontrou bom vinho em todas as lojas e tabernas; e então, quando seu senhor chegou, deparou com o sinal combinado escrito com giz em centenas de portas: Est, Est, Est; a cidade estava cheia deles. E o bispo ficou tão maravilhado com a bebida que decidiu estabelecer-se em Montefiascone por toda a vida. Mas bebia tanto que em curto tempo ficou demonstrado que ele se estabelecera lá para morrer. Foi enterrado numa pequena igreja aqui perto. Na sua lápide, o ajudante mandou gravar o retrato do bispo e este breve epitáfio: “Est Est Jo Defuk. Propter nimium hic est. Dominus meus mortuus est”. Desde então o vinho chama-se Est Est Est. Para nós, mais sérios, pediremos uma garrafa do seco. E para as mulheres e os mais frívolos, um doce moscato para acompanhar a sobremesa. Agora vejamos o que temos aqui para comer. Ele pegou o cardápio e, afastando-o dos olhos (porque o mr. Cardan, como todos os de sua idade, só enxergava de longe), começou a ler devagar, comentando cada item. Era sempre o mr. Cardan que fazia os pedidos (embora geralmente fossem lorde Hovenden ou a sra. Aldwinkle que pagassem), sempre ele. Porque era tacitamente aceito por todos os presentes como um especialista em comidas e vinhos, um gastrônomo profissional, um acadêmico em bebidas.
Ao ver o mr. Cardan com a carta, o proprietário aproximou-se esfregando as mãos e sorrindo gentilmente — o que deveria ser feito quando chegava um Rolls-Royce cheio de estrangeiros. Estava pronto para anotar os pedidos e aconselhar.
— O peixe está especial — confidenciou ele ao mr. Cardan, beijando as pontas dos dedos. — Vem de Bolsena, do lago lá embaixo. — Apontou pela janela a noite escura. Em algum lugar por ali estava o lago Bolsena.
O mr. Cardan ergueu a mão.
— Não, não — recusou decidido e balançou a cabeça. — Nem fale em peixe. Não são confiáveis nestes lugares pequenos — explicou aos companheiros. — Principalmente neste calor. Além disso, imagine comer os peixes de Bolsena, um lugar em que se operam milagres, em que a hóstia sagrada sangra pela edificação dos piedosos e como prova da transubstanciação. Não, não — repetiu —, os peixes de Bolsena são por demais duvidosos. Fiquemos com os ovos fritos e depois filé e vitela. Ou um franguinho assado...
— Quero peixe — disse a srta. Elver. A sinceridade apaixonada de seu tom de voz criou um admirável contraste com a ironia do mr. Cardan.
— Eu não aconselharia — disse ele.
— Eu gosto de peixe.
— Mas pode não estar bom. E impossível ter certeza.
— Eu quero — insistiu a srta. Elver. — Adoro peixe. — Seu grande lábio inferior começou a tremer e os olhos se encheram de lágrimas. — Eu quero!
— Bem, se é assim, podemos pedir peixe — disse o mr. Cardan, esforçando-se para consolá-la. — Se você gosta tanto... Só espero que esteja bom. E provavelmente estará...
A srta. Elver foi confortada, assoou o nariz comprido e sorriu.
— Obrigada, Tommy — disse, corando ao dizer o nome.
Depois do jantar eles foram à praça beber café e licor. Estava cheia de gente e iluminada com lâmpadas coloridas. No centro, a banda da sociedade filarmônica local dava seu concerto vespertino de todos os domingos. Plantada num plano mais alto, a igreja de Sammicheli olhava solenemente. Suas pilastras estavam iluminadas e a cúpula alta se ocultava na noite.
— A escolha — dizia o mr. Cardan, olhando ao redor da praça — parece recair entre o Café Moderno e o Bar Ideale. Pessoalmente prefiro o ideal ao real, embora seja muito desagradável ter que ficar de pé num bar. Já num café, por mais materialista que seja, poderemos nos sentar. Temo que o Moderno imponha-se à força sobre nós.
Eles foram para o café.
— Por falar em bares — disse Chelifer, depois de se sentarem a uma pequena mesa —, já lhe ocorreu enumerar as palavras inglesas que são de uso corrente internacional? De certa forma é uma seleção curiosa e que me parece lançar alguma luz sobre a natureza e importância da nossa civilização anglo-saxônica. As três palavras da língua de Shakespeare que são completamente aceitas em todo o mundo são bar, sport e W.C. Atualmente servem tanto para o finlandês quanto para o inglês. Cada uma delas possui o que se pode chamar de uma família. Em torno da ideia de bar agrupam-se várias outras palavras como bitter, cocktail, whisky e assim por diante. Sport também arrasta atrás de si uma enorme família. Match, por exemplo, Touring Club, o verbo to box, cycle-car, performance (no sentido esportivo) e várias outras. Já a ideia de saneamento hidráulico tem um único filho de que me lembro, que é tub. Eis aí um som estranhamente antiquado para o inglês atual; mas na Iugoslávia é extremamente moderno. O que nos leva a outra classe de palavras inglesas internacionais que nunca serviram para nada em inglês. Um smoking, por exemplo, um dancing, um five o’clock nunca existiram senão no continente europeu. Assim como high-life, tão popular em Atenas, onde se soletra iota, gama, lambda, fi, e que data de uma época remota, a vitoriana, da história da nossa cultura nacional.
— E spleen — disse o mr. Cardan. — Você se esqueceu de spleen, que vem de muito antes. Uma palavra aristocrática, essa; fomos tolos em permitir que se extinguisse. Hoje temos que ir à França para ouvi-la.
— A palavra pode ter morrido — disse Chelifer —, mas imagino que a emoção jamais tenha florescido com tanta exuberância como agora. Quanto maior o progresso material, quanto maiores as riquezas e o tempo disponível e mais estandardizadas as diversões, maior será a depressão. É inevitável, é uma lei da natureza. As pessoas que sempre sofreram de depressão e que são suas principais vítimas são as mais prósperas, instruídas e educadas. Atualmente são uma minoria relativamente pequena; mas, no Estado utópico em que todos são prósperos, instruídos e educados, todo mundo sofre de depressão, a menos que por alguma razão desconhecida as mesmas causas deixem de produzir os mesmos efeitos. Somente duas ou três centenas de pessoas sobreviveriam a todo um período de vida em um Estado utópico realmente eficiente. A maioria morreria de depressão. Dessa maneira, talvez, a seleção natural venha a agir em função da evolução de um super-homem. Só os inteligentes poderão suportar a carga quase intolerável de prazeres e prosperidade. Os demais simplesmente sucumbirão ou cortarão seus pescoços; ou, o que talvez seja mais provável, retornarão desesperados aos prazeres do barbarismo e cortarão os pescoços uns dos outros, sem mencionar os dos inteligentes.
— Parece-me um final mais adequado e natural — disse o mr. Cardan. — Se, entre duas alternativas, uma se harmoniza com as nossas aspirações mais altas e a outra, humanamente falando, é completamente sem sentido e descartável, pode ter certeza de que a natureza escolherá a segunda.
Às dez e meia da noite a srta. Elver queixou-se de que não se sentia muito bem. O mr. Cardan suspirou e balançou a cabeça.
— Aqueles peixes milagrosos... — disse.
Eles voltaram ao hotel.
— Felizmente — disse a sra. Aldwinkle nessa noite, quando Irene escovava seus cabelos — nunca tive filhos. Eles destroem a silhueta de maneira irremediável. — Mesmo assim — Irene atreveu-se a discordar —, acho que deve ser muito divertido tê-los.
A sra. Aldwinkle pretextou uma dor de cabeça e mandou-a logo para a cama. Às duas e meia da madrugada, Irene foi acordada por um gemido terrivelmente melancólico e um grito pavoroso, vindos do quarto ao lado.
— Ai, ai, ai!
Era a voz de Grace Elver. Irene saltou da cama e correu para ver o que estava acontecendo. Encontrou a srta. Elver deitada na cama desarrumada, contorcendo-se de dor.
— O que é? — perguntou.
A srta. Elver não deu uma resposta articulada.
— Ai, ai, ai — repetia, virando a cabeça de um lado para o outro, tentando livrar-se da dor constante.
Irene correu ao quarto da tia, bateu à porta e, não obtendo resposta, entrou.
— Tia Lilian — chamou no quarto escuro. — Tia Lilian! — agora mais alto.
Ninguém respondeu. Irene procurou o interruptor e acendeu a luz. A cama da sra. Aldwinkle estava vazia. Irene ficou olhando sem entender, especulando, imaginando. No corredor, os gemidos incessantes continuavam: “Ai, ai!”. Irene foi despertada de sua imobilidade momentânea. Saiu para o corredor e foi bater na porta do mr. Cardan.