Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 3 de 43

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Folhas inúteis

Capítulo 3

 

O jantar foi servido no Salão dos Ancestrais. Na entusiástica imaginação da sra. Aldwinkle, que maravilhosos banquetes teriam acontecido entre aquelas paredes — mesmo séculos antes de elas terem sido erguidas —, que festins intelectuais! Lá, Aquino teria confiado a um ancestral Malaspina sua dúvida secreta sobre a previsibilidade das rotações e repreendido a marquesa ladra, por cima de uma taça de vinho, com a delicadeza de sua sindérese. Dante insistira nas vantagens de ter uma amante platônica que jamais se conhecia e que poderia, quando necessário, ser identificada com a teologia. Nesse ínterim, a caminho de Roma, Pedro da Picardia recitara, de sua versão rimada do Physiologus, os versos sobre a Hiena, a besta que, além de ser hermafrodita, trazia no olho uma pedra que, colocada na boca de um homem, dava-lhe poderes para ver o futuro; a pedra simbolizava sobretudo a avareza e a lascívia. O douto Boccaccio havia discursado sobre a genealogia dos deuses. Picco della Mirandola citara a cabala por cima da cabeça de um javali, apoiando a doutrina da Trindade. Michelangelo expusera seus planos para a fachada de San Lorenzo, em Florença. Galileu indagara por que a natureza repelia o vácuo somente até nove metros e sessenta. Marini teria se espantado com esses conceitos. Luca Giordano, numa aposta, havia pintado, entre o assado e a sobremesa, um retrato em tamanho natural de Aníbal cruzando os Alpes... Além disso, que damas brilhantes teriam engrandecido o lustro daqueles festins! Adoráveis, perenemente jovens, perfeitas como as protagonistas do Cortesão de Castiglione, amorosas ao extremo, elas haviam inspirado os homens de gênio a fazerem voos ainda mais altos e coroado as mais duras observações com uma palavra de cortesia feminina.

Desde que comprara o palácio, a sra. Aldwinkle ambicionava reviver essas glórias ancestrais. Via a si mesma como uma princesa não oficial, rodeada de uma corte de poetas, filósofos e artistas. E os grandes salões e jardins sendo singrados por belas mulheres, reluzentes de amor pelos homens de gênio. Periodicamente — porque o aposento dos anões, que Cybo Malaspina, imitando os Gonzaga, havia incluído no palácio, exigia hóspedes apropriados para habitá-lo —, periodicamente elas trariam à luz, sem qualquer dor, os filhos desses gênios: todos com cabelos cacheados, já com dois anos de idade ao nascer e todos os dentes na boca, todos crianças prodígios. Coleções de Mozarts em miniatura. Em resumo, o palácio de Vezza deveria voltar a ser o que jamais fora, exceto na fantasia da sra. Aldwinkle.

O que ele realmente fora podia-se apenas imaginar ao se ver os rostos dos ancestrais que davam nome ao salão de festas.

De nichos circulares incrustados no alto das paredes da imensa sala quadrada, filas de bustos dos senhores de Massa Carrara espiavam através dos séculos intermediários. Davam a volta ao salão, partindo do lado esquerdo da lareira e concluindo do lado direito com o penúltimo Cybo Malaspina, que havia construído o salão. E, enquanto marquês sucedia a marquês e príncipe a príncipe, uma expressão de imbecilidade cada vez mais profunda aparecia no rosto dos Ancestrais. O nariz de abutre e a fantástica mandíbula da primeira marquesa ladra iam se transformando gradualmente em imprecisas trombas de tamanduás, em deformidades criminalmente prognatas. A testa se tornava mais baixa a cada geração, o olhar arregalado e marmóreo ficava mais estúpido, e a altivez intencional, mais forte em todas as fisionomias. Os Cybo Malaspina gabavam-se de jamais terem se casado com alguém abaixo deles e de que seus herdeiros sempre foram legítimos. Bastava ver o rosto dos três últimos príncipes para se ter certeza de que a bazófia era amplamente justificada. Teriam eles sido amigos das Musas?

— Imagine o esplendor das cenas — disse a sra. Aldwinkle, enlevada, ao entrar no Salão dos Ancestrais levada pelo braço de Calamy. — Velas inumeráveis, sedas, joias! E o movimento das pessoas, os maneirismos mais pomposos, sempre de acordo com as mais rígidas regras de etiqueta! — Como última representante, embora adotiva, desses magníficos seres, a sra. Aldwinkle ergueu ainda mais a cabeça e, adquirindo um porte mais avantajado, navegou pelo salão em direção a uma pequena mesa, onde, com esplendor encolhido, os sucessores dos Cybo Malaspina deveriam jantar. A cauda do vestido de veludo coral se arrastava atrás dela.

— Devia ser tudo muito bonito — concordou Calamy. — Tenho certeza de que, do ponto de vista pitoresco, perdemos muito com o abandono da etiqueta. É surpreendente como o informalismo ganhou espaço. O mr. Gladstone, depois de velho, fez uma visita a Oxford e ficou horrorizado diante dos novos modismos nas roupas dos estudantes. Na sua juventude, qualquer rapaz de respeito possuía ao menos um par de calças com o qual nunca se sentava, para evitar que se formassem bolsas nos joelhos, e até o terno com que andava normalmente pelas ruas jamais custava menos de setenta ou oitenta libras. E olhe que na ocasião da visita do mr. Gladstone os estudantes ainda usavam colarinho duro e chapéu-coco. O que diria ele se os visse agora? E o que diremos nós daqui a cinquenta anos?

Os convidados se dispuseram ao redor da mesa. Calamy, como recém-chegado, ocupou o lugar de honra, à direita da sra. Aldwinkle.

— Você mencionou um assunto muito interessante — disse o mr. Cardan, que se sentara do lado oposto, à esquerda da anfitriã. — Muito interessante — repetiu, desdobrando o guardanapo. O mr. Cardan era um homem de altura mediana e sólida compleição física. A circunferência superior de suas calças seguia uma ampla geodésica; seus ombros eram largos; o pescoço, curto e poderoso. O rosto era uma protuberância arredondada e rija, como o punho de um cassetete. Era um rosto enigmático e equívoco, cuja expressão normal mostrava-se ao mesmo tempo grosseira e sensivelmente refinada, séria e irônica. Na boca pequena, os lábios finos se encaixavam firmemente um no outro, como se fossem partes móveis de uma peça de mobília muito bem-feita, e se fechavam numa linha quase reta, embora num dos lados a gravidade horizontal defletisse um mínimo para baixo, de modo que o mr. Cardan parecia estar num eterno processo de suprimir um sorriso esquivo, sempre a importunar sua compostura. Os cabelos eram lisos, prateados e impecáveis; o nariz, curto e reto, como o de um leão — mas um leão que se tornara, com o tempo e a boa vida, um tanto indolente. Fitando a partir do centro de uma teia de rugas finas, os olhos eram pequenos, brilhantes e muito azuis. Em consequência, talvez, de uma doença — ou talvez fosse meramente o peso dos sessenta e seis anos —, uma sobrancelha branca se instalara permanentemente mais baixo que a outra. Com o lado direito do rosto o mr. Cardan olhava de uma maneira misteriosa e confidencial, por uma fresta, numa espécie de piscadela crônica. Mas do lado esquerdo o olhar era arrogante e aristocrático, como se a órbita ocidental estivesse esticada por um monóculo invisível, pouco maior do que ela. Uma expressão de benevolência misturava-se a uma certa malícia quando ele falava; e quando ria todas as facetas do rosto em forma de punho de cassetete, de um vermelho brilhante, cintilavam com a hilaridade, como se de repente fossem iluminadas por dentro. O mr. Cardan não era poeta nem filósofo, tampouco pertencia a uma família notadamente brilhante; mas a sra. Aldwinkle, que o conhecia intimamente havia muitos anos, justificava sua inclusão entre seus cortesãos por ele ser um dos Grandes obscuros: potencialmente, podia ser qualquer coisa que quisesse, mas na realidade era indefinido, por indolência.

O mr. Cardan tomou algumas colheradas de sopa antes de prosseguir:

— Um assunto muito interessante — repetiu. Sua voz era melodiosa, madura, vigorosa, suculenta e levemente rouca; a rouquidão lânguida daqueles que beberam bem, comeram bem e fizeram amor copiosamente. — Formalismo, pompa, etiqueta: seu quase desaparecimento da vida moderna é realmente extraordinário, quando paramos para pensar. Formalismo e pompa eram alguns dos traços essenciais dos antigos governos. Tirania temperada com cenas de transformação era a fórmula de todos os governos do século xvii, particularmente na Itália. Contanto que o povo se divertisse assistindo a um cortejo ou a qualquer função similarmente espetacular ao menos uma vez por mês, podia-se fazer tudo o que se quisesse. Era o método papal par excellence. Mas foi imitado por todos os grandes senhores, até o mais insignificante condado da península. Observem como toda a arquitetura do período é condicionada pela necessidade de exibição. O arquiteto existia para criar os cenários das incessantes representações amadorísticas de seus senhores. Vastos panoramas avistados ao se caminhar por salões interligados, alamedas para os cortejos, largas escadarias para o Grande Monarca descer das alturas. Nenhum conforto, uma vez que o conforto era apenas privado, mas muito esplendor, para impressionar o espectador. Napoleão foi o último governante a adotar essa prática de forma sistemática e científica em grande escala. Aquelas inspeções, as entradas e saídas triunfais, as coroações, os casamentos e as cerimônias de crisma, todos com efeitos cênicos cuidadosamente preparados; estava aí o seu segredo. Hoje a pompa não existe mais. Serão nossos governantes tão estúpidos a ponto de não aprenderem com a história e negligenciarem esses auxílios aos governos? Ou será que os gostos mudaram, que o público não exige mais espetáculos, não se impressiona mais com eles? Coloco essa questão aos nossos amigos políticos. — O mr. Cardan curvou-se para a frente e, passando os olhos pela srta. Thriplow, sentada à sua esquerda, sorriu para o jovem além dela, depois para o homem mais velho que ocupara o lugar exatamente do lado oposto da mesa, ao lado de Irene Aldwinkle.

O rapaz, que parecia ainda mais jovem do que realmente era — e fazia no máximo dois ou três meses que lorde Hovenden atingira a maioridade —, sorriu amavelmente para o mr. Cardan e olhou, esperançoso, para a pessoa sentada diante dele.

— Pergunte-me outra — disse. Lorde Hovenden ainda tinha dificuldade em pronunciar o tr. — O que tem a dizer, mr. Falx? — Uma expressão de respeito atencioso surgiu-lhe no rosto infantil e coberto de sardas enquanto esperava a resposta. Fosse qual fosse, era óbvio que lorde Hovenden aguardava-a como um oráculo. Ele admirava, venerava o mr. Falx.

O mr. Falx realmente inspirava admiração e respeito. Com sua barba branca, os cabelos longos e crespos, os grandes olhos agudos, a testa lisa e ampla, o nariz aquilino, tinha o ar de um profeta menor. As aparências não enganavam. Com outra idade, em outro ambiente, o mr. Falx teria sido provavelmente um profeta menor: o anunciador, o porta-voz do Senhor, o clamante da salvação, o ameaçador da ira que recairia sobre todos. Nascido no meio do século xix e tendo passado os melhores anos de sua vida numa profissão que entre os três e os sete anos todos os meninos desejavam abraçar — operador de máquinas —, ele se tornara não exatamente um profeta, mas um líder trabalhista.

Lorde Hovenden, cujas pretensões a pertencer à corte da sra. Aldwinkle baseavam-se no fato de ela conhecê-lo desde que nascera, de ele descender de Simon de Montfort e ser imensamente rico, conquistara ainda outro mérito: tornara-se ardente ativista da Liga Socialista. Um antigo professor, ainda jovem, fora o primeiro a informá-lo do fato — até então imperfeitamente compreendido por lorde Hovenden — de que havia muita gente miserável vivendo de modo extremamente desagradável e árduo e que, se houvesse justiça, poderia estar numa situação muito melhor. Os impulsos generosos de lorde Hovenden foram atiçados. Jovialmente, ele desejava apressar um novo milênio. Talvez, também, uma certa ambição egoísta de se distinguir dos colegas tivesse algo a ver com esse entusiasmo. Entre as pessoas nascidas em posições privilegiadas, cercadas de riqueza, o esnobismo muitas vezes assume uma forma diferente da habitual. Nem sempre, é verdade; porque existem muitas pessoas ricas e tituladas para quem a riqueza e o título merecem o mesmo respeito abjeto demonstrado por aqueles cuja familiaridade com a nobreza e a plutocracia só existe na ficção e nas páginas dos jornais. Mas outros, que ambicionam afastar-se do ambiente familiar para atingir, quase sempre intelectualmente, esferas mais altas, acabam infectados por um esnobismo apaixonado em relação ao mundo artístico e político. Esse esnobismo — o esnobismo do sangue que corre para o cérebro — estava misturado, sem que lorde Hovenden se desse conta, aos seus ardores puramente humanitários e lhe conferia uma forma adicional. O prazer que lorde Hovenden sentira ao ser apresentado ao mr. Falx fora enorme, e o pensamento de que somente ele, entre todos os seus amigos e conhecidos, gozava do privilégio de manter relações com o mr. Falx, de que somente ele estava livre do excitante mundo político no qual o mr. Falx vivia, tudo fazia crescer ainda mais o seu entusiasmo pela causa da justiça. Houve ocasiões, entretanto, e nos últimos tempos elas tinham se tornado mais frequentes, em que lorde Hovenden descobrira que as exigências de sua extenuante vida social deixavam-lhe pouco tempo para o mr. Falx ou para a Liga Socialista. Para alguém que dançava tanto quanto ele normalmente o fazia, era difícil dar atenção a qualquer outra coisa. Nos intervalos entre um compromisso social e outro ele se lembrava, envergonhado, de que não cumprira os deveres impostos por seus princípios. Fora para compensar o amortecimento de seu entusiasmo que ele abreviara uma temporada de caça a perdizes para acompanhar o mr. Falx em uma Conferência Internacional do Trabalho em Roma. O encontro se estenderia até o final de setembro, mas lorde Hovenden decidira sacrificar mais um mês de caça, além do necessário, sugerindo que, antes da conferência, o mr. Falx e ele fossem passar algumas semanas com a sra. Aldwinkle. “Venha quando quiser e traga quem quiser”, foram as palavras do convite feito por Lilian. Ele telegrafou à sra. Aldwinkle dizendo que o mr. Falx precisava de um descanso e que gostaria de levá-lo; a sra. Aldwinkle respondeu que adoraria recebê-los. Assim, lá estavam eles.

O mr. Falx pensou um momento antes de responder à pergunta do mr. Cardan. Correu os olhos brilhantes pela mesa, para ter a atenção de todos, e então falou com a penetrante sonoridade com que já levara tantas plateias ao auge do entusiasmo.

— Os governantes do século xx — disse ele — respeitam demais a democracia para ludibriá-la, mantendo o povo satisfeito com meros espetáculos. As democracias exigem razão.

— Ora, vamos lá — protestou o mr. Cardan. — O que me diz, então, da agitação do mr. Bryan contra a Evolução?

— Além disso — continuou o mr. Falx, ignorando a pergunta —, nós, no século xx, já superamos essas coisas.

— Talvez tenhamos superado — disse o mr. Cardan —, mas nem imagino como conseguimos fazê-lo. As opiniões mudam, é claro, mas gostar de assistir a um espetáculo não é uma questão de opinião. Fundamenta-se em algo mais profundo, que nada tem a ver com mudança. — O mr. Cardan balançou a cabeça. — Isso me faz lembrar — continuou, após uma pequena pausa — de outra mudança, tão profundamente enraizada que nunca me dou conta: a mudança da nossa suscetibilidade à adulação. É impossível ler qualquer artigo moralista sem encontrar inúmeras advertências contra os aduladores. “Uma boca aduladora produz a ruína”, isso está na Bíblia. E a recompensa do adulador também está especificada nela: “Os que adularem os amigos, os olhos de seus filhos serão cegados”, embora se possa pensar que a vicariedade da punição ameaçada a torna um pouco menos terrível. Seja como for, nos tempos antigos os grandes e prósperos pareciam estar positivamente à mercê dos aduladores. E estes exageravam demais, faziam um trabalho, no final das contas, extremamente grosseiro. Será que a plutocracia educacional daquela época deixava-se realmente enganar por esse tipo de coisa? Agora é diferente. Nos dias de hoje a adulação tem que ser muito mais sutil para produzir o mesmo efeito. Além disso, nunca encontrei nos moralistas modernos qualquer advertência contra os aduladores. Houve alguma mudança, mas como ela aconteceu realmente não sei.

— Talvez tenha havido um progresso moral — sugeriu o mr. Falx.

Lorde Hovenden afastou o olhar do rosto do mr. Falx, no qual estivera reverentemente fixado enquanto ele falava, e sorriu triunfante para o mr. Cardan, querendo saber se ele tinha alguma resposta para isso.

— Talvez — repetiu o mr. Cardan, de maneira bastante dúbia.

Calamy sugeriu outro motivo:

— Talvez se deva à mudança de posição dos grandes poderosos. No passado, eles viam a si próprios, e eram vistos pelos outros, como sendo o que eram por direito divino. Consequentemente, as adulações mais grosseiras nada mais eram do que o que mereciam receber. Mas hoje o direito de ser príncipe ou milionário é um pouco menos divino do que antes. A adulação, outrora uma expressão do respeito merecido, hoje soa exagerada; e o que no passado era tido como quase sincero hoje é visto como irônico.

— Acho que você está certo — disse o mr. Cardan. — Seja como for, o resultado da queda repentina da adulação foi a grande alteração sofrida pela técnica do parasitismo.

— Essa técnica foi alguma vez alterada? — perguntou o mr. Falx. Lorde Hovenden transferiu a pergunta ao mr. Cardan com um sorriso inquisidor. — O parasita não tem sido sempre o mesmo, vivendo do trabalho da sociedade sem contribuir para o bem comum?

— Estamos falando de tipos diferentes de parasitas — explicou o mr. Cardan, piscando genialmente para o profeta menor. — Os seus parasitas são os ricos ociosos; os meus são os pobres ociosos que vivem dos ricos ociosos. Os pulgões e as pulguinhas; refiro-me ao verme dos vermes. Posso lhe assegurar que é uma classe muito mais interessante e que, na verdade, nunca foi devidamente reconhecida pelos historiadores naturais da humanidade. Existe o grande trabalho de Lucian sobre a arte de ser parasita; um trabalho sem dúvida excelente, mas um pouco fora de moda, particularmente no que diz respeito à adulação. Melhor que Lucian é Diderot. Mas O sobrinho de Rameau trata somente de um único tipo de parasita, e um dos menos bem-sucedidos ou dignos de imitação. O mr. Skimpole, em Casa

desolada,[2] não é mau. Mas falta-lhe sutileza, não é o exemplo perfeito do verme florescente. O fato é

que nenhum escritor, que eu saiba, se aprofundou realmente na questão do parasitismo. Eu sinto falta disso — acrescentou o mr. Cardan, dando antes uma piscadela para a sra. Aldwinkle e depois, olhando ao redor da mesa, para os convidados — quase como uma afronta pessoal. Abraçando como eu, ou, quem sabe, tentando abraçar fosse mais exato, o mistério do parasitismo, encaro esse silêncio conspiratório como um insulto.

— Mas que absurdo! — disse a sra. Aldwinkle. As referências complacentes aos próprios defeitos e fraquezas morais eram frequentes no discurso do mr. Cardan. Antecipar-se às críticas a fim de desarmá-las, chocar e causar embaraço aos mais suscetíveis, declarar sua liberdade diante dos preconceitos comuns, expor tranquilamente defeitos que outros desejariam ocultar, era com esses objetivos que o mr. Cardan se expunha com tanta displicência. — Absurdo! — repetiu a sra. Aldwinkle.

— Nem tanto — disse o mr. Cardan, balançando a cabeça. — Estou apenas dizendo a verdade. Também é verdade que nunca fui um parasita bem-sucedido. Poderia ter sido um adulador competente, mas infelizmente tenho que viver numa época em que a adulação não funciona. Talvez eu pudesse ter sido um bufão razoavelmente bom, se fosse um pouco menos estúpido e um pouco mais engraçado. Mas nesse caso certamente eu pensaria duas vezes antes de abraçar esse tronco do parasitismo. É perigoso ser um bobo da corte, é precário demais. Pode-se agradar por um tempo, mas no final ou você se torna entediante ou ofende seu protetor. O sobrinho de Rameau, de Diderot, é o maior exemplo literário do gênero; vocês conhecem o tipo de vida miserável que ele levava. Não, os parasitas permanentemente bem-sucedidos, mesmo nos tempos atuais, pertencem a um tipo muito diferente, um tipo, infelizmente, ao qual nem por ingenuidade poderia me adaptar.

— Espero que não — disse a sra. Aldwinkle, defendendo o Melhor Ego do mr. Cardan.

Ele assentiu em sinal de gratidão e continuou:

— Todos os parasitas bem-sucedidos que conheci nos últimos tempos são da mesma espécie. São quietos, gentis, quase patéticos. Despertam instintos maternais de proteção. Em geral possuem algum talento adorável, jamais apreciado pelo mundo vulgar, mas reconhecido por seu protetor porque convém a ele, é claro (essa é uma adulação delicadíssima). Esses parasitas não são ofensivos como os bufões; nunca se intrometem, mas espreitam com olhos de cão; quando sua presença é cansativa, sabem se tornar praticamente inexistentes. Sua proteção satisfaz o desejo de posse e o instinto altruístico paternal que nos impele a amparar o fraco. Você poderia escrever sobre isso — continuou o mr. Cardan, dirigindo-se à srta. Thriplow. — Daria um livro muito profundo. Eu mesmo o teria feito, se fosse um escritor; só não o fui porque Deus não quis. Estou lhe dando uma sugestão.

A srta. Thriplow agradeceu com palavras monossilábicas. Durante todo o jantar ela se mantivera calada. Depois de todos os riscos que correra naquela tarde, das gafes que estivera a ponto de cometer, achou melhor ficar quieta e parecer tão simples e genuína quanto possível. Algumas leves alterações na toalete, antes do jantar, fizeram toda a diferença. Começara por tirar o colar de pérolas e também, apesar da simplicidade do modelo, o anel de esmeralda. Melhor assim, dissera a si mesma ao olhar no espelho sua figura obscura, de túnica negra, sem uma única joia, as mãos brancas e frágeis, o rosto plácido e suave. “Que expressão franca e inocente ela tem, com seus olhos grandes e castanhos!”, ela imaginava Calamy dizendo ao mr. Cardan; mas não sabia o que o mr. Cardan poderia responder; ele era um cínico. Abriu a gaveta e tirou dela um xale de seda preto — não o veneziano de franjas longas, mas outro muito menos romântico. Colocou-o sobre os ombros e com as duas mãos prendeu-o na altura dos seios. A imagem no espelho lembrava a de uma freira; melhor ainda, pensou, uma menina de colégio de freiras a caminhar aos pares numa fila muito longa, de uniforme preto, e por baixo da saia um calção bufante de babados, descendo até os calcanhares. Mas se cobrisse a cabeça com o xale, como um capuz, ficaria ainda mais obscura, mais pobre e mais honesta — uma operária de tamancos, andando a caminho da fábrica de tecidos. Talvez estivesse indo longe demais. Afinal, não era uma operária de Lancashire. Era uma mulher muito culta, mas não convencida; inteligente, mas simples e genuína. Isso é o que ela era. Por fim, desceu para o jantar com o xale preto amarrado com firmeza sobre os ombros. Muito pequena e retraída. A aluna de colégio de freiras tinha todos os talentos; mas, por ora, só falaria quando lhe dirigissem a palavra. E então, modesta e recatadamente, ela agradeceu ao mr. Cardan.

— O mais triste de tudo isso — continuou ele — é o fato de eu jamais ter conseguido persuadir alguém a tornar-se totalmente responsável por mim. É verdade que comi quilos e quilos da comida de outras pessoas, bebi litros e litros de seus licores — ergueu o copo e olhou por cima dele para a anfitriã, esvaziando-o à saúde dela —, pelos quais sou imensamente grato. Mas nunca planejei viver permanentemente à custa dessas pessoas. E nem elas, de sua parte, deram o menor sinal de me querer para sempre a seu lado. Infelizmente não tenho esse tipo de caráter. Não sou patético. Nunca despertei nas mulheres a necessidade de exercitarem seus cuidados maternais. Na verdade, se tive algum sucesso com elas, estou certo de que posso dizer isso sem vaidade, foi devido à minha força mais do que à minha fragilidade. Aos sessenta e seis anos, entretanto... — balançou a cabeça tristemente. — Ainda assim, para compensar, não se é outra coisa além de mais patético.

O mr. Falx, cujos princípios morais eram simples e ortodoxos, balançou a cabeça; ele não gostava disso. O mr. Cardan, ainda por cima, o confundia.

— Bem — pronunciou ele —, tudo o que posso dizer é que enquanto estivermos temporariamente no poder não haverá nenhum parasita da espécie do mr. Cardan, pela simples razão de que não haverá parasitas de espécie alguma. Todos estarão fazendo a sua parte.

— Felizmente — disse o mr. Cardan, atirando novamente o outro na confusão — eu estarei morto quando isso acontecer. Não poderei encarar o mundo depois que os amigos do mr. Falx o tiverem medicado com vermífugos. Ah, vocês jovens! — continuou ele, dirigindo-se à srta. Thriplow. — Que erro terrível cometeram por terem nascido nesta época!

— Eu não me arrependo — disse a srta. Thriplow.

— Nem eu — concordou Calamy.

— E nem eu — repetiu a sra. Aldwinkle, incluindo-se ardorosamente na ala da juventude. Ela se sentia tão jovem quanto os outros. Muito mais, até. Por ter sido um deles quando o mundo era mais jovem, tivera os pensamentos e os sentimentos de uma geração que crescera tranquilamente em ambientes seguros — talvez nem tivesse crescido. As circunstâncias que haviam feito a geração abaixo da sua amadurecer tão violenta e desnaturadamente haviam-na deixado intocada em seu molde definitivo, enrijecida como já estava nessa época. Espiritualmente, eles eram mais velhos que ela.

— Não imagino que seja possível viver numa época mais excitante — disse Calamy. — A sensação de que todas as coisas são perfeitamente provisórias, tudo, inclusive as instituições sociais, que até agora temos considerado como sagradas verdades científicas, e de que nada, desde o Tratado de Versalhes até o universo explicado racionalmente, é mesmo seguro; acredito convictamente que qualquer coisa possa acontecer, vir a ser descoberta — outra guerra, a criação artificial da vida, a prova da continuidade da existência após a morte. Isso é infinitamente estimulante.

— Até a possibilidade de que tudo venha a ser destruído? — perguntou o mr. Cardan.

— Isso também é excitante — respondeu Calamy, sorrindo.

O mr. Cardan balançou a cabeça.

— Posso parecer um tanto monótono — disse ele —, mas confesso que prefiro uma vida mais calma. Insisto em que vocês cometeram um erro ao ter ajustado sua entrada no mundo de maneira que o período da juventude tenha coincidido com a guerra, e o início da idade madura, com esta paz horrivelmente insegura e pouco próspera. Como minha existência foi mais bem administrada! Fiz minha entrada no mundo no início dos anos 1850; fui quase irmão gêmeo de A origem das espécies... Eduquei-me na autêntica fé materialista do século xix; uma fé não perturbada por dúvidas e até agora não corrompida por esse inquieto modernismo científico, que hoje transforma os mais sólidos físicos-matemáticos em místicos. Éramos maravilhosamente otimistas; acreditávamos no progresso e na explicação definitiva de todas as coisas em termos da física e da química; confiávamos no mr. Gladstone e na nossa própria superioridade intelectual e moral diante de todas as outras épocas. E isso não é de espantar, porque ficávamos mais ricos a cada dia. As classes inferiores, que naquela época ainda se permitiam ser chamadas por esse nome encantador, tinham mais respeitabilidade, e as chances de haver uma revolução eram extremamente remotas. É verdade que, ao mesmo tempo, íamos nos tornando tímida mas desconfortavelmente conscientes de que essas classes inferiores levavam uma vida bem desagradável, e que talvez as leis da economia não fossem tão inalteráveis pela mediação humana quanto preferia pensar o mr. Buckle. E quando os nossos dividendos chegavam em quantidade... eu ainda recebia dividendos nessa época — o mr. Cardan suspirou ao introduzir esse parêntese —, tão regulares quanto os solstícios... é bem verdade que sentíamos quase uma pontada de consciência social. Mas nos livrávamos triunfalmente dessa ameaça fazendo doações a instituições de caridade ou construindo, com uma parte mínima dos nossos lucros abundantes, um número bastante supérfluo de sanitários azulejados para os nossos trabalhadores. Esses sanitários eram, para nós, o que foram as indulgências papais para os contemporâneos menos esclarecidos de Chaucer. Com a fatura desses sanitários no bolso do paletó podíamos retirar nossos próximos dividendos com a consciência perfeitamente serena. Isso também justificava nossas inocentes diversões. E como nos divertíamos! Discretamente, é claro. Porque naquela época não podíamos fazer as coisas tão abertamente quanto vocês as fazem hoje. De qualquer maneira, era muito divertido. Lembro-me de um número fenomenal de jantares de homens solteiros em que encantadoras criaturas surgiam de dentro de tortas gigantescas e dançavam pas seul por entre a porcelana da mesa. — Lembrando-se disso, o mr. Cardan meneou lentamente a cabeça e entrou num êxtase de lembranças silencioso.

— Isso me parece bastante i-dí-li-co — disse a srta. Thriplow, arrastando as sílabas. Ela tinha um jeito adorável de se demorar em qualquer palavra que lhe parecesse rara ou apetitosa e que porventura encontrasse no decorrer de suas frases.

— E era — afirmou o mr. Cardan. — Ainda mais por ser tão completamente contra as regras daqueles bons tempos e ser necessário usar de tanta discrição. Pode ser apenas que eu esteja velho demais e que minhas faculdades mentais estejam enfraquecendo junto com minhas artérias; mas não acho que o amor seja mais excitante hoje do que foi na minha juventude. Quando as saias tocam o chão, a protuberância de um artelho no sapato é uma tentação. Naquela época as saias cobriam absolutamente tudo. Nada era revelado, não havia nenhuma realidade aparente, apenas imaginação. Éramos verdadeiros barris de pólvora de repressão, e a mais leve alusão se transformava em fagulha. Hoje, quando as jovens andam por aí metidas em saias curtas e com o dorso tão exposto quanto o de um potro selvagem, os estímulos não existem mais. As cartas estão todas na mesa, não se pode blefar. Tudo está às claras e, por isso, é tremendamente desinteressante. A hipocrisia, além de ser o tributo que o vício paga à virtude, é também um artifício por meio do qual o vício se torna mais interessante. Aqui entre nós — confidenciou o mr. Cardan a todos à mesa —, nada se faz sem esses artifícios. Existe uma passagem muito interessante sobre essa questão em A prima Bete, de Balzac. Lembram-se da história?

— Maravilhosa!... — exclamou a sra. Aldwinkle, com o mesmo entusiasmo amplo e indistinto que sempre lhe evocavam as obras-primas.

— Foi quando o Barão Hulot se rendeu diante do discurso da sra. Marneffe: o belo do Império com a jovem educada no Renascimento romântico e nas antigas virtudes vitorianas. Vou ver se me lembro: “Cet homme de l’empire, habitué au genre empire, devait ignorer absolument les façons de l’amour moderne, les nouveaux scrupules, les différentes conversations inventées depuis 1830, et où la ‘pauvre faible femme’ finit par se faire considérer comme la victime des désirs de son amant, comme une sœur de charité qui panse des blessures, comme un ange qui se dévoue. Ce nouvel art d’aimer consomme énormément de paroles évangéliques à l’œuvre du diable. La passion est un martyre. On aspire à l’idéal, à l’infini de part et d’autre; l’on veut devenir meilleur par l’amour. Toutes ces belles phrases sont un prétexte à mettre encare plus d’ardeur dans la pratique, plus de rage dans les chutes — o mr. Cardan pronunciou essas palavras com especial sonoridade — que par le passé. Cette hypocrisie, le

caractère de notre temps a gangrenée la galanterie”.[3] Como é penetrante! — disse o mr. Cardan. —

Como é amplo e profundo! Só não posso concordar com o sentimento expresso na última frase. Porque, se, como diz o autor, a hipocrisia insufla ardor à prática do amor e mais “à correnteza’’, então não se pode dizer que a galanteria tenha gangrenado. Ela foi, na verdade, melhorada, revigorada, tornada mais interessante. A hipocrisia do século xix foi concomitante ao romantismo literário desse mesmo século: uma reação inevitável, como a que houve contra o classicismo excessivo do século xviii. O classicismo é intolerável na literatura por existirem regras restritivas demais e intolerável no amor por existirem tão poucas. O que há em comum, apesar da aparente diferença, é que tanto um quanto o outro são prosaicos e não emocionais. É apenas ao se inventar para o amor regras que podem ser quebradas, ao investi-lo de uma importância quase sobrenatural que ele se torna mais interessante. Anjos, filósofos e demônios devem rondar as alcovas, senão elas não têm interesse para homens e mulheres inteligentes. Personagens como essas não seriam encontradas nelas nos tempos clássicos, menos ainda nos neoclássicos. Todo o processo foi tão direto, prosaico, trivial e terre à terre quanto poderia ser. Realmente deve ter se tornado pouco mais interessante que fazer uma refeição, não que eu esteja menosprezando as refeições, particularmente nos dias de hoje; mas, quando era jovem...

O mr. Cardan suspirou:

— Naquela época eu dava menos valor à boa comida. Ainda hoje, tenho de admitir, não há muita excitação ou poesia no ato de comer. Suponho que somente nos países onde prevalecem poderosos tabus sobre a comida é que a satisfação da fome assume um aspecto romântico. Posso imaginar que um autêntico judeu da época de Samuel deva algumas vezes ter sido dominado por tentações quase irresistíveis de comer uma lagosta ou algum animal similar que tenha a pata dividida mas não rumine. Posso vê-lo enganando a esposa, dizendo que vai à sinagoga e, na realidade, esgueirando-se sub-repticiamente para dentro de um beco sinistro a fim de empanturrar-se ilicitamente em alguma casa de má fama com porco e maionese de lagosta. Que dramático! Eis aí uma ideia, gratuita, para tema de uma história.

— Estou muito agradecida — disse a srta. Thriplow.

— E então, lembre-se, na manhã seguinte, depois dos sonhos mais portentosos durante toda a noite, ele se levantará na mais estrita correção, o fariseu dos fariseus, e enviará sua filiação à Sociedade Protetora da Moral Pública e à Liga Antilagosta. Escreverá aos jornais dizendo quão indecoroso é que jovens novelistas tenham permissão para publicar livros com descrições revoltantes de presuntos saboreados em companhia de amigos, de orgias de ostras e outras imbecilidades culinárias, horríveis demais para serem mencionadas. Ele fará tudo isso, não é, srta. Mary?

— Certamente. O senhor se esqueceu de dizer — acrescentou a srta. Thriplow, sem lembrar que era uma menina de colégio de freiras — que ele insistirá, com a máxima veemência, em que sua filha seja educada na mais completa ignorância da mera existência das linguiças.

— Exatamente — disse o mr. Cardan. — Tudo isso foi simplesmente para mostrar que até o ato de comer pode se tornar excitante quando a religião é levada para dentro dele, quando a refeição se torna um mistério, quando a imaginação é estimulada ao máximo toda vez que a campainha soa. Em contrapartida, o amor se torna um tédio absoluto quando é tomado trivialmente, como uma mera refeição. Era essencial que os homens e as mulheres de 1830, se não quisessem morrer de puro tédio, inventassem a “pobre e frágil mulher”, a mártir, o anjo, a irmã de caridade, que citassem a Bíblia enquanto se consumava o serviço do diabo. O tipo de amor que seus predecessores do século xviii e do Império tinham feito era por demais prosaico. Eles se apegaram à hipocrisia por autopreservação. Mas a geração atual, cansada de representar Madame Marneffe, volta-se para os hábitos imperiais do Barão Hulot... A seu modo, a emancipação é sem dúvida excelente. Mas, ao final, ela derrota seu próprio objeto. As pessoas querem liberdade, mas o que conseguem transforma-se, por fim, em tédio. Para aqueles a quem o amor se tornou tão óbvio quanto uma refeição, o mistério deixou de existir tanto quanto as reticências e as estimulantes dissimulações, restando apenas a conversa franca e os fatos da natureza; tudo se tornará tão cansativo e corriqueiro! Serão necessárias muitas anáguas para excitar a imaginação, e governantas rabugentas para insuflar desejo à paixão. Toda essa tagarelice sobre complexo de Édipo e erotismo anal está destruindo o amor. Em poucos anos, não me importo em profetizar, vocês estarão sussurrando um ao outro palavras sublimes sobre anjos, irmãs de caridade e infinito. Estarão protegidos por armaduras e presos atrás de grades. E o amor, em consequência, será incomparavelmente mais romântico, mais tentador do que era naqueles dias de emancipação. — O mr. Cardan tirou da boca as sementes da última uva e afastou o prato à sua frente; em seguida inclinou-se para trás em sua cadeira e olhou para todos triunfalmente.

— Como você entende pouco as mulheres! — disse a sra. Aldwinkle, meneando a cabeça. — Não acha, Mary?

— Pelo menos algumas delas — concordou a srta. Thriplow. — Parece que o mr. Cardan esqueceu que Diana é um tipo tão real quanto Vênus.

— Exatamente — disse a sra. Aldwinkle. — Você não poderia ser mais precisa.

Há oito anos, ela e o mr. Cardan tinham sido amantes. Elzevir, o pianista, foi o sucessor dele — um curto reinado —, seguido por lorde Trunion — ou teria sido o dr. Lecoing? Ou ambos? Nesse momento, a sra. Aldwinkle não se lembrava mais. E, quando o fez, não foi exatamente da maneira como as outras pessoas — o mr. Cardan, por exemplo — se lembravam. Para ela, agora era tudo maravilhosamente romântico; fora Diana durante todo o tempo.

— Mas concordo inteiramente com você — disse o mr. Cardan. — Admito sem nenhuma dúvida a existência de Artêmis. Poderia até prová-lo empiricamente.

— Que bom para você! — disse a sra. Aldwinkle, tentando ser sarcástica.

— A única figura do Olimpo a quem sempre considerei puramente mística — continuou o mr. Cardan —, sem nenhum fundamento nos fatos da vida, é Atenas. Uma deusa da sabedoria; uma deusa! — repetiu, enfático. — Isso não lhes parece um pouco grosseiro?

Majestosamente, a sra. Aldwinkle levantou-se da mesa.

— Vamos para o jardim — disse.