Folhas inúteis
Capítulo 4
Aos cinco anos de idade, entre outras coisas, eu escrevia poemas, que contavam com a apreciação completa e irrestrita de minha mãe. Havia um sobre as cotovias que ela ainda guarda junto com as mechas claras de meus cabelos infantis, fotografias desbotadas, preciosos desenhos de trenzinhos sobre trilhos e muitas outras relíquias da época.
Oh, cotovia, quão alto
Voas pelo céu.
Quão límpido cantas
E veloz bates tuas asas.
O sol brilha,
O dia está lindo.
Hark, diz meu pai,
Ouves a cotovia?[9]
Penso que minha mãe gosta mais desse poema do que de qualquer outra coisa que eu tenha escrito. Ouso dizer que meu pai, se estivesse vivo, dividiria com ela a preferência. Mas naquela época ele era um wordsworthiano ardoroso. Sabia de cor quase todo o Prelúdio. Às vezes rompia inesperadamente o silêncio no qual vivia recolhido e recitava um ou dois versos. O efeito era sempre portentoso: um oráculo se fazia ouvir.
Lembro-me com especial clareza de uma ocasião em que Wordsworth quebrou o prodigioso silêncio de meu pai. Foi numa Páscoa, quando eu tinha mais ou menos dez anos. Nós tínhamos ido passar os feriados em Gales do Norte; meu pai gostava de andar pelas montanhas e ocasionalmente escalava alguma menos íngreme. Naquele ano a Páscoa chegara mais cedo; o tempo ainda estava frio e tempestuoso; havia neve. No domingo de Páscoa, meu pai, para quem as caminhadas pelas montanhas equivaliam a ir à igreja, convidou-me para subir com ele o Snowdon. Saímos cedo. Fazia frio; uma névoa branca e densa ainda cobria a paisagem distante. Em silêncio nós nos arrastávamos pela neve. Como o pajem do rei Venceslau eu seguia os passos de meu pai, enterrando os pés nas marcas que ele imprimia na neve. De vez em quando ele olhava para trás para ver como eu estava me saindo. Gotículas de gelo se prendiam em sua barba castanha. Ele sorria ao me ver subir arquejante, firmando meus pequenos pés em suas largas pegadas. Era um homem grande, alto, de ombros largos, cujo rosto podia ser confundido com um daqueles bustos de estadistas ou filósofos gregos. Ao lado dele eu me sentia particularmente pequeno e insignificante. Quando eu o alcançava, ele tocava afetuosamente meu ombro com sua mão grande e pesada e depois erguia o rosto para o topo da montanha que mais uma vez ele decidira subir. Não dizia uma palavra.
Quando o sol nasceu, as nuvens se dispersaram. Por entre a névoa que se desfazia podíamos ver o céu. Largos fachos de luz amarelada percorriam as encostas cobertas de neve. Ao chegarmos ao topo, o céu estava completamente limpo. Havia sol, mas não fazia calor; o céu distante e gelado era de um azul muito claro. Todas as encostas voltadas para o norte continuavam ensombrecidas, em tons azulados e púrpura. Mais abaixo, na direção oeste, podíamos ver a costa denteada e irregular, que a distância parecia muito calma, e o mar cinzento se estendendo por todo o horizonte. Ficávamos ali um longo tempo, em silêncio, diante da paisagem extraordinária. Lembro-me de que às vezes eu lançava um olhar furtivo para meu pai. No que estaria ele pensando?, eu me perguntava. Grande e temível, ele não se movia, olhando meditativamente ora para um lado, ora para o outro. Não dizia uma palavra. Não ousava romper o silêncio. De repente, ele se aprumou com imponência. Ergueu o machado de quebrar gelo e com um gesto enfático cravou o lado pontiagudo na neve.
— Danada beleza! —, disse ele lentamente, com sua voz profunda e cavernosa. E não falou mais nada. Em silêncio, retomamos a trilha para o hotel Pen-y-Pass.
Mas meu pai não dissera, como eu havia suposto, suas últimas palavras naquele dia. No meio da descida, levei um susto e cheguei a ficar alarmado quando ele começou a falar.
— Aprendi — bradou abruptamente (e parecia que o fazia mais para si mesmo do que para mim) — a apreciar a natureza, não com o estouvamento da juventude, mas ouvindo a música triste e monótona da humanidade, não áspera ou desagradável, mas com amplo poder de refinar e purificar. E sinto uma presença que me perturba com o regozijo dos pensamentos elevados; a sublime sensação de alguma coisa muito mais profundamente abrangente, que habita a luz dos crepúsculos, os oceanos e o ar vivo, o céu azul e a mente dos homens.
Eu o ouvia, sentindo uma espécie de terror. As palavras estranhas (eu ainda não tinha ideia de onde elas vinham) reverberavam misteriosamente dentro de mim. Eram um oráculo, uma revelação divina. Meu pai parou de falar tão bruscamente quanto começou. As palavras pendiam isoladas no meio de seu silêncio portentoso. Continuamos nosso caminho. Ele não falou mais, até que, ao entrarmos no hotel, inspirou o ar gelado e comentou com profunda satisfação: — Cebolas! — E então, cheirando mais uma vez: — Fritas.
“A sublime sensação de alguma coisa muito mais profundamente abrangente...” Desde esse dia estas palavras, pronunciadas pela voz cavernosa de meu pai, não saíram de minha mente. Levei muito tempo para descobrir que significavam tão pouco quanto um soluço. Essa é a influência nefanda das iniciações precoces.
Meu pai, entretanto, que nunca conseguiu se livrar dos preconceitos instilados em sua infância, continuou a acreditar nas fórmulas wordsworthianas até o fim de seus dias. Sim, temo que ele também tivesse preferido as precoces cotovias às minhas elucubrações maduras. Por outro lado, com que competência aprendi a escrever! Para fazer justiça a mim mesmo, devo insistir nisso. É claro que no fim das contas isso não significa nada. As cotovias podem ter sido minha obra-prima, o que também não tem a mínima importância. Ainda assim, insisto. Eu insisto...