Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 11 de 43

Páginas do PDF

Folhas inúteis

Capítulo 2

 

Gog’s Court, o umbigo da realidade! Senti inteiramente a verdade dos meus versos ao repeti-los no silêncio.

 

Se outrora os filhos dos fidalgos

E os guardadores dos estábulos se voltaram

Para as flores e a esperança, para a Grécia e para Deus,

Nós, em nossa velhice, aprendemos

Que somos nativos de onde caminhamos.

 

Minha voz ressoa pelo mar sereno como um oráculo. Nada enriquece mais o significado de uma afirmação do que ouvi-la pronunciada pela própria voz na solidão. “Prometo, se Deus me ajudar, jamais beber uma gota!” Essas palavras solenes, exaladas na névoa do uísque, com que frequência são proferidas na escuridão da noite ou nas manhãs gélidas! A invocação portentosa parece englobar todo o universo na batalha por um eu melhor contra o vício insistente. Um momento assustador e emocionante! Apenas para vivê-lo novamente, para quebrar mais uma vez o vazio do silêncio com um juramento pungente, vale a pena negligenciar as boas resoluções. Nada digo sobre os prazeres da embriaguez.

Minha breve recitação serve para confirmar a verdade de minhas especulações. Não é por nada que emito em voz alta a substância de meus pensamentos; eu os pronuncio como uma fórmula que, disso muito me orgulho, possui um elemento mágico. Qual é o segredo dessas habilidades verbais? Como acontece de um pensamento qualquer, ao ser incorporado pelo poeta em alguma forma abracadábrica, parecer infinitamente profundo, enquanto uma noção decididamente falsa e estúpida parece, por sua expressão, verdadeira? Francamente não sei. Mais ainda, jamais encontrei alguém que decifrasse essa charada. O que faz com que as palavras “música fúnebre” se tornem emocionantes como a marcha fúnebre da Heroica e o fechamento de Coriolano? Por que tem de ser profundamente mais cômico “chamar de sagui o macaco de Túlia” do que escrever toda uma comédia de Congreve? E na frase “Os pensamentos que quase sempre repousam fundo demais para as lágrimas”, por que devem eles repousar onde o fazem? Mistério. Esse jogo da arte de escrever assemelha-se à mágica. A rapidez da língua engana o cérebro. Afinal, isso acontece com muita frequência. O velho Shakespeare, por exemplo. Quantas mentes críticas não tem enganado com a rapidez de sua língua! Porque ele pode dizer “Sussurros, esteiras de água e semilobos” e “música fúnebre” e “a perda do espírito num desperdício de vergonha” e tudo o que quiser que nós lhe concedemos o crédito da filosofia, do propósito moral e da mais penetrante psicologia. Conquanto seus pensamentos sejam incrivelmente confundidos, seu único propósito é entreter, e ele criou apenas três personagens. Uma delas, Cleópatra, é uma cópia excelente da vida, como que extraída de um bom romance realista de Tolstói. As outras duas, Macbeth e Falstaff, são figuras imaginárias fabulosas, consistentes em si mesmas, mas sem a realidade que Cleópatra possui. Meu pobre amigo Calamy diria que são mais reais, que pertencem ao domínio da Arte Absoluta. E assim por diante. Eu não posso concordar com a opinião do pobre Calamy, pelo menos neste contexto; mais adiante, talvez. Para mim, em todo caso, Macbeth e Falstaff são personagens perfeitamente genuínas e completamente mitológicas, como Júpiter ou Gargântua, Medeia ou o mr. Winkle. São as únicas cópias fiéis de monstros mitológicos em toda a coleção de Shakespeare, assim como Cleópatra é a única cópia fiel da realidade. A capacidade ilimitada de Shakespeare para o abracadabra engana inúmeras pessoas e as faz imaginar que todas as suas outras personagens sejam tão boas quanto essas.

Mas o Bardo, que os céus me protejam, não é o meu tema. Deixe-me voltar aos meus versos, na superfície da água. Como disse, minha convicção de que “somos nativos de onde caminhamos” é fortalecida pelo som de minha própria voz pronunciando a elegante fórmula na qual essa ideia está cristalizada. Ao repetir as palavras, lembrei-me de Gog’s Court, de minha pequena sala com o refletor na janela, da lâmpada acesa no inverno mesmo durante a tarde, do cheiro de tinta e do barulho das prensas. Voltei, graças a esse poema, irrelevante diante da paisagem ensolarada, ao coração palpitante da realidade. Na mesa, diante de mim, havia um jogo de provas. Era quarta-feira; eu deveria estar corrigindo as provas, mas naquela tarde estava com preguiça. Nas doze linhas em branco na extremidade inferior de uma delas, eu escrevera estas palavras: “Se outrora os filhos dos fidalgos...”. Pensativo, como um jogador planejando o próximo lance, eu as contemplava. Quais seriam os movimentos seguintes? Ouvi alguém bater à porta. Cobri o verso no pé da página com uma folha de mata-borrão.

— Entre — e continuei a leitura interrompida: “... desde que os himalaias foram criados para reproduzir cores inalteradas, nenhum outro fato suscitou maior entusiasmo no mundo dos criadores do que a fixação da nova espécie flamengo-angorá. O feito da sra. Spargle é realmentei nédito...”. — Separei o i de “inédito” do e da palavra anterior e ergui os olhos. O mr. Bosk, o subeditor, estava diante de mim.

— Prova do editorial, senhor — disse ele, curvando-se com a estranha polidez que caracterizava todo o seu comportamento em relação a mim, e estendeu-me outra prova.

— Obrigado, mr. Bosk — disse eu.

Mas o mr. Bosk não se retirou. Continuou parado na sua posição favorita, a mesma em que nossos antepassados (e o mr. Bosk era realmente um deles) ficavam junto às colunas de mármore drapejada dos estúdios fotográficos, olhando para mim com um leve sorriso por trás da espessa barba branca. O terceiro botão de seu avental estava aberto e a mão direita, como uma carta mal colocada no baralho, se inseria no orifício. Ele apoiava o corpo sobre a perna direita enrijecida. A outra perna arqueava-se ligeiramente, o dedo do pé tocando o calcanhar direito e formando, ambos os pés, um ângulo perfeitamente reto. Percebi que eu estava prestes a sofrer uma repreensão.

— O que é, mr. Bosk? — perguntei.

Por entre os fios da barba, o sorriso do mr. Bosk se tornou mais doce. A cabeça pendeu para o lado. A voz, quando ele falou, era melíflua. Nessas ocasiões, quando eu estava para ser repreendido e colocado no meu lugar, a delicadeza dele degenerava numa espécie de afetada coqueteria infantil.

— Se não se importa, mr. Chelifer — disse com afetação —, acho que o senhor verá que rabear, em espanhol, não significa “balançar a cauda”, como diz em seu editorial sobre a derivação da palavra rabbit, mas “balançar o traseiro”.

— Balançar o traseiro, mr. Bosk? — disse eu. — Isso me parece uma difícil proeza.

— Aparentemente não em espanhol — disse o mr. Bosk com um riso quase inoportuno.

— Mas isso é inglês, mr. Bosk.

— Todavia minha autoridade não é menor do que a de Skeat. — E, triunfante, com ares de quem tem um quinto ás na manga num momento decisivo do jogo, o mr. Bosk estendeu a mão esquerda, que ele mantinha misteriosamente escondida às costas. Apresentou-me um dicionário; um papel marcava a página. O mr. Bosk deixou-o aberto na mesa, diante de mim, e com a unha grossa apontou: — “...possivelmente” — li em voz alta — “do espanhol rabear, balançar o traseiro”. Certo como sempre, mr. Bosk. Vou fazer a alteração na minha prova.

— Obrigado, senhor — disse o mr. Bosk com falsa humildade. Por dentro ele exultava. Pegou seu dicionário, repetiu a insolente reverência e caminhou solenemente para a porta. Diante dela, parou. — Lembro-me de que essa questão já surgiu antes, senhor — disse, a voz venenosamente adocicada. — Na época do mr. Parfitt. — E saiu sorrateiramente, fechando a porta.

Foi uma flecha de parto. O nome do mr. Parfitt feria-me o âmago, trazia o rubor da vergonha às minhas faces Afinal, o mr. Parfitt não fora o editor perfeito, completo e infalível? Enquanto eu... O mr. Bosk deixou que minha consciência decidisse o que eu era.

E eu estava perfeitamente consciente de minhas limitações. A gazeta do criador de coelhos, à qual, como sabia qualquer colegial, incorporava-se o Arquivo do criador de ratos, não poderia ter um editor mais inadequado do que eu. Naquela época, confesso que mal sabia onde começava ou acabava um coelho.

O mr. Bosk era um remanescente dos grandes dias do mr. Parfitt, o fundador e por trinta anos editor da Gazeta.

— O mr. Parfitt — ele costumava me lembrar sempre — foi um verdadeiro criador. — Seu sucessor, é claro, não era.

A guerra estava no final. Eu procurava trabalho — um trabalho no coração da realidade. A natureza ilusória do cargo fizera-me recusar a oferta de uma bolsa de estudos na minha antiga escola. Queria alguma coisa — como dizê-lo? — mais palpitante. E então encontrei no Times o que procurava. “Precisa-se de editor com habilidade comprovada em publicações especializadas em criações. Escreva para a caixa postal número 92.” Escrevi, fui entrevistado e contratado. Meus diretores não resistiram à carta de recomendação do bispo de Bosham. “Uma longa convivência com o mr. Chelifer e sua família permite-me afirmar que se trata de um jovem muito habilidoso e com altos propósitos morais. (assinado) Hartley Bosh.” Fui chamado para um período experimental de seis meses.

O velho mr. Parfitt, editor prestes a se aposentar, ficou ainda alguns dias no escritório para iniciar-me nos segredos do cargo. Era um cavalheiro benevolente, de baixa estatura, gordo e com cabelos muito grandes. O rosto quadrado aparentava ser muito maior por causa das costeletas grisalhas que avançavam sobre as faces e terminavam, quase imperceptivelmente, quando começava o basto bigode. Ele conhecia mais de coelhos e ratos que qualquer um na cidade; mas do que mais se orgulhava era de seus dotes literários. Explicou-me os princípios sob os quais redigia seus editoriais semanais.

— Na fábula — dizia-me, já sorrindo antecipadamente da anedota que ele criara e vinha aprimorando desde 1892 —, na fábula é a montanha que, após um longo e, pode-se dizer, árduo trabalho geológico, dá origem ao rato. Meu princípio, inversamente, tem sido fazer, sempre que possível, que meus ratos gerem montanhas. — Ele fez uma pausa esperando minha reação. Quando ri, continuou: — São surpreendentes os efeitos que os ratos e os coelhos podem produzir na vida, na arte, na política, na filosofia e em muito mais. São surpreendentes!

O mais notável é que a teoria da montanha do mr. Parfitt ainda existia, por trás de um vidro e numa moldura de Oxford, pendurada na parede atrás da mesa do editor. Foi publicada no Criador de coelhos de 18 de agosto de 1914.

“Não foram os leitores da Gazeta do criador de coelhos,” escrevera o mr. Parfitt nessa data, “que fizeram esta guerra. Nem os criadores de ratos”, proclamara enfaticamente, “desejaram-na. Não! Absorvidos em suas ocupações inofensivas e comprovadamente benéficas, eles não desejavam nem tinham tempo de perturbar a paz mundial. Se todos os homens se devotassem de coração a distrações como as nossas, não haveria guerra. O mundo estaria repleto de criadores inocentes e fomentadores de vida, em vez de, como hoje, destruidores sanguinários. Se o kaiser Guilherme ii fosse criador de coelhos ou ratos, hoje não estaríamos em um mundo ameaçado pelos inimagináveis horrores da guerra moderna.”

Nobres palavras. A correta indignação do mr. Parfitt era fortalecida pelo seu medo diante do futuro do jornal. A guerra, pressagiava ele sombriamente, significaria o fim da criação de coelhos. Mas ele estava errado. É verdade que os ratos saíram de moda entre 1914 e 1918. Mas nos magros anos de racionamento os coelhos ganharam importância. Em 1917 havia dez criadores de flamengos-gigantes para cada um que existia antes da guerra. As assinaturas aumentaram, os anúncios se multiplicaram.

— Os coelhos — assegurou-me o mr. Parfitt — nos ajudaram muito a vencer a guerra.

Inversamente, a guerra ajudou tanto os coelhos que o mr. Parfitt conseguiu se aposentar em 1919 com uma fortuna modesta, porém adequada. Foi então que assumi o controle. Apesar do desprezo do mr. Bosk pela minha ignorância e incompetência, devo congratular-me pela maneira como conduzi essa questão durante os tempos difíceis que se seguiram. A paz encontrou os ingleses menos ricos, mas também menos famintos que durante a guerra. Passara o tempo em que tiveram necessidade de criar coelhos, e não havia condições de continuar a criá-los por prazer. As assinaturas diminuíram e os anúncios também. Evitei a catástrofe iminente acrescentando ao jornal uma nova seção sobre o comércio de cabras. Não havia dúvida de que, biologicamente, como solicitei aos meus diretores ao comunicar-lhes minha decisão, a combinação de ruminantes com roedores era infundada. Mas eu estava certo de que do ponto de vista comercial a inovação se justificava. E se justificou. As cabras trouxeram meia dúzia de páginas de anúncios em sua cauda e várias centenas de novas assinaturas. O mr. Bosk ficou furioso com o meu sucesso; mas os diretores tinham-me em alta conta pela minha capacidade.

É verdade que nem sempre eles concordavam com meus artigos de primeira página.

— Não daria para ser mais popular? — sugeria o diretor administrativo. — Ou um pouco mais prático, mr. Chelifer? Por exemplo... — Limpando a garganta, ele tirava do bolso uma folha datilografada com reclamações que ele mesmo redigira para apresentar na reunião do conselho. — Por exemplo, qual é

o valor prático do uso da palavra “coelho” como um termo afetivo entre os dramaturgos elisabetanos? E

[5]

este artigo sobre a derivação da palavra “coelho”?[6] — Ele olhou para o papel e tossiu. — A quem

interessa saber da existência em valão da palavra robett? Ou que a nossa palavra tem relação com o espanhol rabear, balançar o traseiro? E, a propósito, quem — olhou para mim por sobre o pince-nez com ar de triunfo, prematuramente assumido —, quem ouviu falar de algum animal que balança o traseiro?

— Posso garantir — dizia eu, desculpando-me, porém com a firmeza de um homem que está certo do que diz — que minha autoridade não é menor que a de Skeat.

O diretor administrativo, que esperara marcar um ponto, continuou, derrotado, com a acusação seguinte.

— E depois, mr. Chelifer — disse —, nós não gostamos muito, meus colegas diretores e eu, do que o senhor disse em seu artigo “A criação de coelhos e sua lição para a humanidade”. Pode ser verdade que os criadores tenham conseguido produzir coelhos domésticos quatro vezes mais pesados que seus correspondentes selvagens, mas com a metade do volume de cérebro; pode ser verdade. E realmente o é. E é também um feito notável, mr. Chelifer, realmente notável. Mas não há razão para defender, como o senhor fez, a existência de um trabalhador ideal em cuja produção os eugenistas deveriam se empenhar, que seja oito vezes mais forte do que os que temos atualmente e com apenas um sexto da capacidade mental. Não que meus colegas e eu discordemos inteiramente disso, mr. Chelifer, longe disso. Todo homem bem-pensante concorda em que o trabalhador moderno é educado demais. Mas temos que nos lembrar, mr. Chelifer, de que muitos de nossos leitores pertencem a essa classe.

— Muitos deles — aquiesci na reprovação.

— E por fim, mr. Chelifer, o artigo sobre “A simbologia da cabra”. Achamos que os fatos reunidos nele, embora interessem muito a antropólogos e estudiosos do folclore, dificilmente serão adequados a um público misto como é o nosso.

Os outros diretores murmuraram sua concordância. Fez-se um prolongado silêncio.