Folhas inúteis
Capítulo 7
Seleções de Francis Chelifer
No calendário esportivo, os eventos mais interessantes são marcados durante os meses de outono. Não se caça na primavera. Mesmo na Itália, há um breve período de proibição à caça de pássaros canoros, que dura da chegada dos rouxinóis à partida da última andorinha. A diversão, a verdadeira diversão, começa somente no outono. A caça ao galo silvestre e à perdiz são apenas as preliminares. O grande dia mesmo é 1 o de outubro, quando tem início o massacre dos vistosos faisões. Pá! Pá! — as armas de cano duplo enchem de música as florestas descoloridas. Logo em seguida os sonoros cães também participam, e suas patas, como diz com muita propriedade o poeta latino, sacodem os campos pútridos com um som quadrupedante. O inverno se torna alegre com os ruídos de uma caçada.
O mesmo acontece com algumas vidas femininas em seus anos mais avançados... Pá, pá! — no dia 1o de outubro lá vão elas caçar suas perdizes. Algumas semanas depois estarão caçando raposas. E no dia
de Guy Fawkes, quando se inicia a estação de caça ao homem.[26] Minha anfitriã, ao escolher-me na praia
da marina de Vezza, chegara a um ponto de sua vida exatamente entre a caça à perdiz e a caça ao homem. Dizem que as raposas gostam de ser caçadas; aventuro-me a duvidar dessa confortadora hipótese. Por experiência própria, como o paizinho da sra. Micawber (dito pelo mr. Toft — ha! ha!)... et cetera.
Se amar sem ser amado pode ser classificado como uma das mais dolorosas experiências, ser amado sem amar é certamente das mais aborrecidas. Talvez nenhuma experiência seja mais adequada para que se perceba a insensatez da paixão. O espetáculo de alguém bancando o tolo é cômico. Mas aquele que banca o tolo chora. Quando não se é nem o imbecil ativo nem o espectador desinteressado, e sim a causa involuntária da insensatez do outro, é então que se sente o fastio e o desgosto, reações humanas típicas a qualquer demonstração de estupidez animal, que é a raiz de todo o problema.
Duas vezes em minha vida experimentei os salutares horrores desse fastio: uma por minha própria culpa, porque pedi para ser amado sem amar; e outra porque tive o azar de ser encontrado na praia, mole como uma alga marinha, entre 1o de outubro e o dia de Guy Fawkes. Ambas as experiências foram muito desagradáveis enquanto duraram; por outro lado, foram bem didáticas. A primeira delas completou satisfatoriamente, por assim dizer, a lição que aprendi com Bárbara. O segundo episódio foi preparado pela Providência, alguns anos depois, para lembrar-me da primeira experiência e imprimir o que os americanos chamariam de sua “mensagem” de forma indelével em minha mente. A Providência tem sido notadamente persistente em seus esforços para tornar-me ajuizado.
Pobre srta. Masson! Era uma ótima secretária. No final de 1917 sabia tudo o que era possível sobre tubos de borracha e óleo de mamona. Foi um infortúnio para todos os envolvidos que a Providência tivesse lhe destinado a missão de instruir-me mais profundamente sobre os temíveis mistérios do amor. É verdade que fui o único responsável. Aceitei espontaneamente, uma vez que pelos meus atos ficou demonstrado claramente quais foram as terríveis consequências da minha estupidez. Há uma certa satisfação em se pôr à prova as verdades da própria sabedoria, desafiando seus preceitos.
Sim, fui o único responsável. Porque eu fiz os primeiros avanços. Fui eu que, por pura lascívia, provoquei o tigre adormecido, ou ao menos bem disciplinado, que se escondia no coração de Dorothy Masson. Encostei a ponta de meu bastão em suas costelas e, contrariando todas as regras, cutuquei entre elas. Ganhei o que mereci.
Fui como o insolente Blackamoor num daqueles misantrópicos e cômicos livros ilustrados de Busch.
Ein Mohr aus Bosheit und Pläsier
Schiesst auf das Elefantentier.
Com sua pequena flecha ele cutuca o plácido paquiderme; e o paquiderme se vinga elaboradamente, nas catorze xilogravuras subsequentes.
Minha única desculpa — a recente e ridícula catástrofe com a qual se encerrara a tragédia de Bárbara — foi uma desculpa que poderia ter servido também como uma razão a mais para eu ter feito o que fiz; eu devia, depois de ter sido atingido uma vez, ter me mostrado duplamente retraído. Mas no estado miserável em que me encontrava achei que uma segunda vez pudesse me livrar da angústia da primeira. Mas isso também não é muito correto, porque jamais previ que seria realmente atingido da segunda vez. Eu só procurava alguma diversão e não algo doloroso. É verdade que, ao descobrir que aquele envolvimento com Dorothy Masson estava se tornando muito sério, deveria ter desconfiado que se tornava sério também para mim e me afastado. Mas, inspirado pela alegre irresponsabilidade que desde então passei a admirar no rude e natural espécime humano, recusei-me a considerar as possíveis consequências e continuei o que havia começado. Eu não estava nem um pouco apaixonado por ela nem ela me inspirava qualquer desejo específico. As forças que me moviam eram a miséria, acrescida de certa exasperação, além de uma vaga ansiedade provocada pelo apetite recorrente. Mais da metade dos envolvimentos não tem razões definidas para ocorrer. Tédio e ansiedade são as principais causas. Subsequentemente, a imaginação poderá intervir e o amor nascerá. Ou a experiência poderá gerar desejos específicos e, assim, tornar uma pane necessária à felicidade da outra, ou reciprocamente. Pode ser também que não haja qualquer avanço e a relação termine tão placidamente como começou, em tédio e ansiedade.
Mas há casos, entre os quais o meu, em que uma das partes pode ser inspirada por mera lascívia, a mesma que já descrevi, e a outra é realmente levada pela imaginação e se apaixona. Pobre Dorothy! Quando eu a beijava havia em seus olhos uma expressão que jamais vi em outro ser humano. O mesmo olhar de um cão quando seu dono se zanga e ergue o chicote para puni-lo — um olhar de absoluto autoaviltamento e terror. É decididamente apavorante estar diante de alguém que nos olha dessa maneira. É chocante ter nos braços um ser humano reduzido à condição de um cão fiel e apavorado. E, no meu caso, o pior é que me era completamente indiferente se ela estava ou não em meus braços. Mas, quando ela erguia o rosto e olhava-me com aquela expressão aviltante e terrível, não era só indiferente; era decididamente repulsivo. A visão daquelas pupilas dilatadas, nas quais não havia nenhum sinal de uma alma racional, mas somente terror e aviltamento, provocava imediatamente em mim um sentimento de culpa e logo em seguida raiva, ressentimento e hostilidade.
— Por que me olha desse jeito? — perguntei a ela certa vez. — Você tem medo de mim?
Ela não respondeu; apenas escondeu o rosto em meu ombro e abraçou-me com mais força. Seu corpo foi sacudido por tremores involuntários. Casualmente, por força do hábito, eu a acariciei. O tremor tornou-se mais violento.
— Não — implorou-me ela num sussurro rouco —, não faça isso. — Mesmo assim, apertou os braços em torno de mim.
Ela parecia assustada, não comigo, mas consigo mesma, com aquilo que dormitava nas profundezas de seu ser e que, se acordasse, ameaçava dominá-la, apagar por um momento aquela alma organizada e racional que normalmente regrava sua vida. Ela temia essa força interior que poderia transformá-la em algo diferente do ser com que estava habituada. Seu medo era perder o autodomínio. Ao mesmo tempo, não queria outra coisa. A força interior dormente começava a se agitar e nada poderia detê-la. Inutilmente ela tentava o impossível. Resistia, e a própria resistência acelerava o despertar do desejo. Ela temia e ao mesmo tempo provocava meus beijos. Sussurrando, implorava, como que por misericórdia, e me apertava em seus braços. Enquanto isso, eu começava a vislumbrar as potencialidades de fastio implícitas na situação. E como tudo se tornou entediante! Ser perseguido por carícias ardentes quando só se deseja tranquilidade; ser acusado, com certa justiça, de descuido em relação ao amor e ter que negar a acusação, por pura polidez; ser obrigado a ficar durante horas ao lado de uma pessoa que entedia. Que aflição, que tortura era tudo isso! Cheguei a lamentar profundamente por aquelas belas mulheres que estão sempre sendo cortejadas pelos homens. Mas elas, pensava eu, tinham uma vantagem sobre mim: eram por natureza muito mais interessadas no amor. Tinham nele uma atividade natural, a razão de sua existência; por mais desagradáveis que os pretendentes pudessem lhes parecer, não iriam achá-los tão aborrecidos e insuportáveis quanto seriam para uma pessoa, em circunstâncias parecidas, para quem o amor é algo basicamente desinteressante. Para a mulher cortejada, as qualidades mais insuportáveis de um amante aborrecido são compensadas em parte pelo fato genérico de ele ser um amante. Como me faltava o entusiasmo inato pelo amor, era-me difícil suportar o martírio de ser amado pela srta. Masson.
Mas esse tipo de envolvimento, dirá você, é um aspecto típico da realidade. É verdade; mas naquela época eu não acreditava tanto no lado real e sincero da vida como creio agora. E mesmo hoje eu consideraria um trabalho supérfluo associar-me a realidades de natureza tão excepcionalmente penetrante. Um homem sensato, se for lógico e corajoso, está destinado a passar sua vida entre Gog’s Court e a casa da srta. Carruthers. Mas não é obrigado a fazer amor com a srta. Carruthers ou atrair a afeição de Fluffy. Isso seria demais — é o que penso hoje; ou talvez possa chegar a hora em que eu me sinta forte o suficiente para assumir minha realidade em doses tão pesadas. Existe um aparelho usado pelos massagistas que serve para aplicar iodo nas juntas enrijecidas. O ato do amor é como esse aparelho: injeta a personalidade do amante na mente da pessoa amada. Sinto-me bastante forte atualmente para banhar-me nas personalidades de animais humanos comuns; mas sei que sufocaria, que sucumbiria se essa lavagem fosse bombeada no meu sistema espiritual pela penetrante eletricidade do amor.
A srta. Masson classificava-se, na escala galtoniana, acima da srta. Carruthers e de Fluffy. Uma entre quatro pessoas é uma Fluffy; apenas uma entre seis é uma Dorothy Masson. Isso faz uma leve mas perceptível diferença. Não foi à toa que sofri tanto. Quando levei orquídeas de presente para ela, comentando que pareciam artificiais, ela agradeceu-me dizendo que adorava orquídeas e acrescentou, após um instante de pausa para pensar, que gostara delas porque pareciam artificiais. E riu suavemente, olhando-me como se esperasse aplausos confirmatórios. Unicamente por esse seu pequeno hábito eu sentia às vezes que poderia matá-la. Mas sua solicitude e suas reprimendas, quase sempre, eram expressadas sem palavras; raramente ela fazia cenas; apenas olhava para mim com seus tristes olhos castanhos, o desejo incessante de estar perto de mim, tocar-me, beijar e ser beijada — o que era quase suficiente para levar-me ao suicídio. Isso durou mais de um ano, uma eternidade. E tecnicamente permanece até hoje; porque nunca rompi com ela, nunca a deixei dramaticamente, mas de forma lenta e gradual fui desaparecendo de sua vida como o Gato que Ri. Ainda hoje, de vez em quando nos encontramos. E ainda, como se nada houvesse acontecido, eu a tomo em meus braços e a beijo, até que aquela estranha expressão de terror abjeto surja em seus olhos e ela implore, com a voz enfraquecida pelo desejo insaciável, que eu poupe sua alma cotidiana bem disciplinada e não a abandone ao poder daquela coisa terrível que desperta dentro dela. Enquanto isso, abraça-me com mais força e oferece o pescoço aos meus beijos. Antes e depois, conversamos sobre política e os amigos que temos em comum. Como antes, ela ainda repete a minha última frase, ri suavemente e, como antes, espera que eu admire seus pensamentos originais. Por fim eu me preparo para ir embora.
— Você voltará logo? — ela pergunta, olhando-me fixamente com uma profunda expressão de tristeza e apreensão, de perguntas não formuladas, de reprimendas não expressadas. Eu beijo sua mão.
— É claro — digo. E vou embora, esforçando-me, ao andar pela rua, para não especular sobre o tema de seus pensamentos.
Mas parece que a Providência considerou minha ligação com Dorothy Masson inadequadamente instrutiva. Dorothy, afinal, tinha apenas vinte e seis anos quando o episódio teve início. Estava ainda naquela estação florida e primaveril durante a qual, mesmo na Itália, os pássaros canoros não podem ser caçados. Ela levaria ainda vinte anos para chegar ao 1 o de outubro; trinta, talvez, até que começasse a estação de caça ao homem. E fui eu o responsável pelos primeiros avanços. Mas, para a minha exibição de Bosheit und Pläsier, essa aborrecida história jamais teria sido apresentada. Porém, a ansiosa Providência, por alguma razão inescrutável, quis ensinar-me uma lição ainda mais memorável e foi mais longe, até quase afogar-me, determinada a me jogar nas mãos de uma mestra adequada. Eu ainda tinha que aprender como o amor pode ser ridículo e incômodo, além de muito entediante.
Nessa ocasião não fui responsável por qualquer avanço. Desde o princípio só me retraí. Os perigosos faróis azuis da sra. Aldwinkle incidiram sobre mim; como um ágil pedestre do trânsito de Londres, eu saltei de lado. Quando ela me perguntava quais as mulheres que tinham me inspirado, respondia que nada me inspirava exceto os subúrbios londrinos e a vulgaridade de lady Giblet. Se ela dizia que podia ver em meu rosto o quanto eu tinha sido infeliz, eu comentava que achava isso estranho; sempre me sentira perfeitamente feliz. Se falava de experiências, referindo-se ao que as mulheres geralmente têm em mente quando usam essa palavra — simplesmente amor —, eu retrucava com uma discussão sobre experiência relacionada à Teoria do Conhecimento. Se ela me acusava de usar uma máscara, eu protestava, dizendo que exibia minha alma desnuda a quem quisesse vê-la. Quando perguntava se eu já me apaixonara, eu dava de ombros e sorria, para não ter que responder. Mas, quando perguntou, aproximando-se demasiadamente, se eu já havia sido amado, respondi com bastante honestidade que sim, mas que achara muito aborrecido.
Mesmo assim ela retornou, indômita, ao ataque. Poderia haver algo de grandioso em sua firme determinação, algo magnífico, se não fosse grotesco. A Providência ensinava-me mais uma vez que uma vida não sábia é algo enfadonho e inútil, mas que, para todos os efeitos, é a única que existe, e é vivida em toda parte por todos, salvo algumas raras exceções. Enfim, presumo que era isso que a Providência pretendia deixar marcado em mim. Mas no processo ela usava a sra. Aldwinkle, a meu ver de maneira um tanto exagerada. Cheguei a sentir pena da pobre dama. Alguma força irracional oculta dentro dela a impelia a dar tantas cambalhotas, colocar-se em situações ridículas, dizer palavras estúpidas e contorcer o rosto em terríveis esgares. Ela não tinha outra saída, apenas cumpria ordens e o fazia da melhor maneira possível; mas era uma maneira ridícula. Não só ridícula como aterrorizante. Ela parecia um bufão carregando uma caveira.
Infatigável, representava o deplorável papel que lhe coubera. Trazia-me flores diariamente.
— Que elas desabrochem em seus versos — dizia.
Eu lhe assegurava que o único odor que provocava meus versos era o dos açougues, nas noites de inverno da Harrow Road. Ela sorria.
— Não pense que não posso entendê-lo — dizia. — Entendo-o, e muito bem.
Ela se inclinava para a frente, seus olhos brilhavam, seu perfume me envolvia quando soprava heliotrópio em meu rosto. Eu via, então, as pequenas rugas ao redor daqueles olhos, as descuidadas manchas de batom nos cantos da boca.
— Eu o entendo — repetia ela.
E ela me entendia... Uma noite (foi em Montefiascone, quando regressávamos de Roma), eu lia em minha cama quando ouvi um ruído; ergui os olhos e deparei com a sra. Aldwinkle fechando cuidadosamente a porta do meu quarto atrás de si. Ela usava camisola de seda verde-água. Duas grossas tranças pendiam em suas costas. Quando se virou, percebi que o rosto estava maquiado com um cuidado maior do que de costume. Ela cruzou o quarto em silêncio e se sentou na beira da minha cama. Uma aura de heliotrópio e âmbar-cinzento a envolvia.
Eu sorri palidamente, fechei o livro (mantendo um dedo entre as páginas, contudo, para marcar onde eu havia parado) e ergui de leve as sobrancelhas, interrogativamente. A que, fiz meu rosto perguntar, devia aquela honra?
Esse era o meu dever, pensava eu, diante da necessidade que minha anfitriã demonstrava de dizer mais uma vez que era capaz de me entender.
— Eu não suportava mais — ela disse, quase sem fôlego. — Não podia mais pensar que você estava só. Só com seu misterioso segredo. — Quando tentei protestar, ela ergueu a mão. — Oh, não pense que não vejo isso por trás de sua máscara. Só com seu misterioso segredo...
— Não, realmente... — eu comecei. Mas a sra. Aldwinkle jamais permitia que a interrompessem.
— Não suportava mais pensar nessa sua terrível solidão — continuou ela. — Saiba que existe ao menos uma pessoa que o entende. — Ela se inclinou sobre mim, sorrindo, mas com os lábios trêmulos. No mesmo instante seus olhos se encheram de lágrimas e o rosto se contorceu numa terrível máscara de sofrimento. Soltando um leve gemido, ela se jogou para a frente e caiu de rosto contra os meus joelhos. — Eu o amo, eu o amo — repetia com voz abafada. Seu corpo foi sacudido por seguidos espasmos de choro.
Eu não sabia o que fazer. Aquilo não estava no programa. Quando se sai para caçar homens ou perdizes, não é normal que se caia chorando sobre a vítima. Hinc illae lacrimae. É impossível dois seres humanos concordarem inteiramente sobre alguma coisa. Quot homines; agora que abri o Dicionário de citações familiares vou continuar a fazer uso dele; quot homines, tot disputandum est. Nem mesmo sobre as verdades da ciência existe acordo. Um homem é um geômetra, outro só pode entender a análise. Um é incapaz de acreditar em qualquer coisa que não possa ser utilizada como modelo, outro quer que sua verdade seja tão abstrata quanto possível. Mas, quando chega a hora de decidir qual deles é a vítima e qual o caçador, não há nada a fazer senão desistir da tentativa. Cada uma das partes deve permanecer com sua própria opinião. Os homens mais bem-sucedidos são aqueles que nunca admitem a validade da opinião alheia; chegam mesmo a negar que ela possa existir.
— Minha querida Lilian — comecei (ela insistira em que eu a chamasse de Lilian nos primeiros dias em que me hospedara em sua casa) —, minha querida Lilian... — Eu não encontrava mais nada para dizer. Suponho que um homem bem-sucedido diria alguma coisa franca e brutal, deixando claro à sra. Aldwinkle qual de nós era a vítima e qual o carnívoro. Faltaram-me forças. Ela continuava chorando.
— Eu o amo. Não pode me amar um pouquinho que seja? Só um pouquinho? Eu seria sua escrava. Sua escrava, seria sua escrava — e ficou repetindo isso.
— Isso não é bom — protestei. — É impossível...
Ela recomeçou, desesperada.
Por quanto tempo mais essa cena se prolongaria e o que teria acontecido se se prolongasse eu não sei. Felizmente um extraordinário tumulto irrompeu dentro do hotel. Portas batendo, vozes alteradas, passos indo e vindo no corredor. Assustada e alarmada, a sra. Aldwinkle se levantou, foi até a porta, abriu-a com cuidado e espiou lá fora. Alguém passou correndo; rapidamente, ela fechou a porta. Quando a passagem ficou livre, ela se esgueirou para o corredor e saiu na ponta dos pés, deixando-me sozinho.
O tumulto fora causado pelo princípio da agonia de morte da srta. Elver. Ao considerar que meu aprendizado fora longe demais, a Providência interrompeu a aula. Devo dizer que os meios empregados para isso foram um pouco violentos. Qualquer homem teria se sentido gratificado ao saber que uma mulher teve que se humilhar e outra morrer — como o rei João, empanturrando-se de lampreias — para que sua lição fosse interrompida antes de ir longe demais. Mas, como se vê, eu não sou um homem qualquer.