Folhas inúteis
Capítulo 5
— Se o filho do açougueiro lhe dissesse confidencialmente, olhando pelo canto do olho, que o irmão do merceeiro possui uma escultura muito antiga, a qual está disposto a vender por um preço moderado, o que acha que ele estaria querendo dizer? — Subindo lentamente o morro por entre as oliveiras, o mr. Cardan, meditativo, colocou essa questão.
— Acho que ele quer dizer exatamente o que está dizendo — falou a srta. Thriplow.
— Sem dúvida — retrucou o mr. Cardan, parando para enxugar o rosto molhado de suor, apesar de o sol atingi-los apenas de viés, filtrado pela folhagem das oliveiras. A srta. Thriplow, com seu uniforme verde de colegial de comédia musical, parecia deliciosamente fresca e limpa ao lado de seu companheiro todo desabotoado. — Mas a questão é: o que exatamente ele quer? O que significa para o filho do açougueiro uma escultura muito bonita e antiga? — Eles retomaram a subida. Abaixo, através das árvores, viam-se os telhados e a torre alta do palácio das Cybo Malaspina e mais embaixo a cidade de brinquedo de Vezza, a planície semelhante a um mapa, o mar.
— Se quer mesmo saber, por que não pergunta a ele? — disse mordazmente a srta. Thriplow; não fora para falar do filho do açougueiro que ela aceitara o convite do mr. Cardan para um passeio. Queria ouvi-lo falar sobre a vida, a literatura e sobre ela própria. Achava que ele conhecia um pouco sobre todos esses assuntos e muito, embora nem sempre estivesse correto, sobre o último. Ele a conhecia, e só por isso a srta. Thriplow gostava de conversar com ele. Os temores sempre exercem um fascínio. E agora, depois de um silêncio prolongado, ele se punha a falar do filho do açougueiro.
— Eu perguntei — disse o mr. Cardan. — Mas acha que pude extrair dele algo inteligível? Tudo o que consegui foi saber que a escultura representa um homem, não inteiro, mas parte dele, e que é de mármore. E mais nada.
— Por que quer saber? — perguntou a srta. Thriplow.
O mr. Cardan balançou a cabeça.
— Por motivos sórdidos, infelizmente. Lembra-se do que escreveu o poeta?
Há muitos e muitos anos
Que amo, devo e bebo.
Dizem que são males grandes demais
Para um único pobre mortal.
O amor levou-me a beber,
E o álcool levou-me a dever.
Contra eles luto e me esforço
Mas deles não me posso livrar.
Somente o dinheiro poderá me curar
E aliviar meu sofrimento;
Pagar minhas dívidas e livrar-me dos transtornos;
E minha amante, que já não me suporta,
Voltará a me amar.
Voltará a me amar.[20]
Eis o resumo de uma vida inteira. Ninguém se arrepende, é claro. Ainda assim, todos precisam de dinheiro; infelizmente, quanto mais velho se é, mais se precisa dele e menos se tem. Que outra razão me faria transpirar nestas montanhas para falar com o merceeiro de Vezza sobre a estátua de seu irmão?
— Quer dizer que vai comprá-la, se valer a pena?
— Pelo menor preço possível — confirmou o mr. Cardan. — E vendê-la pelo mais alto. Se eu tivesse abraçado qualquer profissão, sem dúvida teria sido a de comerciante de artes. Possui o encanto de ser a mais desonesta entre todas as outras formas de banditismo legal que existem nesta vida. O que a torna muito mais interessante. É verdade que os financistas podem trapacear em escala muito maior, mas na maioria das vezes é uma trapaça impessoal. Eles podem arruinar milhares de incautos investidores, mas não têm o prazer de conhecer suas vítimas, enquanto para um comerciante de artes a trapaça, embora seja menos extensa, é muito mais pessoal. Ele está cara a cara com sua vítima e a faz parecer insignificante. Aproveita-se da ignorância ou da urgência do vendedor para comprar o artigo por quase nada. Depois explora o esnobismo do rico comprador e faz com que ele pegue o material de suas mãos por um preço astronômico. Que imenso orgulho deve alguém sentir ao aplicar um esplêndido coup! Basta comprar um panô enegrecido de algum cavalheiro arruinado que precisa de um novo terno, limpá-lo e vendê-lo novamente a um rico esnobe, para quem a posse de uma coleção e a reputação de patrono das artes antigas significam um passo adentro da sociedade. Que imenso júbilo rabelaisiano! Não; decididamente, se eu não fosse um Diógenes e um preguiçoso, seria Alexandre, crítico e comerciante. É uma profissão realmente cavalheiresca.
— O senhor nunca fala a sério? — perguntou a srta. Thriplow, que teria preferido a conversa voltada para alguma coisa mais relacionada com seus problemas.
O mr. Cardan sorriu-lhe.
— Pode alguém não ser sério quando se trata de ganhar dinheiro?
— Eu me rendo — disse a srta. Thriplow.
— Sinto muito — protestou o mr. Cardan. — Mas talvez seja melhor. A propósito, o que acha do tal filho do açougueiro? O que ele quis dizer com escultura antiga? Será que eles desenterraram a cabeça de algum rico etrusco vendedor de queijos de Lunae? De algum oriental primitivo, de nariz comprido e sorriso imbecil de êxtase? Ou seria um fragmento de sua descendência helenizada, algo reclinado sobre a tampa de um sarcófago, como que recostado num divã para o banquete, olhando estupidamente por uma cabeça que poderia ser, se fosse esculpida por Praxíteles, a de Apolo, mas que o pedreiro etrusco transformou num obeso semi-humano? Quem sabe seja um busto romano, minuciosamente real, moderno e natural que, não fosse pela toga, quase se poderia tomar pelo de nosso velho amigo sir William Midrash, o eminente servidor público? Pode ser também, eu preferia que fosse, uma peça datada da obscura e estranha aurora do cristianismo, que se seguiu à noite selvagem em que o império sucumbiu. Posso imaginar um fragmento de Modena ou Toscanella, uma figura estranha e indescritível, curvada pela excessiva fé nas mais profundas expressões e atitudes simbólicas: uma monstruosidade, um barbarismo, um pequeno pastiche, mas tão resplandecente de vida interior, talvez adorável, talvez maléfica, que é impossível olhá-la com indiferença ou apenas como uma forma, feia ou bonita. Sim; eu gostaria que a peça fosse uma escultura românica. Se for, darei ao filho do açougueiro uma gorjeta extra de cinco francos. Mas se se tratar de um daqueles suaves santos góticos italianos, elegantemente vestido e um pouco inclinado, como uma pequena planta que se curva com a brisa... talvez seja, nunca se pode duvidar... eu não darei a ele os cinco francos. Darei apenas o que puder ser alcançado no mercado norte-americano. Essas perfeições góticas me aborrecem. Como me aborrecem!
Eles estavam no alto da montanha. Emergindo da floresta de oliveiras inclinadas, a trilha seguia agora pela crista limpa e quase plana. Um pouco mais adiante, onde o terreno começava novamente a subir, avistaram um agrupamento de casas e a torre da igreja. O mr. Cardan apontou:
— Lá poderemos saber a que exatamente o filho do açougueiro estava se referindo. Enquanto isso não acontece, continuemos a nos divertir especulando. Suponha, por exemplo, que seja um pedaço de um baixo-relevo de Giotto, hein? Algo tão grandioso, espiritual e materialmente belo que nos faria cair de joelhos em adoração. Mas asseguro-lhe que eu ficaria muito mais satisfeito com um fragmento de sarcófago do início da Renascença. Alguma figura maravilhosamente brilhante, etérea e pura, um anjo; e não do reino dos céus, mas de algum esplêndido e, infelizmente, imaginário reino terrestre. Ah — prosseguiu o mr. Cardan, balançando a cabeça —, esse é o reino em que eu gostaria de viver, o reino da antiga Grécia, purgado de todos os gregos históricos que já existiram e colonizado segundo a imaginação dos artistas modernos, dos eruditos e dos filósofos. Num mundo assim, seria possível viver positivamente, digamos, como um afluente que corre para o rio principal, e não negativamente, como se vive hoje, reagindo contra o fluxo geral da existência.
Viver positiva ou negativamente. A srta. Thriplow gravou mentalmente essa ideia. Poderia ser trabalhada em um artigo. Talvez trouxesse luz aos seus próprios problemas. Quem sabe o sofrimento fosse fruto da sensação de estar reagindo negativamente. Mais positividade: era isso o que estava faltando. A conversa parecia estar se tornando mais séria, pensou ela. Por algum tempo eles caminharam em silêncio, e o mr. Cardan foi quem primeiro falou:
— Pode ser que o irmão do merceeiro tenha encontrado por acaso algum entalhe em estado bruto de Michelangelo, iniciado num frenesi enquanto ele vivia nestas montanhas e abandonado quando partiu. Um escravo atormentado, que luta para se livrar mais de seus grilhões interiores do que das correntes que o prendem; que se esforça com uma violência sobre-humana, mas, ao mesmo tempo, medita, com uma paixão concentrada em si mesma em vez de dissipada numa explosão, como no barroco, que fatal e facilmente evoluiu a partir daí. Depois de tantas esperanças e especulações, eis no que meu tesouro acabará provavelmente se resumindo: uma peça barroca do século xvii. Já vejo o torso de um anjo valsante no meio de um redemoinho de drapeados, que faz os olhos extasiados de um clérigo se voltarem para as alturas, num melodrama do Liceu; ou talvez seja um Baco a dançar num milagre de virtuosismo sobre uma perna de mármore, a boca aberta numa risada embriagada e os dedos das mãos esticados ao máximo, para demonstrar o que pode ser feito por um escultor que conhece o seu ofício; ou o busto de um príncipe, prodigiosamente vivo e expressivo, com um colarinho de renda de Bruxelas reproduzido na pedra até o mais delicado fio. O filho do açougueiro insiste em dizer que a peça é muito bonita e, igualmente, que é antiga. E é óbvio, agora que estou pensando, que ele estaria sendo realmente sincero ao gostar do barroco, e somente dele, porque lhe é muito mais familiar e por ser tudo aquilo que ele aprendeu a admirar. Por algum estranho e maligno destino, os italianos, desde que chegaram ao barroco, nunca mais saíram dele. Ainda estão enfiados até o pescoço. Veja a sua literatura, a arte moderna, a arquitetura, a música; tudo é barroco. Gesticulam retoricamente, pavoneiam-se pelos palcos, soluçam e gritam, esforçando-se para provar como são passionais. No meio deles, como uma imensa igreja jesuíta, está d’Annunzio.
— Eu devia ter imaginado — disse a srta. Thriplow com mordaz ingenuidade — que o senhor apreciaria esse tipo de elaboração e virtuosismo. É “divertido”, não é esta a palavra?
— Exatamente — respondeu o mr. Cardan. — Gosto de me divertir. Mas exijo de minha arte a luxúria adicional de me emocionar. E de certa forma nada pode provocar, seja pelo que for, uma emoção tão furiosa e consciente como essas coisas barrocas. Não é por fazer gestos largos e apaixonados que um artista desperta emoções no espectador. Não é assim que funciona. Os italianos do século xvii tentaram expressar sua paixão por meio dos gestos e só conseguiram produzir algo que ou nos deixa frios, embora, como você disse, possa nos divertir, ou realmente nos faz rir. A arte que visa emocionar quem a contempla deve ser calma em si mesma; isso é quase uma lei estética. A paixão jamais deveria ser dissipada com transbordamentos e explosões. Deve ser calada, contida e moldada pelo intelecto. Concentrada numa forma serena e tranquila, sua força se moveria irresistivelmente. Estilos que protestam em demasia não servem para fins sérios, trágicos. Pela própria natureza são mais adequados à comédia, cuja essência é o exagero. Por isso a boa arte romântica é tão rara! O romantismo, do qual o barroco do século xvii é uma estranha subespécie, usa gestos violentos; acredita nos contrastes exagerados de luz e sombra, em efeitos cênicos; ambiciona brindar o espectador com as emoções mais cruas e palpitantes. Equivale dizer que o estilo romântico é, em essência, um estilo cômico. E, exceto nas mãos de alguns raros gênios, a arte romântica é, no tocante ao fato histórico, quase sempre cômica. Pense naqueles romances de arrepiar os cabelos, escritos durante os séculos xviii e xix; agora que a novela os enfraqueceu, podemos vê-los como realmente são: as maiores comédias. Mesmo os escritores de grande e genuíno talento foram traídos pela natureza cômica do estilo intrinsicamente grotesco, quando pretendiam que fosse romântico e trágico. Balzac, por exemplo, em centenas de passagens sérias; George Sand, em todas as suas primeiras novelas; Beddoes, quando tenta fazer de seu Death’s jest book algo particularmente aterrorizante; Byron, em Caim; de Mussett, em Rolla. E o que impede o Moby Dick, de Herman Melville, de ser um grande livro é precisamente o idioma pseudoshakespeariano com o qual ele relata o que pretende serem as passagens mais trágicas, um idioma cuja adaptabilidade básica à comédia fez com que os excepcionais sucessos trágicos de Shakespeare, Marlowe e outros cegassem os seus imitadores, infelizmente. Além de o estilo romântico ser essencialmente adequado à comédia, inversamente também é verdade que os maiores trabalhos cômicos foram escritos em estilo romântico. Pantagruel e Contes drolatiques; o diálogo de Falstaff e Wilkins Micawber; As rãs, de Aristófanes; Tristram Shandy. E quem pode negar que as passagens mais belas da reverberante prosa de Milton não são precisamente aquelas escritas de maneira satírica e cômica? O autor cômico é um homem obeso e copioso que aprecia tudo o que é terreno; ele arranca suas roupas e se deixa ir livremente aonde o levar seu espírito infatigável e travesso. A gesticulação larga, exagerada e irreprimida do romantismo satisfaz plenamente suas necessidades.
A srta. Thriplow prestava muita atenção. Isso era sério, e parecia realmente tocar em seu próprio problema. Em sua última novela, fizera o possível para se livrar da roupagem satírica com a qual, no passado, encobrira a própria ternura; dessa vez decidira dar ao público seu coração desnudado. O discurso do mr. Cardan levava-a a perguntar-se se não exporia um coração por demais palpitante.
— Considerando a arte pictórica — continuou o mr. Cardan —, descobrimos aí que a seriedade e o romantismo combinam muito menos do que na literatura. Um dos maiores triunfos do estilo romântico do século xix pode ser encontrado exatamente nos comediantes e criadores do grotesco. Daumier, por exemplo, produziu de uma só vez os quadros mais cômicos e violentamente românticos jamais criados. E Doré, quando parou de tentar pintar quadros sérios em estilo romântico... vou deixar que você se lembre dos resultados involuntariamente ridículos... e se dedicou a ilustrar Dom Quixote e os Contes drolatiques nos mesmos termos românticos, produziu verdadeiras obras-primas. Na verdade, o caso de Doré quase encerra a discussão. Eis um homem que fez precisamente as mesmas coisas românticas tanto em trabalhos sérios como cômicos, e foi bem-sucedido ao fazer o que pretendia que fosse sublimemente ridículo ou ridiculamente sublime, da maneira mais grotesca, rica, extravagante e romântica.
Eles tinham passado pelas casas mais afastadas do vilarejo e agora subiam vagarosamente a ladeira da única rua.
— Isso é uma verdade — disse a srta. Thriplow, pensativa. Ela não sabia se devia baixar um pouco o tom da descrição da agonia da jovem esposa, em sua nova novela, quando descobre que o marido lhe tem sido infiel. Um momento dramático, aquele. A jovem esposa acaba de ter seu primeiro filho — com infinito sofrimento — e, ainda muito debilitada mas infinitamente feliz, convalesce. O belo e jovem marido, a quem ela adora e supõe também adorá-la, entra no quarto com a correspondência trazida pelo correio da tarde. Senta-se ao lado dela na cama, deixa o maço de envelopes sobre os lençóis e começa a abrir os dele. Ela faz o mesmo com os seus. Dois bilhetes aborrecidos; ela os amassa e põe de lado. Abre outro envelope sem ver a quem está endereçado, desdobra o papel e lê: “Amorzinho querido, estarei esperando por você amanhã à noite em nosso ninho...”. Olha o envelope: é para o marido. O que ela sentira?, perguntava-se a srta. Thriplow. Sim, talvez à luz do que dissera o mr. Cardan a passagem fosse excessivamente palpitante. Em especial aquele trecho em que o bebê é trazido para mamar. A srta. Thriplow suspirou; releria o capítulo com os olhos críticos quando voltasse para casa.
— Bem — disse o mr. Cardan, interrompendo-lhe o curso dos pensamentos —, aqui estamos. Só resta descobrir onde mora o merceeiro, depois onde mora o irmão, que tesouro é esse que ele possui, quanto quer por ele, e então encontrar alguém que o compre por cinquenta mil libras. E então viveremos felizes para sempre. Que tal?
Ele parou uma criança que passava e fez a primeira pergunta. Ela apontou para mais adiante. Os dois foram até lá.
À porta da pequena loja estava sentado o merceeiro, desocupado no momento, tomando sol e ar fresco, olhando aquelas duas gotas desgarradas do fluxo da vida a se arrastarem pela rua do vilarejo. Era um homem gordo com um rosto grande e carnudo, que parecia ter sido espremido perpendicularmente de tão inchado e de tão próximas que eram as linhas horizontais dos olhos, da boca e do nariz. As faces e o queixo estavam cobertos por uma barba de cinco dias — porque era uma quinta-feira, e o momento de fazer a barba devia ser por volta de sábado à noite. Um par de olhos pequenos e astutos espiava por entre as bolsas das pálpebras. Os lábios eram grossos e os dentes, quando ele riu, amarelos. Um avental longo e branco, inesperadamente limpo, amarrado no pescoço e na cintura, cobria-o até os joelhos. Um avental que estimulou a imaginação da srta. Thriplow — ele mais o pensamento de que aquele homem o usava, enrolado como um magistrado espartano, quando cortava presunto e linguiças ou quando servia açúcar com uma pequena pá.
— Esse homem me parece extraordinariamente simpático e bem-disposto — disse ela, entusiasmada, ao se aproximarem.
— É mesmo? — perguntou o mr. Cardan com certa surpresa. Para ele o homem parecia mais um rufião apenas apaziguado.
— Ele é simples, feliz e satisfeito — continuou a srta. Thriplow. — Chega a causar inveja. — Ela teria chorado sobre aquela pequena pá, nesse instante o emblema maçônico da ingenuidade paleolítica. — Tornamos tudo desnecessariamente complicado para nós mesmos, não acha?
— Tornamos? — disse o mr. Cardan.
— Essa gente não tem dúvidas, não tem pós-reflexões ou, o que é ainda pior, pensamentos simultâneos. Eles sabem o que querem e o que está certo; sentem somente aquilo que devem sentir por natureza, como os heróis da Ilíada, e agem de acordo. O resultado disso, acredito, é que eles são muito melhores do que nós, muito “mais bons”, como dizíamos quando éramos crianças; é mais expressivo. Sim, são bons demais. O senhor está rindo de mim!
— Asseguro-lhe que não estou — declarou o mr. Cardan.
— Se estivesse, eu não me importaria. Porque, afinal, apesar de tudo o que as pessoas possam pensar ou dizer, a única coisa que importa é ser bom.
— Concordo inteiramente — disse o mr. Cardan.
— E assim é ainda mais fácil — ela indicou com a cabeça o avental branco.
O mr. Cardan concordou, um pouco em dúvida.
— Às vezes — continuou a srta. Thriplow num acesso de confiança que fazia suas palavras saírem mais rápidas —, às vezes, quando pego um ônibus e compro a passagem com o motorista, sinto de repente meus olhos marejados ao pensar na vida dele, tão simples e direta, tão fácil de ser bem vivida, embora seja tão dura, e também, talvez, exatamente por ser dura. A nossa é tão difícil... — disse, balançando a cabeça.
Eles estavam a poucos metros do dono da loja, que, ao ver que tencionavam entrar, levantou-se e correu para ocupar seu lugar, como um profissional, atrás do balcão.
Eles entraram atrás. Dentro estava escuro e impregnado de um forte cheiro de queijo de cabra, atum no vinagre, tomate em conserva e linguiça fortemente temperada.
— Humm! — exclamou a srta. Thriplow, refugiando-se num pequeno lenço perfumado com essência de violetas de Parma. Era uma pena que aquelas vidas simples, de aventais brancos, tivessem que ser vividas em tais ambientes.
— É de tirar o fôlego, hein? — disse o mr. Cardan, com uma piscadela. — Puzza — acrescentou, dirigindo-se ao merceeiro. — Isto fede!
O homem olhou para a srta. Thriplow, que estava com o nariz enfiado no oásis de seu lenço, e sorriu com condescendência.
— I forestieri sono troppo delicati. Troppo delicati — repetiu.
— Ele está certo — disse o mr. Cardan. — Somos mesmo delicados. E acho até que somos capazes de sacrificar tudo por conforto e limpeza. Pessoalmente, sempre desconfio muito dessas suas utopias tão bem acolchoadas e higiênicas. E, quanto a este cheiro em particular — ele cheirou o ar, visivelmente satisfeito —, realmente não vejo que objeção você possa fazer. É saudável, é natural, é histórico. Tenho certeza de que as mercearias etruscas cheiravam exatamente como esta. Não, de um modo geral concordo inteiramente com o nosso amigo aqui.
— Ainda assim — disse a srta. Thriplow com a voz abafada nas dobras de seu lenço — prefiro as minhas violetas. Apesar de sintéticas.
Tendo pedido dois copos de vinho, um dos quais ofereceu ao merceeiro, o mr. Cardan embarcou numa conversa diplomática sobre o motivo da visita. Ao ouvi-lo mencionar seu irmão e a escultura, o merceeiro tornou-se excessivamente amável. Curvou os lábios grossos em sorrisos, e nas bochechas gordas surgiram profundos sulcos como os arcos de um círculo. As mesuras não paravam. A todo instante ele ria ruidosamente, desprendendo um hálito de alho forte como acetileno, que dava vontade de aproximar um fósforo de sua boca na esperança de ver acender-se uma chama brilhante. O homem confirmou tudo o que o filho do açougueiro dissera. Sim, ele tinha um irmão; o seu irmão possuía uma escultura de mármore bonita e antiga, muito antiga. Infelizmente, contudo, o irmão mudara-se dali e fora morar na planície, perto do lago de Massaciuccoli, e levara a peça. O mr. Cardan tentou saber como era a tal peça, mas não conseguiu mais nada além de que era bonita, antiga e representava um homem.
— Seria mais ou menos assim? — perguntou o mr. Cardan, curvando-se como um monstro românico e contorcendo a boca num esgar demoníaco.
O merceeiro achava que não. Duas camponesas que haviam entrado para comprar queijo e óleo olharam assustadas. Esses estrangeiros...
— Então assim? — Ele apoiou o cotovelo no balcão e, meio reclinado, tentou evocar com sua atitude o sorriso de êxtase, fixo e imbecil, das imagens de um relevo etrusco.
Novamente o merceeiro meneou a cabeça.
— E assim? — Ele rolou os olhos para as alturas como um santo barroco.
Também não. O mr. Cardan coçou a testa.
— Se eu pudesse me transformaria num busto romano — disse à srta. Thriplow —, ou num baixo-relevo de Giotto, num sarcófago da Renascença, num bloco inacabado de Michelangelo, mas não posso. Isso está além dos meus poderes. Por ora eu desisto.
Ele tirou do bolso seu caderno de anotações e perguntou ao homem como faria para encontrar o irmão. O merceeiro explicou; o mr. Cardan anotou cuidadosamente as indicações. Sorrindo e cheio de mesuras, o homem acompanhou-os até a rua, onde a srta. Thriplow retirou o lenço do nariz e aspirou um longo hausto de ar — que cheirava, ainda agora, a química orgânica.
— Paciência — disse o mr. Cardan —, tenacidade e determinação. É preciso muito disso por aqui.
Eles começaram a descer a ladeira. Já tinham andado alguns metros quando o barulho de uma altercação violenta os fez voltarem-se. À porta da loja, o merceeiro e as duas mulheres discutiam furiosamente. As vozes eram altas, a do homem, grossa e áspera, as das mulheres, estridentes; as mãos faziam gestos violentos e ameaçadores, embora também fossem graciosos, como era natural nas mãos daqueles cujos ancestrais tinham ensinado aos velhos mestres da pintura tudo o que sabiam sobre o movimento expressivo e harmonioso.
— O que será? — perguntou a srta. Thriplow. — Parecem as preliminares de um assassinato.
O mr. Cardan sorriu e deu de ombros.
— Não é nada — disse. — Elas apenas o estão chamando de ladrão; só isso. — Ficou escutando um pouco mais a gritaria. — Parece que se trata de uma pequena alteração no peso. — Ele sorriu para a srta. Thriplow. — Vamos embora?
Retomaram o caminho de volta; o som da discussão os acompanhava. A srta. Thriplow não sabia se devia sentir-se grata ao mr. Cardan por ele não dizer mais nada sobre seu amigo de avental branco. Aquele homem tão simples... a pequena pá de açúcar... tão melhor, tão “mais bom” do que nós... Por fim ela quase desejava que ele dissesse alguma coisa. O silêncio do mr. Cardan chegava a ser mais irônico do que suas palavras.