Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 30 de 43

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Folhas inúteis

Quarta parte - A viagem

Quarta parte

 

A viagem

Capítulo 1

 

Fora de seu carro, lorde Hovenden era um ser inteiramente diferente daquele que se entregava langorosamente à direção do Vauxhall Velox. Meia hora ao vento estrondoso de sua própria velocidade transformava o moço acanhado e retraído num herói de sangue-frio, ousado, não apenas nas aventuras de estrada como nos desafios da vida. O vento levava em suas asas o acanhamento, a velocidade o intoxicava até ele se esquecer de si mesmo. Todas as suas vitórias tinham sido conquistadas dentro daquele carro. Fora nele, dezoito meses atrás, antes de ele atingir a maioridade, que se aventurara a pedir ao seu tutor um aumento de rendimentos; e aumentara sempre a velocidade, até que, simplesmente aterrorizado, o tutor concordou em atender-lhe o pedido. Fora também a bordo do Velox que ousara dizer à sra. Terebinth, dezessete anos mais velha do que ele, quatro filhos e esposa fiel, que ela era a mulher mais bonita do mundo; proclamara isso aos gritos, a noventa quilômetros por hora, na Great North Road. A setenta, setenta e cinco ou oitenta por hora sua coragem ainda era pequena para atingir o nível desejado de desembaraço; mas a noventa chegara ao ponto certo e lhe dissera. E, quando ela riu e lhe disse que era um rapaz impetuoso, ele não se sentiu nem um pouco embaraçado, mas riu também e pressionou um pouco mais o acelerador, até a agulha do velocímetro ultrapassar os noventa. Então gritou ao vento e acima do ruído do motor: “Mas eu a amo”. Infelizmente, entretanto, logo depois o passeio terminou; mais cedo ou mais tarde, todos terminavam. O caso Terebinth não foi adiante. Se ao menos, suspirava lorde Hovenden pesaroso, pudesse passar a vida dentro do Velox... Mas o Velox também tinha desvantagens. Houve ocasiões em que o ego heroico, intoxicado pela velocidade, pegara de raspão um pedestre assustado. Certa vez, por exemplo, estando a setenta por hora, prometera levianamente a um de seus avançados companheiros políticos que faria um discurso num comício. A ideia, a setenta quilômetros por hora, parecera-lhe não apenas muito fácil como decididamente atraente. Mas que agonia, mais tarde em terra firme, depois que a viagem terminou! Como a promessa lhe parecia impossível de ser cumprida! Com que amargura ele se amaldiçoou pela tolice de ter aceitado o convite! No final, acabou por mandar um telegrama dizendo que seu médico lhe receitara inadiavelmente uma temporada no sul da França. Fugiu de maneira ignominiosa.

Até aquele dia o Velox continuara provocando nele o efeito de sempre. Em Vezza, quando partiram, ele era todo timidez e submissão. Concordava docilmente com tudo o que a sra. Aldwinkle dizia e tornava a dizer a cada cinco minutos, por mais contraditório e impossível que fosse. Não se aventurou a pedir que Irene fosse no seu carro; e não foi por sua iniciativa, mas por um mero capricho final da sra. Aldwinkle, um instante antes da partida, que finalmente ela se sentou ao lado dele, antes de cruzarem os portões do palácio. No banco de trás ia o mr. Falx sozinho, rodeado por malas. Lorde Hovenden chegara a prometer-lhe, embora não muito convicto, que não ultrapassaria sessenta quilômetros por hora. A subserviência do pedestre não poderia ser maior.

A limusine carregada da sra. Aldwinkle saiu na frente. A srta. Elver pedira, como um favor especial, para ir ao lado do motorista. Seu rosto irradiava uma felicidade absoluta e perfeita. Toda vez que o carro passava por alguém na estrada, ela fazia um ruído estridente com a voz e acenava o lenço. Por sorte não percebia os sentimentos de indignação e repulsa que sua conduta provocava no motorista; ele era inglês e enormemente formal, tinha que manter a reputação de sua nacionalidade e de seu carro impecável. E aquela criatura abanava lenços e gritava como se estivesse em um ônibus de excursão. A srta. Elver acenava até para vacas e cavalos, gritava até para gatos e galinhas.

Atrás estavam a sra. Aldwinkle, a sra. Chelifer, Chelifer e o mr. Cardan. Calamy e a srta. Thriplow decidiram que não tinham tempo para ir a Roma e ficaram no palácio — sem uma palavra de objeção da parte da sra. Aldwinkle. A paisagem movia-se suavemente pelas janelas do carro. Mr. Cardan e a sra. Chelifer conversavam sobre os jogos tradicionais.

Enquanto isso, alguns metros atrás, lorde Hovenden aspirava incomodado a poeira.

— Como o velho Ernest dirige absurdamente devagar! — disse à sua companheira.

— Tia Lilian não permite que ele vá a mais de quarenta quilômetros por hora — explicou Irene.

— Quarenta! — disse Hovenden, rindo com desdém. — E vamos ter que comer poeira atrás deles o tempo todo?

— Podemos ficar um pouco para trás — sugeriu Irene.

— Podemos ultrapassá-los.

— Bem... — disse Irene, duvidosa. — Não acho que devamos fazer a pobre tia Lilian comer a nossa poeira.

— Não será por muito tempo, se o velho Ernest continuar a quarenta por hora.

— Nesse caso — disse Irene, sentindo que sua dúvida em relação à tia estava solucionada —, nesse caso...

Lorde Hovenden acelerou. A estrada era larga, plana e reta. Não havia trânsito. Em dois minutos a sra. Aldwinkle tinha comido uma pequena, mas inevitável porção de poeira, e o ar estava novamente limpo. À frente, na estrada vazia, uma nuvem que diminuía rapidamente era tudo o que se podia ver do Velox de lorde Hovenden.

— Graças a Deus — estava ele dizendo, satisfeito. — Agora podemos continuar numa velocidade razoável. — Ele riu como um gigante jovem e extasiado.

Irene também achava excitante a velocidade. Sob a máscara de seda fina com grandes buracos para os olhos, seu pequeno lábio se ergueu num sorriso, deixando à mostra uma fileira de dentes brancos.

— É adorável! — disse ela.

— Que bom que você gosta — retrucou Hovenden. — É esplêndido!

Mas um tapinha em seu ombro lembrou-lhe que havia mais alguém no banco de trás. Mr. Falx estava longe de achar esplêndido o presente estado de coisas. Voando ao vento, sua barba branca sacudia e tremulava como uma coisa viva em estado de agitação terminal. Por trás dos óculos de proteção havia um olhar ansioso.

— Você não está correndo muito? — gritou ele, inclinando-se para o banco da frente de modo a se fazer ouvir.

— Nem um pouco — gritou Hovenden de volta. — É a velocidade normal. É perfeitamente seguro.

— Seu lado pedestre jamais sonharia contrariar qualquer desejo do venerado mestre. Mas o jovem gigante sentado à direção do Velox não se importava com ninguém. Ele continuou à sua maneira.

Passaram pelos arredores pobres de Viareggio e depois pelos aromáticos pinheirais, soberbos em sua coloração verde-escura. Isolados na pradaria cercada por muralhas ameadas, a igreja branca, a torre de arcos branca, inclinada milagrosamente a ponto de quase cair, e o batistério circular branco pareciam, na solidão, meditar sobre as glórias ancestrais de Pisa — o domínio, as artes e o pensamento —, sobre os mistérios da religião, do destino inescrutável e o Ente Supremo, sobre a insignificância e a grandeza do homem.

— Por que diabos ela não cai — disse lorde Hovenden ao ver a torre inclinada — não posso imaginar.

Fora da cidade, passaram pela casa sobre a água onde Byron havia se entediado por uma eternidade de meses. Depois de Pontedera, a estrada se tornou mais desolada. Pela vastidão de colinas áridas e inférteis, cobertas por um capim amarelado nascido em solo branco e cadavérico, eles subiram para Volterra. A paisagem tomou então um aspecto infernal. O panorama de morros crestados e vales ressecados, como as ondulações de um oceano petrificado, estendia-se a perder de vista em toda a volta. E na crista da onda mais alta ficava Volterra, a capital desse estranho inferno. Três torres contra o céu, um domo, uma muralha inexpugnável, e do lado de fora da muralha, avançando inexoravelmente ano após ano em sua direção, o abismo voraz que abria caminho no flanco da montanha, devorando os trabalhos de civilização após civilização: tumbas etruscas, vilas romanas, fortalezas medievais, igrejas renascentistas e as construções de ontem.

— A vida numa cidade como esta deve ser bem calma — disse Hovenden, entrando em alta velocidade nas curvas fechadas com um virtuosismo tranquilo que apavorava o mr. Falx.

— Imagine ter nascido neste lugar — disse Irene.

— Bem, se nós dois tivéssemos nascido aqui — retrucou lorde Hovenden, corado pela insolência e pela velocidade, — não teria sido tão mau.

Volterra ficou para trás. A paisagem infernal foi sendo temperada gradualmente por uma vegetação mais terrena. Eles desceram pela rua íngreme de Colle. Os campos estavam agora completamente verdes. As montanhas tinham o solo tão vermelho quanto aquele do qual Deus fez Adão. Nas campinas cresciam fileiras de álamos, de cujos galhos retorcidos pendiam parreiras. Aqui e ali, por entre as árvores, arrastava-se pesadamente uma parelha de bois puxando um arado.

— Para variar, uma boa estrada — disse lorde Hovenden.

Numa reta eles atingiram noventa quilômetros por hora. A barba do mr. Falx debatia-se e contorcia-se como os movimentos agoniados de um animal capturado. Foi com imenso alívio que ele viu o carro parar diante do hotel em Siena.

— Que máquina maravilhosa, não acha? — perguntou-lhe Hovenden enquanto esperava na recepção do hotel.

— Você corre demais — disse severamente o mr. Falx.

A fisionomia de lorde Hovenden murchou.

— Sinto imensamente — desculpou-se. O gigante dera lugar ao pedestre submisso. Ele consultou o relógio. — Os outros não chegarão antes de uma hora, acho — acrescentou, na esperança de apaziguar a ira do mr. Falx.

Não conseguiu; e na hora de pegarem a estrada para Perugia, depois do almoço, o mr. Falx expressou indubitável preferência por um espaço na limusine da sra. Aldwinkle. Decidiu-se que trocaria de lugar com a srta. Elver.

A srta. Elver não tinha nenhuma objeção à velocidade; na verdade, a excitava. Quanto mais rápido, mais estridentes eram seus gritos de saudação e adeus, mais animada ela acenava com o lenço à passagem de cães e crianças. O único problema era que o vento forte arrancava os lenços de seus dedos e os carregava irrecuperavelmente para o espaço. Depois de perder os quatro que tinha em sua bolsinha de renda, ela começou a chorar. Lorde Hovenden parou o carro e emprestou-lhe sua echarpe de seda colorida. A srta. Elver ficou encantada com sua beleza vistosa; para assegurar-se contra os assaltos do vento larápio, pediu a Irene que amarrasse uma ponta em torno de seu pulso.

— Agora não há mais perigo — disse, triunfante; ergueu os olhos arregalados e enxugou os últimos resquícios de seu recente pesar.

Lorde Hovenden acelerou. Acima da linha do horizonte do platô no qual viajavam, elevava-se o solitário e azulado monte Amiata, que lhes acenava a distância. Seguindo para o sul, tornavam-se mais longos os chifres dos bois brancos atrelados a carretas. Com um espirro deles, corria-se o risco de sofrer uma perfuração; com um súbito arremesso das cabeças para o lado, podia-se ser empalado pelas pontas duras e polidas. O carro passava por San Quirico; daquele jardim secreto e melancólico, cercado pelas muralhas da cidadela arruinada, chegou até eles o cheiro de madeira aquecida pelo sol. Em Pienza tiveram a ideia platônica de cidade; cidade com “C” maiúsculo: muros com um portão no meio, uma rua curta, uma praça com catedral e palácios nos outros três lados, outra rua curta, outro portão e então os campos, ricos em milho, vinho e azeite; o pico do monte Amiata encimava as terras férteis. Em Montepulciano, mais palácios e mais igrejas; mas a beleza intelectual da simetria foi substituída por uma confusão pitoresca e precipitada.

— Céus! — exclamou lorde Hovenden enquanto deslizavam em marcha lenta por uma rua planejada para mulas e burros de carga.

Das janelas dos palácios, com frontões triangulares entre pilastras, rostos curiosos os espiavam. Eles desceram deslizando por entre a alta Renascença, passaram por um arco medieval e entraram pelos campos eternos e atemporais. De Montepulciano continuaram descendo para o lago Trasimeno.

— Não foi aqui que aconteceu uma batalha ou algo parecido? — perguntou Irene, ao ver o nome no mapa.

Lorde Hovenden parecia se lembrar de que acontecera de fato algo desse tipo nas vizinhanças.

— Mas não faz muita diferença, faz?

Irene assentiu; certamente não fazia muita diferença.

— Nada faz diferença — disse lorde Hovenden com alguma dificuldade ao vento, cuja velocidade atingia sessenta quilômetros por hora. — A não ser — o vento o encorajava —, a não ser você. — E acrescentou rapidamente, caso Irene tentasse ser severa: — Essas estradas cheias de curvas são muito aborrecidas. Não se pode ir mais depressa.

No entanto, quando a estrada voltou a ficar plana, ao contornar a margem leste do lago, o rosto dele brilhou.

— É melhor assim — disse. O vento em seu rosto transformara-se de lufada em quase ventania, de quase ventania em verdadeira ventania, de verdadeira ventania em quase vendaval. A animação de lorde Hovenden crescia com a velocidade. Seus lábios exibiam um sorriso permanente de euforia. Por trás das lentes dos óculos de proteção, seus olhos brilhavam. — Assim é que é bom! — exclamou ele.

— Muito bom — ecoou Irene. Sob a máscara, ela também sorria. Entre as orelhas e as abas do boné de couro, o vento rugia gloriosamente. Ela estava feliz.

A estrada virava para a esquerda e contornava agora a margem sul do lago.

— Logo estaremos em Perugia — disse Hovenden com tristeza. — Que pena!

E Irene, mesmo sem dizer nada, concordou com ele.

Seguiram com o vento em seus rostos. A estrada se bifurcou; lorde Hovenden virou o bico do automóvel para a esquerda. Não se via mais a água azulada do lago.

— Adeus, Trasimeno — disse Irene, pesarosa. Era um lago adorável; não iria mais se esquecer do que acontecera lá.

A estrada subia em curvas e a ventania foi reduzida à metade. No alto da montanha, Irene se surpreendeu ao avistar o lago cem ou duzentos metros abaixo, à esquerda. A srta. Elver gritava e aplaudia a vista maravilhosa.

— Ei — disse Irene, surpresa, — é estranho, não é?

— Pegamos a estrada errada — explicou lorde Hovenden. — Estamos voltando para o norte, pela margem leste do lago. Prefiro dar a volta novamente. É melhor do que parar e voltar.

Foram em frente. Por um longo tempo ninguém disse nada. No banco de trás, a srta. Elver saudava qualquer criatura viva que passasse.

Eles estavam esfuziantes; gostariam de permanecer assim eternamente, viajando em alta velocidade. Na margem norte do lago, a estrada se estreitou e ficou novamente plana. O vento os refrescava. Ao longe, em suas respectivas montanhas, Cortona e Montepulciano moviam-se lentamente como as estrelas. E agora eles estavam na margem oeste. Empoleirada em sua península projetada, Castiglione del Lago lançava complacente o seu reflexo na água.

— Muito bonito — gritou lorde Hovenden nas asas do vendaval. — A propósito, não foi Aníbal ou algum outro que travou uma batalha por aqui? Com elefantes ou algo parecido?

— Talvez tenha sido — disse Irene.

— Não que isso tenha alguma importância.

— Não tem importância. — Irene riu sob a máscara.

Hovenden também riu. Ele estava feliz, estava esfuziante, estava ousado.

— Você se casaria comigo? — A pergunta surgiu naturalmente, como por uma espécie de lógica do que ele dissera sobre Aníbal e os elefantes. Não olhou para ela ao fazer a pergunta. Quando se está entre cem e cento e dez por hora, não se pode tirar os olhos da estrada.

— Não diga bobagens — disse Irene.

— Não é bobagem — protestou lorde Hovenden. — É só uma pergunta direta. Quer se casar comigo?

— Não.

— Por quê?

— Eu não sei — disse Irene.

Passaram por Castiglione. As estradas de Montepulciano e Cortona também tinham ficado para trás.

— Não gosta de mim? — gritou Hovenden. O vento voltara a transformar-se em vendaval.

— Você sabe que sim.

— Então, por que não?

— Porque, porque... Ora, eu não sei. Quer parar de falar sobre isso?

O automóvel corria. Mais uma vez eles estavam na margem sul. Pouco antes da bifurcação, lorde Hovenden quebrou o silêncio.

— Quer se casar comigo? — perguntou.

— Não — disse Irene.

Lorde Hovenden virou a direção para a esquerda. A estrada subia em curvas e o vento amainou.

— Pare — disse Irene. — Você entrou novamente na estrada errada.

Lorde Hovenden não parou. Ao contrário, acelerou mais. Se o carro conseguia fazer as curvas era mais por milagre do que em obediência às leis de Newton ou da natureza.

— Pare! — gritou outra vez Irene.

Mas o carro não parou. Do alto da montanha, novamente o lago.

— Quer se casar comigo? — insistiu lorde Hovenden, com os olhos fixos na estrada. Arrebatadoramente, triunfantemente, ele sorria. Jamais se sentira tão bem, tão corajoso, tão forte e poderoso. — Vai se casar comigo?

— Não — disse Irene. Aquilo começava a aborrecê-la. Ele estava se comportando muito mal.

Por alguns minutos ninguém disse nada. Em Castiglione del Lago ele repetiu a pergunta. Irene deu a mesma resposta.

— Você não vai usar outra vez esse truque sem graça, vai? — perguntou ela, ao aproximarem-se da bifurcação.

— Depende de você — disse ele, desta vez com uma risada contagiante, e Irene, cuja irritação era apenas superficial diante de tanta felicidade, riu também. — Vai se casar comigo? — insistiu.

— Não.

Lorde Hovenden virou para a esquerda.

— Será bem tarde quando chegarmos a Perugia — disse.

— Ooohh! — gritou a srta. Elver, quando atingiram o topo da montanha. — Que lindo! — ela aplaudiu. E então, aproximando-se do banco da frente, tocou o ombro de Irene. — Quantos lagos existem por aqui!

Na margem norte, lorde Hovenden voltou a perguntar. Cortona e Montepulciano reinavam no momento da pergunta.

— Não entendo por que tenho de ser provocada — disse Irene.

Lorde Hovenden achou essa resposta mais promissora do que as anteriores.

— Mas você não está sendo provocada.

— Estou — insistiu ela. — Você está me forçando a responder sem pensar.

— Francamente — disse Hovenden. — Acho isso um tanto exagerado. Forçando você a responder sem pensar! Pois é exatamente isso o que não estou fazendo. Estou lhe dando tempo demais até. Passaremos a noite dando voltas nesse lago, se quiser.

A quinhentos metros da bifurcação, ele fez novamente a pergunta.

— Você é um bruto — disse Irene.

— Isso não é resposta.

— Não quero responder.

— Não precisa ser agora, se não quiser — concedeu ele. — Só quero que diga que vai pensar no assunto. Diga apenas talvez.

— Não quero — insistiu Irene. Eles estavam muito próximos agora da bifurcação.

— Somente talvez. Diga que vai pensar.

— Bem, vou pensar — disse Irene. — Mas lembre-se, isso não me obriga...

Ela não terminou a frase, porque o carro, que já estava entrando à esquerda, deu uma guinada para a direita tão inesperada que Irene teve que se agarrar ao banco para não ser atirada para fora.

— Meu Deus!

— Está tudo bem — disse lorde Hovenden.

Eles iam mais devagar agora na estrada da direita. Dez minutos depois, do alto de um pequeno desfiladeiro, avistaram Perugia em sua montanha, resplandecente à luz do sol. Quando chegaram ao hotel, o resto do grupo já estava lá.

— Erramos o caminho — explicou lorde Hovenden. — A propósito — acrescentou, dirigindo-se ao mr. Cardan — , aquele lago por onde passamos, não foi lá que Aníbal...

— Tantos lagos — dizia a srta. Elver à sra. Chelifer. — São tantos!

— É apenas um, minha querida — insistiu pacientemente a sra. Chelifer.

Mas a srta. Elver não ouvia.

— Muitos, muitos...

A sra. Chelifer suspirou compassivamente.

Antes do jantar Irene e lorde Hovenden foram andar pela cidade. Grandes casas de pedra curvavam-se à sua passagem. O sol já estava tão baixo que somente as janelas mais altas, os telhados e as cornijas recebiam luz. A sombra cinzenta da Terra acercava-se de seus flancos, mas no alto uma luminosidade coral e dourada ainda os envolvia.

— Gosto deste lugar — disse lorde Hovenden. Nas circunstâncias ele teria gostado igualmente de Wigan ou Pittsburg.

— Eu também — concordou Irene. Pela abertura retangular dos cabelos, ela sorria, feliz como uma criança.

Da parte plana da cidade eles entraram em um labirinto de becos íngremes, de passagens e escadarias tortuosas, atrás da catedral. As casas altas, construídas sem nenhum critério nas encostas, pareciam trepar uma nas outras como se fossem partes de uma imensa e fantástica construção para a qual os becos serviam de corredores. Uma rua estreita penetrava por entre as casas, um longo túnel escuro, e se alargava numa pequena área, semelhante a um pátio a céu aberto. Das portas abertas, no alto das escadarias, viam-se, sob as luzes acesas, as famílias sentadas em volta de uma terrina de sopa. Essa rua se transformava em degraus que desembocavam em outro túnel, este muito animado e iluminado pelas luzes de uma taberna. Da boca dessa caverna sentia-se o aroma do vinho e ouviam-se vozes e risadas reverberantes.

E então, ao sair desse túnel, eles estavam sobre um declive escarpado, aberto para a imensa expansão do céu noturno, festonado com as silhuetas azuladas das montanhas sob a lua cheia, já alta, reinando serena e solene sobre a paisagem. Debruçados no parapeito eles olharam lá embaixo os telhados das casas que ficavam do outro lado da cidade, centenas de metros abaixo. As cores do dia disputavam com a escuridão, mas a municipalidade generosa já adornara as ruas com luzes coloridas. Um cheiro suave de madeira queimando e de fritura inundava sutilmente o ar. O silêncio era tão vasto, tão superior e abrangente que os ruídos da cidade, assim como tantos objetos aparentemente pequenos e indistintos espalhados pela pradaria, de nada serviam senão para intensificar aquele silêncio e tornar o ouvinte mais consciente de sua imensidão, em contraste com o trivial matraquear da cidade.

— Gosto deste lugar — repetiu Hovenden.

Durante longo tempo eles ficaram ali, debruçados sobre o parapeito, sem dizer nada.

— Preciso lhe dizer — ele voltou para a companheira seu rosto, que recuperara a timidez e a autodepreciação do pedestre — que estou muito envergonhado por ter cometido aquela imbecilidade de ficar dando voltas no lago. — O jovem gigante que se sentava à direção do Velox tinha se recolhido à garagem juntamente com a máquina. E deixara em seu lugar um Hovenden muito menos formidável para dar continuidade à campanha magistralmente iniciada. A lua, a mágica beleza daquela que o olhava tão pensativa por entre a fresta de seus grossos cabelos, o perfume da madeira queimando e das costeletas fritas, tudo influenciava e conspirava para abrandar a exultação de lorde Hovenden, transformando-a numa suave e açucarada melancolia. Seu comportamento anterior parecia-lhe agora, nesse estado de ânimo alterado, repreensivelmente violento. Ela o perdoaria por aquilo? A autorreprovação o atormentava. A única saída era implorar que o perdoasse.

— Estou profundamente arrependido.

— É mesmo? — Uma fileira de pequenos dentes brancos brilhou sob o lábio erguido; os olhos infantis e incrivelmente abertos fulguravam de felicidade. — Pois eu não estou. Não me importei nem um pouco.

Lorde Hovenden pegou a mão de Irene.

— Não mesmo? Nem um pouquinho?

Ela balançou a cabeça.

— Lembra-se daquele dia sob as oliveiras? — perguntou.

— Comportei-me como um bruto.

— E eu como uma tola — disse Irene. — Mas agora sinto-me outra pessoa.

— Está querendo me dizer que...

Ela concordou. Eles voltaram para o hotel de mãos dadas. Hovenden não parou de falar e rir durante todo o caminho. Irene ficou em silêncio. O beijo também a deixara feliz, mas de um jeito diferente.