Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 17 de 43

Páginas do PDF

Folhas inúteis

Terceira Parte - Os amores paralelos

Terceira Parte

 

Os amores paralelos

Capítulo 1

 

Lorde Hovenden descobriu que, apesar de fazer tudo o que estava ao seu alcance, naqueles últimos dias tornara-se impossível ter Irene só para si, nem que fosse por uns momentos. A mudança ocorrera quase simultaneamente à aparição do tal Chelifer. Antes de ele chegar houvera um período — e o mais estranho é que começara tão de repente quanto terminara —, de indescritível felicidade. Nesses dias, toda vez que se oferecia uma oportunidade para um tête-à-tête, Irene não só estava sempre disponível como sentia muito prazer em não deixá-la escapar. Os dois saíam para longos passeios, nadavam juntos no mar até bem longe, sentavam nos jardins, às vezes conversando, outras em silêncio; mas sempre muito felizes, falassem ou não. Lorde Hovenden falava com ela sobre automóveis, bailes e caçadas e ocasionalmente, embora um pouco constrangido diante da inquietante gravidade do assunto, sobre as classes trabalhadoras. E Irene não só o ouvia com prazer como manifestava suas próprias opiniões. Eles descobriram que tinham vários gostos em comum. Enquanto durou, esse período foi maravilhoso. E então, com a chegada do tal Chelifer, de repente tudo terminara. Irene nunca estava por perto nos momentos propícios, e nunca mais sugeriu espontaneamente, como chegara a fazer naquela época maravilhosa, que dessem um passeio juntos. Ela não tinha mais tempo para conversar com ele; parecia que seus pensamentos estavam em outro lugar, enquanto, misteriosa, ela passara a andar de um lado para o outro pela casa ou pelos jardins com uma expressão grave e preocupada. Foi com o espírito tremendamente angustiado que lorde Hovenden começou a observar que Irene surgia sempre onde estava Chelifer. Se ele fosse discretamente ao jardim depois do almoço, certamente um instante depois Irene o seguiria. Se propusesse uma caminhada com Calamy ou o mr. Cardan, Irene pediria acanhada, mas com a obstinada resolução dos que superam uma fraqueza pela força de vontade, para se juntar ao grupo. E se por acaso acontecesse de Chelifer e a srta. Thriplow ficarem a sós, era certo que Irene iria deslizando silenciosamente até eles.

Para tudo isso lorde Hovenden só encontrava uma explicação: ela estava apaixonada por aquele homem. É certo que ela nunca se esforçava para conversar quando estavam juntos; e parecia ainda mais intimidada pelos silêncios bem-educados e as fórmulas de cortesia acentuadamente insinceras de Chelifer. Este, por sua vez, e até onde um rival seria capaz de reconhecer, agia com total correção. Correção demais, na verdade, na opinião de Hovenden. Era intolerável aquela polidez que beirava o sarcasmo; o homem deveria ser mais humano com a pequena Irene. Lorde Hovenden adoraria torcer o pescoço dele; e torcê-lo por duas ofensas mutuamente excludentes — iludir continuamente a menina e ficar tão malditamente distante. E ela parecia tão transtornada. Espiando por sua janela retangular entre a espessa cabeleira acobreada em forma de sino, aquele pequeno rosto, tão infantil pelo tamanho e limpidez dos olhos e pela delicadeza do lábio superior, passara a ser nos últimos dias o rosto de uma criança patética e infeliz. Lorde Hovenden supunha que ela estivesse definhando de amor por aquela criatura — embora de sua parte fosse incapaz de imaginar que diabos ela conseguia ver nele. Era óbvio também que a velha Lilian estava caída pelo homem e bancava a tola diante dele. Estaria Irene querendo competir com a tia? Seria uma tragédia se a sra. Aldwinkle descobrisse que Irene tentava passá-la para trás. Quanto mais lorde Hovenden pensava em toda essa confusão, mais confusa lhe parecia. E ele se sentia completamente desgraçado.

Irene também. Mas não pelas razões que lorde Hovenden supunha. É verdade que ela passava a maior parte do tempo, desde a chegada de Chelifer, seguindo o novo hóspede como uma sombra infeliz. Mas não porque quisesse fazer isso, não por sua livre e espontânea vontade. Chelifer realmente a intimidava; quanto a isso, lorde Hovenden estava certo. Sua falha fora imaginar que Irene adorava o homem, apesar do medo que ele lhe causava. Se ela o seguia por toda parte era porque tia Lilian lhe havia pedido. E se ela parecia infeliz era porque tia Lilian estava sofrendo — e em parte, também, porque essa tarefa lhe era muito desagradável; não só desagradável em si, como a impedia de ter suas conversas com Hovenden. Desde a noite em que tia Lilian a repreendera por sua frieza e falta de visão, Irene decidira estar com Hovenden o máximo que pudesse. Queria provar que tia Lilian estava errada. Ela não era fria, nem cega; conseguia ver tão claramente quanto qualquer um quando as pessoas gostavam dela, e sabia retribuir as atenções recebidas. Francamente, depois dos episódios com Jacques, Mário e Peter, não era justo que tia Lilian a importunasse daquela maneira. Simplesmente não era justo. Movida pelo desejo indignado de refutar a tia o mais rápido possível, ela decidiu tomar a iniciativa com Hovenden; ele era tão tímido que, se não o fizesse, levaria meses para oferecer à tia uma réplica convincente à acusação de que fora vítima. Eles tinham conversado, saído para passear, e Irene se sentira quase pronta para viver a qualquer momento a infinitude de uma paixão. De certa forma, esse relacionamento vinha se desenvolvendo de uma maneira bem diferente dos outros. Ela começara a sentir alguma coisa, mas algo bastante distinto do que conhecera com Peter e Jacques. Por eles fora um sentimento borbulhante, excitante, agitado, intimamente ligado aos grandes hotéis, às bandas de jazz, às luzes coloridas, ao desejo infatigável da tia de extrair da vida tudo o que pudesse, ao medo assombroso de perder alguma coisa, mesmo estando no centro dos acontecimentos. “Divirta-se! Solte-se!”, dizia sempre tia Lilian. E “Como ele é bonito! Que jovem encantador!”, se um rapaz passava por elas. Irene fizera o possível para seguir seus conselhos, e às vezes chegava a sentir — quando estava dançando e as luzes, as pessoas em volta e a música se fundiam num todo palpitante — que realmente atingia o auge da felicidade. E seu par, Peter ou Jacques, a quem tia Lilian a induzira sob hipnose a considerar um prodígio entre toda a espécie, era visto como a fonte dessa felicidade. Entre uma dança e outra, sob as palmeiras do jardim, ela até se deixara beijar; e a experiência fora sempre muito séria. Mas quando chegava a hora de irem embora, Irene partia sem saudade. Aquela sensação borbulhante se acalmava por completo. Com lorde Hovenden era diferente. Ela gostava dele com serenidade, gostava cada vez mais. Ele era bom, simples, sincero e jovem. Ele era jovem — Irene gostava particularmente disso. Apesar de sua idade, Irene sentia que no fundo ele era mais jovem que ela. Os outros foram sempre mais velhos, mais experientes e maduros; todos atrevidos e insolentes. Mas de maneira nenhuma poderia dizer isso de lorde Hovenden. A gente se sente segura com ele, pensava Irene. E de certa forma, quando estava com ele, não era uma questão de amor — pelo menos não uma questão premente ou urgente. Todas as noites tia Lilian costumava lhe perguntar como eles iam e se estava ficando excitante. E Irene nunca sabia direito o que responder. Logo descobriu que não queria falar sobre Hovenden; ele era tão diferente dos outros, e na amizade dos dois não havia nada de infinito. Era apenas uma amizade sensível. Irene se apavorava com as perguntas da tia; e quase a detestava quando, com aquele seu jeito terrível de caçoar, insistia impiedosamente em usá-las como alvo de sua troça. Sob alguns aspectos, a chegada de Chelifer fora na verdade um alívio, porque tia Lilian foi imediatamente absorvida pelas próprias emoções e não teve mais tempo ou vontade de pensar em mais ninguém. Sim, isso fora muito bom. Por outro lado, o trabalho de supervisão e espionagem de que fora encarregada pela tia acabou por tornar impossíveis as conversas com Hovenden. Seria preferível que ele não estivesse tão perto, refletia Irene com tristeza. Mas ao mesmo tempo a pobre tia Lilian estava sofrendo tanto... Era preciso fazer alguma coisa por ela. Pobre tia Lilian!

— Quero saber o que ele pensa a meu respeito — dizia-lhe secretamente tia Lilian, nas suas horas noturnas. — O que falará de mim às outras pessoas? — Irene respondia que nunca o ouvira dizer nada. — Então continue ouvindo; fique de ouvidos bem abertos.

Mas, por mais que se esforçasse, Irene nunca tinha nada para contar. Chelifer jamais mencionava tia Lilian. Para a sra. Aldwinkle, isso era quase pior do que se ele falasse mal. Ela não suportava ser ignorada.

— Talvez ele goste de Mary — sugeriu. — Achei que hoje ele a olhava de um jeito diferente, com certas intenções.

E Irene recebeu ordens de vigiá-los. Mas, pelo que conseguira descobrir, o ciúme de tia Lilian era totalmente infundado. Chelifer e Mary Thriplow não trocavam uma palavra ou um olhar que a imaginação mais desconfiada pudesse interpretar como uma intimidade amorosa.

— Ele é estranho, é uma criatura incomum... — A sra. Aldwinkle usava isso como um refrão ao se referir a ele. — Parece que não se importa com nada. É tão frio como uma máscara fixa e distante... Mas também basta olhá-lo nos olhos, na boca, para ver que sob essa superfície... — Ela balançava a cabeça e suspirava. E as especulações sobre Chelifer davam voltas e mais voltas, retornavam vezes sem conta ao mesmo ponto e não chegavam a lugar nenhum.

Para a sra. Aldwinkle, tudo começara quando ela salvara a vida de Chelifer. Via-se naquela praia, entre o céu e o mar, as montanhas ao longe, e ela o observando, como aquelas figuras adoravelmente românticas que nos quadros de Augustus John aparecem num êxtase meditativo e apaixonado contra um fundo cósmico. Ela via a si mesma — uma figura de John, apesar da túnica vermelho-chama e da sombrinha verde-esmeralda. E a seus pés, Shelley, ou Leandro, derrotado pelas águas nas areias de Ábydos, um jovem poeta lívido, nu e morto. E ela se debruçava sobre ele, trazia-o de volta à vida e o ajudava a se levantar, levando-o em seus braços maternais a um paraíso de paz, onde ele pudesse reunir novas forças e, pela poesia, novas inspirações.

Era assim que os fatos eram interpretados pela sra. Aldwinkle depois de passarem pelo denso material refratário da sua imaginação. Por esses fatos, pela situação resultante, pelo seu caráter, era quase necessário e inevitável que ela tivesse uma queda romântica por seu mais recente hóspede. O mero fato de ele ser um recém-chegado, até então desconhecido, além de um poeta, bastaria em quaisquer circunstâncias para despertar-lhe um vívido interesse pelo rapaz. Mas considerando-se que ela o resgatara de sua sepultura nas águas e agora estava empenhada em abastecê-lo de inspirações, seu interesse tornava-se ainda maior. Se não se apaixonasse por ele estaria desobedecendo às leis de sua própria natureza. Além disso, ele próprio tornava tudo mais fácil por ser sombria e poeticamente belo. Mais que isso, ele era estranho — estranho ao ponto de se tornar misterioso. A sua frieza a atraía e ao mesmo tempo a deixava desesperada.

— Ele não pode ser tão indiferente a tudo e a todos quanto quer parecer — insistia ela para Irene.

O desejo de destruir essas barreiras, de penetrar na intimidade dele e dominar seu segredo acelerava ainda mais o amor da sra. Aldwinkle. Desde o momento em que o descobrira naquelas circunstâncias românticas, tornadas ainda mais românticas pela sua imaginação, ela vinha tentando se apossar de Chelifer; queria fazer dele uma propriedade sua, assim como a paisagem e a arte italianas. Imediatamente ele se transformara no maior poeta vivo; mas segundo o corolário ela seria sua única intérprete. Rapidamente telegrafou para Londres e encomendou todos os livros dele.

— Quando penso — dizia, aproximando-se embaraçosamente dele e fitando-o no rosto com seus olhos perigosamente brilhantes —, quando penso que por pouco você não morreu afogado... Como Shelley... — Ela encolhia os ombros. — É apavorante!

E Chelifer curvava os lábios no seu sorriso mais egípcio e respondia:

— Meus colegas da Gazeta do Criador de Coelhos teriam ficado inconsoláveis. — Ou qualquer coisa do tipo. Oh, ele era muito, muito estranho!

— Ele sempre me escapa das mãos — reclamava a sra. Aldwinkle à sua confidente das horas tardias.

Era preciso quebrar aquelas barreiras com uma explosão, ou, se preciso, rastejar pelos flancos e ganhar sua confiança; mas Chelifer não cochilava jamais. Sempre conseguia fugir. Não era possível apoderar-se dele. Para a sra. Aldwinkle, não era à toa que ele era o maior poeta vivo, e ela, sua profeta.

Ele fugia — não só mental e espiritualmente como fisicamente. Um ou dois dias depois de sua chegada ao palácio dos Cybo Malaspina, desenvolvera uma capacidade quase mágica de desaparecer. Num momento estava ali, no jardim ou sentado num dos salões; a sra. Aldwinkle se distraía com alguma coisa e em seguida ele tinha sumido. Ela ia procurá-lo; nem sinal dele. Mas na refeição seguinte ele reaparecia, sempre pontual; perguntava à sua anfitriã se passara uma manhã ou tarde agradável, conforme o caso, e, se ela lhe perguntasse onde estivera, respondia vagamente que dera um passeio ou ficara escrevendo cartas.

Num desses sumiços, Irene, encarregada pela tia de caçá-lo, conseguiu finalmente capturá-lo no alto da torre. Ela subira os trezentos e trinta e dois degraus porque lá de cima poderia avistar todo o jardim e a encosta. Se ele estivesse em algum lugar lá embaixo, ela o veria da torre. Mas quando, por fim, Irene emergiu ofegante na pequena plataforma de onde os marqueses atiravam pedras e chumbo derretido em seus inimigos no pátio, levou um susto que quase a fez cair para trás e rolar pelos degraus. Porque ao sair pelo alçapão para a luz do dia, viu de repente o que lhe pareceu uma figura gigantesca avançando em sua direção.

Irene deu um gritinho; seu coração dava saltos violentos e parecia que ia parar.

— Permita-me... — disse a voz muito bem-educada. O gigante se inclinava e lhe estendia a mão. Era Chelifer. — Veio até aqui para apreciar a vista panorâmica das pitorescas belezas da natureza? Eu gosto muito de vistas panorâmicas.

— Você me assustou — foi tudo o que ela conseguiu dizer. Seu rosto estava pálido.

— Sinto muitíssimo — disse Chelifer. Fez-se um longo e, para Irene, constrangedor silêncio. Ela foi embora em seguida.

— Você o encontrou? — perguntou a sra. Aldwinkle à sobrinha quando ela surgiu no terraço.

Irene meneou negativamente a cabeça. Não sabia por que lhe faltava coragem de contar à tia sua aventura. Iria deixá-la muito triste saber que Chelifer estava disposto a escalar trezentos e trinta e dois degraus para se livrar dela.

A sra. Aldwinkle tentou se prevenir contra essa mania de desaparecer, não permitindo nunca, até onde fosse possível, que ele saísse de sua vista. Fez com que ele se sentasse sempre perto dela à mesa. Levava-o para passear a pé ou de carro, sentava-se com ele no jardim. Era com dificuldade, e somente utilizando alguns estratagemas, que Chelifer conseguia alguns momentos de liberdade e solidão. Nos primeiros dias de palácio, descobriu que “preciso escrever” era uma ótima desculpa para se retirar.

A sra. Aldwinkle professava tanta admiração por sua atividade poética que não seria decente impedi-lo. Mas não demorou para que ela encontrasse um meio de controlar essa liberdade, insistindo em que ele escrevesse à sombra dos azinheiros ou em uma das grutas artificiais de pedra esponjosa incrustadas nas paredes do terraço inferior. Em vão Chelifer tentou protestar, dizendo que detestava escrever ou ler ao ar livre.

— Mas é um lugar tão encantador... — insistia a sra. Aldwinkle. — Só irá aumentar a sua inspiração.

— Os únicos lugares que realmente me inspiram — dizia Chelifer — são os bairros populares de Londres; o norte da Harrow Road, por exemplo.

— Como pode dizer isso? — protestava a sra. Aldwinkle.

— Asseguro-lhe que essa é a mais pura verdade — afirmava ele.

Não obstante, ele teve que escrever sob os azinheiros ou no interior das grutas. A sra. Aldwinkle, a uma distância moderada, mantinha-o bem à vista. A cada dez minutos mais ou menos ela se aproximava pé ante pé de onde ele estivesse, sorrindo, na sua imaginação, como uma sibila, com o dedo sobre os lábios, e depositava ao lado do papel permanentemente virgem de Chelifer algumas rosas, uma dália, um ramo de margaridas ou um cacho de bagas rosadas de evônimo. Com delicadeza, usando uma fórmula graciosa e francamente insincera, menos sibilina mas muito mais adocicada e aveludada, a sra. Aldwinkle se retirava novamente na ponta dos pés, como Egéria dando adeus ao rei Numa, deixando que a inspiração fizesse seu trabalho. Mas esta não parecia estar trabalhando muito bem. Porque toda vez que a sra. Aldwinkle perguntava quanto ele já tinha escrito, regularmente respondia “Nada”, sorrindo-lhe com aquele sorriso esfíngico e delicado que ela achava tão desconcertante, tão proeminentemente “estranho”.

Em geral ela tentava conduzir a conversa aos elevados planos espirituais, dos quais se deve fazer a abordagem mais satisfatória e romântica do amor. Duas almas aclimatadas ao fino ar da religião, das artes, da ética ou da metafísica não teriam dificuldade em respirar a atmosfera similar do amor ideal, cujos territórios são contíguos aos dos outros habitantes das grandes altitudes mentais. O aeroplano aterrissa, por assim dizer, no pico nevado de Popocatepetl, e os passageiros descem suavemente para as tropicais tierras calientes na planície. Mas com Chelifer era impossível elevar-se a um metro que fosse. Quando, por exemplo, a sra. Aldwinkle começava a falar enlevadamente sobre a arte e as delícias de ser um artista, Chelifer se confessava modestamente um tolerável amador de segunda classe.

— Mas como pode falar dessa maneira? — gritava ela. — Como pode blasfemar contra a arte e o seu próprio talento? De que lhe serve ele, então?

— Para editar a Gazeta do Criador de Coelhos, ao que parece — respondia Chelifer, sorrindo amavelmente.

Outras vezes ela começava com o amor propriamente dito; também sem muito sucesso. Chelifer apenas concordava polidamente com tudo o que ela dizia e, se era pressionado a dar uma opinião mais definida, respondia:

— Não sei.

— Mas você tem que saber — insistia ela —, tem que ter alguma opinião. Você já teve experiências.

Chelifer balançava a cabeça negativamente.

— Infelizmente — lamentava —, nunca.

Era tudo inútil.

— O que devo fazer? — perguntava a sra. Aldwinkle, desesperada, nas horas tardias.

Sábia com sua experiência dos dezoito anos, Irene sugeria que o melhor era não pensar mais nele — pelo menos não dessa maneira.

A sra. Aldwinkle suspirava e balançava a cabeça. Começara a amar porque acreditava no amor, porque queria amar e porque lhe surgira uma oportunidade romântica. Ela resgatara um poeta da morte. Como não amá-lo? As circunstâncias, a própria pessoa, eram todas invenções suas; ela se apaixonara, quase propositadamente, pelas fantasias da própria imaginação. Mas desistir deliberadamente era impossível. Os anseios românticos trouxeram à tona aqueles instintos mais profundos, dos quais esses mesmos anseios nada mais eram que delicadas emanações literárias. Ele era jovem e bonito — isso era um fato, não imaginação. Os desejos profundos, uma vez despertados e trazidos à consciência, uma vez cientes de seu estado petrificado, como poderiam ser reprimidos?

— Ele é um poeta. Por amor à poesia, por amor à paixão e por tê-lo salvado da morte, por tudo isso eu o amo.

Se fosse só isso, talvez até fosse possível à sra. Aldwinkle seguir o conselho de Irene. Mas, das escuras cavernas do seu ser, outra voz clamava: “Ele é jovem, é bonito. Os dias são poucos e curtos. Eu estou envelhecendo, meu corpo tem sede”. Como poderia parar de pensar nele?

— Suponhamos que ele venha a me amar um pouquinho — continuava a sra. Aldwinkle, tirando um perverso prazer do fato de atormentar a si mesma das mais variadas maneiras —, suponhamos que ele venha a sentir um pouco de amor por mim, pelo que sou, penso ou falo. Ele me amaria porque, para começar, eu o amo e admiro seu trabalho, e porque compreendo o que sente um artista e posso comungar com ele. Diante de tudo isso, será que ainda assim ele me repeliria por eu ser velha? — Ela perscrutava o espelho. — Meu rosto está terrivelmente envelhecido.

— Não, não — protestava Irene, encorajando-a.

— Ele ficaria desgostoso — continuava. — Seria suficiente para afastá-lo, mesmo que se sentisse atraído por qualquer outra coisa. — Ela suspirava profundamente. As lágrimas escorriam lentamente pelas faces descaídas.

— Não fale assim — implorava Irene. — Não fale assim, tia Lilian. — Seus próprios olhos se enchiam de lágrimas. Nessas horas, seria capaz de qualquer coisa para tornar a tia mais feliz. Passava os braços ao redor do pescoço dela e a beijava. — Não fique triste — sussurrava —, não pense mais nisso. Que importância tem esse homem? Que importância ele tem? Pense só nas pessoas que realmente a amam. Eu a amo, tia Lilian, muito, muito.

A sra. Aldwinkle chegava a se sentir confortada e enxugava os olhos.

— Vou ficar ainda mais feia se não parar de chorar. — Silêncio. Irene continuava a escovar os cabelos da tia, esperando que seus pensamentos tivessem se dirigido para outro tema.

— Seja como for — dizia a sra. Aldwinkle, por fim , quebrando o longo silêncio —, meu corpo ainda é jovem.

Irene ficava angustiada. Por que tia Lilian não podia pensar em outra coisa? E sua angústia ia se transformando numa desagradável sensação de constrangimento e vergonha à medida que a tia prosseguia no assunto iniciado com suas últimas palavras e entrava em detalhes cada vez mais íntimos. Apesar dos cinco anos de treinamento na escola de tia Lilian, Irene sentia-se profundamente chocada.