Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 38 de 43

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Folhas inúteis

Capítulo 9

 

O funeral não deveria acontecer antes do pôr do sol. Os carregadores, o coro, o coroinha e o próprio padre estariam provavelmente nos campos, colhendo uvas. Tinham coisas mais importantes a fazer enquanto ainda era dia, além de enterrar pessoas. Que os mortos enterrassem seus mortos. Os vivos deviam fazer vinhos.

O mr. Cardan estava só na igreja vazia. Só; o que fora Grace Elver estava ali, deitado no caixão, sobre um estrado no meio da igreja. Não se podia contar com aquilo como companhia; lá dentro só havia matéria. O rosto dele, vermelho e congestionado, parecia ter se congelado na imobilidade; toda sua alegria, a inquieta mobilidade tinham desaparecido. Poderia ser o rosto de um homem morto, de um daqueles cujo trabalho é enterrar os mortos. Ele permanecia ali, sério e empedernido, inclinado para a frente, o queixo apoiado na mão, o cotovelo no joelho.

Três mil, seiscentos e cinquenta dias, pensava ele; é o que me resta, se eu viver mais dez anos. Três mil, seiscentos e cinquenta dias e, então, o fim, os vermes.

Há muitas maneiras horríveis de morrer, pensava. Certa vez, anos atrás, ele tivera uma bela gata angorá. Ela comera algumas baratas envenenadas na cozinha e morrera vomitando pedaços de seu estômago dilacerado. Ele sempre pensava nessa gata. Todos deviam morrer assim, expelindo a própria vida.

Não que para isso devessem comer baratas, é claro. Mas sempre havia os peixes podres, os efeitos não eram muito diferentes. Pobre idiota!, pensou, olhando para o caixão. Tivera uma morte muito desagradável. Dores, vômitos, o colapso, o coma e o caixão — e agora os fermentos de putrefação e os vermes. Não era um final digno e inspirado. Nenhum discurso, nem serenidades consoladoras, nem Little Nells ou Paul Dombeys. O mais próximo que esteve de Dickens foi quando, num breve momento de lucidez, ela lhe perguntou sobre os ursos que ele lhe daria quando estivessem casados.

— Já serão crescidos ou ainda bebês? — ela perguntara.

— Bebês — respondera ele, e a vira sorrir de prazer.

Essas foram quase as únicas palavras articuladas por ela. Ao longo da agonia de morte, foram os únicos indícios da existência de uma alma. O resto do tempo, Grace fora apenas um corpo doente, que chorava e murmurava coisas sem sentido. A tragédia do sofrimento do corpo até se extinguir não foi catártica. Ele seguiu seu curso lento de degradação ponto a ponto, ato após ato, até o final. Só a tragédia do espírito é capaz de liberar, de elevar. Mas a grande tragédia é que o espírito, mais cedo ou mais tarde, sucumbirá à carne. Mais cedo ou mais tarde os pensamentos deixarão de existir e só haverá dor, vômitos e estupor. A tragédia do espírito é apenas uma exuberância acidental, um produto da energia vital sobressalente, como o penacho de um mocho ou as inumeráveis populações de espermatozoides inúteis e condenados. O espírito não tem importância nenhuma; só o corpo existe. Enquanto jovem, é belo e forte. Mas envelhece, as juntas estalam e tudo se torna ressecado e malcheiroso; e então entra em colapso, a vida se desprende e a matéria apodrece. Por mais belo que seja o penacho de um mocho, desaparecerá com ele. E o espírito, que é um dos mais belos ornamentos, perecerá também. A farsa é horrenda e de muito mau gosto.

Os tolos não percebem que é tudo uma farsa. São os mais abençoados. Os sábios percebem, mas esforçam-se para não pensar nisso. É onde reside sua sabedoria. Eles se entregam a todos os prazeres, do espírito e do corpo, especialmente aos do espírito, que são de longe os mais variados, prazerosos e adoráveis; e quando chega a hora resignam-se dignamente com a decadência do corpo e a extinção de sua parte espiritual. Enquanto isso não acontece, não pensam demais na morte — não é um tema muito estimulante. Não insistem muito na natureza farsesca do drama que representam, com medo de que eles próprios se tornem por demais enfadonhos e não sejam capazes de extrair grandes prazeres de todo o espetáculo.

As comédias mais ridículas são aquelas sobre pessoas que pregam uma coisa e praticam outra, que fazem declarações importantes mas falham lamentavelmente na hora de cumpri-las. Pregamos a imortalidade e praticamos a morte. Tartufo e Volpone estão fora disso.

Os sábios não pensam na morte a fim de não estragar seus prazeres. Mas há momentos em que os vermes se introduzem na mente com demasiada insistência para serem ignorados. Outras vezes, a morte impõe-se à força e então se torna difícil extrair prazer seja do que for.

Aquele caixão, por exemplo. Como é possível sentir prazer diante da beleza da igreja na qual ele repousa, cheio de matéria em decomposição? Não há nada melhor do que erguer os olhos para o teto de uma grande nave e ver que no final de uma longa fileira de arcos arredondados existe um segmento brilhantemente iluminado da circunferência de uma cúpula: o círculo horizontal em harmonioso contraste com os semicírculos perpendiculares dos arcos. Não há nada mais lindo entre todos os trabalhos do homem. Mas o caixão estava ali, sob os arcos, para lembrar ao connoisseur do belo que não existe mais nada além do corpo e que este sofre uma degradação, morre e é comido pelos bichos.

O mr. Cardan perguntava-se como seria a sua morte. Seria súbita ou lenta? Sofreria uma longa agonia? Seria inteligente, apesar de humana? Ou morreria como um idiota, um animal queixoso? Fosse como fosse, agora ele morreria pobre. Os amigos se cotizariam e lhe mandariam algum dinheiro de vez em quando. Que aborrecimento! Era fantástico como ele conseguira viver tanto tempo! Mas sempre fora um bode velho. Pobre Cardan!

Uma porta bateu; sons de pessoas ecoaram na igreja vazia. Era o sacristão. Vinha dizer a omr. Cardan que logo poderiam começar. Tinham apressado a volta do campo para isso. As uvas não eram tantas nem tão boas como foram no ano anterior. Mesmo assim, agradeciam a Deus por Suas graças, fossem quais fossem.

Abençoados os tolos, pensou o mr. Cardan, por não enxergarem nada. Talvez enxergassem e ainda assim acreditassem em confortáveis consolos futuros e na justiça da eternidade. Em qualquer dos casos, não enxergando ou enxergando mas acreditando, eram tolos. Acreditar é provavelmente a melhor das soluções, refletiu o mr. Cardan. Porque permite que se enxergue e não se ignore. Aceitam-se os fatos e por isso podem ser justificados. Para um crente, um ou dois caixões não interfeririam na apreciação da arquitetura de Sammicheli.

Os carregadores se alinharam, trazendo do campo um cheiro saudável de suor. Estavam vestidos para a ocasião com trajes que deveriam, sem dúvida, ser sobrepelizes, mas que de fato não passavam de guarda-pós brancos, amarrotados e encardidos. Pareciam onze árbitros de um jogo de críquete, perfeitamente alinhados. Atrás dos carregadores entrou o padre, seguido por um árbitro em miniatura que usava um guarda-pó tão curto que não chegava a esconder os joelhos descobertos. O serviço começou. O padre desenrolava suas fórmulas latinas como se estivesse recolhendo apostas; os carregadores, num uníssono imperfeito e desafinado, vociferavam entre eles sobre a vindima. O pequeno coçou a cabeça, depois a nuca e por fim enfiou o dedo no nariz. O padre rezava tão rápido que as palavras se misturavam e se tornavam uma só. O mr. Cardan perguntou-se por que a Igreja Católica não adotava máquinas de rezar. Um pequeno e simples motor, girando a seiscentas ou oitocentas rotações por minuto, daria conta de um número espantoso de serviços piedosos num único dia e custaria muito menos que um padre.

— Baa baba, baa baa, Boo-oo-baa — balia o padre.

— Boooo-baa — balia de volta o rebanho.

Sem parar um instante de cutucar o nariz, o árbitro em miniatura, que parecia conhecer tão bem o seu papel quanto um cachorro treinado de um show de variedades, entregou um turíbulo ao padre. Balançando-o e desfiando seu piedoso latim, ele começou a dar voltas em torno do caixão. Perfume simbólico e religioso! Fora espalhado nos estábulos de Belém, em meio ao cheiro de amoníaco dos animais, como um sinal e um símbolo do espírito. A fumaça azulada espalhava-se pelo ar, levada pelo vento. Na superfície da terra as bestas propagavam incessantemente sua espécie; a terra inteira é um pântano de carne viva. Seu cheiro morno e pesado envolve todas as coisas. Em todos os lugares queima-se incenso; a fumaça logo desaparece. O cheiro das bestas permanece.

— Baa, baba — continuava o padre.

— Baa — respondia o coro, uma quinta abaixo na escala.

O pequeno forneceu água e uma espécie de vassourinha. Mais uma vez o padre deu a volta no caixão, aspergindo a água acumulada nos pelos da vassourinha; o pequeno árbitro ia atrás dele, segurando a ponta do paramento. Os carregadores, enquanto isso, sussurravam entre eles sobre as uvas.

Às vezes, pensava o mr. Cardan, o espírito representa tão bem e de maneira tão solene o seu papel que é difícil não acreditar na sua existência e máxima importância. Um ritual cumprido com seriedade é muito convincente. Mas basta que seja feito sem cuidado e casualmente, por pessoas que não estejam pensando no que o rito simboliza, para que se perceba que não há nada por trás dos símbolos, que só o ato importa — a ação criteriosa do corpo. E que o corpo, decadente e condenado, é a única estarrecedora realidade.

O serviço terminou; os carregadores ergueram o caixão e levaram-no para o carro fúnebre, estacionado à porta da igreja. O padre pediu ao mr. Cardan que o acompanhasse à sacristia. Lá, enquanto o pequeno árbitro guardava o turíbulo e a vassourinha, ele apresentou a conta. O mr. Cardan pagou.