Folhas inúteis

Aldous Huxley · Capítulo 31 de 43

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Folhas inúteis

Capítulo 2

 

Tempo e espaço, mente e matéria, sujeito e objeto — tudo se misturou inextricavelmente nas estradas de Roma, no dia seguinte. O viajante menos esclarecido que se imaginasse indo da Úmbria ao Lácio sentir-se-ia ao mesmo tempo despencando numa montanha-russa pelos períodos da história, rolando desengrenado pelos sistemas de política econômica, escalando as alturas da filosofia e da religião, zunindo de uma estética à outra. As dimensões se multiplicavam ao infinito, e a máquina, que parecia deslizar suavemente pela estrada, ia, na verdade, tão veloz quanto podiam suportar seus quarenta cavalos, enquanto as mentes humanas a bordo seguiam por uma variedade de outras estradas, simultaneamente e em todas as direções.

A manhã estava clara quando eles saíram de Perugia. No céu azul de Subásio flutuavam grandes nuvens brancas. Desceram em silêncio a estrada cheia de curvas. Ao pé da montanha, protegidos da luz do sol no delicioso frescor da redoma familiar, os obesos Volumni inclinavam-se sobre a tampa de suas panelas de mármore, como se estivessem deitados em divãs ao redor da mesa de jantar. Numa eterna antecipação da próxima e suculenta refeição, eles riam, e não paravam nunca de rir. Gostamos da vida, pareciam dizer, e encaramos destemidamente a morte: a ideia da morte é apenas o tempero que torna os nossos vinte e cinco mil jantares nesta terra muito mais apetitosos.

Alguns quilômetros adiante, em Assis, a múmia de uma santa repousava numa caixa de vidro ricamente iluminada por luzes indiretas. Pense na morte, dizia a santa, pondere incessantemente sobre o declínio de todas as coisas, a transitoriedade desta vida sublunar. Pense, pense; e no final a vida perderá todo o seu sabor; será corrompida pela morte; a carne parecerá uma vergonha e uma desgraça. Pense na morte com força suficiente e conseguirá negar a beleza e a santidade da vida. E, na verdade, a múmia foi outrora uma freira.

— Quando Goethe veio para Assis — disse o mr. Cardan, ao saírem da câmara mortuária de santa Clara —, a única coisa pela qual se interessou foi o pórtico de um templo romano de segunda categoria. Ele não deve ter sido tão tolo quanto pensamos.

— Um ótimo lugar para o jogo de halma[24]— disse Chelifer, quando entraram no Teatro Metastasio.

Naquele palco rococó, a arte deveria adorar a si mesma. Em todos os lugares agora, durante os últimos duzentos anos ou mais, ela vinha se adorando.

Mas nas duas igrejas superpostas de são Francisco, Giotto e Cimabue mostravam aquela arte que um dia adorou outra coisa além de si mesma. Lá, a arte serve à religião — ou, como diriam os psicanalistas de uma maneira mais científica, o erotismo anal é sempre concomitante à homossexualidade incestuosa.

— Eu me pergunto — disse o mr. Cardan, pensativo — se São Francisco realmente conseguiu tornar a pobreza tão digna, atraente e encantadora quanto fizeram parecer. Conheço muito poucos pobres hoje em dia que tenham uma aparência graciosa. — Ele olhou para a srta. Elver, que andava bamboleando pela rua como um pássaro aquático em terra firme, um pouco à sua frente. Uma ponta da vistosa echarpe de lorde Hovenden se arrastava pelo chão; a outra ponta estava amarrada em seu pulso, e ela parecia totalmente alheia a isso. Vinte e cinco mil libras, pensava o mr. Cardan, suspirando. são Francisco, Gautama Buda, todos eles tinham administrado seus interesses de modo muito diferente. Mas nos dias de hoje era difícil mendigar e manter algum grau de dignidade.

Eles entraram nos carros; acenando a echarpe vermelha, a srta. Elver dava adeus aos santos que pensaram tanto na morte que foram obrigados a mortificar suas vidas. Em suas frescas redomas os obesos Volumni sorriam desdenhosamente. Nós não pensamos na morte, geramos nossos filhos, multiplicamos nossos rebanhos e nossos acres, glorificamos a vida... Lorde Hovenden acelerou; as duas sabedorias, a lei nova e a antiga se distanciaram.

Spello desceu a montanha para vê-los passar. Em Foligno era dia de feira. Havia tanta gente na estrada que a srta. Elver ficou exausta de tanto acenar. Trevi, em sua colina cônica, era como uma cidade desenhada num livro ilustrado. Ao lado da estrada, na planície, havia fábricas; as altas chaminés copiavam as delgadas torres dos castelos empoleirados nas encostas. Nestes tempos mais seguros e civilizados, os assaltantes descem de seus esconderijos nas montanhas e constroem torres de observação na planície. Os carros passavam diante do progresso; o progresso de um quilômetro por minuto. E então o milagre sereno e reluzente do Clitumnus surgiu à direita deles. O sagrado manancial descia pelo flanco da montanha e se transformava no grande lago. Suas margens verdejantes lembravam os gramados ingleses. No meio dele, ilhas cobertas pela vegetação; os salgueiros curvados sobre a água e as pequenas pontes transformavam o sítio romano na paisagem original de onde um artista chinês teria desenhado o seu primeiro salgueiro.

— Mais um lago — gritou a srta. Elver.

Em Espoleto eles pararam para o almoço e pelos afrescos de Filippo Lippi, um artista que a sra. Aldwinkle admirava muito pela sua coragem, embora fosse monge, de fugir com uma jovem interna num convento. A abside sombria era suavizada pelas formas piedosas e elegantes, pelas cores claras e puras. O erotismo anal servia ainda à homossexualidade incestuosa, mas não exclusivamente. Havia naquelas formas brilhantes mais do que uma insinuação ao erotismo anal pelo erotismo anal. Mas o desenhista daquele vestíbulo do cinquecento romano, na extremidade oeste da igreja, certamente era um coprófilo dos mais puros e autênticos. Como é encantadora a filosofia divina! Astrologia, alquimia, frenologia e magnetismo animal, os raios-N, ectoplasmas e os cavalos calculadores de Elberfeld — todos tiveram a sua vez e passaram. Não se deve sentir falta deles; porque podemos nos orgulhar de uma ciência tão ricamente popular, tão fácil e todo explicativa como sempre o foram a frenologia e a magia. Gall e Mesmer cederam lugar a Freud. Filippo Lippi teve uma vez uma possível tendência para o erotismo anal. Quem ousará duvidar de que a inteligência humana possa progredir ainda mais? Daqui a cinquenta anos, qual será a interpretação corrente de Filippo Lippi? Algo mais profundo, mais fundamental até que os excrementos e o incesto infantil; disso se pode ter certeza. Mas o quê, precisamente o quê, só Deus sabe. Como é encantadora a filosofia divina!

— Gosto dessas pinturas — sussurrou lorde Hovenden no ouvido de Irene.

Partiram novamente. Pelo desfiladeiro de Somma, e depois pela longa e sinuosa garganta até Terni.

Atravessaram a planície (em toda a volta, as montanhas denteadas brilhavam) e então subiram para Narni, precariamente pendurada à beira de seu vale profundo; por fim chegaram às colinas Sabinas.

Ah, as Sabinas! Com que força esse simples nome desviava o carro de seu curso! Eheu, fugaces, como os dias são curtos — não foram essas palavras ditas pela primeira vez, com elegância, numa fazenda sabina? E as mulheres sabinas! Somente Rubens sabia como elas eram e de que forma deviam ser raptadas. Grandes e loiras! Com túnicas acetinadas e pérolas! E os raptores romanos tinham a pele tão bronzeada quanto a dos indianos. Seus músculos palpitavam; seus olhos e suas armaduras polidas reluziam. Montados em seus tordilhos mergulhavam com frenesi no mar espumante de carne feminina, espirrando e ondulando ao seu redor. A própria arquitetura tornou-se tumultuada e orgiástica. Esses foram os grandes e velhos tempos. Subindo para Narni, eles entravam no cerne dessa era.

Mas outros artistas além de Peter Paul passaram por ali. Ele pintou apenas o nome Sabina; os outros, o cenário. Um velho pastor, extraviado de uma das ruínas de Piranesi, observava-os de uma pedra, curvado sobre seu bastão. Um rebanho de cabras ruminando à sombra de um carvalho, as barbichas negras e os chifres retorcidos delineados contra o fundo azul, agrupava-se profissionalmente — bons animais, tinham estudado a arte da composição pictórica com os melhores mestres —, aguardando a chegada da Rosa de Tívoli. E o mesmo holandês italianizado foi certamente o responsável pelas ovelhas empoeiradas, os cães, os meninos segurando bastões, e por aquele pastor vestido como um caprípede, com seu calção de pele, montado num pequeno burro cuja pequenez contribuía para dignificar a imponente figura de seu cavaleiro. Mas os holandeses e flamengos não foram os únicos pintores estrangeiros desse cenário italiano. Havia árvores, clareiras abertas nos bosques, havia rochas que por direito de conquista pertenciam a Nicolas Poussin. Fechando-se um pouco os olhos, a pedra cinzenta se transformava num sepulcro em ruínas: Et ego in Arcadia...; a aldeia ao longe, no alto da colina do outro lado do vale, flores no meio de uma cidadezinha de colunatas e cúpulas e arcos triunfais, e os camponeses que trabalham os campos são habitantes de uma Arcádia transcendental, séria e soberbamente engajada em perseguir a Verdade, o racionalmente Bom e Belo. Tudo isso em primeiro e médio planos. Mas de repente, do alto de uma longa descida, um remoto e vasto último plano do mundo ideal de Poussin se revela: o vale do Tibre, a planície interrompida da Campagna e, no meio, fantástico e improvável, o cone solitário do monte Soratte, difuso e azulado contra o fundo azul do céu.