Folhas inúteis
Capítulo 8
Na manhã seguinte, o mr. Cardan desceu cedo. A primeira coisa que viu foi a srta. Elver, no jardim desolado em frente à casa. Ela vestia uma túnica cortada nas mesmas linhas do modelo saco que usava na noite anterior, mas de um tecido vistoso, com grandes estampas, que mais parecia desenhado para almofadas de poltronas e sofás do que para a figura humana. As contas no seu pescoço eram mais numerosas e brilhantes do que as anteriores e ela carregava uma sombrinha de seda florida.
Saindo da casa, o mr. Cardan flagrou-a no ato de amarrar um ramo de margaridas no rabo de um grande cachorro dos pântanos, que estava parado com a boca aberta, a língua rosada pendente e os grandes olhos castanhos fixos no horizonte, parecendo meditar enquanto aguardava que a srta. Elver concluísse a operação. Mas ela era muito lenta e desajeitada. Os dedos de sua mãozinha atarracada pareciam achar extraordinariamente difícil o processo de dar uma laçada numa tira de pano. Vez ou outra o cachorro virava a cabeça para trás para saber o que estava acontecendo na extremidade final de sua anatomia. Parecia também não se ressentir com as liberdades que a srta. Elver tomava com sua cauda, pois permanecia quieto e resignado, esperando. O mr. Cardan pensou na imensa tolerância demonstrada pelos cães e gatos diante das crianças mais perversas. Talvez, num lampejo de intuição bergsoniana, a besta entendesse a essência infantil do caráter da srta. Elver e houvesse reconhecido a criança disfarçada de mulher adulta. Os cães são bons bergsonianos, pensou o mr. Cardan. Os homens, por outro lado, são mais kantianos. Ele se aproximou devagar.
A srta. Elver tinha finalmente conseguido dar a laçada que pretendia; o rabo branco do cachorro terminava num buquê de flores também brancas. Ela se erguera e admirava seu trabalho manual.
— Pronto — disse por fim, dirigindo-se ao animal. — Agora pode ir. Você está lindo.
O cachorro entendeu a ordem e saiu trotando e abanando o rabo decorado.
O mr. Cardan deu um passo à frente.
— “Elegante, mas não exagerado” — citou —, “gracioso, mas não dispendioso, como o cão do jardineiro com um narciso preso à cauda.” Bom dia — disse, tirando o chapéu.
Mas a srta. Elver não retribuiu a saudação. Apanhada de surpresa, ela parou petrificada, fitando-o com os olhos arregalados e a boca aberta, ouvindo-o falar. Ao “bom dia” do mr. Cardan, as únicas palavras que ela realmente entendeu, o encantamento de imobilidade se desfez. Ela explodiu num riso nervoso, escondendo o rosto entre as mãos — só por um instante —, e então se virou e começou a correr, desajeitada como um animal se movendo num elemento que não é o seu, e foi refugiar-se atrás de uns arbustos na extremidade do jardim. Vendo-a correr, o cachorro foi atrás, latindo alegremente. Uma margarida se desprendeu de seu rabo e caiu no chão, depois outra. Em pouco tempo não havia nenhuma flor nem a tira que as amarrava.
Lentamente, com muito cuidado, como se estivesse cercando um pássaro acuado, e com o ar tranquilo de quem está concentrado em tudo menos numa perseguição, o mr. Cardan foi procurar a srta. Elver. Por entre as folhas do arbusto ele vislumbrava as cores vistosas da túnica; às vezes, com infinita circunspecção e obviamente certa de que ele não a via, ela espiava pelos lados do arbusto. Saltando em volta dela, o cachorro continuava a latir.
A poucos metros do esconderijo, o mr. Cardan parou.
— Venha — tentou persuadi-la com agrados —, por que está tão assustada? Olhe para mim. Eu não mordo. Sou até bastante manso.
As folhas do arbusto se agitaram; de trás dele saiu um risinho nervoso.
— Também não fico latindo como esse seu estúpido cão — continuou o mr. Cardan. — E, se quiser prender flores em minha cauda, jamais terei os maus modos de me livrar delas nos primeiros minutos, como esse seu rude animal.
Mais risadinhas.
— Não vai sair daí?
Nenhuma resposta.
— Muito bem, então — disse o mr. Cardan, num tom de quem está profundamente magoado — adeus. — Ele recuou alguns passos e tomou um caminho à esquerda que seguia para o portão; já andara dois terços do caminho quando ouviu o som de passos se aproximando. Continuou como se nada tivesse ouvido. Sentiu um toque em seu braço.
— Não vá, por favor — implorou-lhe a srta. Elver. Ele olhou para trás como se tivesse levado um susto. — Não me esconderei mais. Mas não me olhe desse jeito.
— Olhá-la como?
A srta. Elver ergueu a mão na frente do rosto e virou-se.
— Como não sei o quê.
O mr. Cardan pensou ter entendido perfeitamente e decidiu mudar de assunto.
— Bem, se promete não se esconder mais — disse —, não irei embora.
A fisionomia da srta. Elver brilhava de prazer e gratidão.
— Obrigada — disse ela. — Quer ver as galinhas? Elas ficam lá atrás.
Eles foram. O mr. Cardan admirou as aves.
— Gosta de animais? — perguntou a ela.
— Acho que sim — disse a srta. Elver, enlevada, movendo a cabeça afirmativamente.
— Você já teve um papagaio?
— Não.
— Um macaco?
Ela meneou a cabeça.
— Nem um pônei shetland? — perguntou o mr. Cardan, como se estivesse surpreso.
A voz da srta. Elver estava trêmula quando mais uma vez disse “não”. Ao pensar em todas as coisas encantadoras que nunca tivera, as lágrimas subiram-lhe aos olhos.
— Em minha casa — disse o mr. Cardan, materializando castelos encantados com a mesma facilidade que Aladim — há centenas de animais. Eu lhe darei alguns quando for lá.
O rosto da srta. Elver voltou a brilhar.
— Dará mesmo? — disse ela. — Oh, será maravilhoso, maravilhoso! Você tem ursos também?
— Uns dois, acho — disse o mr. Cardan modestamente.
— Bem... — A srta. Elver olhava-o com os olhos brilhantes, abertos ao máximo. Inspirou profundamente e soltou o ar bem devagar. — Deve ser uma casa muito bonita — acrescentou, virando-se e balançando lentamente a cabeça a cada palavra. — Muito bonita. É só o que posso dizer.
— Você vai me visitar? — perguntou o mr. Cardan.
— Acho que irei sim — respondeu a srta. Elver, decidida, olhando novamente para ele. Então corou repentinamente e ergueu as mãos. — Não, não — protestou.
— E por que não?
Ela balançou a cabeça.
— Não sei por quê — e começou a rir.
— Lembre-se dos ursos — disse o mr. Cardan.
— Sim, mas... — ela não concluiu a frase. A velha surgiu na porta dos fundos e tocou o sino para o café da manhã. Desajeitada como um pássaro mergulhador andando em terra firme, a srta. Elver encaminhou-se apressada para a casa. Seu companheiro a seguiu mais devagar. Na sala de refeições, menos lúgubre à luz da manhã, o café estava servido. O mr. Cardan encontrou sua anfitriã já à mesa, comendo apaixonadamente, como se sua vida dependesse daquilo.
— Estou faminta — ela explicou com a boca cheia. — Phil está atrasado.
— Bem, não me surpreende — disse o mr. Cardan, sentando-se e desdobrando o guardanapo.
Quando o mr. Elver apareceu, sua figura era a de um clérigo tão obviamente destituído do hábito, tão deploravelmente amarfanhado e alquebrado que o mr. Cardan quase sentiu pena dele.
— Nada como um café forte — ele disse animadamente, enquanto enchia a xícara de seu anfitrião. O mr. Elver simplesmente olhava, fraco e melancólico demais para falar. Por longo tempo ficou imóvel em sua cadeira, sem força sequer para estender a mão e erguer a xícara.
— Por que não come, Phil? — perguntou a irmã, já decapitando o segundo ovo. — Em geral você come um bocado.
Irritado, como se tivesse sido insultado, ele segurou a xícara e levou-a à boca. Chegou a pegar uma torrada e cobri-la com manteiga, mas não conseguiu comer.
Às dez e meia o mr. Cardan saiu da casa. Disse ao seu anfitrião que iria buscar sua escultura e confortou a srta. Elver, que ao vê-lo pôr o chapéu e pegar a bengala começou a choramingar, prometendo-lhe que voltaria a tempo para o almoço. Seguindo as instruções da velha, o mr. Cardan logo chegou à margem do lago Massaciuccoli. Cerca de um quilômetro e meio mais adiante, na margem oposta, ele podia ver o agrupamento de casas rosa e brancas do vilarejo onde, ele sabia, o irmão do merceeiro morava e guardava seu tesouro. Mas em vez de seguir para lá o mr. Cardan acendeu um cigarro e deitou-se na relva à beira da estrada. O dia estava claro e brilhante. Sobre as montanhas pairavam grandes nuvens delineadas contra o fundo azul, firmes e maciças como se fossem talhadas em mármore, parecendo quase mais sólidas do que as próprias montanhas embaixo. A brisa encrespava a água azulada, lembrando o som do mar a distância. No meio dessa paisagem o mr. Cardan fumava pensativamente seu cigarro, espalhando no ar a fumaça levada pelo vento.
Vinte e cinco mil libras, pensava ele. Investidas a sete por cento no Crédito Húngaro renderiam setecentos e cinquenta ao ano. Vivendo na Itália, renderiam ainda mais; daria para se considerar uma pessoa rica. Uma bela casa em Siena, ou Perugia, ou Bolonha — Bolonha, decidiu, seria melhor; nada se comparava à comida bolonhesa. Um carro — daria para comprar um bom carro. Muitos livros, ótimas pessoas para se conviver, confortáveis excursões pela Europa. E uma velhice tranquila; os horrores da decrepitude na miséria estariam definitivamente afastados. A única desvantagem é que a mulher com quem se casaria era uma idiota. Mas, por outro lado, ela obviamente seria muito devotada; faria o melhor que pudesse para agradar. E fazê-la feliz não seria difícil; bastava permitir que ela tivesse um urso domesticado. Na verdade, assegurava-se o mr. Cardan, essa era a única chance de felicidade para a pobre criatura. Se ela ficasse com o irmão, ele encontraria um substituto para os ineficazes anófeles, mais cedo ou mais tarde. Se caísse nas mãos de um aventureiro, eram grandes as chances de ele ser muito mais patife do que Tom Cardan. Na verdade, pensava o mr. Cardan, poderia perfeitamente, por uma questão de necessidade e pelo bem da própria moça, casar-se com ela. Seria uma excelente oportunidade para os espíritos românticos como o de Lilian Aldwinkle. Para esses, ele seria um galante salvador, um Perseu, um cavalheiresco São Jorge. As almas menos entusiasmadas considerariam apenas as vinte e cinco mil libras e ririam. Que rissem! Afinal, perguntou-se o mr. Cardan, um riso a mais ou a menos, que diferença faria? Não, o verdadeiro problema, a dificuldade real era ele mesmo. Poderia fazer isso? Não seria, de certa forma, insuportável — uma idiota? Não seria... russo demais? Stavroginesco demais?
Na verdade, seus motivos eram diferentes dos do russo. Ele se casaria com uma idiota pelo conforto e por uma velhice tranquila — e não para fortalecer suas fibras morais por meio de um difícil exercício, não com a esperança voluptuosa de materializar novos escrúpulos e remorsos refinados, ou com a esperança religiosa de desenvolver uma consciência superior por intermédio de uma vida inferior. Mas, por outro lado, nada poderia garantir que a vida fosse, na realidade, completamente inferior; e ele não poderia evitar que estranhos escrúpulos surgissem em sua consciência. Setecentas e cinquenta libras anuais seriam compensação suficiente?
Durante mais uma hora o mr. Cardan permaneceu ali, fumando e contemplando o lago, as etéreas montanhas, as nuvens marmorizadas, ouvindo o vento bater nas folhas e os ocasionais sons de vida; o tempo todo ele ponderou. No final, decidiu que setecentas e cinquenta mil ou mesmo um rendimento menor, caso investisse em algo mais seguro do que empréstimos, seriam compensação suficiente. Levaria adiante o seu plano. O mr. Cardan se levantou, jogou fora o que restava de seu segundo cigarro e, devagar, tomou o caminho da casa. Ao se aproximar pela pequena plantação de álamos, a srta. Elver, que estivera esperando pelo seu retorno, correu ao portão para encontrá-lo. As cores vistosas da túnica resplandeceram quando ela atravessou a sombra da casa e entrou na luz do sol; as contas faiscaram. Dando gritinhos de excitação e rindo, ela correu. O mr. Cardan a observou. Via assustadores cormorões sacudindo a cabeça de um lado para o outro. Via pinguins agitando as asinhas curtas e correndo sem qualquer dignidade sobre as pequenas pernas. Via abutres com as asas abertas, manquejando e pulando de pés juntos no chão. Todas essas visões surgiram em sua mente ao assistir à aproximação da srta. Elver. Ele soltou um profundo suspiro.
— Que bom que voltou — gritou ela quase sem fôlego. — Tive muito medo de que fosse embora. — Apertou a mão dele com sinceridade e olhou-o nos olhos. — Não se esqueceu dos macacos e dos pôneis shetland, não é? — acrescentou, ansiosa.
— É claro que não — respondeu o mr. Cardan, sorrindo, e acrescentou galantemente: — Como poderia esquecer de qualquer coisa que a faça feliz? — pegou-lhe a mão e, curvando-se, beijou-a.
A srta. Elver corou e em seguida seu rosto empalideceu assustadoramente. Sua respiração tornou-se acelerada e instável. Ela fechou os olhos. Seu corpo foi atravessado por um tremor e as pernas fraquejaram: parecia que estava caindo. O mr. Cardan segurou-a pelo braço e ajudou-a a firmar-se. Aquilo seria pior do que imaginara, pensou; mais stavroginesco. Desmaiar só porque ele lhe beijara a mão — e beijara quase com ironia — era demais. Mas era bem provável, refletiu, que nada semelhante houvesse acontecido a ela antes. Quantos homens já teriam ao menos lhe dirigido a palavra? Era compreensível.
— Minha criança, francamente — ele apertou de leve o braço dela. — Recomponha-se. Se continuar com esses desmaios, não poderei nunca deixá-la perto de um urso. Vamos, venha comigo.
Contudo, o fato de compreender alguma coisa não é capaz de alterá-la em nada. Continua sendo o que foi quando ainda não havia sido entendida. Setecentos e cinquenta libras por ano — mas, a esse custo, parecia-lhe que a quantia não seria suficiente.
A srta. Elver abriu os olhos. De dentro deles surgiu aquela expressão ansiosa e infeliz de uma criança para sua mãe quando acha que será abandonada. O mr. Cardan não teria sentido remorso maior se tivesse cometido um assassinato.
E todas as fraquezas, todos os vícios?
Tom Cardan, tudo era teu.
Da mesma maneira, havia certas coisas cuja prática dava a sensação de se estar cometendo uma atrocidade. Contudo, era preciso pensar nas setecentas e cinquenta libras; na velhice, na solidão e na miséria.
O mr. Cardan deixou a srta. Elver brincando no jardim e entrou na casa. Encontrou o irmão sentado atrás de uma veneziana fechada, na penumbra cinzenta, com a cabeça apoiada nas mãos.
— Sente-se melhor? — perguntou o mr. Cardan; não obtendo resposta, começou a contar uma longa história de como procurara o irmão do merceeiro e finalmente descobrira que ele estava fora e só voltaria no dia seguinte. — Portanto, espero que não se importe — concluiu — se eu abusar de sua hospitalidade por mais esta noite. Sua irmã disse-me muito gentilmente que ficasse.
O mr. Elver dirigiu-lhe um olhar concentrado de desprezo e desviou-o em seguida. Não disse nada.
O mr. Cardan puxou uma cadeira e se sentou.
— Há um livrinho muito interessante — disse, olhando para o seu anfitrião com um ar de cintilante jovialidade — de um certo W.H.S. Jones, que se chama Malária: um fator nas histórias da Grécia e de Roma, ou algo parecido. Ele mostra como a doença pode repentinamente assolar regiões até então imunes e, no decurso de algumas gerações, destruir toda uma cultura ou um poderoso império. Inversamente, mostra também como é possível livrar-se dela; saneamento básico, quinino, telas de arame... — O outro se agitou na cadeira, mas o mr. Cardan continuou impiedosamente. Quando tocou o sino para o almoço, ele falava ao mr. Elver sobre a única maneira de o perigo amarelo ser permanentemente afastado.
— Primeiro — disse, pousando o indicador da mão direita sobre o polegar da esquerda —, é preciso introduzir a malária no Japão. O Japão até agora está imune; isso é um escândalo gigantesco. Começa-se remediando esse erro. E, segundo — ele mudou para o dedo seguinte —, é preciso ver que os chineses não têm chance de eliminar a doença em seu próprio país. Quatrocentos milhões de chineses com malária entre as raças amarelas — disse o mr. Cardan, levantando-se da cadeira. — Uma causa à qual um bom europeu deveria se devotar lucrativamente. O senhor que se interessa tanto pelo assunto, mr. Elver, não poderia encontrar nada melhor. Vamos almoçar?
O mr. Elver se levantou cambaleante.
— Estou com um tremendo apetite — continuou o mr. Cardan, dando tapinhas nas costas curvadas do outro. — Espero que também esteja com fome.
O mr. Elver finalmente rompeu seu silêncio.
— O senhor é um maldito tirano — sussurrou num ímpeto de desprezo e raiva inútil —, um tirano maldito e fedorento.
— Vamos, vamos — disse o mr. Cardan. — Protesto contra o “fedorento”.