Folhas inúteis
Capítulo 4
O mr. Falx esperava não ter dificuldade, quando chegassem a Roma, de recuperar seu discípulo para o que ele considerava uma atitude espiritual superior e mais séria. Na acolhedora atmosfera da Conferência Internacional do Trabalho, esperava que lorde Hovenden recobrasse seu tom moral e intelectual. Ao assistir às palestras, ao reencontrar os camaradas estrangeiros, ele esqueceria os corruptos encantos da vida sob o teto da sra. Aldwinkle, e certamente se voltaria para coisas mais nobres e importantes. Além disso, para um espírito jovem e generoso como o dele, a perspectiva de uma possível perseguição por parte dos fascistas agiria como estimulante. O fato de estar do outro lado o faria sentir com mais ardor a causa impopular. Era o que imaginava o mr. Falx.
Mas os fatos demonstraram que o mr. Falx calculara mal. Desde que chegara a Roma, lorde Hovenden parecia menos interessado pela política do que nas últimas semanas em Vezza. Ele consentira, mas com uma relutância que só o mr. Falx era capaz de perceber, em participar de algumas poucas reuniões da conferência. A atmosfera intelectual não produzira nenhum efeito tonificante sobre ele, que passara a maior parte das reuniões bocejando e consultando o relógio com extraordinária frequência. À noite, se o mr. Falx quisesse levá-lo para ver um camarada notável, ele dava uma desculpa vaga, ou, mais frequentemente, não era encontrado em lugar algum. No dia seguinte, o mr. Falx ficava sabendo que ele passara metade da noite num salão de danças com Irene Aldwinkle. Restava-lhe somente aguardar com ansiedade o dia em que a sra. Aldwinkle voltasse para casa. Lorde Hovenden permaneceria em Roma com ele até o final da conferência, e isso ficara combinado antes de deixarem a Inglaterra. Com a remoção de todas aquelas frívolas tentações, o rapaz deveria retomar seu melhor lado.
No entanto, a consciência de lorde Hovenden às vezes o incomodava.
— Sinto que estou abandonando o mr. Falx — confidenciou ele a Irene, na segunda noite em Roma. — Mas não se pode esperar que fiquemos juntos o dia inteiro, não é?
Irene também achava que não.
— Por outro lado — continuou ele, tentando se afirmar —, ele não está sozinho. Há muita gente com quem pode conversar. Na verdade, acho que estamos mais juntos do que nunca.
Irene concordou. A banda voltou a tocar. No mesmo instante, os jovens se levantaram e começaram a se mover juntos pela pista. Estavam num cabaré sórdido, com luzes brilhantes, frequentado pelo pior tipo de público italiano e internacional. As mulheres eram na maioria prostitutas; um grupo barulhento de ingleses e americanos bêbados se reunia a um canto com um par de morenas nativas que pareciam sóbrias demais; na pista, os casais dançavam com excessiva intimidade. Irene e lorde Hovenden discutiam a data do casamento; achavam o cabaré um lugar adorável.
Durante o dia, se lorde Hovenden conseguia escapar das reuniões, andava pela cidade com Irene, comprando o que imaginavam ser antiguidades para seu futuro lar. Todo o processo era um tanto supérfluo porque, absorvidos pelo prazer das compras, esqueciam-se de que o futuro lar era também uma residência sumamente ancestral.
— Gosto muito daquele aparelho de jantar — dizia lorde Hovenden, e eles entravam na loja e o compravam imediatamente. — Pena que esteja um pouco lascado — comentava, balançando a cabeça —, mas não faz mal. Entre os vinte e três valiosos aparelhos de jantar já existentes no seu futuro lar, havia um de ouro maciço e outro de prata dourada para ocasiões menos importantes. Ainda assim, era tão divertido comprar, tão divertido xeretear pelas lojas! Sob a palidez do céu de outono, a cidade ficava dourada e negra. Dourada onde os raios de sol incidiam nas paredes de estuque ou travertino, e negra na sombra, muito mais negra sob os arcos e dentro das igrejas, e de um negro brilhante nas fontes esculpidas em pedra, sempre molhadas com o incessante jorro de água. A céu aberto o sol estava quente; mas a brisa leve que vinha do mar refrescava a atmosfera, e um delicioso frescor exalava das bocas dos becos estreitos, que havia mais de mil anos não recebiam o calor do sol. Eles andavam durante muito tempo e não se cansavam.
Enquanto isso, a sra. Aldwinkle circulava pelos pontos turísticos com Chelifer. Tinha esperanças de que a Capela Cistina, a Via Apia ao pôr do sol, o Coliseu à luz da lua ou os jardins da Villa d’Este pudessem despertar em Chelifer emoções que, por sua vez, o predispusessem ao romance. Por experiência própria, ela sabia que as diferentes emoções não estão armazenadas separadamente, como em casas de pombos; e que, quando uma delas é estimulada, provavelmente outras despertariam. Mais propostas são feitas dentro de um táxi, ao retornar-se de uma ópera de Wagner, diante de uma vista esplêndida ou nos labirintos de um palácio em ruínas do que nos insípidos salões ou nas ruas de West Kensington. Mas nem na Via Apia, com seus pinheiros solitários enegrecidos ao pôr do sol e seus fantasmas tocando oboés de dentro das ruínas; nem no Coliseu ao luar; nem diante dos ciprestes, das cascatas e das fontes cor de jade do Tívoli; nada foi eficaz. Chelifer jamais se comprometia; suas atitudes permaneciam irrepreensivelmente corteses.
Sentada em uma coluna caída, nas ruínas de Villa Adriano, a sra. Aldwinkle insistiu em contar a Chelifer algumas passagens amorosas de seu passado. Descreveu, com pequenas alterações dos fatos, nas quais havia muito tempo ela passara a acreditar, a história de seu envolvimento com Elzevir, o pianista. Que artista! Que dedos! E com lorde Trunion: um grand seigneur à moda antiga! Mas se calava sobre o mr. Cardan. Não que suas faculdades mitômanas não pudessem transformá-lo em algo romântico e extraordinário. Não, não; ela sempre o descrevia para os que não o conheciam como uma espécie de Hampden de aldeia, um inglório e calado Fulano de Tal que teria feito qualquer coisa, realmente qualquer coisa, se apenas resolvesse dar-se ao trabalho. Era um grande dom-juan real, verdadeiro neste caso, e não meramente potencial. Um irônico advogado do Diabo, ou mesmo o próprio Diabo. Mas isso porque ninguém o compreendia — ninguém exceto a própria sra. Aldwinkle. Secretamente, ele era um homem muito sensível e tinha um bom coração. Mas era preciso ter grande intuição para descobrir isso. E assim por diante; ela fazia dele uma figura mítica de primeira. Mas o instinto de cautela a impedia de expor seus mitos livremente diante de pessoas que conheciam bem os originais. Chelifer nunca vira lorde Trunion ou o imortal Elzevir. Mas conhecia o mr. Cardan.
O efeito de suas confidências, porém, foi tão insignificante quanto o dos cenários românticos ou o das estupendas obras de arte. Chelifer não se sentiu estimulado a retribuir com confidências nem a seguir os exemplos de lorde Trunion ou de Elzevir. Ouviu tudo com atenção e, quando ela concluiu, deu vazão a bem escolhidas expressões de solidariedade, semelhantes às usadas ao se escrever a pessoas conhecidas pela morte de suas avós. E depois de um considerável silêncio olhou o relógio e disse que era hora de voltar; ele prometera tomar chá com a mãe e depois, acrescentou, sairiam para visitar algumas pensions. Como ela passaria todo o inverno em Roma, deveriam se preocupar em encontrar um bom lugar para hospedá-la. A sra. Aldwinkle foi obrigada a concordar. Eles tomaram o caminho pela Campagna crestada, de volta à cidade. Durante todo o trajeto a sra. Aldwinkle preservou um melancólico silêncio.
Ao dirigirem-se do hotel a uma casa de chá na Piazza Venezia, a sra. Chelifer, a srta. Elver e o mr. Cardan passaram pelo Foro de Trajano. As duas pequenas igrejas projetavam seus domos gêmeos e dourados em direção ao céu. Do chão do foro, afundado muito abaixo do nível da rua — trinta centímetros a cada cem anos —, erguia-se uma grande coluna, com pilares caídos e blocos de alvenaria espalhados caoticamente ao redor de sua base. Eles pararam para olhar.
— Sou protestante — disse a sra. Chelifer depois de um minuto de contemplação —, mas sempre que venho aqui sinto que Roma foi um lugar muito especial. Deus destinou-a, dentre outras cidades e de uma maneira peculiar, a ser o centro de grandes acontecimentos. É uma cidade portentosa, muito significativa, embora eu não possa explicar exatamente por quê. Só sei que é portentosa; só isso. Vejam esta praça, por exemplo. Duas igrejinhas espalhafatosas da Contrarreforma, ridiculamente pretensiosas e sem nenhuma religiosidade, essa confusão de casas sem nenhuma importância rodeando a praça e, no meio, esse monumento idólatra à carnificina. Ao mesmo tempo, por alguma razão, tudo me parece ter um alcance e um significado espirituais; é importante. O mesmo se aplica a tudo nesta cidade extraordinária. Não posso olhá-la com indiferença, como se fosse outra qualquer.
— E apesar disso — disse o mr. Cardan —, um grande número de turistas e todos os seus habitantes o fazem naturalmente.
— Mas é porque eles nunca a olham realmente — disse a sra. Chelifer. — Se olhassem mesmo...
Ela foi interrompida por um grito da srta. Elver, que se afastara deles e olhava por cima da grade o grande foro afundado.
— O que foi? — perguntou o mr. Cardan, e ambos correram até ela.
— Vejam — gritava a srta. Elver, apontando para baixo. — Vejam todos aqueles gatos!
E lá estavam eles. Sobre o mármore quente de um pilar caído, uma grande gata malhada aquecia-se ao sol. Uma família inteira de filhotes amarelados brincava no chão. Pequenos tigres se arrastavam por entre os blocos de alvenaria. Uma pantera em miniatura estava sentada sobre as patas traseiras e afiava as unhas na casca de uma pequena árvore. Ao pé da coluna jazia um cadáver esquelético.
— Gatinho, gatinho — chamava a srta. Elver com estridência.
— Não adianta — disse o mr. Cardan. — Eles só entendem italiano.
A srta. Elver olhou para ele.
— Será que devo, então, aprender um pouco de italiano dos gatos?
Enquanto isso a sra. Chelifer olhava lá embaixo com interesse.
— Há pelo menos uns vinte — disse. — Como entraram lá?
— Para livrar-se deles, as pessoas vêm aqui e os jogam lá embaixo por cima da grade — explicou o mr. Cardan.
— E eles não podem sair?
— É o que parece.
Uma expressão de angústia surgiu no rosto bondoso da sra. Chelifer. Ela estalou de leve a língua entre os dentes e balançou a cabeça.
— Pobrezinhos! Como se alimentam?
— Nem imagino — disse o mr. Cardan. — Talvez comam uns aos outros. Certamente as pessoas jogam comida de vez em quando.
— Há um morto lá no meio — disse a sra. Chelifer; e um tom de quase reprovação surgiu em sua voz, como se ela achasse que o mr. Cardan era o culpado por aquele pequeno cadáver ao pé da coluna.
— Bem morto — disse o mr. Cardan.
Eles continuaram seu caminho. A sra. Chelifer não disse mais nada. Parecia preocupada.