Gabriela, baiana de todas as cores

Sônia Regina de Araújo Caldas · Capítulo 11 de 30

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Gabriela, baiana de todas as cores

O contraste e a censura

Era a capa do livro que eu tinha feito com um quadro, porque

aquilo ia ser exposto na Bienal do Livro em São Paulo. Então

Alfredo Machado (editor) trouxe aquilo e disse: “Você fez um

negócio desse e não pode. Eu não vou colocar uma velha na

capa do livro.” Eu disse que foi o Jorge quem me pediu para

colocar essa velha. Ele disse: “Jorge não entende de livro,

rapaz, quem entende de livro sou eu. Coloque uma mulher

nova, bonita, porque mulher nova é que vende livro.” Então, eu

fui fazer uma mulher nova.

Por outro lado, a leitura é apropriação e produção de significados, e a dialogicidade entre autor e leitor permite que o leitor subverta aquilo que o livro pretende impor. Será que os leitores estão cercados de limitações, derivadas de convenções e hábitos de leituras, como também de estratégias armadas pela elaboração das comunicações de massa que hoje fazem parte da elaboração do livro? Será que existe uma censura sutil, funcionando mediante o silêncio de algumas informações, da negação do que é considerado impróprio, ilegível, irreconhecível, do uso das coenunciações nas traduções, das imposições canônicas, dos cortes e modificações de texto, do uso das metáforas, dos estereótipos e da revitalização dos mitos, na busca de uma harmonia entre texto literário, modelo e público-alvo?

 

O contraste e a censura

Quando o capista se preocupa com a harmonia na criação, automaticamente está atento aos contrastes, já que se trata da oposição entre as cores, fazendo uma sobressair à outra. Acontece uma diferença acentuada, principalmente quando se colocam cores complementares lado a lado. O uso de muito contraste causa geralmente a sensação de impacto ao observador e exibe modificações de valor do tom, chegando, às vezes, a confundir a percepção nítida dessas cores pelo observador. Essa sensação de mistura de tons e de perda da nitidez, pela intensidade do contraste, muitas vezes não é percebida por quem olha, devido à ação recíproca de uma cor sobre a outra, provocando, às vezes, indução de uma nova cor devido à saturação das células responsáveis pela absorção das cores no globo ocular humano.

Esse grande contraste ou oposição pode não apenas acontecer na utilização das cores, mas também na utilização dos signos devido a algumas estratégias impostas ao capista pela editora, resultando em sérias modificações no seu trabalho e, consequentemente, na relação entre capa e obra literária.

A sociedade, devido à rapidez do consumo, não percebe a finalidade do discurso publicitário em travestir os conteúdos dos desejos do consumidor para que não sejam reconhecíveis pela consciência. Sabe-se que os procedimentos de deformação usados pela censura são deslocamentos, condensação, omissão e transformação de uma representação em seu contrário. Nas capas, esses procedimentos são manifestados e a análise desses processos de simbolização é importante no estudo da cultura. A cultura é uma construção histórica, um produto coletivo no qual a mudança é um aspecto fundamental. Através da história da cultura, desenvolve-se um universo de legitimações. Os estudos culturais procuram entender o sentido dessas representações, concepções práticas para a sociedade que as vivenciam. Os meios de comunicação propõem estilos de vida, modos de organizar, vestir, decorar, escrever, falar, sonhar, sofrer, amar, lutar e, principalmente, pensar e simbolizar o real.

A forma de se dirigir a cada receptor parece individualizada, mas na verdade as mensagens são comuns a todos, pois são elaboradas procurando sempre a homogeneização e o amaciamento dos conflitos sociais. Estabelece-se uma contradição entre exigências produtivas, técnicas de estandardização e o caráter individualizado e inovador necessário ao consumo da indústria cultural. Os modelos-guias, as formas arquetípicas do imaginário, os temas míticos, os personagens-tipos constituem uma estrutura interna constante que a indústria cultural utiliza.

Se algumas capas estrangeiras mostram em suas ilustrações novos modelos da personagem Gabriela que funcionam para os seus públicos-alvo como um signo autônomo e singular, que não é a representação da mulata brasileira nem de uma mulher do país que originou a capa, esta representação torna-se um signo intervalar. Esse “novo” signo funcionará como um interstício cultural originado de uma necessidade de representação situacional para comunicação e posterior con-sumo do livro.

O consumo dos produtos é, ao mesmo tempo, autoconsumo da vida individual e autorrealização, por isso o desenvolvimento industrial cria sempre novas condições de vida para fazer emergir novas necessidades individuais. Esse consumo torna irreal uma parte da vida dos consumidores, mediante a projeção de universos imaginários em duas direções diversas: distraem, enganam e consolam com a fantasia e, ao mesmo tempo, impelem a imitar os novos modelos para a procura da felicidade. Sendo assim, as capas desempenham uma função importante, na medida em que agem como elementos ativos dessas estruturas. Isso acontece porque suas representações se adaptam continuamente às pressões, às contradições que emergem da sociedade, englobando-se e integrando-se ao próprio sistema cultural.

Nessa perspectiva, foram investigados as funções sociais e os efeitos das capas dos livros de Gabriela, Cravo e Canela, o modo como são articuladas dentro da relação comunicativa e o mecanismo de reconhecimento e de atribuição do senti-do, parte essencial nessa relação. Partindo dessas observações, foram analisadas as convenções de linguagem que assumem o lugar de “verdade”, nos termos da adequação da coisa a sua representação, forçando leitores e observadores a procederem de acordo com a rígida seleção de regras, modelos e formas simbólicas que sustentam a identidade do objeto, do sujeito e do outro, tentando o apagamento da dinâmica natural de reconhecimento. Não estaria acontecendo um processo de censura ao tentar impedir o interlocutor de sustentar outro discurso?

Lembrando da construção do pensamento do povo brasileiro ao longo da sua formação e das várias influências sofridas, tendo em vista as situações históricas, políticas e culturais, sabe-se que larga faixa do pensamento brasileiro foi produzida dentro de uma visão eurocêntrica, resultando numa relação Ocidente/ não-Ocidente como exótica e sempre com uma imagem negativa do outro nãoocidental. Considera-se, então, de acordo com Said (1995, p.245):

[...] o ‘Ocidente’ e os ‘outros’ culturais por ele dominados não se

restringem uma forma de entender um relacionamento desigual

entre interlocutores desiguais, mas constitui uma porta de

acesso para o estudo da formação e do significado das próprias

práticas culturais ocidentais. E teremos de levar em conta a

persistente disparidade de poder entre o Ocidente e o não-

Ocidente, se quisermos entender bem formas culturais como o

romance, o discurso etnográfico e histórico, certos tipos de

poesia e ópera, formas nas quais abundam alusões a essa

disparidade e estruturas nelas baseadas.

Como o objeto de investigação deste trabalho são discursos que dialogam com uma obra literária que fala da Bahia-Brasil, decidiu-se averiguar se nas capas aparecem marcas desse discurso ocidental, passado através do tempo, e se interferem reforçando e familiarizando formas estereotipada de pensamento. Sabe-se que países colonizados como o Brasil não são representados realisticamente, perpetuando um processo anedotal e ficcionista devido aos poderes de relação. As generalizações, que colocam os indivíduos colonizados como uma massa indistinta e estereotipada, continuam sendo acreditadas e representadas num período atemporal, repercutindo numa paródia, com descrições que passam a ser divertidas. Assim, alguns capistas estrangeiros, ao representarem a mulata brasileira descrita por Amado na personagem Gabriela, podem estar utilizando esse imaginário, projetando-o em cópias malfeitas, imagens avessas, rebeldes, retratando-a com julgamentos preestabelecidos, transformando-a em clichês, generalizações e apreciações estereotipadas, e até em simulacros por meio de um processo de censura.

O simulacro como representação na relação Ocidente/não-Ocidente é usado, na maioria das vezes, como imagem sem semelhança. Contesta tanto a noção de modelo como a de cópia, já que é um simulacro originado de um fantasma, formado com dados que reforçam os paradigmas dos europeus e que, ao mesmo tempo, demonstram a sua forma de apropriação. Trata-se de uma representação do outro que se transforma e deforma de acordo com o ponto de vista do seu criador. Essa dessemelhança pode acontecer devido às grandes distâncias que o observador que o constrói não consegue dominar. E, exatamente porque não as domina, experimenta essa expressão desigual como semelhança. Essa dissimilitude, o tempo que ilude e as generalizações sempre em terceira pessoa, assumidas como padrão global na comunicação, contribuem para dificultar a observação da sociedade. Funciona sempre o imaginário ou o conhecimento adquirido pelo discurso fundador sobre o Brasil e instituído no país de origem do observador estrangeiro. Por isso, nas representações, os estereótipos fazem parte dessa estratégia discursiva, produzindo uma simplificação e um efeito de verdade. Bhabha (1998, p.110), refletindo sobre esse assunto, observa:

O que é, portanto, uma simplificação no processo da

representação estereotípica tem um efeito de colisão sobre o

seu foco central de abordagem da política do ponto-de-vista.

Eles operam com uma noção passiva e unitária de sutura que

simplifica a política e a estética do posicionamento do

espectador, ao ignorar o processo ambivalente, psíquico, de

identificação que é crucial ao argumento.

A possibilidade de reconhecimento das características do povo brasileiro por meio das ilustrações das capas pode perder-se nas generalizações, e simplificações, impedindo que o observador inicie um processo de identificação através do signo.

Se, no momento da comunicação, o signo opera sempre numa estrutura de repetição, para que possa ser reeditado e reconhecido, produz sempre uma representação de uma apresentação já feita naquele ambiente cultural em outro momento passado. Essa representação como forma de pensar e de ver alguém, o “olhar estereotipado”, apaga as singularidades da visão e observação peculiares do indivíduo, endossa os discursos preconceituosos, discriminatórios, moralistas, estrategicamente construídos para a dominação e para uma evidente superioridade que impedem a demonstração das formas singulares da interdição e de uma censura velada.

Esse sistema de representação, utilizado como verdade, está presente nas capas do livro Gabriela, Cravo e Canela, demonstrando um Orientalismo que está latente e manifesto, porque funciona como repositório inconsciente da fantasia, polarizando sempre poder e saber. O valor histórico do texto amadiano, nesse livro que descreve e faz conhecer particularidades do povo baiano, pode estar sendo modificado, porque não permite revelar as singularidades, visto que os modelos são os do paradigma discursivo do conhecimento da Bahia-Brasil que circula na sociedade do país responsável pela editoração. Instala-se a multiplicidade do olhar, ou seja, as diferentes interpretações. O texto modificado pelas traduções e interpretações metafóricas, usadas nas ilustrações das capas, poderão contribuir para a manutenção da imagem da Bahia, do Brasil e do povo brasileiro que o leitor estrangeiro já conhecia, dificultando a percepção do “olhar” de Amado.

Na perícia de construção e recepção dessas interpretações metafóricas usadas como ilustrações, os significados não são atribuídos adequadamente ao contexto e o mais perigoso é que, possivelmente, essas metáforas podem ser explicadas e entendidas pelo público-alvo por outras metáforas.

Como as metáforas são importantes na construção do mundo conceitual, no processo cognitivo do outro e na formação de significados, são por demais utilizadas, e pouco são os usuários que param para refletir sobre sua origem. Conduzem o pensamento do sujeito leitor por meio de conceitos falsos de analogia e similaridade. O capista pode misturar um referente extraído do texto amadiano a um referente extraído do seu imaginário como intérprete. O uso das metáforas e dos estereótipos pode vir carregado de segundas intenções que impedem a circulação e a articulação de significantes, que resultam na problemática ver e ser visto.

Quando as representações sociais que nos foram transmitidas, são apenas reproduzidas, são mantidas as relações sociais necessárias para a manutenção das relações de produção da vida material em sociedade. Por isso, o discurso colonial é tão assimilado pelo discurso propagandístico e torna-se um repertório de posições conflituosas, fornecendo uma identidade encenada e fantasmática. Os textos brasileiros considerados por alguns como homogêneos tornam-se conflituosos diante das relações de poder, porque cada texto feito reforça uma imagem estereotipada de pensamento deixada pela colonização. As sutilezas provenientes da nossa cultura híbrida, presentes nos textos de Amado, não podem ser facilmente perceptíveis por estrangeiros, que convivem com uma cultura completamente diversa. Sendo assim, as generalizações radicais passam a dominar, o conhecido e o pré-construído serão repetidos dada a incapacidade do estrangeiro de lidar com a diferença, dando lugar às metáforas que passam a simbolizar o social, para assegurar um ponto de identificação e, conseqüentemente, essas metáforas só serão possíveis de serem identificadas com precisão entre parceiros de um mesmo grupo cultural, através de um “saber compartilhado” (PAIVA, 1998, p.124).

Na elaboração das capas, os capistas não têm consciência do grau de especificidade das metaforizações que estão trabalhando e as conseqüências dos implícitos contidos nessas figuras de linguagem

na comunicação com o público-alvo. Caso seja uma metáfora 3 latente, uma imagem temática e consagrada pelo uso, provavelmente não haverá problemas na repetição do símbolo ou tradução ipsis litteris, mas tratando-se de uma metáfora viva, o capista deverá considerar com muito cuidado o sentido primário daquela imagem ou expressão na cultura do escritor da obra literária, para que o sentido não seja modificado. Em geral, há um jogo associativo entre objeto e imagem, sem relação com o posicionamento étnico-cultural da imagem descrita pelo escritor.

As singularidades do texto amadiano, consequentes dessa população colonizada e híbrida, são resultantes desse conjunto “pulsante e interconectado” que é a cultura brasileira. Será difícil, portanto, para o estrangeiro perceber o branqueamento de algumas raças, o apagamento de marcas populares através do discurso disciplinador da história, e as “sub-raças” resultantes da sobrevivência de uma cultura hegemônica. No espaço entre a dominação e a subordinação, também será difícil perceber a resistência das culturas dominadas, da periferia com relação ao centro, e as presentes dicotomias entre tradicional e moderno, urbano e rural, erudito e popular, hegemônico e subalterno, presentes no Brasil.

Talvez por tudo isso, as Gabrielas representadas em algumas edições estrangeiras sejam apresentadas brancas, com cabelos lisos, substituindo a mulata do texto amadiano, provavelmente pela dificuldade de percepção, por preconceito ou para que haja um reconhecimento e uma identificação com o público-alvo. Homi Bhabha (1998, p.111), nesse sentido, observa:

[...] o discurso colonial produz o colonizado como uma realidade

social que é ao mesmo tempo um “outro” e ainda assim

inteiramente apreensível e visível. Ele lembra uma forma de

narrativa pela qual a produtividade e a circulação de sujeitos e

signos estão agregadas em uma totalidade reformada e

reconhecível. Ele emprega um sistema de representação, um

regime de verdade, que é estruturalmente similar ao realismo. E

é com o fim de intervir no interior desse sistema de

representação que Edward Said propõe uma semiótica do

poder “orientalista.”, examinando os diversos discursos

europeus que constituem “o Oriente” como uma zona do mundo

unificada em termos raciais, geográficos, políticos, e culturais.

Então, para o reconhecimento dos seus modelos, o capista está sempre reformando e adaptando-os ao público-alvo, deixando subentendido que o que está no lugar conhecido é que deverá ser repetido, também para manter a oposição entre pureza e mistura racial numa relação político-discursiva.

Não se pode deixar de registrar a presença do fetichismo como recusa da diferença, pelo uso da metáfora como representação e da metonímia como substituição da ausência, da falta, como uma parte que substitui o todo, a sombra, como recusa e defesa de não querer reconhecer o outro. Se o fetiche é o objeto ao qual são atribuídas propriedades mágicas, especiais ou sobrenaturais, no momento em que um capista estrangeiro nega o reconhecimento e a representação do outro, mulato brasileiro, torna esse outro uma fantasia, um fetiche, porque sabe que existe, mas nega a sua presença e representa-o com um tipo físico semelhante ao seu. Desta forma, a representação dessemelhante passa a ser a sombra da representação negada através de um efeito metonímico. Bhabha (1998) justifica essas atitudes através dos comportamentos psicanalíticos, citando a psicopatologia do reconhecimento da diferença, na qual o sujeito perde a ilusão da completude e se transforma no sujeito do desejo. Dentro desse princípio, o fetiche representa um jogo simultâneo da ausência, da diferença e da falta percebida, uma crença contraditória como reconhecimento e recusa. O reconhecer e recusar pode ser um ato de censura.

O fetiche 4 é testemunho de que a realidade foi constatada, embora recusada, e surge como uma forma de desligar o eu da realidade e dissimula tornandose, às vezes, mais importante que a própria realidade.

Já o desejo surge da imaginação e são os efeitos metonímicos ligados à linguagem que instituem o objeto do desejo. Este dá sentido à vida do consumidor, surgindo da defasagem entre a necessidade e a demanda. Apresenta-se como uma forma de desligar o eu da realidade e nasce da imaginação, ligando o real ao simbólico. Se o simbólico, na comunicação propagandística, consegue inscrever o desejo no inconsciente e se o significante pode exprimi-lo é porque o símbolo rege o mundo das propagandas. O simbólico, na propaganda, organiza de forma subjacente as formas predominantes do imaginário, por meio de efeitos como competição, agressão ou sedução, e o consumidor acede a essa

ordem simbólica por intermédio de operações e negações 5. Se a linguagem é o simbólico e o sujeito existe na linguagem, a negação de um símbolo existente na linguagem torna-se uma defesa do ego.

O discurso propagandístico inicia substituindo o indivíduo por um indivíduofetiche (fantasia) que é a massa, através da sua homogeneização, e, como o objetivo é tornar essas pessoas iguais aos produtos que consomem, as relações humanas que antecedem as mercadorias desaparecem no ato da troca mercantil. Estas alimentam a fantasia, levando o consumidor a um futuro continuamente adiado, mas insistindo sempre numa ponte que liga o sonho à realidade. No momento em que a propaganda compensa a monotonia da vida diária do consumidor, estes produtos novamente

se tornam fetiches6.

Quando o capista, consciente de que seu trabalho deverá, em parte, assegurar a venda do livro, coloca a imagem de uma mulher sedutora, atraente e bonita, representando a Gabriela, poderá estar pressupondo que as leitoras-observadoras se sentirão atraídas pelo livro que fala sobre a história de uma mulher cujas características gostariam de ter, e os homens, por um tipo ideal de mulher que também gostariam de ter.

Vale registrar que as capas, como propaganda, trabalham as atitudes sociais dominantes e revitalizam os mitos antigos. Ao observá-las, pode-se medir a temperatura ideológica do momento. A ideologia das pessoas equivale aos valores e práticas sociais assumidos, que pertencem ao domínio do senso comum e permitem alcançar a essência do que é visível para todos. O mito, ao se repetir em diferentes contextos, produz múltiplos sentidos, pois não há sentidos eternos, mas sentidos eternizados. Ao se observar o mito, pode-se perceber a eficácia e o valor social desse tipo de narrativa, a partir da qual a sociedade se expressa, indica seus caminhos, discute consigo mesma. Segundo Lévi Strauss (1955, p.52): “[...] o valor do mito como mito persiste a despeito da pior tradução”, por conseguinte, a tradução tem validade zero no caso do mito. Exatamente porque este não possui sólidos alicerces de definições, ele flutua, seu registro é o imaginário e sua possibilidade intelectual é o prazer da interpretação. Como a interpretação é incerta, pois depende da experiência do intérprete, o mito passa a

ser construído de acordo com os interesses 7.

Tanto o discurso literário como o artístico e o propagandístico se utilizam do mito para dar sentido a suas afirmações, recorrendo ao já-dito, para produzir a impressão de que o sentido só pode ser um.

Finalmente, é importante registrar que o jogo estratégico das capas não passa de um mero ritual de legitimação, pois são apresentadas à população permeadas de juízo de valor, normas a serem seguidas, insinuações ou mesmo orientações diretas de como as coisas devem ser, o que é bom ou ruim, o que pode e não pode ser feito, levando o público a agir de acordo com os valores desejados pela ideologia dominante, pelo discurso competente que, ao mesmo tempo, “informa”, controla e manipula mediante um processo

silencioso e contínuo 8. Algumas metáforas, estereótipos, mitos, arquétipos e fetiches presentes nos discursos das capas podem estar sendo usados como uma censura velada, que reconhece e identifica a realidade social, mas não se compromete, negando-a em suas representações.

Sabendo que cada realidade cultural possui sua lógica interna e considerando as relações entre essas culturas, serão observadas, através dos discursos de cada capa, as representações escolhidas para cada realidade cultural, para perceber como estas se relacionam e como funcionam, e quais os sentidos que, ao se perpetuarem, vêm hierarquizando os povos, as nações. Com essa percepção, serão analisados em seguida, os efeitos da colonização, apagamentos, estranhamentos e cristalizações que podem estar presentes, até hoje, na cultura brasileira.

 

1 Sujeito assujeitado – indivíduo que, através do discurso, é levado a ocupar seu lugar e identificar-se ideologicamente com grupos ou classes de uma determinada formação social (BRANDÃO,1995).

2 Prospect – cliente ou comprador em perspectiva.

3 É evidente que, quando falamos em metáfora aqui no texto, aplica-se por extensão aos outros topos fundamentais que são a metonímia, a sinédoque e a ironia, como também estão incluídas as três possibilidades de tradução: a tradução de uma metáfora pela mesma, por uma diferente e por uma não-metáfora.

4 Segundo Bhabha (1998, p.116): “No discurso o fetiche representará um jogo simultâneo entre a metáfora como substituição (mascarando a ausência e a diferença) e a metonímia (que registra contiguamente a falta percebida)”.

5 A propaganda sempre procura utilizar dos pressupostos da teoria psicanalítica, quando incentiva o hábito de consumo das pessoas, levando-as a serem exploradas de forma inconsciente pelos mecanismos enganadores e manipulativos da linguagem, como confirmam Santana Neto e Caldas (1994, p.449): “O consumidor conserva uma aparência de árbitro mas está condenado a responder a estímulos cujos mecanismos, muitas vezes, não lhe são claros, justamente por que a linguagem que o comanda atingiu requintes de extrema sutileza”

6 No momento em que a propaganda compensa a monotonia da vida cotidiana pelo emprego da fantasia, não faz mais do que mostrar às pessoas como elas podem vir a ser o que elas não são. Santana Neto e Caldas (1994, p.452) dizem que, quando somos receptores da comunicação, acontece “[...] a oposição do que somos e do que gostaríamos de ser não mais existe e o receptor assume o sonho. Sonho esse que passa a ser realizável pelo poder de compra e o amor próprio retirado pela publicidade é devolvido no ato de compra”.

7 Deleuze (1974, p.261), em suas reflexões sobre o mito, afirma: “[...] o mito constrói o modelo imanentemente ou o fundamenta – prova de acordo com o qual os pretendentes devem ser julgados e sua pretensão medida. E é sob essa condição que a divisão prossegue e atinge seu fim, que é a não especificação do conceito, mas a autenticação da idéia, não a determinação da espécie mas a seleção da linguagem”.

8 “A cultura da sociedade colonizada torna-se fechada e fixada no estatuto colonial, presa no jogo da opressão, presente ou mumificada, ela testemunha contra os seus membros” (FANNON, 1983, p..97).