Gabriela, baiana de todas as cores

Sônia Regina de Araújo Caldas · Capítulo 26 de 30

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Gabriela, baiana de todas as cores

Sétima capa estrangeira

 

Título GABRIELA: CLOVE AND CINNAMON

País INGLATERRA

Editora ABACUS

Ano 1983

Autoria da capa SEM REFERÊNCIA

Autoria da Ilustração SEM REFERÊNCIA

Técnica a ilustração PINTURA

Tradução SEM REFERÊNCIA

Versão do texto da capa GERALD MORRIS ( para fins deste

trabalho)

AInglaterra, como país imperialista, com muitas colônias na região tropical, na Ásia e na África, tem maior contato com a diferença, a alteridade. A distribuição étnica da sua população, atualmente, é resultado direto da transformação econômica, vinda do século passado, por ocasião da revolução industrial e do colonialismo. A história de invasões e conquistas tornou peculiar a vida política social inglesa, que possui, ainda, 14 dependências externas que no passado foram colônias britânicas e, hoje, gozam de autonomia em assuntos internos.

Esse país tem a sua origem nos anglo-saxões, tribo germânica que se estabeleceu na região no século V. O idioma originário e oficial desse país é o inglês, uma das línguas mais faladas do mundo, além do gaulês e do gaélico, devido, em grande parte, ao período da colonização. A Inglaterra é considerada país do “primeiro mundo” ou “velho mundo”, uma terra de castelos e de reinados. Mas, apesar do desenvolvimento econômico, diversas cidades da Inglaterra sempre foram sacudidas por confrontos raciais estimulados pela extrema direita, envolvendo os imigrantes asiáticos.

Na década em que foi lançada essa edição, especialmente início dos anos 80, a maior parte do setor público estava sendo privatizada, os sindicatos se enfraqueciam e o desemprego crescia. Paralelamente, a população de países póscolonialistas passava a procurar viver na metrópole e a integrar as academias universitárias de onde discutiam o desmonte do sistema imperial através das teorias e categorias novas, conflitantes com o paradigma moderno. No mesmo período, esse país descobriu o petróleo no Mar do Norte, e, em 1983, a Inglaterra fortaleceu-se com a vitória na Guerra das Malvinas.

Não foram encontradas referências, nessa edição, sobre a autoria da capa e da ilustração.

Nessa capa, vê-se uma imagem de mulher de tez clara, traços fisionômicos delicados, nariz e boca pequenos, cabelos ondulados, mas lembrando a mulher latino-americana, ou das ilhas asiáticas, com uma flor vermelha na cabeça, um vestido estampado com pequenas flores rosas em fundo violáceo. Esta mulher está representada com as mãos abertas, libertando um pássaro amarelo. Esses elementos icônicos sugerem ou indicam a personagem Gabriela, no trecho que trata da libertação do pássaro – um sofrê -– recebido de presente do Nacib, como narra Amado (1966, p.260-261):

Numa gaiola, um sofrê partia num canto triste e mavioso. Belo e

inquieto, em negro e amarelo, não parava um instante. Seu

trinado crescia, era doce de ouvir. (AMADO, 1966, p. 260-261).

Passarinho preso em gaiola não quisera jamais. Dava-lhe pena.

Só não dissera pra não ofender seu Nacib. Pensara lhe dar um

presente, companhia pra casa, sofrê cantador. Canto tão triste,

seu Nacib tão triste. Não queria ofendê-lo, tomaria cuidado. Não

queria magoá-lo, diria que o pássaro tinha fugido. Foi pro

quintal, abriu a gaiola em frente à goiabeira. O gato dormia.

Voou o sofrê, num galho pousou, para ela cantou. Que trinado

mais claro mais alegre! Gabriela sorriu. O gato acordou.

(AMADO, 1966, p.256).

O pássaro, em algumas culturas, representa a força que inspira o homem a descobrir discursos sábios e fazer previsões. Simboliza, ainda, o desejo humano de libertar-se, exatamente o sentido que lhe foi atribuído nesse texto amadiano e nessa ilustração, além de se inserir na natureza.

A flor vermelha no cabelo, a ação da mulher representada, o vestido estampado e a forma e as cores do pássaro também podem ser associados ao mesmo fragmento da narrativa do romance. A direção do voo do pássaro na imagem plástica leva a uma janela de uma casa de arquitetura colonial que provoca, no observador, uma relação com os velhos casarios mediterrâneos ou ibéricos, modeladores das casas da cidade de Ilhéus narrada pelo escritor. Na sacada dessa casa, observa-se a representação de uma mulher com vestes longas de cor branca e olhar lânguido, que pode estar simbolizando a personagem de um rondó, cantado em prosa e verso por alguns personagens frequentadores do bar do Nacib. Eles se referiam a uma mulher pura, sem pecado, já que no texto desse rondó a personagem Ofenísia, apaixonada pelo imperador, nunca se entregou aos caprichos do amor. Pode também se associar a uma divisão de classes – a senhora e a mulher popular ou, ainda, a uma representação religiosa.

A romântica Ofenísia morreu tísica e virgem, no Solar dos

Ávilas, saudosa das barbas reais. (AMADO, 1966, p.48).

Inclusive, essa personagem está vestida de branco, o que pode querer reforçar sua pureza e castidade, não apenas pelo sentido dessa cor no mundo ocidental cristão, como também pela presença do rosário em suas mãos. Além disso, essa mulher está com os cabelos cobertos, lembrando a representação religiosa ou a antiga realeza, ao contrário da mulher que representa a Gabriela, cujos cabelos estão soltos, associando-se ao poder sexual e à paixão ou à classe social mais baixa. Admite-se que existe uma relação assimétrica entre a imagem em primeiro plano e a de fundo.

A mulher que está em segundo plano, acima, imprime a idéia de lugar inacessível, como figura feminina que representa o ideal de beleza e de comportamento social feminino (na sociedade ilheense) e está representada como quem detém o poder, pela presença da coroa e do manto vermelho. A suposta Gabriela, entretanto, está na rua, fora de casa, deixando perceber a diferença marcante entre as duas personagens: a “santa mulher”, que não foi contaminada pelos prazeres do sexo, idealizada para esposa e mãe no imaginário social (ilheense), por isso desejada e perfeita, enquanto Gabriela é a mulher livre que se deixa levar pelos instintos.

A mulher na sacada está representada com um manto vermelho, o que faz parte dos atributos reais e simboliza, para quem veste, segundo Chevalier e Gheerbrant (2001), estar próximo dos Deuses e, consequentemente, separada das tentações terrenas e dos instintos carnais. Vestir o manto é assumir a dignidade da qual o manto é o emblema. Assim também, a presença da coroa na imagem, ainda segundo os mesmos autores, reforça esse sentido quando significa valores que sobrepujam a cabeça de quem a utiliza, isto é, dá a essa pessoa um dom vindo de cima. A coroa une a pessoa que a está usando com o divino. Simboliza a dignidade, o poder e a iluminação.

Nas mãos dessa mulher, há um rosário amarelo, que também é um atributo das divindades, configura o cristianismo e, por estar representado em amarelo, lembra o ouro, um metal nobre a que somente poucos têm acesso. Ainda nessa representação, percebe-se claramente o interesse do capista e do ilustrador em demonstrar o título com uma ilustração que diferencia dois tipos de mulheres: a que tem o poder, pura santa e intocável, com características da raça branca, possivelmente da mulher inglesa; e a que está junto à natureza, com características da mulher latina, num gesto que, segundo a cinésica, evidencia submissão, bondade e a impressão de uma pessoa não ameaçadora, o que o gesto de libertação do pássaro vem reafirmar.

A representação da capa diverge do que expressa o texto amadiano: a imagem de mulher que parece representar a Gabriela, de pele branca e traços fisionômicos de uma mulher latina. A figura de mulher da sacada, de capa vermelha e coroa, pode estar relacionada com a rainha, uma mulher de classe social mais alta e que detém o poder para os ingleses. Aqui, também diverge do texto amadiano, que não aborda esse aspecto. Esse vestuário medieval aristocrático, que demonstra nobreza, honra e superioridade, não se associa às vestes da personagem cantada no rondó citado no romance.

Também diverge quanto ao título: foi colocado um epíteto e depois da palavra Gabriela, em vez da vírgula, como expressou Amado, dois pontos. O uso da vírgula, além de demonstrar uma pausa, pode estar demonstrando a omissão do verbo “cheirar”, enquanto os dois pontos significam que será feita uma citação. Isso demonstra não somente uma divergência, como também uma falta de cuidado com o registro original e uma falta de respeito ao trabalho do autor literário.