Gabriela, baiana de todas as cores
Nona capa estrangeira
Ao representar a mulher, suposta Gabriela, o capista cobriu-a com flores para que a nudez não fosse explícita. Talvez isso tenha sido feito para que, provavelmente, a capa não fugisse aos padrões comportamentais do público-alvo, evitando uma censura prévia dos consumidores ao identificar seu autor com a América Latina e a visão de permissividade que parece permear o imaginário norte-americano quando se refere aos latinos. Acima da ilustração, vem uma citação da crítica publicada no jornal New York Times, a mesma usada pela edição inglesa, que se refere a essa obra como divertimento leve, de lazer infantil, o que é mais uma distorção.
Nona capa estrangeira
Título GABRIELA CLAVO Y CANELA
País ESPANHA
Editora ALIANZA EDITORIAL
Ano 1994
Autoria da capa DANIEL GIL
Autoria da Ilustração SEM REFERÊNCIA
Técnica da ilustração FOTOGRAFIA
Tradução HAYDÉE JOFRÉ BARROSO
Versão do texto da capa SÔNIA REGINA CALDAS ( para fins deste
trabalho)
AEspanha ou Reino da Espanha ocupa um território de 505.954 km², cerca de 80% da Península Ibérica, no Sudoeste da Europa, sendo banhada pelo Mar Mediterrâneo e pelo Oceano Atlântico. Sua população é formada por povos de várias origens – castelhanos, catalães, galegos, andaluzes e bascos, que vivem em regiões diferentes. Somente no final do ano de 1978, essas regiões passaram a ter autonomia e a ser consideradas nacionalidades históricas com língua e cultura próprias, provocando, em seu povo, uma consciência regionalista inclusive pelos diferentes idiomas. A Espanha é um país de forte tradição católica e de grande fluxo de turistas, perdendo apenas, nesse índice, para a França. Possui cerca de 39,9 milhões de habitantes sendo 98,5% de espanhóis, que utilizam como idioma o espanhol e algumas línguas regionais tais como basco, galego e catalão. A religião dominante é o cristianismo e a forma de governo é a monarquia parlamentarista. A Espanha é segmentada socialmente, sendo sua sociedade bastante conservadora.
Na época de lançamento dessa edição, a economia da Espanha recuperavase de vários golpes, mas o desemprego crescia, enfraquecendo o governo, passando a ter uma onda de assassinatos cometidos por separatistas bascos.
Nessa edição, não há referência ao ilustrador, somente sobre o autor da capa (Daniel Gil), mas deste não foram encontradas informações quanto a sua vida e obra.
A relação que a ilustração dessa capa parece ter com o texto amadiano é a representação do sapato azul com o qual Nacib presenteia Gabriela, para que ela, como senhora casada, possa freqüentar os ambientes sociais. Trata-se de uma alegoria do status social da personagem. Amado (1966, p.298) assim descreve:
Gabriela, de azul celeste, de olhos baixos, sapatos a apertá-la,
tímido riso nos lábios, era uma sedução. Entra na sala pelo
braço de Tonico, o tabelião numa elegância de grandes dias. A
casa da Ladeira de São Sebastião estava repleta. Viera todo Talvez o sapato esteja representado dessa forma, porque deveria ficar no formato do pé da Gabriela, que iria calçá-lo. Como essa forma costuma ser utilizada pelos sapateiros para folgar os sapatos para os pés de quem quer usá-los, quando estes estão incomodando, o ilustrador reforça com a fotografia o sentido observado no texto amadiano e demonstrado com outra linguagem.
mundo, convidados ou não, ninguém queria perder o
espetáculo.
Na ilustração, vê-se o par de sapatos com formas dentro deles. Essas formas eram usadas, normalmente pelo sapateiro, para moldar e alargar os sapatos, para que ficassem adequados aos pés que iriam calçá-los. A imagem do par de sapatos pode ter sido escolhida para sinalizar a passagem da classe popular para a burguesia, demonstrando que deveria moldar-se à nova vida. Além disso, há, no romance, referência a um personagem sapateiro espanhol que gostava quando a Gabriela usava a flor vermelha no cabelo, como diz Amado (1966, p.199):
Fora o sapateiro Felipe – boca suja de anarquista a praguejar
contra os padres, tão educado como um nobre espanhol ao
falar com uma dama – quem lhe ensinara aquela moda. ‘A mais
formosa das modas’, dissera-lhe: – Todas as muchachas em
Sevilha usam uma flor roja nos cabelos.
Além do mais, os tons rosa e azul sugerem a dicotomia homem/mulher, a presença do mundo masculino (azul dos sapatos), no mundo feminino (rosa do fundo da imagem).
O sapato representa, segundo Chevalier e Gheerbrant (2001), um contrato de troca, pois o gesto de usar o sapato representa tomar posse de alguma coisa ou de alguém, ou seja, é um símbolo do direito de propriedade. No texto amadiano, Nacib dá o sapato para a Gabriela para que ela o use nos eventos sociais que iria com ele, o que demonstraria uma mudança de classe, quando deixa de andar descalça e passa a ter sapatos semelhantes aos de uma senhora da sociedade ilheense. O uso do sapato pela personagem demonstra ao mesmo tempo, na trama do romance, o direito de propriedade do marido Nacib sobre ela. Vejamos algumas citações de Amado:
Quando dona Arminda por fim desejou boa noite e saiu, a casa
vazia e revolta, garrafas e pratos esparramados, Nacib falou:
-Bié...
-Seu Nacib...
- Por que “seu” Nacib? Sou seu marido, não seu patrão... Ela
sorriu, arrancou os sapatos, começou a arrumar, os pés
descalços. Ele tomou-lhe da mão, repreendeu:
-Não pode mais não, Bié...
-O quê?
-Andar sem sapatos. Agora você é uma senhora.
Assustou-se:
-Posso não? Andar descalça, de pé no chão?
-Pode não.
-E por quê?
-Você é uma senhora, de posses. De representação.
-Sou não, seu Nacib. Sou só Gabriela...
-Vou te educar tomou-a nos braços, levou-a para a cama.
(AMADO, 1966, p.300-301).
E ela metida em casa, saindo apenas para o cinema com dona
Arminda, ou com ele aos domingos, como se nada houvesse
mudado em sua vida, fosse ainda aquela Gabriela sem
sobrenome que ele encontrara no “mercado dos escravos”, não
fosse a senhora Gabriela Saad. Para convencê-la de não ir
levar-lhe a marmita ao bar, fora uma luta, ela até chorara. Para
calçar sapatos era um inferno. Para não falar alto no cinema,
não mostrar intimidade com as empregadas, não rir debochada,
como antes, para cada freguês no bar encontrado por acaso.
Para não usar, quando saíam a passear, rosa atrás da orelha!
Deixar conferência por um circo mais mambembe [...] (Amado,
1966, p.320).
Por outro lado, ainda segundo Chevalier e Gheerbrant (2001), o sapato também representa compreensão recíproca, a prova da fidelidade de quem calça. Este sentido remete ao texto de Amado quando Nacib dá o sapato à esposa Gabriela com essa pretensão, mas sem imaginar o sacrifício que seria a sua utilização.
O sapato pode, também, ser a prova da identidade de uma pessoa, pelo tamanho, adaptação e escolha do tipo, tal como demonstra a narrativa da estória infantil Cinderela, e, como acontece na região da Catalunha, pode ser o símbolo da adaptação entre duas pessoas diferentes, a harmonia do casal e a angústia que pode haver entre essas pessoas, caso não haja a adaptação desejada, segundo Chevalier e Gheerbrant (2001). Portanto o sapato, como símbolo e ilustração da capa, não distorce o enfoque literário, apenas enfatiza um traço que pode estar representando, também, a difícil harmonia entre Nacib e Gabriela, e não somente o esforço para a adaptação dela ao grupo social a que Nacib pertencia.
Não foi percebida nenhuma divergência com relação ao produto obra literária, nessa capa, além da falta da vírgula entre os epítetos e a palavra Gabriela no título do romance.
As capas das edições estrangeiras observadas parecem ter sido publicadas como edições populares ou de bolso. A maioria, assim como as capas brasileiras, não indica a autoria dos capistas, e alguns ilustradores também não são mencionados.
Além disso, em grande parte, as ilustrações escolhidas pelos capistas ou pelas editoras são de artistas conceituados internacionalmente, talvez para demonstrar uma preocupação com a legitimação de Amado em cada país em que foi editado o livro. Por outro lado, percebe-se que alguns capistas conseguiram aproximar a ilustração escolhida para o romance com o sentido da narrativa literária que embala, mas em outras capas parece que o capista demonstra o romance com reflexos de um sentido absorvido anteriormente, ou seja, por algum conhecimento preexistente, ligado ao seu imaginário.
Percebe-se, ainda, uma tendência de enfocar o romance com representações que se relacionam com a presença da natureza da mulher (sexual ou sensual), sedutora, do paraíso carnavalesco, musical e exótico, relacionado ao estranhamento de quem desconhece o local, o autor e a região de onde procede a narrativa.
Sabendo da importância das ilustrações como demonstração de sugestão que o título propõe, questionam-se as conseqüências das traduções e das ilustrações que podem ocasionar distorções de apreensão da Bahia-Brasil, concorrendo para determinadas divergências. Um dos objetivos da literatura é fazer ver, analisar, dar a luz do conhecimento ao leitor, e Amado, no seu texto, mostrou com propriedade uma região de um país considerado “terceiro mundo”, sobre o qual poucas obras literárias tiveram tanta divulgação internacional. Pensando na repercussão e nos reflexos que a “cor” da cultura de cada país estrangeiro deixou impregnada na imagem da Bahia-Brasil que Amado “pintou” em sua narrativa, decidiu-se refletir sobre os movimentos dessa terceira “cor” e os efeitos culturais provocados pela propagação dessa “luz colorida”.