Gabriela, baiana de todas as cores
A refração e a composição
Apesar de toda esta sombra na luminosidade que o livro traz para a humanidade, a representação do livro como suporte da cultura e a sua história têm-lhe dado uma carga aurática superior e inestimável, fazendo com que o leitor esqueça de toda uma estratégia usada por alguns editores, na elaboração do livro no circuito comercial, para considerá-lo um produto de composição material como qualquer outro. Devido a essa aura adquirida, durante toda sua história, o objeto livro ainda continua sendo a “luz” para alguns homens, uma vez que é através dele que grande parte da aprendizagem se efetua.
A refração e a composição
Um raio de luz solar separado através de um prisma triangular faz emergir, através de diferentes comprimentos de ondas, diferentes matizes de cores. Assim o comprovou Isaac Newton, quando descobriu que a luz podia ser refratada e que a sensação da cor branca era criada pelo impacto simultâneo de todos esses comprimentos de onda sobre os olhos do ser humano.
Coincidentemente, alguns homens veem a luz e não percebem como este fenômeno acontece, assim como eles veem o objeto livro e consideram que este ilumina a sua mente, através da absorção do conhecimento, sem perceber ou imaginar como é composto, quando o encontram pronto numa biblioteca ou livraria.
Assim como é importante conhecer a descoberta de Newton, para que a percepção da luz seja desmistificada e compreendida, é necessário observar como é construído o livro, separando-o por partes, para que se possa visualizá-lo como produto. Percebe-se, então, que a parte intelectual e a parte material formam a “luz”-livro, da mesma forma que os matizes de cores, numa síntese aditiva, formam a luz branca.
O formato dos livros, ainda hoje, em sua maioria, é retangular, mas a evolução tecnológica das impressões e encadernações dos livros permite a sua construção com diferentes formatos, haja vista os livros infantis com formatos fantasias, confeccionados para atrair o leitor de menor idade. O recomendável é que o formato escolhido não seja incômodo para o leitor, isto é, deverá facilitar a forma de ele segurar o livro no momento da leitura.
Tecnicamente, o objeto livro compõe-se de duas partes – a material e a textual. A parte textual, ou intelectual, é o conteúdo significativo, e a material, é a parte física do livro, que se compõe de duas partes: a capa e o miolo. A capa, cobertura do miolo ou embalagem do livro, normalmente é constituída por uma folha de papel de gramatura ou peso maior, isto é, um papel mais grosso que envolve exteriormente o livro, para proteger e facilitar o seu armazenamento e transporte. A capa é o único espaço publicitário do livro e as editoras a usam
para atrair os leitores nas estantes das livrarias 8. Comunica a existência da obra literária que embala. Como o que vem impresso na capa se trata de rotulagem, normalmente informa o leitor sobre a obra literária que envolve, ostenta o nome da obra, do autor, e, quase sempre, vem acompanhada de alguma ilustração.
Os rótulos normalmente são divididos em painéis de acordo com a posição que o produto deve ser apresentado ao público consumidor.Uma embalagem pode ter vários painéis, os quais tendem a variar em quantidade e posição, de acordo com o formato do contingente do produto. A capa, como embalagem, permite a elaboração de mais de três painéis, ou seja, o principal, que é o espaço visualizado inicialmente pelo observador que olha para o livro, o segundo, que fica no verso deste primeiro, e o terceiro no verso da última capa, que é o quarto painel. Esses painéis são determinados pelo ritmo de visualização e manuseio do livro e a depender do volume e da encadernação ainda tem a parte que cobre o dorso do livro.
A criação da capa é feita, normalmente, por um funcionário da editora, que pode ser programador visual, diagramador, publicitário ou capista, como comumente é chamado, ou por algum profissional desse ramo indicado pelo autor da obra literária ou pela própria editora. O capista é um designer gráfico, mas o seu trabalho não é sistemático, é mais cultural que técnico, pois, na criação, deverá traduzir visualmente, com outros signos, a obra literária.
A diagramação 9 faz parte da criação, constituindo-se na distribuição dos elementos que deverão ser expostos na capa, na escolha das ilustrações e textos críticos a serem colocados. Comumente, o projeto gráfico de uma capa atesta o valor da editora. Praticamente não há regras que comandem a disposição dos elementos, mas, normalmente, se exige do profissional que a faz um apurado gosto e bastante conhecimento técnico. Todos os elementos que vão ser colocados na capa devem ser tratados com a mesma importância, não só a ilustração em particular, como a escolha das fontes, cores e logomarcas. Cada elemento tem linguagem própria, inclusive as letras, visto que cada tipo passa para o observador determinada sensação, isto é, de elegância, de tradicionalidade ou de modernidade, por isso deve ser escolhido de maneira que se harmonize com o objetivo ou sentido do trabalho literário. A capa considerada ideal somente deverá servir para um determinado livro.
Quando um capista inicia a criação, diagramação ou elaboração de uma capa, é comum utilizar e incluir trabalhos de outros profissionais tais como fotografias, ilustrações, citações e outros discursos que legitimem o sentido que o capista quer demonstrar. O já conhecido é que ajuda o capista na interpretação gráfica. Por isso, é necessário que ele tenha um vasto conhecimento, pois cada livro aborda um assunto diferente, e este conhecimento é que o ajudará a estabelecer analogias.
A diagramação passou, com o tempo, do campo artesanal para o da especialização. O capista deve desenvolver o seu discurso levando em conta contraste estético, forma, aproveitamento do texto, destaque, proporção, harmonia, impacto da comunicação sobre o observador e, acima de tudo, o ritmo com que a informação deve ser absorvida pelo público consumidor. É preciso que o capista pense no resultado final da capa no início do seu trabalho, visando à escolha dos materiais e à relação custo/benefício, principalmente fugindo do padrão, sem encarecer o projeto. A criação de um livro gráfico, normalmente, acompanha o estilo da época da sua produção e o assunto tratado no texto literário, sem ser repetitivo.
A diagramação pode ser simples, desejando apenas informar com ordenação e clareza, caracterizando-se pela discrição, como também se pode caracterizar por uma ornamentação, na qual os recursos utilizados, cores, tipos de letra, formato, ornamentos, linhas dominantes, cortes das fotografias, retículas, usados com fins estéticos, caracterizem-se por um design atraente e sedutor. A diagramação é uma arte comunicativa decorrente da condição de que a arte também é linguagem.
Quanto ao miolo, conjunto de folhas após a capa, pode estar em harmonia com a essência da obra literária ou não. Essas partes do livro se modificam de acordo com a especificidade da edição, variando se é mais luxuosa ou mais popular. Na mais econômica, há a necessidade de redução da quantidade de partes, colocando-se apenas as essenciais, pois o custo de confecção acaba sendo revertido para o público consumidor Também pode haver modificação no custo em conseqüência da quantidade de cores utilizadas. Quanto mais variações de cores, mais aumenta o custo.
Nas impressões dos livros e das capas, as cores escolhidas pelo capista ou pelos ilustradores aparecerão, sempre, devido ao uso de determinados pigmentos, que vão variar de acordo com os recursos técnicos usados no trabalho.