Gabriela, baiana de todas as cores
Os pigmentos e a obra literária
Os pigmentos são a matéria-prima da cor usada em alguma impressão e podem ser orgânicos de origem animal, vegetal ou sintéticos, criados através de processo químico. Os primeiros pigmentos usados pelo homem para pintar ou imprimir imagens foram feitos de terra colorida e, posteriormente, de tinturas retiradas de animais e plantas. Para preparar a tinta, esses pigmentos eram
moídos com um meio agente 10 ou aglutinante para sua fixação na elaboração da mensagem impressa. A escolha do tipo do pigmento a ser usado em uma determinada impressão varia de acordo com a técnica empregada pintura, gravura, fotografia, desenho, off-set, rotogravura, serigrafia entre outros. Hoje, são muitas as técnicas usadas para imprimir uma mensagem. A existência dos pigmentos é que vai permitir a impressão do pensamento do homem no livro gráfico. Esses pigmentos são a matéria-prima para a confecção da obra literária e para a confecção das capas dos livros que, em sua maioria, são impregnadas de várias cores. Sem o pigmento, o homem dificilmente teria acesso ao código escrito e às imagens coloridas impressas. Neste trabalho por exemplo, torna-se essencial o conhecimento da matéria-prima que é o romance Gabriela, Cravo e Canela e de quem o escreveu, para a leitura desse texto.
Quando se fala em autoria, sinaliza-se para a pessoa que está na origem, que cria uma obra literária. É o autor que dá identidade e autoridade ao texto. A responsabilidade da autoria já foi muito discutida por toda a história do livro, chegando ao ponto de certos gêneros, para circularem, terem a necessidade da identificação da autoria. Esta identificação era obrigatória não somente para dar o mérito a quem elaborou a obra de arte, mas também para condenar aqueles que eram responsáveis pela ortodoxia política ou religiosa. Este fato chama a atenção para o risco de uma publicação, como também para a linha tênue entre o que pode ser o processo interpretativo e o esclarecimento de realidades difíceis de compreender. Demonstra a dificuldade que a sociedade ainda tem, de fazer a separação entre a censura e a liberdade de escrever.
A presença da autoria coloca em questão, ainda, a função do autor que, para publicar, utiliza-se de um patrocínio. Ao colaborar com a publicação, o patrocinador muitas vezes impõe o que deve ser escrito, chegando ao extremo de modificações nos textos de acordo com os seus interesses.
Também se discute a responsabilidade do autor quanto ao sentido e à significação do que narra, sua intenção, seu projeto original. O sentido de um texto não poderá ser reduzido ao suposto sentido que tem para o autor e seus contemporâneos, pois deve ser incluída a possibilidade de modificações diante da faixa etária dos leitores, dos contextos socioculturais diversos, sem esquecer a situação de gênero.
Por outro lado, os autores e intelectuais sempre desempenharam uma função importante na hierarquia do poder, como organizadores sociais, formadores de opinião e profissionais, que buscam construir a “Nação”. Neste aspecto, a literatura aparece como privilegiada, pois relata costumes culturais e variações linguísticas que contribuem para criar um sentimento de unidade.
Assim, não se pode deixar de, mesmo em síntese, falar sobre o autor do referido texto literário em estudo, matéria-prima para a elaboração deste trabalho. Conhecer o autor é uma forma de aproximar as leituras produzidas de sua visão de mundo e do contexto político, social e cultural no momento da criação. É observar as condições de produção dos discursos. Foi muito difícil relatar, resumidamente, a vida de Amado diante de tantos feitos. Foram selecionados alguns fatos que demonstram não só o reconhecimento da sociedade, mas também a interdição do seu trabalho intelectual.
Jorge Amado nasceu na Bahia, em Ferradas, município de Itabuna, considerada a terra do cacau pelo grande cultivo deste fruto na região. Filho do Coronel João Amado de Faria e de D. Eulália Leal Amado, nasceu em 1912, numa fazenda do pai. Aprendeu a ler, inicialmente, com a sua mãe e, posteriormente, foi para Ilhéus onde passou a infância e cursou as primeiras letras, trabalhou com seu pai e, depois de algum tempo, foi para Salvador continuar seus estudos no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga. Em Salvador, passou a trabalhar nos mais diversos jornais.
Segundo alguns autores, ele se juntou a alguns boêmios, jovens literatos de certa Academia a que chamavam de Academia dos
Rebeldes 11. Com 17 anos, passou a freqüentar os terreiros da Bahia, onde foi bem recebido, participando dos rituais do Candomblé com muito respeito. A sua experiência nas lavouras do cacau e a consciência das dificuldades vividas pelos trabalhadores tornaram-no anti-racista. Como jornalista, viveu defendendo pais-de-santo que comumente eram presos por praticarem suas crenças. Posteriormente, instalou-se na Capital Federal, que, na época, era o Rio de Janeiro, para estudar Direito, e prosseguiu escrevendo. No
Rio de Janeiro, conviveu com vários intelectuais 12. Aproximouse do editor Augusto F. Schmidt, publicando, em 1931, seu primeiro romance, O país do Carnaval, sucesso editorial que recebeu apoio da crítica e aceitação do público. Ainda nesse ano, são publicados os contos “Sentimentalismo” e “O homem da mulher e a mulher do homem” no Jornal O Momento, em Salvador.
Na Faculdade Nacional de Direito formou-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1935, não tendo jamais exercido a profissão. Com 19 anos, já era um escritor respeitado pelos regionalistas, pois sua literatura revelava os problemas sociais do Brasil, sua diversidade regional e as características das religiões e cultos de origem africana praticados pelo povo baiano. Nesta época, Jorge Amado se envolve com o Partido Comunista e, em 1933, publica a obra Cacau, que obteve destaque bem maior que o romance anterior. Amado narra as dificuldades vividas por quem trabalhava nas fazendas de cacau, sendo seu primeiro romance traduzido para uma língua estrangeira. Censurado por questões políticas, o livro foi apreendido pela polícia, mas pouco tempo depois foi liberado.
Tornou-se tradutor de importantes autores da América Latina e publicou outro romance, Suor, que, segundo o escritor, completa a trilogia de aprendiz. Logo em seguida, lança Jubiabá, um romance que enfoca os problemas raciais e preconceitos contra as crenças populares e apresenta o primeiro herói negro do romance brasileiro, líder grevista em Salvador. Em 1936, publicou Mar morto. Em razão de um levante comunista, chamado Intentona, foi preso por seu ideário político e social.
Depois de libertado, Amado viajou pela América Latina, foi aos Estados Unidos e iniciou novas amizades com muitos escritores, entre eles Pablo Neruda, companheiro de Partido. Continuou a sua viagem pelo Brasil, logo publicando seu sexto romance, Capitães de areia, aventura em que o autor defende a vivacidade e a coragem dos meninos de rua abandonados, um problema social ainda hoje presente nas grandes cidades brasileiras. Em 1937, Amado foi novamente preso devido ao seu envolvimento com uma campanha
para eleger José Américo de Almeida à Presidência da República 13.
Em 1938, vários dos seus romances já estavam sendo traduzidos e editados em diversos países da América, Europa e Ásia. No Brasil, Amado ocupou-se com atividades políticas, combatendo a ditadura, denunciando o fascismo e defendendo a anistia para alguns presos, e passou a trabalhar em diversos jornais do Rio de Janeiro e São
Paulo14.
Em 1939, compôs com dois amigos de partido político, Dorival Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata Beijos da Noite, e, em 1941, publicou a biografia O ABC de Castro Alves. Já em 1942, Amado, em parceria com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Aníbal Machado, publicou o romance Brandão entre o mar e o amor, quando ainda exilado na Argentina e Uruguai, iniciando depois, em Montevidéu e Buenos Aires, outra biografia, a de Luís Carlos Prestes, dirigente comunista que se encontrava prisioneiro do chamado Estado Novo. Este livro, cujo título é Cavaleiro da Esperança, foi publicado em 1942 no Brasil, mas foi vendido na maioria das cidades brasileiras por contrabando, servindo como campanha de anistia para a libertação de Prestes. Depois desse exílio, Amado retornou ao Brasil e logo foi preso em Porto Alegre e confinado na Bahia. Depois de solto, ainda atuando na imprensa, escreveu Terras do Sem Fim, que publica em 1943 e, em 1944, São Jorge dos Ilhéus, período em que Amado se separou da primeira esposa. Em 1945, participou do Congresso de Escritores que aconteceu em São Paulo com merecido destaque, pois este evento foi um Encontro de relevância contra a política
imposta pelo Estado Novo15.
Ainda em 1945, foi eleito deputado pelo Estado de São Paulo com grande votação, e, como parlamentar, defendeu e fez aprovar a liberdade de culto, impedindo, a partir daquele ano, que alguém fosse preso por ser aliado de algum culto afro no Brasil, além de criar uma lei para defender os direitos do escritor brasileiro.
Em 1946, foram publicados Seara Vermelha, romance, também dedicado ao líder político Carlos Prestes, e ainda o texto político Homens e coisas do Partido Comunista, considerado por alguns críticos como propaganda partidária.
Em 1948, o Partido Comunista tinha voltado à clandestinidade. Após sua expulsão do parlamento, Amado foi exilado para Paris, onde viveu com Zélia e o filho João Jorge até 1950. Na Europa, Amado conviveu com intelectuais renomados, que se tornaram seus amigos, como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pablo Picasso e Albert Camus, que davam ao seu trabalho o merecido reconhecimento. Durante esse período, Amado viajou por toda a Europa, conheceu Moscou e escreveu para o seu filho, durante a viagem, o livro infantil O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, que
somente foi publicado em 197616.
Em 1951, lança O Mundo da Paz, um livro também considerado como guia de viagens, com propaganda dos países que se diziam socialistas, obra que obteve bastante sucesso apesar de ter sido proibida no Brasil. Por causa deste livro, Amado foi novamente processado. Ainda em Dobris, escreve sobre a tragédia que foi o Estado Novo, a trilogia “Os ásperos tempos”, “Agonia da noite” e “A luz do túnel”, reunidos sob o título Subterrâneos da Liberdade, que é considerada um relato sobre a ditadura do presidente Getúlio
Vargas no Brasil 17. Recebeu o Prêmio Stalin, de grande importância para os soviéticos, que, posteriormente, pas-sou a chamar-se de Prêmio Internacional Lenin.
Voltou ao Brasil em 1952, depois de viagem pela China e Mongólia, e passou a residir no Rio de Janeiro. Trabalhou na Editora Vitória, ligada ao Partido Comunista, dirigiu a coleção Romances para o Povo, presidiu a Associação de Escritores Brasileiros e foi chefe da redação da revista Para Todos. Em 1956, abandonou o Partido Comunista, muito abalado com as denúncias que Krushev fez contra Stalin, em Moscou, no XX Congresso do Partido Soviético. Afirmou publicamente que deixou a militância partidária porque o impedia de ser um escritor pleno. A partir dessa data, seus romances se modificaram, passando a ter diferentes características, levando vários críticos a considerá-los como representantes de uma nova fase.
Em 1957, estabelece uma grande amizade com uma das maiores ialorixás da Bahia, mãe-de-santo do terreiro do Gantois, mais conhecida como Menininha do Gantois, e, pouco tempo depois, recebe uma das mais altas honrarias do Candomblé, passando a
ser um ministro de Xangô 18. Depois que foi elevado a ministro (ogã) do Candomblé, Amado passou a ter obrigações para com a comunidade ligada a esse culto.
Em 1958, publica uma obra que é considerada pela crítica um dos seus mais importantes romances, por descrever o jeito de ser do brasileiro, como afirmam alguns autores. Intitulado Gabriela, Cravo e Canela, o livro enfoca temas variados como a opressão das mulheres, o coronelismo e alguns problemas sociais brasileiros.
A partir dessa publicação, Amado passa a dar mais atenção, em seus romances, aos anti-heróis – os chamados vagabundos, as prostitutas e os bêbados. Esta nova fase do trabalho amadiano revela a vida popular da Bahia, com o hibridismo racial do seu povo, seus cultos e religiões, sua culinária, considerada por muitos como exótica pelas misturas extravagantes, e, principalmente, o universo social e cultural baiano, extremamente complexo e variado. Dá visibilidade aos grupos socialmente desfavorecidos e excluídos, ao lado dos seus opressores, e destaca as injustiças sociais e a beleza do ser humano. Segundo alguns críticos, esta “nova” narrativa amadiana evidencia o caráter múltiplo do povo baiano e a diversidade de cores na sua formação.
Em 1961, publica duas novelas – A morte e a morte de Quincas Berro D’água, considerada por alguns críticos como exemplar em
ousadia e humor, e 19 Os velhos marinheiros. Em 1964, lança a primeira edição de Os pastores da noite, e, em 1965, é a vez do conto As mortes e o triunfo de Rosalinda. Já em 1966, publica um dos seus mais divulgados romances, Dona Flor e seus dois maridos.
Em 1969, lança Tenda dos Milagres, no qual aborda a miscigenação, usando uma forma de narrar considerada por alguns
críticos como carnavalizada e inspirada na literatura de cordel20. Em 1972, publica Tereza Batista cansada de guerra e, em 1977, Tieta do Agreste, outro romance, que tem como personagem principal uma mulher, retratando, como na maioria de seus personagens femininos, mulheres mal-amadas, oprimidas, valentes, moralistas, fogosas, mas sempre personagens femininos com características
bem brasileiras21.
Em 1979, publica Farda fardão camisola de dormir: fábula para acender uma esperança, considerado pela crítica como um romance bem humorado, menos crítico. Em 1984, edita Tocaia Grande: a face obscura, um romance considerado por alguns críticos como audacioso. Ainda em 1984, publica a história para crianças A bola e o goleiro, e, em 1986, O capeta Carybé, uma homenagem ao amigo e artista plástico Carybé.
Em 1988, publica o romance O sumiço da Santa: uma história de feitiçaria e, ainda, o conto História de Carnaval. Em 1989, publica o
conto 22 De como o mulato Porciúncula descarregou o seu defunto. Em 1992, registrou, no seu livro de memórias Navegação de
Cabotagem, 23 uma homenagem à vida. Edita, no mesmo ano, seu último romance A descoberta da América pelos turcos, uma homenagem aos brasileiros de fora, e posteriormente, em 1993,
publica outro texto político 24 Discursos.
Apesar da idade avançada, Amado não parou de escrever e deixou dois livros inacabados Boris, o Vermelho e A apostasia universal de Água Brusca.
Faleceu em 6 de agosto de 2001, aos 88 anos, deixando uma quantidade imensa de publicações, um registro literário que retrata a miscigenação da Bahia, seus costumes, sua cultura, sua língua popular, e um vocabulário absolutamente baiano.
A obra Gabriela, Cravo e Canela escolhida como matéria-prima desse trabalho, como dito anteriormente, foi publicada 27 anos depois do lançamento do primeiro livro de sua autoria e marcou uma nova etapa na produção intelectual do autor, de acordo com a crítica. Esta nova narrativa amadiana é caracterizada como lúdica, humorística e sem maiores preocupações político-ideológicas.
O romance, cuja trama se desenvolve em 1925, tem como cenário a cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, conhecida pela luta de posse de terras férteis para o cultivo do cacau. Amado focaliza, em seu texto, a cidade num momento de transformações políticas e econômicas, com o progresso se instalando e transformando a fisionomia da cidade. Neste ambiente é que o autor desenvolve o seu imaginário, narrando a história de vários personagens, entre eles, a da brasileira Gabriela e do árabe Nacib. Na narrativa, Amado descreve dois grupos políticos interessados em defender os interesses citadinos: os coronéis, que representam a oligarquia local, conservadora inclusive pelo exercício constante do poder, e o grupo de oposição, representado pela classe média em ascensão, interessada em instaurar, no local, uma nova ordem e, principalmente, o chamado progresso. Neste contexto é que Amado representa alguns dos seus personagens masculinos e femininos, inclusive a Gabriela, com seus valores, preconceitos, relações interpessoais com a família patriarcal brasileira, suas raízes, suas rígidas divisões de papéis, além da mistura saudável entre estrangeiros e brasileiros no cotidiano ilheense.
Os personagens femininos – esposas, filhas de coronéis, solteironas, empregadas domésticas e prostitutas – se destacam como elementos muito importantes no enredo, chegando a ponto de alguns capítulos serem intitulados com nomes de mulheres, tais como: O langor de Ofenísia, A solidão de Glória, O segredo de Malvina, O luar de Gabriela, nos quais o narrador descreve o universo feminino, procurando identificar os vários papéis atribuídos à mulher e os seus diferentes comportamentos na sociedade brasileira.
Sobre as mulheres, Amado, em entrevista a Raillard (1990), afirma que é verdade que as mulheres têm papel ativo nos seus livros. O que ele sempre dizia e repetia é que a mulher, no Brasil, é explorada como classe e também como sexo. Ela é duplamente oprimida: como o são todas as pessoas do povo brasileiro e, particularmente, porque é mulher. Foi por isso que ele quis que alguns dos seus personagens fossem mulheres, apresentando a luta do povo brasileiro, citando Gabriela como exemplo.
Nesse texto amadiano, o personagem Gabriela recebe duas referências – cravo e canela, duas especiarias trazidas pelos portugueses no período colonial para o Brasil e que são muito usadas como condimentos na culinária brasileira, fazendo alusão à cor e ao sabor desses temperos, deixando subentendida a relação da personagem mestiça, morena, com a cor marrom da canela e o cheiro e sabor do cravo e da canela. Esta referência já coloca o personagem feminino mestiço relacionado ao ato de comer, de degustar e saborear, como explica muito bem Sant’Anna, no seu livro O canibalismo amoroso (1993): a mulher fruto, que relaciona erotismo e culinária, a mulher para ser comida, ligada à alimentação erótica e gastronômica, que confunde o comer literal e o metafórico, diferente da mulher de etnia branca sempre associada à mulher flor para ser sentido apenas o seu perfume.
A Gabriela surge na trama como retirante do sertão, região bastante seca, chegando a Ilhéus suja, empoeirada, vestida de trapos, na miséria, sendo contratada pelo árabe Nacib como empregada doméstica, passando não somente a cozinhar como também a satisfazê-lo sexualmente. A Gabriela revela-se como mulher ideal, segundo os anseios de Nacib, cozinheira e amante. De acordo com Amado, em entrevista a Raillard (1990, p. 277):
A Gabriela é quase um símbolo do povo na sua inocência, sua
ignorância do comprometimento, fora de todas as regras, de
todas as convenções inventadas pela sociedade. É alguém que
modifica as regras do jogo, ou que ao menos ajuda a modificá-
las, uma mulher simples e despojada, tão despojada quanto o
povo.
Em volta desses dois protagonistas, gira toda a trama, inclusive o assassinato da esposa de um dos coronéis por ter sido encontrada, pelo seu marido, na cama com o seu dentista, culminando com a primeira prisão de um coronel por assassinato da sua esposa.
Este romance amadiano tem tido grande sucesso de público em vários países, haja vista as várias edições, estando, atualmente, na 100ª edição no Brasil. É um dos trabalhos de Amado mais traduzidos, com registro de mais de trinta e cinco idiomas, inclusive a quantidade de edições foge ao controle da família do escritor baiano e da Fundação Casa de Jorge Amado, que preserva e estuda o trabalho do romancista. Além de tudo, tem tido também constantes adaptações para cinema e televisão, histórias em quadrinhos e fotonovelas. Sobre o controle das edições, Amado relata a Raillard (1990) que as editoras não avisavam nada ao autor, ele ficava sabendo dos lançamentos por acaso e a duras penas conseguia obter um exemplar do seu próprio livro. Este comentário foi feito quando ele relatou sobre uma edição cubana, a que só teve acesso porque a enviaram para que autografasse.
Assim, quando Amado escreveu Gabriela, cravo e canela, matéria-prima da construção das capas de cada edição publicada, já pressupunha que, a interação autor, texto e cada leitor diferente, propiciava inúmeros e distintos diálogos.
Perceber melhor a dialogicidade entre o discurso de Amado e o discurso das capas é identificar o que chamamos discurso e os signos escolhidos para sua representação. Tais signos podem ser comparados com os pigmentos ou tintas escolhidas para dar cor a uma determinada impressão, isto é, com a seleção de cores feita por um pintor para composição do seu discurso. Um escritor, um artista gráfico ou um ilustrador escolhe os signos criteriosamente para dizer o que se passa em sua mente, para simbolizar a sua criação. Para isso, percorre uma infinidade de signos do seu conhecimento, tentando ajustá-los a uma possível interpretação, assim como o pintor coloca diversas cores de tinta na paleta para conseguir, através da mistura, a representação ou tonalidade ideal.
É fundamental observar como os capistas elaboraram os seus discursos, para analisar e compreender como escolheram os signos e pigmentos para representar o discurso amadiano, nas capas das diferentes edições brasileiras. Para tanto, são aqui utilizados alguns recursos da Teoria da Análise do Discurso e da Semiótica, com o objetivo de chegar a uma leitura, entre as múltiplas possíveis, das capas elaboradas para o público-alvo brasileiro.
1 Alguns autores (MARTINS, 1996; CHARTIER, 1998) afirmam que os primeiros livros foram escritos no Oriente, mas que entram para a história em 3000 a.C., sob a forma de rolo de papiro, no Egito. Neste período, a civilização chinesa já possuía um grau notável de desenvolvimento quanto à produção literária impressa em cascas de árvores.
2 Letra capitular – primeira letra de um capítulo, normalmente impressa maior e mais decorada que as emais, para chamar a atenção do leitor ou adornar a página (MARTINS, 1996).
3 Vinheta – pequena ilustração que decora as páginas de um livro, revista ou jornal (RIBEIRO,1987).
4 Crisógrafos – artistas que trabalhavam com a utilização do ouro e prata na arte da ilustração, provavelmente por influência bizantina (MARTINS, 1996).
5 Barroco – movimento artístico e literário nascido na Itália, vinculado à Contrareforma, que se espalhou por grande parte da Europa e América Latina. Caracterizava-se pelo uso excessivo de ornamentos muito rebuscados (MARTINS,1996).
6 Tipografia – processo de composição e impressão baseado em tipos móveis, gravuras e clichês em altorelevo (RIBEIRO, 1987).
7 Planográfico – processo de impressão caracterizado pelo uso de matriz plana, ou seja, sem calco ou relevo, passando a impressão por processos químicos (RIBEIRO, 1987).
8 A palavra capa é derivada do latim tardio capa, significando aquilo que serve para cobrir, por isso o manto, peça do vestuário que se coloca sobre qualquer roupa para protegê-la, chamase, também, capa. Existe uma relação de sentidos entre a capa do livro e o manto (capa como veste). O manto, segundo Chevalier (2001), pode ser o símbolo da metamorfose que acontece com o homem devido aos papéis que ele pode assumir. Vestir o manto é sinal da escolha da sabedoria, é assumir uma função ou personalidade da qual o manto ou a capa é o emblema. O manto passa, muitas vezes, a ser símbolo daquele que o veste. Assim, também, a capa do livro passa a simbolizar a edição que embala, sofrendo modificações a cada edição, tornando-se ainda o emblema do texto literário que representa.
9 A palavra diagramar significa fazer o projeto da distribuição gráfica de materiais a serem impressos: textos, títulos, fotos, ilustrações, logomarcas, de acordo com determinados critérios jornalísticos e visuais, ou seja, é o planejamento do espaço, técnica e esteticamente, dentro do formato desejado de uma comunicação, para que a informação chegue ao público alvo com o objetivo desejado. Diagramar tem origem no vocábulo diagrama, que significa representação gráfica esquemática de uma seqüência de operações ou de estrutura de um sistema. Quem diagrama e/ou ilustra as capas de um livro deverá, então, ler e conhecer a obra literária a que se destina a capa para, a partir daí, elaborar uma representação gráfica esquemática, que informe e seduza o observador-leitor para a compra do livro.
10 Meio agente – aglutinante como óleo, ovo, cera ou resina usados para juntar as partículas do pigmento e aderi-los à superfície que está sendo pintada.
11 João Cordeiro, Dias da Costa, Alves Ribeiro, Edson Carneiro, Sosígenes Costa, Walter da Silveira, Couto Ferraz e Clóvis Amorim. Com dois desses companheiros, Dias da Costa e Edson Carneiro, publicou a novela Lenita.
12 Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Aurélio Buarque de Holanda, Santiago Lima, o seu primo Gilson Amado e outros.
13 Nesse mesmo ano, Getúlio Vargas, líder político, deu um golpe e implantou, no Brasil, a ditadura do Estado Novo. Desta vez, Amado perdeu mais de dois mil exemplares dos seus livros queimados numa praça de Salvador pelo Exército, por serem considerados obras subversivas.
14 Nessa época, lança um pequeno livro de poemas, A estrada do mar, o qual editou por conta própria e distribuiu para amigos, apesar da censura persistente aos seus trabalhos literários.
15 Justamente quando Amado estava envolvido com todo esse movimento político de esquerda, conheceu Zélia Gattai, que passou a ser sua companheira em 1945, ano em que foi novamente preso e, depois de solto, publica um guia de viagens chamado Bahia de Todos os Santos: Guia de ruas e de mistérios, escrito em São Paulo, onde trabalhava para a imprensa e dirigia o jornal do Partido Comunista.
16 Ainda exilado, Amado perdeu a sua filha mais velha, Eulália, e não pôde comparecer ao enterro. Em 1950, foi expulso também da França e foi residir em Dobris, na Rússia, num castelo onde funcionava a União dos Escritores da Tchecoslováquia, até 1952.
17Também em 1951, em Praga, nasceu sua filha, Paloma Amado, também fruto do seu casamento com Zélia Gatai.
18 Xangô – um dos orixás das cerimônias religiosas afrobrasileiras, relacionado aos elementos da natureza, raio e fogo.
19 Ainda nesse ano, foi eleito para a cadeira de número 23 da Academia Brasileira de Letras.
20 Em 1971, recebeu o Prêmio da Latinidade na França.
21 Em 1977, recebeu o título de Comendador da Ordem de Andrés Bello, na Venezuela e, em 1979, o título da Ordem das Artes e das Letras na França.
22 Também recebeu o Prêmio Dimitrov, em Sofia, o Prêmio Pablo Neruda, em Moscou, e o Prêmio Etrúria de Literatura, na Itália. Já em 1990, tornou-se também Doutor Honoris Causa em Língua e Literatura da Universidade de Dagli Studi, em Bari, Doutor Honoris Causa da Universidade de Israel e recebeu o Prêmio Cino del Duca e o Prêmio Mediterrâneo, ambos na Itália.
23 Foi titulado como Comendador da Ordem do Mérito de São Jorge dos Ilhéus, na Bahia, e Comendador da Ordem de Maio, na Argentina.
24 Continuou sendo homenageado recebendo os títulos de Doutor Honoris Causa das Universidades de Pádua, na Itália, em 1995, de Sorbonne, na França, de Lisboa, em Portugal, e de Bolonha, na Itália, em 1998. Em 1997, já havia também recebido os seguintes prêmios: Prêmio Vitaliano Brancatti, na Itália, Prêmio Luís de Camões, em Portugal, Prêmio Jabuti e Prêmio Ministério da Cultura, no Brasil.