Gabriela, baiana de todas as cores
Quarta capa estrangeira
Aparecem elementos da natureza, afastando a representação da mulher da cultura urbana, racional, fazendo-a emergir em meio a plantas e flores grandes e vistosas, sugerindo regiões tropicais.
Quarta capa estrangeira
Título GABRIELA, CRAVO E CANELA
País PORTUGAL
Editora PUBLICAÇÕES EUROPA - AMÉRICA
Ano 1965
Autoria da capa SEM REFERÊNCIA
Autoria da Ilustração CÂNDIDO PORTINARI
Técnica a ilustração PINTURA
Essa edição foi lançada em Portugal, localizado no Sudoeste da Europa, na Península Ibérica, e que formou um vasto império colonial englobando o Brasil e parte da África e da Ásia, responsáveis pela difusão da língua portuguesa no mundo.
Na década de 60, quando foi lançada essa edição, havia uma recusa em conceder independência às colônias africanas de Portugal, o que estimulava os movimentos guerrilheiros de libertação. Posteriormente, a decadência econômica e o desgaste com a guerra nas colônias africanas provocaram descontentamento nas forças armadas e o enfraquecimento do governo totalitário português. Então, em 1974, eclodiu a Revolução dos Cravos que promoveu a redemocratização do país. A população festejou o fim da ditadura distribuindo cravos - a flor nacional aos soldados rebeldes. O governo passou a ser dominado pelo Movimento das Forças Armadas, fortemente influenciado pelo socialismo. Em 1975, porém, o governo passou a ser liderado por um triunvirato de generais conservadores e somente em 1995 os socialistas venceram as eleições parlamentares e voltaram a assumir o governo.
O ilustrador dessa capa é Cândido Torquato Portinari, brasileiro nascido em Brodósqui, São Paulo, em 1903. Pintor e desenhista, filho de imigrantes italianos, começou a pintar ainda criança, trabalhando na restauração de adornos de igrejas da sua cidade natal. Em 1918, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a frequentar a Escola Nacional de Belas-Artes, onde estudou com Batista da Costa e Lucílio de Albuquerque. Quando exibiu alguns dos seus trabalhos, passou despercebido, inclusive numa exposição coletiva realizada no ano de 1922, que marcou o início do modernismo. Em 1928, com o retrato de Olegário Mariano, foi premiado com uma viagem à Europa onde viveu dois anos. Voltando ao Brasil, no ano de 1931, afastou-se de vez, segundo alguns críticos, da tradição acadêmica, executando trabalhos de acordo com o que vira na França, Itália e Inglaterra. Em Brodósqui, realizou sua primeira experiência mural no ano de 1933, com a obra Fuga para o Egito, feita na parede da casa paterna. Em 1934, realizou a obra Café, que no ano seguinte recebeu menção honrosa da Fundação Carnegie dos EUA e marcou o início de um período de intensa atividade. Influenciado pelos muralistas mexicanos, começou a elaborar, no Brasil, painéis para o Ministério da Educação, trabalho que durou cerca de oito anos, sendo concluído em 1945. A partir da década de 40, aderiu ao Expressionismo, de caráter social, e destacou-se com as obras Emigrantes, Menino Morto e Enterro na Rede. Na mesma década, executou a obra Via Crucis, na Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais e pintou vários quadros com o tema "meninos de Brodósqui". A partir de 1948, compôs uma série de obras com temas históricos, como Primeira Missa no Brasil (1948) e Tiradentes (1949) e, na década de 50, concluiu o gigantesco painel Guerra e Paz, que se encontra no edificio-sede das Nações Unidas em Nova York, EUA.
Além de ter elaborado muitas obras com temas de cangaceiros, Portinari foi muralista emérito, comparado frequentemente com os muralistas mexicanos Rivera, Orosco e Siqueiros, pois sua obra demonstra um claro sentido político. Mostrou seus trabalhos no Brasil, como também no exterior, sendo apontado pela crítica como um dos principais representantes da arte brasileira, o artista mais importante da América do Sul e, inclusive, um dos artistas de maior repercussão internacional. Faleceu em 1962, no Rio de Janeiro, deixando uma grande quantidade de trabalhos de temas regionais, históricos, de cenas religiosas, além de muitos retratos, que continuam sendo utilizados como ilustração como o pormenor usado nessa capa.
A ilustração escolhida pelo capista converge para o discurso amadiano, já que é um pormenor de um trabalho artístico que enfoca um rosto feminino jovem, com traços e cor que lembram a mulata brasileira, e a cor da impressão é amarronzada como a cor do condimento canela a que Amado se refere no título desse romance.
O fato de essa imagem escolhida pelo capista para ilustrar a capa ser um trabalho artístico executado por um brasileiro legitima o seu discurso, ao tempo em que demonstra, para os observadores, que quem representa e demonstra o título acima conhece e sabe sobre a cultura de origem do brasileiro. Nessa edição, é possível perceber que quase todos os signos possuem forte relação com o texto do romance e com a Bahia, e não há necessidade de intermediações, talvez pela proximidade do Brasil com Portugal, quanto ao idioma e quanto a alguns costumes, posto que o Brasil foi colonizado por Portugal, sendo natural que características do povo colonizador, por questões históricas, tenham permanecido na Bahia, local onde se passa a estória. Além do mais, o autor da ilustração é um brasileiro que trabalhou muito com a regionalidade brasileira, os habitantes do interior ou trabalhadores. O pormenor escolhido para ilustrar a capa demonstra a fidelidade na representação desse artista sobre o hibridismo do povo com o qual convivia.
A divergência percebida é apenas quanto ao título no qual não consta a expressão cravo e canela como epítetos, além da vírgula depois do nome Gabriela. Talvez esta omissão se explique por falta de revisão da editora, o que demonstra pouco cuidado com o trabalho do autor literário.