Gabriela, baiana de todas as cores

Sônia Regina de Araújo Caldas · Capítulo 5 de 30

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Gabriela, baiana de todas as cores

A sombra e a interdição

Enquanto a produção material do livro impresso vem crescendo, ultrapassando a maioria dos possíveis obstáculos, ao lado deste livro material, como citamos anteriormente, percebe-se um livro “espiritual”, que possui uma carga aurática de luz devido a sua função de difusor do conhecimento humano. O livro “espiritual” é a aura que o livro adquiriu como objeto raro, visto que, desde a Idade Média, um escritor era apenas o que escrevia uma palavra inspirada por Deus, uma palavra que dizia de uma tradição, de alguma coisa que já estava ali, o escritor apenas a relatava e comentava. O livro era um objeto que poucos tinham possibilidade de compra, inclusive pelo requinte com que eram fabricados, com capas luxuosas, até de filigrana em ouro e incrustadas com pedras preciosas. Era um privilégio de poucos leitores e colecionadores a obtenção de um livro, por isso marcavam com o ex-libris, ou seja, com um brasão ou marca, que demonstrava de quem era a posse daquele exemplar.

Por outro lado, a concepção de que, entre alguém que escreve e alguém que lê, existe um livro, reforçou o seu papel como grande responsável pela comunicação e deu-lhe personalidade, levando-o a ser testemunho do espírito do homem que escrevia.

Apesar de ser considerado um objeto precioso, essa luminosidade do livro, que o caracteriza como meio de divulgação do saber do homem, possibilitandolhe ver e conhecer o mundo, vem encontrando um grande obstáculo, gerando uma sombra na história da humanidade.

 

A sombra e a interdição

A luz quando encontra um obstáculo faz surgir a sombra. A interceptação da luz por um corpo opaco dá origem a um perfil escuro que chamamos de sombra. A sombra faz parte da percepção visual do homem, pois é através do jogo de luz e sombra que se obtem o contraste que faz parecer mais intensa a luz e que é de suma importância para a percepção das cores. Assim como a luz ao encontrar um obstáculo provoca a sombra, o livro, como iluminação para o conhecimento do homem, tem encontrado, na sua trajetória, um grande obstáculo, a censura, que tem provocado a sombra da interdição na história do conhecimento humano.

Toda cultura escrita esteve sempre ligada às repressões e aos gestos violentos. A participação das autoridades religiosas e políticas na história do livro provocou interdições de textos tidos como subversivos, o que gerou a destruição de milhares de exemplares e a condenação de autores, editores e, ainda, de leitores. Na história do livro, ao lado das relevantes contribuições para a publicação de grandes obras, há perseguições e até a fogueira, encarregada de proteger e “preservar” o patrimônio textual e os interesses do poder opressor. A criação de listas de livros desaconselháveis e proibidos pelas religiões, ideologias políticas e correntes de pensamento instituiu códigos de censura, como forma de organização. Esta atitude de destruição fez parte, seguidas vezes, da história do livro, objetivando erradicar as idéias de muitos autores. Esta sombria vontade de limitação de consumo de alguns livros foi de encontro à liberdade de interpretação dos leitores e ao direito do autor sobre a sua obra, tornando-se um castigo.

Um pensamento errôneo é admitir-se que a censura não existia em países liberais e democráticos como acontecia nos países de regime autoritário. Os acontecimentos ao longo da história provam o contrário. Em países considerados democráticos, há categorias de livros que não podem ser expostos nas vitrines, por serem classificados como pornográficos ou contra a segurança nacional. Sob a aparente idéia de proteção, o poder nestes países procura manter um discurso hegemônico. Como conseqüência dessa atitude, várias traduções, como também vários livros, sofreram modificações radicais, foram interditados e expurgados das prateleiras, o que continua até hoje, numa postura contrária à liberdade de expressão, que é direito de todo cidadão. A censura, nas artes em geral e, principalmente, na obra literária, através do tempo, vem atingindo requintes a ponto de serem selecionadas leituras para cada faixa etária, ou diferenciar o talento dos literatos como superiores e o de jornalistas como de segunda categoria, além de outras interdições de requintadas sutilezas. A obscenidade, a impiedade e a subversão são alvos preferidos dos códigos na censura à arte, até hoje. Além disso, a condenação, a crítica, a repreensão, as advertências, ou, ainda, os desejos inconscientes, os preconceitos, as omissões e outras manifestações do ser humano estão sempre sendo usados como ato ou efeito de censurar.