Gabriela, baiana de todas as cores

Sônia Regina de Araújo Caldas · Capítulo 21 de 30

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Gabriela, baiana de todas as cores

Segunda capa estrangeira

Essa mudança no título tende a uma descaracterização da obra amadiana, já que é pelo título que, na maioria das vezes, o leitor identifica uma obra literária, além de ser um desrespeito à integridade da obra.

No caso de Di Cavalcanti como ilustrador, ele pode ter operado aproveitando e identificando seus quadros com a produção de Amado ou se utilizado da estereotipia ou imagem que talvez o francês médio tivesse engendrado sobre o Brasil.

 

Segunda capa estrangeira

Título GABRIELA

País RÚSSIA

Editora SEM REFERÊNCIA

Ano 1961

Autoria da capa SEM REFERÊNCIA

Autoria da Ilustração SEM REFERÊNCIA

Técnica a ilustração XILOGRAVURA

Tradução SEM INDICAÇÃO

Versão do texto da capa OLGA BELOV ( para utilização da FCJA) Aedição russa, lançada pela União Soviética na vigência do regime comunista, foi a segunda selecionada. Com a participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial e a Revolução de Fevereiro, a monarquia é substituída pela república parlamentar que deu origem ao Partido Comunista. Este partido distribuiu terras aos camponeses, transferiu

o controle das indústrias a representantes operários, enfrentando várias forças de oposição. Em 1922, foi criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que reunia os territórios antes pertencentes ao Império Russo. Em 1941, a Alemanha invadiu a URSS, e, a partir da reação russa a essa invasão, a URSS emergiu como a segunda maior potência do mundo, com seu regime socialista. Os Estados Unidos reagiram ao poder soviético e se comprometeram a impedir a expansão comunista. O mundo foi dividido em dois grandes blocos antagônicos, dando início a um processo que passou à história como guerra fria.

No período de lançamento dessa edição, havia sérios problemas entre dois aliados comunistas, a China liderada por Mao-Tse-Tung e a URSS de Nikita Kruschev, que travavam batalhas ideológicas, devido à decisão de Kruschev de não auxiliar a China a obter a bomba atômica.

Não encontramos referência à autoria da capa nem da ilustração nessa edição. As representações dessa capa convergem para a cultura baiana e para o texto de Amado (1966, p.433), como se observa a seguir:

Chamava Gabriela de Yemanjá, dela nasciam as águas, o rio

Cachoeira e o mar de Ilhéus, as fontes nas pedras. Nos raios

da lua, a casa velejava no ar, subia pelo morro, partia na festa.

Perdura o deslizamento da trama política da cidade de Ilhéus para o percurso existencial de Gabriela. O capista colocou, no centro da composição, o rosto de uma mulher morena com cabelos compridos e uma flor alva sobre a orelha, ao lado de uma sereia com um espelho nas mãos. Esta imagem lembra a personagem Gabriela e a tentativa de representação do orixá Iemanjá, divindade do candomblé, culto afro-brasileiro, citado por Amado. A Iemanjá é representada, na Bahia, como uma sereia com um espelho nas mãos, e as suas oferendas são sempre nas cores azul e branca, já que é uma divindade que representa as águas do mar, por isso talvez o ilustrador tenha colocado uma flor de cor branca no cabelo da mode-lo que parece representar a Gabriela.

As sereias, como Iemanjá, também representam sedução. Inicialmente, inclusive no Egito, eram consideradas divindades infernais, que se transformavam para encantar. Aparecem relacionadas às emboscadas oriundas dos desejos e das paixões. No Brasil, simbolizam, ainda, uma imaginação pervertida, um sonho insensato em vez de uma ação realizável, segundo Chevalier (2001, p.814). Esses sentidos, na Bahia têm relação com a representação da sereia Iemanjá, que simboliza sedução e beleza.

Na trama do romance, a Gabriela é "filha de Yemanjá", com as suas características pessoais semelhantes às do orixá, seu guia. Com esta afirmação Amado já deixa subentendido que a personagem é bela e sedutora.

No fundo da composição, veem-se, em destaque, alguns círculos com cenas de pessoas em feiras com barracas ou em frente à praia ou diante de casarios. Esses círculos estão rodeados por uma textura feita com losangos, azuis e brancos, que possuem no centro uma forma amarela que lembra o cacau, tão citado no texto do romance.

A Quarta capa possui a mesma composição artística sendo que, no centro, vê-se um abebé, o espelho que a divindade Iemanjá, rainha das águas, normalmente carrega em suas mãos. A palavra espelho tem sua origem em speculum, que deu origem ao termo especulação, que significa olhar as estrelas, segundo Chevalier e Gheerbrant (2001). A simbologia do espelho é extremamente rica devido à condição de superfície que reflete, e é muito associado à tradição nipônica de revelador da verdade e da causa dos atos passados. Significa, também, a harmonia e a união conjugal, a pureza perfeita da alma, a superfície das águas, o reflexo da ação dos homens, a alma e a magia que permitem ler o passado, o presente e o futuro das pessoas. Por isso, vários sentidos podem estar associando o espelho abebé ao orixá, no sentido da trama e da ilustração da capa.