Gabriela, baiana de todas as cores

Sônia Regina de Araújo Caldas · Capítulo 25 de 30

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Gabriela, baiana de todas as cores

Sexta capa estrangeira

cantigas de reisado. Gabriela elevou a cabeça. Enganar-se não

podia. Era o terno de Dora.

As pastorinhas com as lanternas, Miquelina com o estandarte.

Nilo, o ex-marinheiro, com um apito na boca, comandava o

cantar e o dançar. Da praça Seabra, na mesma hora, vinham o

boi, o vaqueiro, a caapora, o bumba-meu-boi. Dançando na rua.

Se a representação foi provocada por essa parte do texto de Amado, demonstra falta de conhecimento do que seja essa manifestação popular brasileira, pois é bastante divergente do que normalmente aparece nas apresentações dos Ternos nas festas baianas. Por conseguinte essa imagem passa a ser uma nova metáfora.

Mas, para os leitores ou apenas observadores da capa que não tenham tido nenhum acesso à cultura brasileira, ou a uma leitura sobre a diversidade cultural e étnica da América Latina, o reconhecimento do discurso amadiano poderá ser feito de forma equivocada, distorcida, pois o que essa imagem evoca pode estar ligado ao imaginário do capista através de uma relação pessoal e bastante singular. Talvez essa articulação tenha sido feita, também, por região geopolítica - a América Latina, ou representação/expressão artística de uma região considerada equivocadamente com características/marcas /identidades semelhantes ou únicas.

 

Sexta capa estrangeira

Título GABRIELA, GAROFANO E CANNELLA

 

País ITÁLIA

Editora RIUNITI

Ano 1982

Autoria da capa SEM REFERÊNCIA

Autoria da ilustração BALTHUS

Técnica a ilustração PINTURA

Tradução GIOVANNI PASSERI

Versão do texto da capa SILVIA LA REGINA ( para fins deste

trabalho)

A Itália ocupa a Península Itálica, no Sul da Europa, e algumas ilhas do mar Mediterrâneo. Sua religião dominante é o cristianismo. Na Antiguidade, essa região foi responsável pela difusão da língua e da cultura latina pelo mundo. Roma, sua capital, preserva importantes monumentos desse período. A sede da Igreja Católica, instalada em seu território, tem forte participação na vida nacional. Durante o período do Renascimento, o país tornou-se centro de irradiação cultural e científica.

Em 1982, quando essa capa foi lançada, havia uma séria disputa política e ações de terrorismo em torno do governo envolvido em acusações de corrupção no país. Dois anos depois, assumiu o primeiro governo socialista.

Novamente, uma tela de expressivo pintor vai ser selecionada para ilustrar a capa e, mais uma vez, o autor é de uma cultura bem diversa da cultura do escritor brasileiro. A ilustração escolhida para essa capa é de Balthazar Klossowski de Rola, que assinava Balthus, artista plástico polaco, filho de um crítico de arte e de mãe pintora. Começou a pintar com 16 anos, mas como autodidata porque o pintor Bonnard, amigo do seu pai, dissuadiu-o de estudar numa escola de pintura. Desta maneira, o jovem, aprendendo a técnica, continua a recopiar as obras da Renascença e de Poussin, o seu pintor preferido. Fez sua primeira exposição em 1934 em Paris, com pinturas sobre a vida cotidiana de interiores, como também alguns retratos como o de Miró e a sua filha. Alguns críticos ressaltam que estes retratos aproximam-se do realismo fantástico de alguns pintores alemães como Gosz, Dix e Berckmann, e do grupo francês "Forces Nouvelles". Seis anos depois da exposição inaugural da sua carreira, Balthus afirmou-se com um estilo denominado pela crítica de "erotismo intimista", que enfocava ninfetas em interiores, adormecidas, cândidas ou perversas, passivas ou angustiadas. Costumava afirmar que os seus personagens eram seres puros e sem idade, pois eram, na sua maioria, crianças, num misto de perversão e ingenuidade. Considerado desenhista de grande precisão, trabalhava com várias técnicas, retomando o mesmo tema e variando a composição. Dedicou-se às obras em série executando O Jogo de Cartas em 1944-45, 1948-1950, 1973; O Sonho em 1955-56, 1956-57 e as Três Irmãs em 1959-64, 1964-65 e 1965. Era conhecedor da história da arte, e a sua pintura denota influência da pintura oriental, mas dizia que a arte era um ofício, considerando-se apenas um trabalhador.

Convidado por André Malraux, em 1961, passou a dirigir a Academie de France, Ville de Médicis, em Roma, cargo que ocupou até o ano de 1978. Viu a sua carreira consagrada quando expôs seus trabalhos nos grandes centros de arte contemporânea: Centro George Pompidou, em Paris, o Metropolitam Museum de Nova York e o Museu de Arte Contemporânea de Chicago. Destacou-se com prestígio nas exposições Documenta VI, em Kassel, na Alemanha, e na Bienal de Veneza em 1995. A sua vida está envolta em mistérios e controvérsias que resultam também da autoexclusão a que se submeteu. Faleceu aos 92 anos no seu chalé, em Rossiniere, na Suíça, onde viveu muitos anos em reclusão, com a sua esposa Setsuko.

Suas telas são consideradas como dotadas de uma geometria rigorosa, cujos ambientes demonstram uma aura de mistério. Cedia suas obras apenas para amigos, mas deixou cerca de 300 telas. Era uma pessoa discreta, silenciosa e se considerava como pertencente ao século XIX, pois era amante da privacidade e da intimidade, por isso poucas vezes se deixou fotografar. Ao falecer, deixou três filhos, fruto de dois casamentos, e uma obra das mais bem cotadas do mundo, algumas delas já tendo atingido recordes mundiais.

A obra que ilustra a capa dessa edição italiana de Gabriela, Cravo e Canela chama-se Nudo davanti al camino (Nu em frente da lareira) e foi feita no ano de 1955.

Essa capa italiana traz como reflexo do texto amadiano o cuidado com a tradução do título, que é fiel ao título original do romance. Também o texto crítico, exposto na quarta capa, mantém essa fidelidade quando trata resumidamente sobre o que acontece na trama.

A imagem que ilustra a capa mostra uma menina, branca, de perfil que está nua diante de uma lareira, arrumando o cabelo comprido. A lareira é símbolo da vida em comum, segundo Chevalier e Gheerbrant (2001, p.536-537), da vida da casa e da união do homem e da mulher, do amor, da conjunção do fogo com o seu receptáculo. Representa o centro da vida, a porta para a aproximação entre as pessoas, por seu calor e sua luz. Sendo assim, o sentido da lareira pode lembrar o texto amadiano quando parece querer simbolizar Gabriela, jovem recém-chegada a Ilhéus, diante da vida que iria iniciar, a vida a dois, a vida afetiva com Nacib, como se estivesse no momento em que o fogo da menina fosse acender e aquecer o seu interior afetivo. Por outro lado, pode não ter nenhuma relação com o texto do romance e, talvez, insinue para a Itália uma cena de erotismo perverso, em que a menina nua pode ser, inclusive, um tabu para uma sociedade católica.

Acima da lareira, Balthus imprime um vaso, que é símbolo de contingente, tesouro, reservatório da vida, força secreta e receptividade, pela sua abertura superior. Segundo Sant'anna (1993, p.91) a mulher é um vaso que contém outro vaso, referindo-se às suas partes sexuais. O espelho impresso junto ao vaso, além dos vários sentidos já citados neste trabalho, pode estar representando a reflexão de quem olha para si mesmo, isto é, as reflexões da mulher que está em frente desse espelho.

A representação dessa menina de pele branca, nua, em frente à lareira e ao espelho, como se estivesse arrumando os cabelos, distancia-se das características da Gabriela. O estilo e os tons do papel de parede e pintura do quarto lembram ambientes sóbrios, decoração de ambientes de uma região de temperatura fria, diferente dos ambientes internos das casas brasileiras, da zona tropical como a cidade de Ilhéus, e diferente também das classes sociais descritas no livro. A menina representada lembra uma criança européia, de tez clara, o que parece mais próximo do ambiente e da criança do país do público-alvo. A escolha dessa pintura como ilustração do romance pode ter sido porque uma menina em posição sensual e provocante sexualmente demonstraria o interesse do capista quanto ao enfoque que gostaria de evidenciar na embalagem-capa.