Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 19 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Abílio

Abílio nasceu em Porto Alegre, no fim do século passado, para uma vida muito tumultuada em relação ao passado, ou seja, pela força do carma. Era filho único de pais humildes, aos quais o tempo proporcionou oportunidades que foram aproveitadas com honestidade, trazendo-lhes excelentes condições financeiras.

Abílio já nasceu com certo conforto e a sua juventude foi rodeada de carinho e amor que, quando exagerados, não deixam de prejudicar, predispondo a pessoa visada ao egoísmo. O amor na Terra ainda é mal interpretado, principalmente o amor dos pais em relação aos filhos. Em muitos casos, os seus tutelados são prejudicados pelo excesso de amparo e preocupações, o que impede a criatura de andar e tomar as suas próprias decisões.

É de bem alvitre que sejam instituídas na Terra, escolas sem barreiras religiosas, no sentido de orientar os candidatos ao casamento sobre como devem amar aos seus filhos, qual o posicionamento desses em suas vidas e até onde devem os pais atuarem como guias daqueles que o Pai lhes confiou. O abuso é que prejudica a compreensão entre ambas as partes. Geralmente os filhos tendem a se afastar do domínio dos pais, à medida em que adquirem idade e experiência e, nem sempre, aqueles aceitam perder o ambiente de autoridade e respeito que criaram. É claro que não deveriam faltar, igualmente, cursos para orientação dos jovens. Quantos adolescentes, diante da incompreensão dos pais, abandonam o ninho familiar com resultados muitas vezes desastrosos, por estarem, fora do lar, sujeitos a influências perniciosas!

Ainda bem jovem, Abílio manifestou vontade de ir para São Paulo terminar seus estudos, fato que criou no lar grande desarmonia.

Filho unigênito mimado, os cuidados ultrapassavam em muito o que seria normal. Certa época, porém, sua genitora caiu gravemente enferma, ficando sem esposo desorientado de tal modo, que não mais cuidava dos assuntos financeiros e familiares. O filho sofria a influência de alguns companheiros que já estavam na grande capital e que o animavam, dizendo que "ele deveria ser ele mesmo, quebrando esse negócio de laços familiares; que a vida era dele e que no futuro acabaria ficando sem os pais mesmo".

Abílio tomou a decisão de partir e assim o fez. O pai, nos primeiros meses, mandava algum dinheiro, que dava para o seu sustento na república e para as despesas com os estudos. Porém, dentro de algum tempo, influenciado por outros pais em idêntica situação, o genitor de Abílio tomou-se de aborrecimento contra o filho e lhe cortou a mesada. O filho, furioso, escreveu cartas ofensivas ao pai, que terminou por deserdá-lo, cortando completamente as relações entre eles. Depois disso, seus genitores mudaram-se de Porto Alegre para lugar ignorado, a fim de não serem encontrados pelo filho. A sua mãe morreu e o pai contraiu novo matrimônio, encontrando na nova esposa mais apoio para se afastar do filho.

Vejamos quanto o amor é egoísta, quando não assenta suas bases no Amor universal. Pode mudar de extremidade e tomar a expressão de ódio, por lhe faltar compreensão.

Apesar de tudo, Abílio era um moço bom e a sua programação o levara ao lugar onde deveria ficar para certos ajustamentos espirituais. Tivessem os pais a compreensão indispensável e ter-lhe-iam

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dado a ajuda necessária para que ele pudesse sentir mais cedo na carne o que é o mundo, tomando as rédeas da própria vida.

Sem recursos financeiros, Abílio foi atirado à rua pelos colegas, por não compartilhar das despesas na casa comum e perambulou durante meses pelas ruas de São Paulo, dependendo da caridade alheia. Com os estudos interrompidos, foi para Santos, onde não teve melhor sorte. Já não parecia mais aquele vistoso moço de outrora. Apresentava a pele macerada, os pés grossos, cabelos grandes e roupas sujas. Resolveu embarcar para o Rio de Janeiro, mas lá, nas primeiras semanas foi preso, por se parecer com um marginal muito procurado nas cercanias de Ipanema.

Diante de tudo por que havia passado, Abílio não achou que tinha se alterado muito a sua vida. Pelo menos, pensava ele, estava sob um teto e tinha comida, embora péssima.

Ainda na prisão, Abílio teve a oportunidade de conversar com o delegado, a quem, com muita humildade, rogou que o deixasse executar qualquer tipo de trabalho, enfatizando não ser o criminoso procurado. Com algumas investigações, foi constatada a sua inocência e o delegado, tocado no coração por mãos invisíveis que envolviam, acreditou nas palavras daquele rapaz. Ele foi atendido e levado para a casa do policial, sob sérias advertências acerca do seu procedimento no futuro. Abílio ouviu tudo aquilo e jurou que seu benfeitor não iria se arrepender do gesto humano e caridoso.

No espaço de dois anos, Abílio já quase fazia parte da família do delegado. A sua conduta mostrava que verdadeiramente era uma pessoa honesta, ganhando a confiança de todos. Passou a estudar nas mesmas escolas dos filhos do casal, aos quais já tinha como sendo seus próprios irmãos.

Um dia, Abílio se viu em sua festa de formatura, tendo nas mãos trêmulas o diploma de engenheiro. Emocionado, tinha diante de si o delegado, chorando, e os demais, que o tomaram como parte integrante da família, aplaudindo em alegria sincera. Naquele momento, lembrou-se fortemente de seus pais, principalmente de sua mãe, sentindo um amor e saudade imensuráveis por eles. Não suportou e as lágrimas molharam suas faces, em pranto copioso. No momento, todos pensavam, dado à sua sensibilidade, tratar-se de uma emoção comum, por se ter formado.

O delegado sentia uma alegria sobremaneira indescritível e pensava: "Por que não senti o mesmo que agora sinto, quando meu primeiro filho se formou em medicina? Não compreendo! Não compreendo!" Não sabia ele que naquele momento se completava o reajuste de desacertos que vinham do passado distante.

O amor pelos pais turbava a mente de Abílio e, no mesmo instante, a razão lhe aconselhava que aquela família, que lhe dera todo apoio, era a sua verdadeira família. A gratidão dava-lhe o conselho, entretanto, o coração o fazia lembrar-se dos seus pais no Rio Grande.

Passados alguns anos, casou-se com a filha de um grande industrial de São Paulo. Afinizou-se de tal maneira com a moça, que invejava a muitos sua vida em família. Levou o delegado e seus familiares a morar com ele na capital paulista, onde tudo corria às mil maravilhas.

De vez em quando, doía seu peito e o coração acelerava, diante da lembrança dos seus genitores. Recolhia-se, então, em profundas meditações, sem conhecer os fundamentos daquele estado psicológico e emotivo.

 

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Certo dia, conversando com um amigo em quem muito confiava, relatou seus conflitos íntimos. O amigo o ouviu pacientemente, esperou que a emoção de Abílio se extravasasse em lágrimas irreprimíveis, bateu de leve em seus ombros e falou diretamente ao sensível coração de Abílio:

- Caro amigo, o teu caso é bem semelhante ao meu. Eu sofri muito, mas agora estou curado dessa doença que é a emoção desequilibrada. porque compreendi que a vida não é somente esta, onde carregamos esse corpo físico. A vida continua, meu amigo, mesmo depois do túmulo. E sabes quem me curou? Foram Deus e Cristo, em primeiro lugar. Depois, meu caro, foi em uma sessão espírita, aonde eu posso te levar com grande prazer. Elas se realizam na Academia de Estudos Psíquicos "César Lombroso". O médium, que é a pessoa que recebe as mensagens dos Espíritos, chama-se Mirabelli e é uma criatura realmente notável recebendo mensagens em vários idiomas, quando "incorporado". Foi lá que, graças a Deus, eu tive o meu primeiro encontro com a Verdade.

Abílio sentiu, através da fala daquele homem, ao relatar as ocorrências espirituais, um impulso interno de conhecer aquela casa de Deus. Marcaram a data e foram.

Mirabelli já conhecia bem o seu amigo, a quem logo abraçou afetuosamente. O médium famoso, ao apertar a mão de Abílio, entrou em transe mediúnico, chamando-o de "Bibi". Abílio reconheceu imediatamente o timbre da voz: era sua querida mãe. Caíram em prantos os dois: filho e genitora. Depois de acalmados pelos presentes, ela falou a seu filho coisas muito particulares, entrando em detalhes que somente Abílio conhecia. Este, daquele dia em diante, passou a ser um assistente e trabalhador constante da entidade, abrindo a mente e o coração para a vida verdadeira, compreendendo que o que lhe faltava era essa filosofia maravilhosa, cujas bases Allan Kardec assentou na França, pelas obras que deixara.

Abílio, de certa feita, chegou a conversar com o Codificador incorporado no médium Mirabelli, tendo sido essa uma das suas maiores alegrias na doutrina.

O regresso de Abílio à pátria espiritual se deu quando, ao inspecionar o décimo andar de uma construção em companhia de alguns encarregados, desequilibrou-se, projetando-se no espaço. Tentou desesperadamente agarrar-se a um andaime, mas não conseguiu, vindo a cair sobre um poste de iluminação.

Abílio veio para cá e está conosco, livre das peias das provas irremovíveis e trabalha com muita alegria na preparação dos ambientes para que possamos fazer essa obra.

...o amor é egoísta, quando não assenta suas bases no Amor universal.

 

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