Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 22 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Galeno

Galeno teve a sua última reencarnação na Itália, em Gênova. Em três reencarnações que tivera, em países diversos, conheceu na carne o desconforto, a dor, a calúnia e o escárnio. Nessa última vida foi padre e soube sorver o cálice da amargura, transformando-o em vinho do Amor.

Foi perseguido até pelos seus irmãos de crença, pela renúncia que tivera a coragem de adotar. Nunca guardou para si um centavo sequer, que tivesse sido ganho em função religiosa. Sempre combateu esse comércio dentro da Igreja. Dedicava certas horas ao trabalho, era hábil carpinteiro, ganhando o necessário ao seu sustento com as próprias mãos.

Galeno viveu 91 anos bem vividos. As suas mãos calejadas refletiam as marcas do trabalho com Cristo no coração, porque trabalhavam com amor. Sua criatividade transformava o trabalho na madeira em uma arte sublime, no entanto, sentia o maior prazer quando empunhava as ferramentas na feitura de coisas úteis. Trabalhava por encomenda, mas, não gostava de idealizar e fazer estátuas ou imagens, por não ver nelas nenhuma utilidade e, ainda mais, por prenderem as pessoas no fanatismo,

Durante 23 anos, Galeno sofreu com duas chagas vivas nas nádegas, que o obrigavam a trabalhar sempre em pé. Nenhum remédio aplicado surtira efeito, mas agradecia, feliz, por ter as mãos livres para trabalhar. Era ele muito procurado em sua oficina, atendendo a todos sempre com bom humor; entretanto, jamais interrompia um serviço para conversas, argumentando que podia perfeitamente fazer as duas coisas a um só tempo. Graças à sua auto-disciplina, o velho Galeno se libertou das influências malfazejas. Não se ressentia mais com ofensas, de onde quer que viessem. Os seus superiores na religião respeitavam sua vida cheia de dignidade, mas procuravam afastá-lo dos meios mais requintados, por não ser um representante à altura do clero, nas vestes e na linguagem afetada que eles tanto valorizavam, para dar uma boa impressão. Mais ainda, ele recusava as ofertas polpudas que as consciências pesadas queriam dar em troca de alívio do remorso e de um lugar no céu. Vivia mais ou menos à margem da Igreja suntuosa, para viver a Igreja do Cristo, na simplicidade de sua oficina, recordando o sublime carpinteiro da Galiléia.

Galeno, quando sentiu que estava sendo afastado do seu posto na Igreja Romana, não revidou, não sofreu nenhuma emoção destrutiva, não julgou os representantes de Roma, nem ofendeu ninguém. Achou que era a vontade do Senhor e se lembrou de Paulo de Tarso, ao falar aos Tessalonicences, como se acha registrado no capítulo 5, versículo 18, da sua primeira carta:

"Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco".

Sentiu um bem-estar indizível no coração, ao recordar esse texto da epístola e em seus lábios, já acostumados a falar do Evangelho, formou-se um sorriso de paz, revelando o seu estado íntimo, onde o nobre coração fabricava estrelas de luz.

O velho Galeno, aos 90 anos, foi acometido de uma paralisia total nas pernas, que o prendeu a um catre, sob os olhos de uma família cristã, onde era tratado com todo o carinho, como sendo um pai espiritual.

 

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Ficou um ano resistindo nesse preparo para a morte, mas nem assim perdeu tempo: todos os dias tinha visitas que buscavam a sua bênção. Galeno nunca deixava de ler o Evangelho para todos os visitantes, com iluminadas dissertações, onde o Cristianismo primitivo era relembrado com todo o fulgor.

O venerando padre reconheceu, uma certa noite, que tinha chegado a hora de partir, sensação esta que não o perturbou; antes, lhe deu grande alegria. Esforçou-se para orar ajoelhado, porém, não conseguiu, em vista do atrofiamento das pernas. Começou a recordar muitos trechos do Evangelho, finalizando na oração que Jesus deixou como herança para toda a humanidade. Terminada a prece, não quis incomodar a família onde se hospedara por caridade: cerrou os olhos, que pouco já viam das coisas do mundo físico, e entregou o Espírito ao Senhor, em uma madrugada serena.

Veio receber Galeno às portas do mundo espiritual, o grande tribuno Mico Antônio de Pádua, e na freqüência onde vibrava o seu Espírito, centenas de almas beneficiadas pelas suas mãos generosas

cantavam hinos de louvor, pela vitória do Espírito sobre a carne.

Galeno estava livre e com sua consciência imperturbável diante do Senhor do Universo. Fora colher na seara do espírito, o que plantou na vinha da carne. O júbilo era total, entre aqueles que vieram buscá-lo para a Luz.

Não se ressentia mais com ofensas, de onde quer que viessem.

 

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