Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 37 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

A Dor É um Anjo

A dor nos faculta a energia divina, que esquecemos de acumular pelas virtudes.

Miramez

A dor é verdadeiramente um anjo, mas que nos aparece vestido de capa negra. Ela é a dinamite que esmigalha as pedras, para serem mais úteis à comunidade; é o recurso do progresso, quando alguém esmorece no avançar.

Mas, quem gosta da dor? Ninguém, a não ser o grande místico, que retira dela a força que educa os seus meios de trabalhar pela coletividade. Quem não gosta de ter ao lado, nos afazeres da vida, um instrutor? Pois ela, a dor, representa um guia seguro, desde quando percebemos a sua lição no silêncio que lhe é peculiar. Tirar a dor da humanidade, de uma vez, é deixá-la sem proteção espiritual.

A dor se manifesta em variadas modalidades, em todos os reinos da natureza. A pedra sofre reações interatômicas ao ser desprendida do agregado que lhe serve de ninho. O vegetal se contorce nas suas fibras mais íntimas, ao ser arrancado ou decepado pelas mãos que o progresso toma como instrumento. O animal geme e é tomado de pavor, diante dos que o perseguem e requerem seu concurso como alimentação. E o homem lamenta, chora e, por vezes, se revolta, quando a dor bate em sua porta, levando uma mensagem de renovação dos sentimentos.

Deus, como benfeitor universal, enviou os recursos para todos os reinos da vida, pelas mãos luminosas do Cristo: o Evangelho, que se vivido pelas criaturas, refletirá sua luz em toda criação. Quando o discípulo está pronto, aparece o mestre interno, em forma de conscientização da vida espiritual, e aí começamos a encontrar nos preceitos de Jesus, as leis que regulam a vida, dando harmonia a todos. Por enquanto, todos nós tratamos dos efeitos dos distúrbios mentais e físicos e nos esquecemos das causas que os geraram no turbilhão do tempo.

Mesmo que a dor venha como processo de evolução, se aprendermos a andar com ela, ouvindo os seus ensinamentos do fundo da consciência, ela se toma amiga, e quase não sentimos a sua disciplina, pela facilidade de aprendizado. O amor é o princípio e o meio que proporciona maior possibilidade de enfrentarmos os sofrimentos e vencê-los. O dever cumprido nos modela o ser para que possamos dar os primeiros passos no reino da felicidade.

Muitos encarnados que sofrem e aos quais os meios humanos não garantem a saúde, se desesperam e pensam em por termo à vida física. Alguns o fazem, como se isso fosse o caminho para a liberdade. Como se engana essa gente! A dor, meus irmãos, alcança muitas dimensões da vida, atingindo até os Espíritos do bem, buscando-os na intimidade dos seus centros emotivos, para que o amor frutifique em seu coração espiritual com exuberância.

Também o sexo nos acompanha, sem que o túmulo sirva de barreira para a sua expansão. Ele passa a agir em outra faixa de sentimentos, mas, ainda é a força poderosa que move mundos e sóis, homens, Espíritos e coisas.

O sofrimento da coletividade tem a sagrada missão de despertar todos os seres que não escutaram os apelos do amor, nem o convite da caridade. Agora, o cerco apertou. Antes, a dor falava por

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parábolas de difícil entendimento; entretanto, com a chegada dos tempos, ela vai falar abertamente todas as verdades que a nossa evolução comportar, dia e noite, noite e dia, porque o Senhor nos chama pela voz do progresso.

Nós afirmamos que nos umbrais que pertencem à Terra, os sofrimentos são maiores, bem maiores do que juntando todos os sofrimentos da matéria e multiplicando-os centenas de vezes, por serem, essas regiões, o mundo da realidade. O que pensamos e vivemos é o que somos. A carne constitui uma proteção, como esponja, aliviando a mente e abrandando os impulsos inferiores. Uma reencarnação é bênção de Deus, não se deve esquecer esta verdade.

Estamos falando da necessidade da dor e, se tivéssemos espaço suficiente, poderíamos discorrer muito mais sobre ela, que tantos benefícios traz para a humanidade. Se não fosse o aviso desse anjo mensageiro, como poderíamos cuidar da saúde? Quando as colméias celulares começam a desagregar-se em determinado órgão do corpo físico, a dor se manifesta como aviso inteligente, para que cuidemos de colocar em ordem o reino das pequenas vidas. A dor é, por assim dizer, um socorro, é a mais hábil vigilante do agregado fisiológico. Ela grita pela renovação dos tecidos, e até mesmo o inconsciente a socorre, enviando os seus recursos em forma de sugestões para o consciente, ou a comanda diretamente, por processos que escapam ao raciocínio humano. Inúmeras vezes, dentre os seres carnais, criaturas adoecem e se curam, sem que tomem remédios para isso. O organismo tem esta grande capacidade de auto-renovar-se pelos processos da respiração, da água e da alimentação, no comando de agentes secretos altamente dotados de renovação orgânica. São, por enquanto, segredos da fisiologia muito ligada às sensibilidades espirituais.

A mente, seja consciente ou inconsciente, é um segredo da vida, no seio das vidas que se agregam em torno dela. Se queres fazer uma experiência, podes começar hoje mesmo, caso estejas necessitado. Conversa com o teu corpo mormente com as partes assomadas pela enfermidade. As células são altamente obedientes ao comando central, bem como a outras divisões, uma das quais é o inconsciente. Os dois, em trabalho, proporcionarão milagres ao mundo físico.

É bom que se compreenda que não estamos aqui incentivando as pessoas a procurarem a dor, nem tampouco a miséria humana. Nós estamos estudando e proporcionando ensejo aos homens de boa vontade, para que juntos possamos compreender melhor as leis naturais, que sustentam toda a criação, porque elas, descobertas e respeitadas, são um indício de que já pisamos no caminho da felicidade. A dor se manifesta no mundo onde existe a ignorância, e a coletividade paga por essa ignorância em conjunto.

*

Estávamos em um grande salão, denominado Salão da Música, onde refazíamos as forças e buscávamos a inspiração, para que os trabalhos se harmonizassem e a alegria permanecesse nos nossos corações, como forca divina ao encontro das necessidades humanas.

As notas ali, vibravam na atmosfera espiritual em uma dimensão agradável. Existem melodias para todas as situações, na nossa esfera: música para nos dar coragem, que nos imanta de alegria pura, para o amor universal, para o perdão sem condições, para a paz, enfim para todas as necessidades. Porém, isso não significa que recolhemos virtudes ao ouvir músicas; não é bem isso que queremos dizer, mas que elas abrem em nós um campo favorável para aquisição das qualidades em referência,

 

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A música é como o sol, que despeja em toda a hu manidade os seus raios ricos e m vida e, n o entanto, pode prov o car a m orte, se a razão esquec er as leis que regula m o equilíbrio, ou se a própria natureza deixar de filtrar os seus benéficos filamentos luminosos. Tudo requer inteligência e discernimento do beneficiado.

*

Projetamo-nos no espaço imensurável, em busca de novos trabalhos que Vontade Divina nos mostrasse, pelos meios de que dispõe. Renovados pelos momentos no Salão da Música, todos vibrávamos na mesma freqüência de suavidade mental. A mente satisfeita atrai, por lei, o móvel da sua satisfação. A natureza está cheia de preciosidades, dependendo de quem aprendeu a encontrá-las. Tudo se encontra ao toque das nossas mãos; entretanto, para quem não sabe, a felicidade se recolhe em distâncias indizíveis. A música que agora ouvíamos era como que uma oração da mais alta harmonia; era uma verdadeira glória para quem tivesse ouvidos de ouvir, e Miramez nos ensinando sempre:

- Quando estamos irradiando um bem-estar como o que desfrutamos agora, é nosso dever primordial reparti-lo com a humanidade, com todos os que sofrem em todas as dimensões da vida, e isso o fazemos pelos nossos sentimentos de Amor. O amor visita, pelo impulso do coração, todo o universo, pelo processo da vontade. Aqui no mundo espiritual, pelo menos onde estamos, o trabalho com amor é o próprio céu em nós, acumulando energia superior em nossos corações.

Descemos em uma região de Minas Gerais, em pequeno município cultivado, onde a lavoura e a pecuária nos davam, ao chegar, uma visão encantadora, sob o clarão da pálida luz da lua. Manadas de gado bovino se dividiam aqui e ali nas pastagens, remoendo o alimento natural que a natureza lhes facultava. O sereno parecia, na atmosfera, um vaporizador em função permanente. Não sei por que nos abeiramos de uma das manadas e sentimos de imediato aquele calor agradável dos animais, envolvidos em seu magnetismo. O bafo do gado me fez lembrar a velha França, nos meus tempos de jovem.

Admirando os animais, pelas suas posturas e por tudo o que fazem pelos homens, por vezes sem retribuições, Miramez lembrou-se, com emoção, de Nosso Senhor ao chegar ao mundo entre os animais. Francisco de Assis, igualmente, nasceu em um estábulo, por ter inspirado a sua mãe e a sua ama para tal. Nós, ali em torno dos animais, cantávamos de alegria. Daí a instantes, aproximou-se de nós, como sendo velhos amigos de Miramez, Kahena e Padre Galeno, um grupo de Espíritos que nos abraçaram fraternalmente, colocando-nos à vontade naquela área onde trabalhavam. Senti a mente inquieta para saber. Aproximei-me de Miramez, interrogando baixinho:

- Quem são eles? Parece que eles são donos daqui!

O nosso guia espiritual sorriu e esclareceu:

- Não, Lancellin! . . . Eles são, igualmente, trabalhadores do Cristo com nós e a eles foi entregue, pelo Mais Alto, esse município, para que lhe pudessem dar assistência pelos meios possíveis, nos variados campos da natureza. Além deles, existem muitas divisões de assistência, que mais tarde poderás conhecer com mais detalhes. Vê quantos estão ao lado deles, a fim de receberem ordens de trabalho!

Olhei e fiquei admirado ao ver tantos Espíritos trabalharem no silêncio, em benefício da natureza. Os diretores do município, sorrindo para nós, nos disseram com humor:

 

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- Rogamos ao Criador que o trabalho desta noite seja abençoado por Ele e que os nossos irmãos em Cristo sejam confortados pelo tanto que merecem Que a bondade de Jesus modifique os corações endurecidos, nesta área onde trabalhamos em nome da vida!

Virou-se para Miramez com respeito e acrescentou:

- Quando precisar de nós, não reprimas o pedido de ajuda. Miramez, sorrindo, balançou a cabeça, retribuindo com gratidão:

- Sim! ... sim! ... A vossa ajuda é imprescindível. Que Deus vos abençoe! Haja o que houver, nas horas de alegria ou de dor, de paz ou de aflição, Kahena está sempre trabalhando. Enquanto estávamos dando atenção aos diretores daquela comunidade rural, ela, Celes e Fernando estavam colhendo o magnetismo animal que se irradiava em torno do rebanho tranqüilo, para ser aplicado onde houvesse necessidade. Ali estava um grande suprimento de energia, por isso várias entidades se mantinham em vigilância. Determinados tipos de Espíritos procuram se aproximar dos animais para sugar esse tesouro da natureza e, por vezes, conseguem o seu intento. No entanto, ali estava sendo dobrada a vigilância. O que me intrigou bastante foi ver uma tribo de índios, homenzarrões com mãos grossas que, quando foram chegando com os guias espirituais, montaram nos bois, nas vacas, com todo carinho, alisando-os com as mãos, naquela linguagem peculiar a eles, demonstrando aos animais amizade, com gritos animados e até beijando-os. Olhei para Miramez e solicitei sua opinião.

- Lancellin! . . . Esses são os recursos de Deus, em favor da criação. Esses índios que vemos não perceberam a nossa presença. A preocupação maior para eles é o dever, e foram adestrados para esse serviço de olhar as manadas contra os vampiros das trevas. Nesse campo eles são terríveis, mas obedientes ao comando.

E rematou:

- São peças da Vida Maior, que amamos muito.

Eu ainda estava com a sede de conhecer e manifestei novamente a minha dúvida Sobre o que Kahena estava fazendo, junto a Ceres e Fernando.

- Miramez ... Que tipo de magnetismo é esse, que não pode ser colhido no espaço, ou preparado por mãos hábeis no nosso meio?

O nosso guia espiritual passou os olhos pelo rebanho que nos servia de festa, e disse mansamente:

- Meu filho, em todo lugar do universo a perfeição exige divisões em todos os aprendizados. Podemos buscar tudo isso no grande Suprimento da Vida. Acontece, porém, que o tempo para nós é sobremodo precioso, e o animal é como que um laboratório respeitável, que transforma o hálito divino em magnetismo animal, ou, para melhor entender, o éter cósmico em éter físico dos mais pesados. Isso, com uma rapidez incrível. São nossos colaboradores no terreno da cura, na área em que foram chamados a servir.

Ainda tinha muito a perguntar, todavia, o tempo estava esgotado. Fervia minha cabeça, pensando na maldade que os homens desenvolvem contra os animais.

Partimos para uma fazenda, onde reclamavam a nossa presença. Era casa de engenho dos tempos modernos, porém, com as mesmas características dos antigos engenhos. "Ainda existe a escravidão"? perguntei a mim mesmo, e eu mesmo pude responder-me: "E como existe! ... Só que em outra

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modalidade. A vida transforma tudo, sem que o tudo desapareça, e os Espíritos, neste ínterim, ganham experiências e encontram a Verdade que os liberta definitivamente do Egoísmo".

A casa era grande e em torno dela estendia-se uma varanda, onde se viam várias redes com alguns dos capatazes deitados, conversando uns com os outros, esperando o patrão para darem notícias e receberem ordens.

Nos fundos, serenamente, corria um córrego e nele alguns patos deslizavam bicorando as margens. Os canaviais à vista mostravam um verde encantador. Era uma noite em que os próprios animais se esqueceram de dormir.

As estrelas emitiam luzes que, aos nossos olhos, apresentavam variados matizes. A lua parecia abrir-se ao abraço luminoso do Rei Sol, recebendo ondas de energias, que ela transmutava e despejava como elemento de vida, às vidas que pululam na Terra. Grande espetáculo na cosmografia do espaço!

Aos olhos espirituais, podia-se notar, sob a luz de estrelas cintilantes, anjos descendo do infinito como astros de luz que, ao se aproximarem da nossa casa terrena, dividiam-se em missões diferentes, trazendo a mensagem de Deus e Cristo para todos os departamentos da vida. E o bem confundindo todos os ideais e transformando-os em uma só força: a força do amor e da caridade.

Quando a gente olha para a grandeza da vida, para a obra de Deus, sentimos no coração que desaparecemos, que perdemos a nossa personalidade, parecendo-nos que nada somos. A Via Láctea, como um gigantesco carro cósmico balouçando no ninho universal, carrega consigo mais ou menos 120 bilhões de astros, cantando em harmonia divina, desde o simples átomo ao conjunto esplendoroso do agregado de luzes que nos fascina. Incontáveis galáxias ocupam o espaço infinito, cada uma representando uma nota harmoniosa na sinfonia universal.

Alta madrugada. O patrão entrou riscando as esporas no assoalho sensível de madeira de lei. Acordou os guardas da fazenda, que se puseram à disposição do senhor. Ele, sorrindo para mostrar o zelo pelos seus servidores, ordenou:

- Tragam-me uma bebida! Estou com sede e fome!

Em poucos minutos alguém já o tinha livrado das botas e a vasilha de água morna estava chegando para banhar os seus pés, velho costume desde rapazola. Tinha um ventre volumoso, sempre faminto, e a alegria aflorava nas faces queimadas de sol, quando via a refeição servida. Conversaram muito à mesa e foram dadas ordens mais severas em relação aos trabalhadores que, de sol a sol, enfrentavam tarefas pesadas, para não serem advertidos ou convocados a serviços piores.

Em dois bancos que o tempo marcara com o brilho do uso, estavam descansando duas entidades de porte esquisito, cada uma delas armada, com cartucheiras e facões. Usavam alpargatas de couro cru, chapéus abanados e uma série de bugigangas que a ignorância faz reunir.

Fui em busca de Miramez, e logo ele me explicou:

- Essas entidades foram, quando na carne, donas desta fazenda, e ainda continuam na posição de mandatários, pai e filho. Espíritos terríveis, que nunca se lembraram do próximo, nem da própria família, tinham sempre em primeiro lugar a fazenda, o gado e a lavoura. O egoísmo, na vida deles, era o senhor que a tudo dominava, e o apego às coisas terrenas era de tal intensidade, que se esqueciam de si mesmos. Vê, Lancellin, o estado destes Espíritos! Eis aí a cópia do que foram no passado!

Deixou que eu pensasse um poucos e continuou:

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- Esse senhor de engenho que ora descansa diante dos seus capangas, é um anjo, em comparação a esses dois infelizes que desconhecem o verdadeiro estado em que se encontram. Analisa a força do progresso, que ninguém domina, porque é Deus agindo pelo instrumento do tempo!

Meditei e vi que era verdade. Antes que eu perguntasse mais, o querido instrutor, lendo os meus pensamentos, já acrescentava:

- Graças a Deus os futuros donos desta fazenda serão melhores do que esse atual, sem que eles percebam. Dois dos seus filhos já se encontram em São Paulo estudando, e duas moças já formadas viajam para o exterior. Já têm uma nova mentalidade, sem querer expor para a família os seus ideais com relação aos bens materiais e os seus comportamentos diante da humanidade. O mal é, por natureza, transitório, meu filho. Somente o bem avança no tempo e no espaço, como sementes fecundantes de multiplicidade sem fim!

Fiquei olhando para Miramez, em êxtase. Voltei a mim dizendo que ele tinha razão, e essa razão destampou uma alegria intraduzível no meu coração. O nosso guia, na sua simplicidade rematou:

Dize assim, Lancellin: Jesus tinha razão!. ..

Saímos pelos campos, onde a agricultura se estendia sem fim, florescendo na sua majestosa posição. Espíritos de várias naturezas transitavam na lavoura com afazeres múltiplos. Luzes riscavam o espaço, de vários pontos da fazenda. Em muitos casos, eram sinais de entidades para entidades, de quem a telepatia não era conhecida, ou os pensamentos não chegaram a desenvolvê-la.

Kahena estava encantada com o céu; gostava da natureza, e nós outros compartilhávamos com ela o deslumbramento de ver e sentir a vida festejando e se expressando em todos os reinos da Terra. Margeando uma grande lagoa que se encostava ao pé de um penhasco, enfileiravam-se muitas casinhas mal construídas, onde inúmeras famílias moravam, em condição de vida que se aproximava mais dos animais. Homens truculentos se esticavam em esteiras grossas, feitas de folhas de coqueiros, como sendo camas. Mulheres e crianças estavam na mesma situação de penúria. Os últimos, um tanto ou quanto doentes. Avançamos mais e adiante fomos encontrar um velho, não muito idoso, mas que o tempo e os maus tratos o fizeram assim: rosto enrugado e pele tostada pelos raios do sol da segunda fase do dia, deitado e gemendo, virava-se de um lado e de outro, pedindo a Deus a morte, enquanto os outros ressonavam, após as lutas do dia.

Os pés do senhor enfermo, ninguém os reconheceria como tal, pelas fendas que se abriram nos calcanhares e o inchaço que se estendia até os dedos. O ar mal entrava em seus pulmões, e o coração parecia uma bomba estragada. A cor pálida demonstrava a má circulação do sangue, e o fígado começava a endurecer. O pensamento do nosso irmão parecia igualmente morto, pois a energia que o sustentava mal fazia festa no centro coronário, sem conseguir promover a devida irrigação nos centros de força.

Não sei como ainda vivia. Uma coisa nós tínhamos que admirar, por não encontrarmos nos centros civilizados: era o ar ambiente, com aquele cheiro saudável das campinas. Parecia que era soprado pelos anjos que viajam em suas correntes de energias. Fiquei novamente inquieto, querendo explicação para algo que me inquietava. Quem era aquele homem, por Deus, que sofria tanto? Miramez, como sempre disposto a nos ajudar a compreender as coisas e as leis, e que sabe escutar os pensamentos, como os encarnados ouvem as palavras a eles endereçadas, me acudiu:

 

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- Lancellin, esse senhor é o magarefe da fazenda, e o pior é que desempenha sua função com maldade. Tem o prazer em matar, sem piedade. Não é bom que descrevamos os seus gestos porque os encarnados já sabem, com clareza, o comportamento dos homens nos matadouros. O inconveniente é que a descrição de comportamentos inferiores acompanham, o papel e a tinta, tornando quem lê, influenciado de um modo que não desejamos. Descrever a doença desse homem é desperdiçar tempo sem proveito. Vamos ajudá-lo sem demora, e que Jesus nos ajude a ajudar melhor!

Kahena foi chegando com Celes, os dois em alegria sem precedentes, envolvidos na simplicidade e na vida da natureza. Entregaram a Miramez os fluidos que foram colhidos no convívio com os animais e no silêncio da natureza. Miramez, com todo o carinho, recebeu aquele tesouro, como ele sempre diz. Fez algumas evoluções com as mãos e pudemos notar que a massa fluídica começou a se iluminar, tomando coloridos variados, e mostrando-se com mais vida. O nosso guia espiritual desdobrou os fluidos que pareciam enrolados como que em um lençol de energia, embrulhando todo o nosso enfermo com aquela sutil pasta invisível aos olhos humanos. Durante esse transe, que nos fez admirar a habilidade do nosso companheiro, o Padre Galeno e os outros irmãos que nos acompanhavam estavam em preces, de maneira a facilitar ainda mais a operação espiritual.

Daí a instantes, aquele lençol magnético foi se enchendo de maneira descomunal, como se fosse um balão, tomando uma cor arroxeada e cheiro desagradável. Foi nessa hora que as mãos de Miramez operaram com rapidez, deslocando o manto fluídico imantado com o magnetismo inferior do enfermo, que se enrascava no centro do balão. Por fim, separou-o do corpo do doente e, com a nossa ajuda, o retirou da casa, onde o soltamos no espaço. Ele foi tomando alturas e, sem que perguntássemos, Miramez foi dizendo para nos esclarecer:

- Esse balão de energias deterioradas vai subir até determinada altura, e se desfará em contacto com certas correntes de energias, provindas de outras casas de Deus e que se alinham com os meridianos da Terra, os quais muitos julgam serem imaginários.

Ela voltará às mãos da natureza, obedecendo à lei natural de que nada se perde na imensa vinha do Senhor.

Fiquei impressionado com o ocorrido, pois o homem era matador de animais, os próprios animais forneceram o remédio para a sua cura, sob as bênçãos de Deus. Pensei: "isso é o amor do Pai operando maravilhas, mesmo na inconsciência dos que morrem pela violência do homem".

O homem que gemia asserenou. O cenho, que estava cerrado, desfez-se, ele dormiu. Espíritos malévolos rondavam a casa, gritando por ele:

- Acorda, Manuel! Hoje é dia! Nós queremos sangue, nós precisamos de sangue! Você é um frouxo; qualquer doencinha impede as suas obrigações mais sérias. Vamos, homem, lembre-se do nosso pacto!

Qualquer homem, dos mais corajosos, ficaria estarrecido diante das formas com que essas entidades se revestiam. Os desenhistas das revistas de terror não devem ter imaginado tipos como aqueles, porque os seus trabalhos, em comparação aos verdadeiros vampiros, são complacentes, e as personagens suas até parecem anjos.

Aproximei-me do "seu" Manuel; passei a auscultar o seu motor de vida, e notei que o ritmo cardíaco estava harmonioso. O sangue viajava nas veias sem maior impedimento, irrigando muitas áreas

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até então sem os recursos do plasma de vida. Os pulmões, como dois foles, voltavam aos trabalhos normais. O duplo de "seu" Manuel se encontrava em condições penosas, já se desprendendo do corpo físico com inúmeras dificuldades. Ajudámo-lo a sair da sua pesada roupa de carne e ele sentia que havia alguém ao seu lado; não obstante, a sua visão deixava de confirmar o fato. Kahena e Celes, abeirando-se daquele irmão, começavam a ficar visíveis. A primeira o cumprimentou dizendo:

- Como vai, meu filho, passa melhor?

Ele, ao ver aquela mulher toda simpatia, todo amor, desfez-se em lágrimas. Ela, esforçando-se para ocultar a claridade oriunda da sua intimidade espiritual, pela força da humildade, não o conseguiu de todo, e "seu" Manuel, já ajoelhado, pediu-lhe a bênção, dizendo emocionado:

- Nossa Senhora da Conceição, eu gosto tanto da senhora e peço muito para me proteger, junto com a minha família. Ajude-me! Eu preciso sarar, eu preciso sair desta vida de matar os animais! Eu tenho sonhos horríveis e sinto que a minha profissão não condiz com a presença dos santos que adoramos. Pelo amor de Deus, ajude-me! Pede a Deus por mim, quando a senhora estiver com Ele!

Kahena insistiu para que ele se levantasse, mas ele não obedeceu, e beijava as suas mãos, que as lágrimas irrigavam com abundância. Ele não conseguiu mais conversar. Kahena estendeu a destra em sua cabeça e lhe falou ao coração:

- Meu filho! ... Vamos pedir a Deus e a Jesus, que se faça a vontade do Senhor, e não a nossa. Contudo, eu creio que o nosso irmão já se aproxima do arrependimento verdadeiro. Apega-te a esse sentimento e não voltes atrás, porque, estando ele bem firme em tua mente, apoiado pelo coração, favorecerá a tua libertação do peso deste ofício que, diante da lei, é um escândalo, mas como ainda é necessário o escândalo, deixa que os que estiverem em faixa inferior continuem matando. Quanto a ti, o progresso diz que deves parar.

Ele levantou-se com dificuldade e Kahena abriu os braços em sua direção, acolhendo-o ao encontro do seu magnânimo coração, em um abraço com tanto amor que deslocou da sua cabeça uma espécie de coroa com dois cornos, que a falange dos vampiros tinha colocado no topo do seu crânio. Ele, livre daquilo, respirou tranqüilo como se estivesse no céu, com aquele anjo que abraçara, e foi dizendo:

- Graças a Deus, graças à senhora, eu estou bom!

Kahena, neste momento, cerrou o semblante, meditou alguns instantes, e emitiu dois silvos, que saíram da abertura dos seus lábios em uma faixa estridente. Com poucos instantes, chegaram duas entidades musculosas e ouviram a palavra de Kahena, já sorridente:

- Levem, meus filhos, esse irmão para um passeio. Ele precisa refazer-se nas campinas, sob a luz do luar. Que Jesus os abençoe.

Eles não responderam e saíram prestativos, como um jato nos céus da própria Terra.

Eu estava com a mente cheia, querendo descarregá-la em perguntas, e não perdi tempo. Tendo Miramez ao lado, desfechei essa pergunta:

- O senhor poderia nos explicar por que esse homem de condições espirituais inferiores tem essa proteção, sobremodo excessiva, enquanto alguns que estão se esforçando para melhorar não têm essa assistência?

Miramez, que parecia brincar com uma flor, admirando a natureza, falou com disposição de ajudar:

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- Lancellin, de agora em diante é que esse irmão vai sofrer. Ninguém escapa da justiça de Deus instalada em toda a criação. O arrependimento é, por assim dizer, uma barreira para impedir que a alma continue a errar, e a dor moral que ele sente agora é mesmo o Anjo que lhe vai ensinar a lição. Vamos consultar o Velho Pergaminho em Jó, capítulo trinta, versículo dezesseis, que nos esclarece o que vai ocorrer com esse nosso irmão em Cristo. Ei-lo: "Agora, dentro em mim, se me derrama a alma, os dias de aflição se apoderaram de mim". Vão começar nele os dias de aflições espirituais para esgotamento do mal que ainda reside nele em forma de condicionamento; contudo está muito bom. Roguemos ao Senhor que ele não mais plante sementes que não sejam do amor.

E quanto aos que se esforçam, Lancellin, em tua observação, esses já passaram pelo período de semeadura do mal e agora colhem o que plantaram. Se compreenderem a lição da dor, ela é breve, por cessar a sua necessidade de estadia na alma que a requer por ignorância. Nunca penses algo contra Deus quando deparares com certos dramas assustadores. Ele é todo amor e todo justiça, e, tornamos a repetir o que falamos alhures: os infortúnios nunca, jamais, erram o endereço.

Fiquei com vontade de acompanhar os dois Espíritos de aparência rude que serviam à Natureza, e fazer uma observação do que eles iam fazer, para o descanso e recomposição das forças do senhor Manuel, mas o dever me mostrava que deveria acompanhar o grupo de trabalho, ao qual pertencia, por compromisso.

Miramez meditou um instante, como se houvesse se esquecido de alguma coisa e completou:

- A assistência que recebe o irmão Manuel, que parece de admirar, é por algo muito profundo. Sabes o que é? Ele é também filho de Deus, igual a nós outros, e faz parte do rebanho do Cristo, que disse na inspiração do amor

"Nenhuma das minhas ovelhas se perderá".

O nosso irmão, acordando ao raiar do sol, como tem costume, vai se sentir alegre pela melhora física. Ele vai permanecer encarnado por muito tempo ainda, e que Deus o abençoe sempre.

A família pequena, apenas quatro pessoas, dormia profundo sono. Comecei a analisar o cordão fluídico de Manuel, que antes era de uma cor parda, escura, depois passando a cor de sangue fechado. Agora, tinha mudado como por encanto e podíamos, pelo esforço visual, notar os filamentos que compunham a corda de prata que estava ligada entre os supercílios. O corpo de Manuel estava na posição de barriga para cima, e os filamentos já brilhavam e vibravam, tingindo-se mais para o verde-claro, com alguns toques do azul leve. Observando mais de perto, ajustando as minhas lentes espirituais, qual faz o encarnado com o binóculo, dava para perceber as correntes de energias sutis que deslizavam nos canais destes filamentos invisíveis aos olhos humanos e de muitos Espíritos. É um verdadeiro espetáculo a beleza natural da vida.

Miramez aproximou-se de mim e falou ao pé do meu ouvido:

- Lancellin, isto que estás observando é uma ciência muito mais profunda do que pensas. Se tiveres condições, poderás escutar até a música que esses filamentos tocam: eles vibram uma gama de notas musicais e falam da harmonia que a mente desfruta, seja por conquista, seja por empréstimo, quando está em companhia de alguém que desfruta alguma paz de coração. Também tu poderás fazer, pelo adestramento da mente, uma ligação no filamento-mestre, de tonalidade onde predomina o amarelo. Ele é responsável pelas imagens, e transmite nitidamente tudo que o Espírito vê, ouve e fala, como se

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fosse uma estação de televisão transmitindo em circuito fechado. A mente, nesse caso, transmite com toda a nitidez para o cérebro e o corpo de carne, as reações do Espírito, no mesmo nível dos pensamentos. Até as curas que forem feitas no corpo astral se refletem no físico, como as doenças idealizadas repercutem no campo fisiológico.

Meditou por instantes, e continuou bem humorado:

- Quanto a ti, prepara-te! ... Descansa a mente, em um relax, deixando que o fluxo magnético que iremos projetar em certo centro de força do teu corpo, flua livremente, e depois completaremos a operação. Observa o nosso irmão onde ele estiver, sem nenhuma reação negativa, esquecendo todo tipo de julgamento, sem faltar a luz do amor no teu raciocínio, para que possas ver com mais clareza onde se encontra o Manuel, reabastecendo suas forças e revigorando a alma.

Não tenho palavras para dizer, nem a linguagem humana dá-me recursos para descrever, o que pude, por misericórdia divina, assistir. As imagens que eu podia recolher, e que deveriam chegar ao cérebro do irmão Manuel, eram sobremaneira vivas e, ainda mais, de um colorido espantoso. Se estivesse no local, ao lado de Manuel, talvez não observasse com tamanha clareza o que eu via e ouvia pelo desvio, do espetáculo projetado para o corpo de carne do nosso referido irmão. Ainda mais, ouvia o que eles conversavam, sentia o cheiro do ambiente acolhedor e, se quisesse, poderia transmitir opiniões, pelos mesmos processos, e ser atendido por aqueles companheiros que ali se encontravam naquela reunião esplêndida, onde a educação espiritual tinha prioridade sobre todas as coisas. O salão parecia ser ao ar livre, com mais de quatrocentas almas, que assistiam com interesse.

Foi uma bênção de Deus, a nova experiência para mim. Nada perguntei, pelos meios que a natureza me facultava, a quem estava na reunião distante, por faltar-me capacidade espiritual para tal mas, senti-me recompensado pelo que tive a oportunidade de contemplar sem merecer. Esqueci-me dos recursos para ouvir a música, diante de tamanha dádiva que tinha recebido pelos processos engendrados por Miramez, graças a Deus.

Tudo aqui se assiste por mudança de dimensão, e nós mesmos às vezes nos confundimos, ao tentarmos explicar através das letras. Voltei ao natural e comecei a verificar o corpo do irmão Manuel, tranqüilo, respirando normalmente. O cordão fluídico já se mostrava de um azul encantador. Miramez olhou também, sorrindo, e falou prazeroso:

- Vamos agradecer ao Senhor e a Cristo por essa manifestação da bondade divina, por intermédio dos trabalhos que aqui foram feitos!

Padre Galeno, olhando as estrelas, mostrava com o dedo em riste algum ponto no universo a Celes, Fernando e Abílio e eles, admirando falavam todos de uma só vez:

- Como pode ser?

Fui encarregado de fazer uma prece, e assim me expressei, sentindo-me a menor peça da vida, dentro da Vida Maior:

"Senhor Deus!... Soberano em todos os mundos que circulam no infinito!

Não sabemos como agradecer as bênçãos que recebemos no clima da misericórdia que não merecemos. Cada dia que passa, é como um ponto na eternidade, minúscula parcela na contabilidade do Senhor. No entanto, esse dia, meu Deus, para nós é valioso, e nós pedimos que nos ajudes a aproveitar

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esses minutos no serviço da fraternidade que esplende o Seu amor, sem barreiras de ideologias e filosofias teóricas.

Ensina-nos a trabalhar no silêncio da vida, e nunca pensarmos na reclamação que desfaz o valor do Bem que intentamos fazer. Ajuda-nos a amar, para que o nosso amor seja compensador, transmutando-se em todas as virtudes, como sendo frutos dos céus e flores da caridade.

Ajuda-nos a ajudar mais. Nós Te pedimos por esse humilde lar que ora visitamos, e no qual as Tuas bênçãos foram mais visíveis, doando a paz a essas criaturas que sofrem. Tem, Senhor, piedade de todos esses outros que trabalham nesta fazenda, e molda mais o coração do senhor deste engenho para que ele possa ser mais justo e mais paciente com aqueles que o ajudam a ganhar o pão de cada dia. Dá um toque em suas mãos, Senhor, para que elas não sintam a influência do egoísmo e irradiem mais amor.

Pedimos por todos os que trabalham neste sítio da Terra, como Espíritos, ajudando por amor a todas as criaturas que transitam nestas plagas abençoadas por Deus.

Pedimos por esses companheiros, através dos quais nós aprendemos muito, pela renúncia e pelo silêncio, para que nós pudéssemos falar. E nós pedimos mais, que o Senhor nos ajude a falar bem, salientando mais as coisas nobres!

Abençoa, Jesus, a todos nós, agora e sempre ".

Tínhamos a impressão de que alguém passara por ali espalhando pétalas de flores, em algum carro de luz. E elas tinham o endereço certo: procuravam centro de força cardíaco, perfumando-o no mais intenso aroma que se pode conhecer na Terra, e a alegria se manifestava em nós, não somente nos lábios mas, principalmente dentro d'alma. Abílio comentou:

- Meus irmãos, quem conhece e sente o que conhecemos e sentimos enfrenta qualquer coisa, na carne e fora dela, para a conquista do amor sublimado cuja fonte inesgotável deve ser o coração. Eu vos peço licença - continuou Abílio - para dizer mais alguma coisa, e essas palavras são dirigidas mais particularmente aos irmãos que ora ocupam um corpo na vida terrena: que sejam pessoas de bem em todos os momentos da vida e corretas em todos os seus gestos. Aproveitai a oportunidade de estardes reencarnados. Vós fostes escolhidos e chamados para essa corrente evolutiva, e a carne é uma bênção dos céus em empréstimo de urgência, porque é passando por ela que podemos chegar às culminâncias da Vida Maior. Que cada um cumpra os deveres assumidos no plano espiritual que desses deveres todos carregam a intuição na alma. Ninguém é carente de diretrizes. Do bruto ao anjo, do soldado ao general, do camponês ao chefe da nação, da criança ao velho, não existem barreiras para quem quer servir de instrumento do Bem. Quando servimos na vida com Jesus Cristo, somos colocados na vanguarda do amor que unifica todas as criaturas na fraternidade universal.

Homens, escutai! Estamos agraciados por tantos avisos por tantas revelações, que o merecimento se escondeu sob o manto da misericórdia, e o que espera o homem de bem é tão fabuloso que, com a limitação da palavra, não conseguimos traduzir a realidade. A Terra é uma lavoura grandiosa. Plantai, mas plantai sementes valiosas, porque o Espírito é o grande celeiro onde será recolhido o produto desse plantio.

Todas as revelações que já foram feitas por intermédio da mediunidade ainda não passam de simples anúncios. Os homens mais estudiosos desconhecem mais de noventa por cento da realidade dos

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céus, dos planos e sub-planos onde a vida estua sem interrupção. Começai a combater uma das chagas mais terríveis da Terra, a qual, muitas vezes acompanha os homens depois do túmulo: o egoísmo. Dele derivam muitas outras enfermidades da alma, impedindo-a de sentir a glória do Senhor, que se manifesta em todas as direções da criação.

O nosso interesse maior na educação dos sentimentos é a renovação das criaturas, aceitando o Cristo e vivendo os Seus ensinos, cada dia, cada hora e minuto. Que o Senhor nos abençoe!

Pensei que iríamos embora, quando Miramez disse:

- Vamos ao fruto dos esforços feitos por todos vós!

Rumamos para outro rancho, bem acolhedor, de três cômodos, simples, mas onde a limpeza se expressava como agente agradável. Penetramos na casa. Um casal estava dormindo na suavidade da noite, e uma entidade recebeu-nos com cordialidade. Pela sua expressão, notávamos ser ela portadora de muita elevação espiritual, no entanto, procurava manter em seus gestos a simplicidade dos donos da casa, escondendo sua grandeza de alma.

Aproximei-me de um pote de barro, cheio de água, e pude observar o líquido divino saturado de fluidos espirituais. Que maravilha! Miramez já tinha me falado que a água de um lar está sempre magnetizada pelos sentimentos dos seus habitantes. É uma verdade. O anjo daquela residência simples olhou para Miramez com humildade, e disse:

- Podemos acordar os companheiros Seis e Sete, devido aos seus compromissos com o grupo no qual ora trabalham para que a fraternidade cresça no mundo?

Miramez aquiesceu, sorrindo otimista. O Espírito protetor daquele lar levou a destra aos fios de prata que buscavam o infinito, murmurou algumas palavras e logo, assustados, eles acordaram! ... Seis, que era a mulher, perguntou ao Sete:

-Tu me chamaste?

-Sete respondeu:

- Não, filha, acordei também ouvindo a tua voz. Seis compreendeu sorrindo:

- Esqueceste dos nossos compromissos com os trabalhos espirituais hoje? Eles já chegaram.

E verdadeiramente a Seis estava nos vendo, como se estivesse conosco em espírito.

- O nosso anjo é que nos chama. Sete respondeu com bom humor:

- Estamos prontos para os trabalhos que eles desejarem. Para nós, será uma grande oportunidade de aprender e de servir, se servirmos para alguma coisa!

E sorriram os dois. Ele levou a mão até uma sacola próxima à cama e pegou um volume da Bíblia Sagrada. Fechou os olhos com humildade e pediu a Deus, de coração, que o ajudasse a abrir-la, e seus dois dedos polegares se iluminaram e ele abriu respeitosamente no Salmo 23, de Davi. Entregou o livro para a Seis para que ela lesse. Com devoção e carinho, nossa irmã passou a ler, em um tom que nos comoveu:

"O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso. Refrigera-me a alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra e da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo, a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas-me uma mesa na presença dos meus

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adversários, unges-me a cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre ".

E acrescentaram os dois, em uma só voz:

- Sempre te amamos, Senhor!

Naquele casebre humilde, não havia serviço para Kahena, Celes, Abílio e Fernando; somente para mim que estava anotando os fatos ocorridos, para o Padre Galeno, que iria recebê-los, e Miramez, que ainda ajudava no desprendimento consciente de Seis e Sete, na paz de Deus.

Miramez, no ambiente mais apurado, que o sacerdote estava fazendo pela oração, aplicou passes nos dois companheiros em Cristo, e eles responderam como o pintainho ansioso para nascer, quebrando a casca do ovo que lhe serve de câmara para ser gerado.

Os duplos saíram dos físicos, deixando-os na cama como sendo dois sacos de água, em uma vida puramente vegetativa, ligados por dois cordões cor de prata que, como se fossem vivos, dava voltas no espaço do quarto, qual fossem serpentes ao som de flautas.

Seis e Sete abraçaram efusivamente os nossos companheiros, já acostumados a vê-los neste labor divino. Enquanto descansava o fardo fisiológico, o Espírito trabalharia em outra dimensão de vida. Ao chegar no nosso lado, as roupagens eram outras: revestiram-se de luzes que encantavam. Era, verdadeiramente, um casal de estrelas.

Fiquei assustado com o fenômeno, e busquei Miramez para saber o porquê daquele espetáculo, mas, ele pediu que eu esperasse. Eu tinha a mente inquieta, porém, o coração pedia disciplina... Custei, mas dominei meus impulsos de indagar.

Entrelaçamos as mãos e volitamos. Padre Galeno olhava as estrelas em todas as direções, encantado com o espetáculo da natureza e com as luzes que eram despejadas em todos os rumos. Esticava as mãos, como que apanhando os raios em direção à Terra, e beijou suas próprias mãos, como se fossem do criador, agradecendo a vida, agradecendo o amor de Deus por toda a criação.

Demos entrada em um hospital de uma grande metrópole brasileira e fomos levados pelos dirigentes espirituais da casa para o setor de tratamento do pênfigo ou fogo selvagem. Dava-nos uma forte impressão de que aqueles irmãos ali doentes eram recém-vindos de um grande incêndio. A pele parecia queimada, e mesmo com o asseio peculiar das casas de saúde, o mau cheiro recendia por todo o salão. Era de incomodar; parecia, também, o odor característico a corpos que, dias depois de terminadas as batalhas, ainda não encontraram a bênção da sepultura, putrefazendo-se ao sol.

O casal de estrelas, passamos a chamá-los assim também, entrou sorridente, dando a entender que já era acostumado naquele trabalho. Fizemos pequena concentração e Kahena e Fernando passaram algo em nossas mãos, que as sensibilizaram. Logo em seguida, passamos ao trabalho de passes e conversações telepáticas com os doentes. O silêncio reinava, alguns dormiam, outros não. Deparei com um senhor de cor negra, cujo físico a doença transformara.

Não tive condições de, sozinho, transmitir-lhe energias por intermédio do passe. Sentia vertigem ao me aproximar dele e minhas idéias entravam em conflito. Procurei concentrar mais a atenção no

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trabalho, e reiniciei os passes, mas, não dava. O irmão em foco gemia sem parar, e, em seu corpo formavam-se bolhas, e essas, daí a instantes, se arrebentavam e era uma visão insuportável. Busquei a Miramez para me ajudar. Calmamente, ele me apontou a Seis e ao Sete, e esses entenderam, aproximando-se de mim. Os dois não se perturbaram, conservaram a serenidade diante do enfermo e, colocando-se um de cada lado do pobre homem, pegaram as suas mãos, com protuberâncias que mais pareciam cascos de animais, e beijaram-nas com humildade e amor, dizendo:

- Deus o abençoe, meu filho, e Jesus lhe dê o conforto espiritual e a cura, se for do agrado do Senhor.

O doente quis abrir os grandes olhos empapuçados, mas não conseguiu. Dos cantos de sua boca escorria um líquido amarelado, de cheiro nauseante. Seis e Sete revestiram-se de um verde maravilhoso, e as suas mãos eram chamas benfeitoras a banhar todo o corpo do doente. Ernesto, era o seu nome, parou de gemer, acomodou-se no colchão e foi tomado pelo sono. Seis o segurou pelas pernas do perispírito e começou a tirá-lo do corpo físico, ajudado por Sete, em difícil operação. A muito custo, levantou do túmulo do corpo, um monstro. Não me senti bem ao vê-lo.

Miramez atendeu à minha inquietação e aproximou-se de mim com serenidade:

- Lancellin, como sabes, ninguém foge à colheita: quem semeia fogo, colhe pênfigo. Este homem, em eras recuadas, foi um incendiário, que além de roubar, ateava fogo sem piedade nas casas, fossem elas quais fossem. Nunca deixava um trabalho maléfico sem transformar tudo em cinzas. Agora, a sua própria consciência o queima desse modo horrível, que nos dá pena, mas, essa é a lei. Enquanto o nosso guia espiritual fazia uma pausa, perguntei-lhe, com interesse:

- E esses irmãos que têm a doença do fogo-selvagem, foram todos incendiários?

- Não, meu filho, a filosofia espiritualista nos mostra que existem muitos meios de atear fogo, tanto nas coisas quanto na mente do próximo. A maledicência é uma espécie de fogo, com o qual acendemos a chama da discórdia no coração dos outros. A língua pode tornar-se uma labareda venenosa, mais do que o próprio fogo que queima as casas e árvores, entendeu?

- Entendi, e muito, porque já passei por certas experiências, que me fizeram entender esta verdade. Seis e Sete estavam felizes e o trabalho era a sua única preocupação. O cabo de energia que partia da cabeça espiritual de Sete, assim como de Seis. vibrava dentro do quarto como agentes purificadores. Ernesto, Espírito, foi entregue a uma equipe de entidades conhecedoras do problema em exame, para que pudesse ser levado como tantos outros a alguma estação de repouso e conforto, pela misericórdia de Deus. Todavia, veio-me o pensamento para analisar o cordão fluídico que ligava Ernesto Espírito, ao Ernesto corpo. Fiquei espantado, pois o chamado fio de prata já não tinha tal aparência e também apresentava contrações que o deformavam, e estava igualmente tostado pelo fogo selvagem, deixando no ambiente um cheiro desagradável. Examinei mais detidamente os filamentos que compunham o cordão fluídico e não tive dúvida: muitos deles estavam interrompidos e nada circulava nos micros-canais que conduziam a energia divina para manter a vida no campo de carne. O filamento amarelado, portador de imagens como um cabo da telemente, fornecedora das paisagens que o Espírito livre contempla, era interceptado por agentes negros como se fossem minúsculas aranhas sugadoras. E, ainda mais, o corpo espiritual de Ernesto não tinha forma humana. Eu nunca vira nada igual. É difícil esquecer tamanha monstruosidade.

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Seis e Sete não perdiam a tranqüilidade. Avançaram para Ernesto cada um de um lado e começaram uma operação de sopro magnético. Fizeram alguns exercícios rítmicos e era para se notar grandes projeções de forças espirituais saírem das suas bocas, introduzindo-se no cordão de prata do nosso irmão. Essa energia corria nos filamentos como se fosse inteligente, desobstruindo os canais e fortificando a contextura dos fios tenuíssimos que formavam o cordão.

Procurei examinar os centros de força de Ernesto, mas não consegui vê-los Fiquei impaciente e procurei Miramez, mas ele estava em difícil operação magnética, com um irmão em processo de desencarnação no fundo da sala. Olhei para ver se via o Padre Galeno; ele estava conversando animadamente com um grupo de almas ainda ligadas à carne. Celes, Fernando e Abílio estavam em um quarto contíguo, ajudando em uma operação o médico que escolhera a madrugada, por ser mais silenciosa, para esse tipo de trabalho. Voltei para Seis e Sete, porém, eles já estavam abraçando um recém-chegado que vinha de outra enfermaria, por ter descoberto estar com a doença do fogo. E, para não ficar parado, comecei a trabalhar também.

Daí a pouco, Miramez chegou ao meu lado, perguntando como eu estava. Sopitou novamente em mim, o desejo de voltar às perguntas, e essas vieram com toda força. Queria saber porque aquele casal, tão simples, no meio rural, tinha tamanha elevação espiritual. Não seria um desperdício eles morarem na roça? Por que não em uma grande capital do país? Diante dessas conjecturas, o nosso guia veio em meu auxílio, sem que eu lhe endereçasse diretamente a palavra:

- Lancellin! ... Não sei qual é a diferença que fazes dos lugares, se são todos iguais aos olhos de Deus. As grandes cidades são mais perigosas para os trabalhos desta natureza e, de mais a mais, foram eles quem escolheram essa vida na área rural. Eles dão um exemplo de vida reta, e já conseguiram muita coisa ante a vida de todos, mesmo os da casa grande, onde todos os respeitam e admiram. A evolução não exige que se manifeste nos grandes centros que dizem civilizados, ela se apóia onde o amor e a caridade formam o sustentáculo.

Tu, meu filho, não nasceste na Cidade Luz, onde foram estendidos todos os braços da misericórdia divina para instrução e educação dos povos? No entanto, estás aprendendo com simples aprendizes, que estão livres daquilo de que tu ainda és escravo. Deus não pede opinião aos homens sobre o que deve ser feito. Nós todos é que devemos buscar entender o Senhor, para não nos transformarmos em estátuas de sal.

Meditou um instante e falou:

- Olha, Lancellin, o que diz O Livro dos Espíritos coordenado pelo Professor Denizard, respondendo à sua pergunta sobre esse mesmo assunto Vejamos o que diz a pergunta 918:

"Por que indícios se pode reconhecer em um homem, o progresso real que lhe elevará o Espírito na hierarquia espírita?

Resposta:

 

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"O Espírito prova a sua elevação, quando todos os atos de sua vida corporal representam a prática da lei de Deus e quando antecipadamente compreende a vida espiritual".

Não precisei de mais argumento. Logo entendi que eles, vivendo com simplicidade no campo, já tinham elevação bastante e demonstravam isso pela vida que levavam no ambiente rural, de trabalho e de exemplos. E, quando livres em corpo astral, eles eram duas estrelas em perfeita conexão servindo de instrumentos para o amor e a caridade. Achei maravilhoso também o fato de Allan Kardec não se esquecer de nenhum aspecto da vida, ao formular as perguntas. Analisando a sua obra, dá para notar que ele foi um gênio, a refletir o pensamento do Cristo na sua pureza original, facultando à humanidade os meios para entender os mais elevados conceitos da vida, bem como para conquistá-los.

Olhei para Miramez com mais ansiedade de saber, e logo ele notou. Continuou, então:

- Olha, Lancellin, o Ernesto praticou delitos incontáveis; no entanto, a sua identidade deve ficar escondida nas dobras dos tempos, por enquanto, para os homens. Quanto a ti, logo saberás.

Juntamos todos os trabalhadores em um salão ao lado e nos despedimos com alegria do casal, que beijou as nossas mãos com humildade e respeito, conscientes de que estavam em viagem astral, pedindo-nos que aparecêssemos mais vezes, que eles estavam às ordens para o trabalho com Jesus. As duas estrelas partiram de mãos dadas, como dois colegiais, e volutearam no espaço. Naquele momento, eu senti algo no coração, pensando naquela irmã de caridade que nunca esquecerei, e tive um pouco de inveja daqueles dois que o amor ligara para sempre. Tive vontade de acompanhá-los para assistir à chegada deles no corpo, mas o tempo nos chamava a outros deveres. O sol já mostrava alguns raios no horizonte. Padre Galeno, vendo o meu interesse, disse-me:

- Lancellin, eu já assisti a várias chegadas deles no corpo. Contar-lhe-ei em viagem.

Durante o regresso, ele passou a narrar:

- Eles, ao chegarem, trocam as roupas e descem ao lar na simplicidade de camponeses. Os dois se ajoelham na beira da cama onde os corpos ressonam e oram a Deus. Beijam os seus rostos e entram na carne. Em instantes, acordam lembrando-se de tudo, como se fossem nós, que ora lembramos do ocorrido nas nossas andanças desta noite. Mas eles guardam consigo essas verdades, por não encontrarem ambiente para as devidas divulgações. Sempre falam a respeito, mas, com a filtragem necessária.

E terminou:

- Que Deus os abençoe!

Desceram em minhas faces algumas lágrimas, e pensei em como a vida é maravilhosa, para quem aprendeu a vivê-la.

 

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