Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 27 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Saída do Corpo

Vinte e Nove, no estado intermediário da vigília para o sono, ouvia tudo com certa emoção.

Despertou, entretanto, abruptamente, e se lembrou das palavras de Fernando. De quem as teria ouvido? No seu íntimo, sentia que conhecia aquele tom de voz, porém, não se lembrava de quem e sentiu temor. Como costumava fazer nos momentos de aflição ou de dúvida, apanhou o Evangelho que conservava sempre à mão, abrindo-o com ansiedade. Leu, então, em Atos dos Apóstolos, o capítulo 16, versículo 10 :

Assim que teve a visão, imediatamente procuramos partir para aquele

destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o Evangelho.

"Deus meu", pensou Vinte e Nove, "será que estou ouvindo algum chamado para anunciar o

Evangelho? Não, não pode ser. São muitas as minhas imperfeições. Apenas gosto, com sinceridade, de ler os ensinamentos do Mestre e de esforçar-me para praticá-los."

Deixou o livro cair para o lado, já quase dormindo. Fernando procurava acalmá-lo, aplicando-lhe

passes.

- Deite-se de bruços, ordenou-lhe mentalmente Fernando.

Sua ordem transformou-se em pensamento vivo no cérebro de Vinte e Nove, repetindo-se várias

vezes, como se fosse uma gravação.

Ele obedeceu e ficou na posição ordenada. Fernando, então, passou a transmitir-lhe fluidos através

do passe, na região da medula oblonga.

Miramez aproximou-se de nós e, apontando para determinados pontos, esclareceu:

- Observemos atentos as emanações que saem da coluna do nosso irmão. Vejamos os dedos de Fernando: trabalham como ímãs, cuja força de atração gerada pelo pensamento. Correntes de energia pesada, que os pensamentos inferiores de Vinte e Nove acumularam durante o dia, bem como os provenientes do ambiente que freqüentou nesta noite, além das vibrações de outras pessoas que, afinizadas com o seu modo de ser, acharam guarida em sua coluna, perturbam-lhe as emoções. Se permanecerem ali, enfraquecerão suas células e empobrecerão o próprio sangue manifestando-se, então, enfermidades que a medicina terrena conseguirá registrar por seus sintomas, sem, contudo, definir-lhes as causas.

Essa massa gelatinosa, comumente chamada de tutano, é, por assim dizer uma região grandiosa na função do desprendimento do corpo astral; entretanto, nós não poderemos definir ou determinar o ponto exato onde se prende o perispírito e por onde ele sai do corpo físico, durante o sono do corpo ou em viagens astrais conscientes. É de se notar, remata com leve sorriso, o quanto vale o pensamento reto e o quanto nos ajuda em nossa autodisciplina, o exercício divino da caridade.

Fernando afastou-se do aprendiz e, com habilidade, ajudado por Kahena, limpou com facilidade as mãos que pareciam, sob nossas vistas, enlameadas e com odor francamente desagradável.

 

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Miramez aproximou-se da cama, onde já dormia Vinte e Nove e passou suas mãos sobre o epigastro do companheiro, parecendo deslocar algo que a nossa audição registrava.

Com as mãos e a mente trabalhando síncronas, Miramez desligou Vinte e Nove do corpo físico e este começou a flutuar acima do soma com certa dificuldade. Em certos momentos, parecia querer voltar, mas Miramez o impedia, fazendo com que se afastasse mais. Podíamos ver uma espécie de cabo fosforescente que, ligado à parte posterior do crânio de Vinte e Nove Espírito, ia até a raiz do nariz do seu corpo físico, que se achava, no momento, deitado de costas.

Apesar da complexidade do trabalho, Miramez ainda encontrou tempo para nos esclarecer algumas dúvidas. Depois de aplicar passes magnéticos na cabeça perispiritual do aprendiz, comentou prestativo:

- Fixemos a atenção no centro da vida deste nosso irmão; as mesmas dificuldades que tendes para observar essa luz dentro da cabeça do nosso companheiro, nós outros, que dirigimos os trabalhos, a temos. Eis aí um segredo divino, vedado, por enquanto, a todos nós. É uma fração da mente do Criador incorporada à mente humana, que merece o nosso maior respeito e admiração.

Realmente, nossa visão apresentava um limite, com relação àquele foco luz. Cada um de nós o percebia como tendo uma tonalidade. Para mim, era de uma azul jamais observado dentro da escala em que predomina essa cor.

Vinte e Nove, algo trêmulo, começou a andar como criança no amplo quarto onde estávamos. Abriu os olhos, embora continuasse inconsciente à nossa presença.

A uma ordem de Miramez, expressa por meio do olhar, Celes concentrou-se em perfeita sintonia com Kahena e logo pudemos perceber determinada massa esbranquiçada. Envolvido por essa substância, nosso companheiro carioca foi se tornando visível a Vinte e Nove, abraçado fraternalmente por Celes, antes de se assustar.

Por intermédio de Celes, nosso querido Galeno falou-lhe com mansidão:

- Querido filho, estejas em paz. Que não se perturbe o teu coração ao conversar conosco neste plano em que nos encontramos. Todos os dias tal fato acontece contigo. A diferença é que hoje é uma noite especial, na qual nos dedicamos a ti, para que busquemos juntos as coisas do Espírito imortal, para que procuremos Nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo assim, abracemos com entusiasmo os ensinamentos do Mestre. Estás fora do corpo físico, disse mostrando a Vinte e Nove o fardo material deitado no leito.

Este, quando viu seu corpo, instintivamente quis voltar, mas foi impedido mais uma vez e logo se acalmou.

Continuou Galeno, incorporado em Celes:

- Não estamos violentando teus direitos; isso é apenas um convite para que possas nos ajudar na difusão do Evangelho do Cristo a quem tanto amas. Não obstante, o Senhor espera de nós vivência dos Seus ensinamentos e limpeza constante do coração, para que a pureza nos visite e fique conosco para sempre.

Nesta noite, se quiseres nos ajudar, poderemos fazer muita coisa em favor dos que sofrem. És um encarnado, por conseguinte, podes fornecer aos companheiros doentes uma cota de energia, que podemos chamar de magnetismo animal, com mais facilidade do que poderíamos obter no plano espiritual.

 

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Para ti, tal tarefa será de grande importância e servirá como ingresso nas hostes do bem comum. Em se tratando de caridade, será semente lançada no Campo Maior da Vida.

O antigo pároco falava com a voz embargada pela emoção, esforçando-se, pela força da humildade, para não deixar transparecer a luz que insistia em se espargir por todas as direções. Apesar do esforço de Galeno, projetou-se de sua boca um facho de luz de cambiantes encantadores em direção a Vinte e Nove que já consciente, caiu a seus pés, pedindo suas bênçãos. Lágrimas borbulhavam de seus olhos, como criança perdida ao reencontrar os pais.

Galeno colocou sua destra sobre a cabeça do aprendiz e rematou com bondade:

- Vamos, meu filho. Vamos trabalhar com Jesus.

Pudemos observar que o corpo físico de Vinte e Nove estremecia e chorava também, repetindo as reações do Espírito.

Rumamos, em seguida, em direção a um hospital, onde o diretor espiritual daquela casa nos recebeu com afabilidade, saudando Miramez como velho conhecido e nos entregou, simbolicamente, a chave daquela instituição.

Passamos, então, a percorrer a Casa de Saúde, visitando quarto por quarto radiantes de alegria por podermos cooperar com aquele trabalho de tão alto interesse dos nossos maiores da espiritualidade.

Vinte e Nove já se encontrava refeito e bem consciente do seu estado, fazendo perguntas uma após outra, ora a Galeno, ora a Fernando, ora a mim. Depois das palavras de Galeno, ainda em seu quarto, ele ativara suas vibrações, podendo nos enxergar a todos com facilidade. Enquanto mantivesse aquelas vibrações, conviveria conosco visivelmente.

O hospital estava cheio de doentes de toda ordem de enfermidades e, muito mais, de Espíritos desencarnados; uns perambulando pelos corredores; outros, em grupos, contando piadas sem demonstrar nenhum interesse pelo ambiente; alguns chorando e pedindo socorro, acreditando estarem ainda com um corpo físico. De todos, porém, os que reputamos os piores, eram os obsessores que não largavam suas vítimas, sugando as poucas energias que lhes restavam. Nenhum deles percebia a nossa presença.

De vez em quando encontrávamos nos quartos algumas entidades do nosso plano que, tal como nós, trabalhavam em favor dos sofredores. Quando nos cruzávamos nos caminhos apressadamente, eles emitiam vibrações de alegria e entusiasmo, às quais nós respondíamos na mesma gama de valores, num intercâmbio de fraternidade que só o trabalho no Bem pode proporcionar.

Chegamos a um quarto onde se via um casal, aparentando a idade de cerca de cinqüenta anos, estando as duas pessoas enfaixadas, o que nos sugeria terem sido vítimas de grave acidente. Médicos e enfermeiros movimentavam-se agilmente, providenciando transfusões de sangue e observando aparelhos que assinalavam o comportamento do coração e da pressão arterial. Os pacientes estavam em coma.

Na ante-sala, o ambiente era de apreensão. Alguns familiares sacudiam-se em soluços, enquanto outros, aparentando cansaço, cochilavam assentados.

Começamos a trabalhar, tornando o ambiente mais sereno, quando entrou o quarto uma enfermeira, sucedendo à que estava em serviço: mulher de uns "vinte e oito anos, forma física encantadora, olhos grandes e expressivos, agradou-nos a todos, pelas vibrações elevadas que trazia consigo.

 

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Abeirou-se de um dos pacientes com todo carinho, deixando transparecer toda a tranqüilidade e o amor que uma pessoa nobre dedica ao seu trabalho. Passou as mãos delicadamente na testa do senhor inconsciente, e víamos sair delas energias vivificantes que penetravam o corpo do enfermo.

Acompanhávamos, com a ajuda de Miramez, a viagem das energias da moça pelo corpo do doente e notávamos que elas buscavam, não sei por qual força inteligente, o plexo solar daquele senhor. Rodopiando no sistema digestivo e acelerando a digestão que se demorava no organismo, penetrou com um impulso fabuloso no baço, onde ativou determinadas energias, fazendo-as circular em todas as glândulas endócrinas, que começaram a reagir, num impulso natural, para fabricação de hormônios variados, enriquecendo o sangue de poderes especiais que o coração recebia, por sua vez, saturando-se de nova vitalidade capaz de dar condições para que o Espírito daquele irmão voltasse ao corpo.

Antes daquela moça chegar, tudo estava bem com Vinte e Nove. Para nós, era um candidato que já estava aprovado pelo seu comportamento. No entanto, quando ele viu aquela jovem mulher adentrar pelo quarto, mudou completamente o comportamento emocional. Os seus olhos vibraram em faixa diferente. A moça, ao passar perto dele com um perfume agradável e um quê que fascinava, deixou o candidato à viagem astral consciente, como que hipnotizado. Sua mente fixou-se somente naquela bela mulher e começou, mesmo no ambiente de equilíbrio, a formar pensamentos inferiores. Quando alguns de nós nos dispusemos a interceptar suas idéias, Miramez, com seu olhar catequizou-nos, dizendo:

- Não interrompamos agora o que ele faz conscientemente, Vinte e Nove já tem bastante conhecimento para que, por si mesmo, se eduque. Não devemos forçar nem agredir consciências que ainda não estão preparadas para tal mister. Isso é um direito que ele tem, de aproveitar ou não as lições imortais do Bem; o mérito é somente dele, logo, é dele a escolha de sua própria conduta. Se nós o impedirmos desse gesto, ele nunca se esforçará em outros eventos e ficará esperando que alguém o faça por ele. Isso não é justo; não é da lei.

Enquanto ouvíamos o nosso companheiro Miramez, a linda moça passava para o outro leito e procurava ajudar a senhora ali estendida, que mal respirava. O homem, como que por milagre e já com os olhos abertos, procurava por alguém da sua família, perguntando assustado:

- O que aconteceu? Onde estou? Logo percebeu o que ocorria e, sentindo a paz do ambiente, acalmou-se.

Isto fez com que eu meditasse: "É o milagre do amor".

Vinte e Nove já não percebia mais a nossa presença nem escutava o que falávamos naquele ambiente. Perdeu a consciência do seu estado espiritual e começou a sonhar. Miramez, naquele instante, sem interromper os gestos e pensamentos de Vinte e Nove, nos mostrou na sua tela mental o que ele idealizava e pudemos notar com nitidez o modo pelo qual ele desejava a enfermeira. A sua mente empastou-se de magnetismo inferior, de sorte a dar vida às imagens criadas. Essa massa negativa desceu em seus meridianos lentamente, obstruindo, de espaço a espaço, alguns pontos sensíveis, por onde circulam as energias genésicas. E, ainda mais, no mesmo momento, chegaram àquele quarto duas criaturas desencarnadas, com trejeitos que não merecem comentários, quase sem roupas e envolveram Vinte e Nove, saindo com ele, aplicando todos os seus recursos de corrupção, sem saberem que estavam sendo vistas pelos amigos da Luz. Beijos e carícias eram aplicados nos pontos sensíveis das emoções

 

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daquele irmão e ele, tomado de entusiasmo, nem se lembrava mais daqueles que o estavam amparando desde o princípio da noite.

"Lá se foi o nosso companheiro", pensei. "Tudo perdido. O nosso esforço foi em vão".

Miramez, captando meus pensamentos, adiantou com sabedoria:

- Lancellin, meu irmão! Bem sabes que nada se perde. Deus usa dos fatos para uma lição maior. Nós já esperávamos esse fracasso aparente, mas chegamos à conclusão de que ele fez algum progresso de um ano para cá. Que Deus o abençoe. Deus é tão bom que, sabendo da desistência de Vinte e Nove, nos enviou essa valorosa mulher, no momento exato em que precisávamos. Vê o que ela já realizou pela força da caridade que vibra em seu coração! Ela não perdeu um segundo sequer desde que aqui chegou, como um verdadeiro instrumento de magnetismo puro. Examina os seus contornos, e vê como chegam e saem tantas substâncias, como se fossem um milagre da natureza humana, pela manifestação do amor! Vamos ajudá-la, para que ela possa ajudar mais!

Galeno, a um sinal de Miramez, entrou em profunda concentração e orou, como se estivesse pregando a Boa Nova a milhares de criaturas.

E nós, naquela influência benfazeja, passamos a trabalhar o resto da noite, de dependência em dependência. Para cada caso, estudávamos os meios mais eficientes de aliviar os necessitados, até o término da tarefa.

Encerrada esta, rumamos para a casa de Vinte e Nove e lá estava ele, levantando-se com um rosto cadavérico, mal humorado, como se estivesse perdido em idéias confusas, lembrando-se firmemente das duas libertinas. A cama denunciava o estado de emoção que o dominou por toda a noite. Ele levantou-se, foi até a janela, espreguiçou várias vezes e falou, como se estivesse conversando com o vento:

- Meu Deus! O que é que eu faço para me livrar deste estado de coisas? Hoje estou pior que ontem! O que eu devo fazer?

Lembrou-se do livro de Deus, como ele o chamava, mas retrucou:

- O livro, eu já o li antes de deitar-me e não me serviu de nada! Colocou as mãos no rosto e esse entre os joelhos, já sentado em uma poltrona, desejando não pensar em nada. Desesperado, chorou.

Reunimo-nos novamente naquela sala e quando cada um olhou para o outro, sem saber o que fazer em favor daquele irmão, um gesto de Miramez nos respondeu. Começando a orar, assim se expressou:

-Senhor, Todo Poderoso! Aqui estamos novamente, meu Deus, Te agradecendo por tudo que nos animaste a fazer. A nossa consciência se encontra tranqüila, mas anseia por mais trabalho, trabalho que possa nos valorizar, aumentando os nossos recursos de servir, desde quando não ultrapassemos os limites que a nossa evolução traça.

Pedimos-Te discernimento, pedimos-Te compreensão em todas as diretrizes a que nos propomos realizar em nome d'Aquele que é a Verdade e a Vida.

Ajuda-nos a ajudar, sem que a ajuda se torne conivência; ajuda-nos a amparar, sem que o amparo incentive a preguiça; ajuda-nos a contribuir, sem que a contribuição nos leve ao fanatismo.

Nós Te agradecemos por todas as mãos que operaram conosco, por Tua vontade e, ainda mais, pelos resultados substanciais desta noite, e que tanto nos alegraram!

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Pedimos mais, que ajudes ao nosso irmão ainda preso nas teias da sensualidade, mas que tem o coração palpitando de bondade, a caminho para o Amor. Que ele desperte logo nos caminhos do verdadeiro Bem. Entretanto, faça-se a Tua vontade e não a nossa, porque Tu sabes melhor do que nós, daquilo que ele mais necessita no rumo para a felicidade.

E a esses que ora nos cercam, Senhor, que todas as Tuas bênçãos sejam para eles, pois foram eles que tudo fizeram!

Terminada a prece, saímos todos exultantes, por termos marcado em nós uma grande experiência, no campo de trabalho onde Jesus é o Guia.

 

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