Iniciação - Viagem Astral
Escola Divina
A vida é uma escola que nos recebe a todos como alunos do coração de Deus, e a harmonia é tamanha, que ela não se esquece de nos ofertar somente aquilo que suportamos, dentro do aprendizado a que fomos chamados. Todavia, ser-nos-á de grande valia, sabermos aproveitar o tempo, pelo canal que se chama esforço próprio.
Chegou a hora do progresso científico ceder lugar ao progresso moral, pois na Terra os dois estão defasados nos caminhos de ascensão. Pelo menos até agora, a moral se encontra em plano secundário, de modo a não incomodar os doutos e não exigir muito dos pesquisadores da verdade, que ainda não saíram do campo imensurável da teoria.
O objetivo principal das religiões, principalmente da Doutrina Espírita, é a transformação do homem. É a valorização da conduta reta, buscando meios e ampliando conceitos, para que os povos se conscientizem da educação dos sentimentos.
O campo científico avançou em todos os rumos, de sorte a se perder, por vezes, nos seus emaranhados impulsos de bem-estar; contudo, suas raízes estão presas a princípios devastadores, onde a dor e o infortúnio se alastram sem piedade. Fortunas e mais fortunas se gastam para descoberta de engenhos mortíferos, e muito mais na sua conservação. Vejamos até que ponto chegou a humanidade: conservar o instrumento da morte!
As verbas para a educação são sempre restritas e às vezes nenhuma. Educação de que falamos, não é o desenvolver somente do intelecto, é mexer também com os valores do coração. É salientar a escola do amor, onde ela estiver com mais evidência.
Nada falta no mundo. O que se encontra em carência é, por excelência, a falta de moral. E moral não é apenas o que toca ao desregramento sexual; é o conjunto de conduta estabelecida pelo Cristo de Deus, há dois mil anos.
Aguardamos o tempo de poderem os homens estudar a ciência do amor, da caridade, dos direitos humanos e também os direitos de todos os reinos da natureza. Os engenhos de guerra e as guerras de todos os tipos, nos mostram o zero da moral dos homens, e de falanges e mais falanges de Espíritos inferiores que eles atraem, pela lei dos semelhantes. A destruição vem, por faltar o amor nos corações; não o amor egoísta, não somente o amor familiar, mas o amor universal, aquele ensinado pelo Divino Amigo, Nosso Senhor Jesus Cristo.
Enquanto milhares de homens debatem nos parlamentos, nas instituições, em campos abertos, nos meios de comunicação das massas, sem encontrar a solução para o equilíbrio dos povos e da natureza, Jesus, somente com uma frase, encontrou a solução há vinte séculos atrás:
Amar a Deus sobre todas as coisas
e ao próximo como a si mesmo.
E fiquem todos sabendo que, quando a moral é renegada como coisa sem importância, a natureza se revolta pelos meios de que dispõe, e destrói o que foi feito pelo suor e pelo sangue dos sofredores.
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Estais caminhando inconscientemente para uma batalha dessas, e pedimos a Deus que vos dê mais tempo para pensar, porque um dia de reajuste, de mudança na mente coletiva, já serve para minorar a cólera do tempo.
Muitas filosofias já estão carcomidas pela indiferença. Muitas religiões cederam pelo medo da força, se acovardaram diante das armas, aliando-se à política, esquecendo o divino que deve ser acordado no humano. E isto é muito sério, para os que respondem ante o Todo Poderoso.
Nós viemos para uma Escola Divina, para ajudar na educação das escolas humanas. As religiões deveriam se unir, esquecendo regras humanas que são passageiras, e intensificando nas bases de todas, o amor e a caridade. O próprio Evangelho nos leva a esta conclusão.
"Uma vara é fácil de ser quebrada, ao passo que um feixe delas torna-se mais difícil", nos diz a sabedoria popular. Os seres humanos estão muito próximos dos animais, nos sentimentos. Estes, quando soltos na invernada, se agrupam por qualidade, e expulsam alguns que se intrometem. Os homens que já alcançaram a civilização, que já conquistaram as claridades do raciocínio, fazem pior: investem-se contra seus irmãos para aniquilá-los, em nome d'Aquele que protege a todos com o mesmo amor. Contudo, ainda temos esperança de que no amanhã possam trazer novas idéias, mesmo depois dos duros acontecimentos que deverão marcar o fim de todos os ódios.
A falta de honestidade no seio da família humana traz o desequilíbrio e ela é nascida no apego às coisas da Terra, no orgulho e no egoísmo,
Quantos tratados de paz são assinados no mundo? ... E continuamos a viver em plena guerra, guerra de todos os tipos; sabem por quê? Porque a guerra é a antítese do amor; onde uma estiver, o outro não existe.
Convidamos todos os homens para cerrar fileiras, estabelecendo, onde estiverem, campo propício ao amor e à caridade. Não os estamos convidando para participarem desta ou daquela instituição, mas da Religião do Amor, onde o Cristo abre os braços e acolhe a todos.
Dentro da organização a que pertencem, podem trabalhar para que cresça o amor em todos os corações. O melhor combate às guerras, às mentiras, à desonestidade, à imoralidade em geral, é incentivarmos e exemplificarmos as virtudes ensinadas e vividas por Jesus. Vamos viver, como pregou um grande místico oriental: "a não violência", a não agressão.
Procuremos ingressar na Escola Divina: pensar, escrever e ler, falar e agir, somente em áreas onde o amor universal nos chamar a servir.
*
Estávamos na sala de partida, na Colônia do Triunfo, à espera de novos trabalhos, aqueles que exigem mais, na ordem de servir por amor.
A nossa maior alegria, como a de toda a direção da Colônia, é fazer entrar para o Departamento de Assistência uma ficha dos trabalhos realizados nos padrões da caridade mais pura, onde o bom senso é a direção. Graças a Deus nos acostumamos com isso: trabalhar por prazer de ser útil.
Uma música agradável misturava-se com o ambiente. Se alguém a desligasse, logo sentiríamos falta dessa harmonia, que tínhamos na conta de alimento do coração. A melodia que se espraiava em todo o ambiente, era a Ave Maria, de Carlos Gounod, grande compositor francês, que nasceu no ano de 1818.
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Os fios dos seus pensamentos eram como que antenas divinas a buscarem inspiração, por vezes, entre os anjos.
O leitor poderá pensar que estamos citando compositores que foram encarnados e suas músicas, por não existirem outros e outras músicas, o que não é verdade. Aqui há centenas e milhares, tanto compositores como músicas, e ainda com mais elevada harmonia do que as destes que renasceram no mundo das formas. Mas, como são desconhecidos na Terra, citamos com mais freqüências os que os homens conheceram. Algumas das suas músicas aqui, são melhoradas pelos verdadeiros mestres da harmonia. Ainda mais, eles próprios vêm às Colônias Espirituais executar suas músicas, quando possível, e fazer outras, na inspiração divina, como divina caridade, nas asas dos sons.
Terminada a música, entrou outra do mesmo Gounod mas, já feita no plano do espírito, intitulada: Filhos da Luz.
Ao ouvir essa melodia, sentíamos algo penetrando em nossos corações, como se fosse uma matéria de fé, de alegria e de coragem, a nos preparar para todos os tipos de lazer espiritual. A limpidez dos sons e a harmonia da letra são fenômenos que ainda não podem ser ouvidos na Terra, por faltar equilíbrio emocional às criaturas.
Saímos para o pátio. As árvores eram todas tocadas pelas mãos de suaves ventos. Alcançamos uma delas, que nos dava a aparência das grandes sequóias. Ao seu derredor, assentos saudáveis, em plena sintonia com a natureza.
Sentamo-nos e Miramez, com a sua voz que mais parecia uma canção, olhou para Kahena, falando com doçura e respeito:
- Estamos em tua casa, é justo que sejas tu quem converse com o Senhor, neste templo sagrado da natureza.
A nossa companheira, sempre de bom humor, foi ao encontro da ciclópica árvore, como se fosse uma imponente estátua viva. Beijou-a com carinho, emocionou-se por sua natureza afetiva, e falou com brandura:
“Deus de todos nós!
Sei e sinto o Teu amor para conosco, em profusão variável, atingindo e alimentando a vida em todas as suas divisões, como se nos apresentam. Neste momento, Te agradecemos as oportunidades de serviço a que o Teu amor nos convoca, na grandiosidade do tempo, pelos canais intuitivos dos nossos maiores.
Convocamos, pois, as nossas próprias forças, neste empenho divino, em favor dos que sofrem, em favor dos humanos, em favor da Terra e dos Céus, que andam com ela, nesta grande viagem cósmica, sem que a matemática nos marque o lugar de parada.
Dá-nos as Tuas mãos, pelos processos que achares mais convenientes, e guia-nos em todas as nossas andanças, nos levando ao encontro dos que sofrem. Se for da Tua graça, que possamos despertar o amor mais puro nossos corações, para que possamos servir mais, porque sendo útil, a alegria é mais duradoura.
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Por mais que sejam harmoniosas as nossas palavras, nunca sabem o que nos convém com toda propriedade, e para tanto Te pedimos com toda humildade, se verdadeiramente a temos, para que se faça a Tua vontade e não a nossa.
Abençoa estes companheiros que aqui se reúnem em Teu nome e no do Cristo, Teu filho do coração, que muito tenho aprendido com todos eles. E que a Tua luz seja feita em toda a criação, hoje e para sempre.
Assim seja.”
As folhas da árvore cintilavam claridade em todas as cores, como respondendo a nossa súplica, e um vento suave soprava, trazendo um aroma agradável, embriagando-nos com a mais pura emoção, aquela de viver pela paz e para a paz.
Ascendemos e partimos, deixando a nossa Colônia, mas levando saudades daquele pouso, que era como que a Universidade do Bem. Em pleno trânsito da Colônia à Terra, como sempre, aproveitamos o tempo; comecei a perguntar ao nosso guia espiritual:
- Miramez! ... Será possível eu saber algo sobre uma lembrança que me desassossega e que, por vezes me agrada, que desperta tensão e às vezes amor?
É sobre a nossa irmã Onze. Não sei por que os meus sentimentos se afloraram sobremaneira, quando ali penetramos, e sua presença foi tão forte, que o meu coração recuou na harmonia que já desfruto há tanto tempo. Não fui capaz de respirar a tranqüilidade imperturbável perto dela. O que há comigo? ...
Miramez, solícito, meditou por instantes, e falou ponderado:
- Lancellin, existe tanta coisa em segredo, no segredo da vida, que nós precisamos do tempo para encontrar a realidade, sem que surja a perturbação, efeito das causas que o próprio tempo guardou nas dobras dos milênios incontáveis. E cada vez que nos deparamos com os nossos feitos, sentimos gratidão pelas leis divinas que sempre nos ajudam a colher o que semeamos, em qualquer lugar em que estivermos, na imensa lavoura de Deus.
Estava agora mais emocionado ainda, e temendo o encontro indesejado, pelas palavras já ouvidas de Miramez. Notei imediatamente a minha ligação com aquela irmã de caridade. Entretanto, fui eu mesmo quem perguntei, levando o dedo na vida do passado, fazendo o gravador da vida me mostrar o tempo que já tinha passado. Senti um tremor por dentro, mas a minha tempera não deixou que eu recuasse.
Miramez silenciou por um pouco, ate que eu degustasse o alimento amargo, olhando para mim, como um sacerdote em Cristo, diante de um encarcerado. Era de se notar em seu rosto, a vontade de me ajudar. E ele falou com compaixão e carinho:
- Meu filho! Não adianta recuar, quando é chegada a hora de avançar. Nada fica escondido e nada se perde, nem os próprios pensamentos, na escola divina. Esta lei foi que inspirou o ilustre químico francês, Antônio Lourenço Lavoisier, a proclamar que "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". E ele foi decapitado.
Tu, Lancellin, já reúnes qualidades para encontrar-te com o joio que plantaste, porque já sabes como arrancá-lo sem perda do trigo que começa a semear.
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Serás "decapitado", como o companheiro de pátria o foi; a revolução do progresso cortar-te-á a cabeça de homem velho, para que nasça o homem novo, renovado em Cristo Nosso Senhor.
Fiquei esperando o desfecho, disposto a enfrentá-lo.
- Essa irmã, a que ora te referes, e cujos dados o nosso fichário colheu, foi tua companheira na época em que viveu Nero, o imperador romano que reinou do ano de 54 a 68 depois do Cristo e que teve como seu mestre e guia, o grande filósofo Sêneca, mas que, de pouco a pouco, foi se esquecendo da educação e tornando-se um monstro, que matou a própria mãe para ver de onde saíra. Foste filho de Cláudio, que foi igualmente imperador, e ambos foram comparsas nesse grupo infernal, que fez sucumbir milhares de pessoas, somente porque acompanhavam os companheiros do Cristo.
Este é o fio da meada das vidas sucessivas, que colocamos em tuas mãos, para que tu mesmo, de agora em diante, o puxes, a fim de que o tempo te mostre o mais conveniente, destinando a tua própria educação espiritual a rumos mais certos. Não deves temer os frutos, porque não te satisfaz o plantio. Ninguém foge da lei de justiça. Ela nos procura e nos encontra, mesmo que estejamos revestidos por outras feições; ela tem o olho da verdade.
Silenciou um pouco, para que eu pensasse, e pensou comigo, para me ajudar, falando em seguida:
- Não te perturbes o coração, pelos fatos inconvenientes que, com pouco ou muito tempo, são instrumentos de educação de todas as criaturas. Também eu tenho as minhas deficiências, que desejo sanar, fazendo despertar o Cristo em mim, para que seja motivo de glória ao meu coração.
Dá-nos admiração a tua sinceridade e temos em ti um companheiro de trabalho, com muitas possibilidades, onde o bem poderá crescer como trigo florescente, e desejamos que o faças como exemplo.
Fiquei emocionado com o incentivo; contudo, mesmo reunindo minhas forças, senti-me fraco diante da verdade. Porém, era um ponto de partida para a minha vida em direção à luz e eu iria, de agora em diante, pedir aos meus irmãos de trabalho para me ajudarem, nessas lutas de escoar o passado pelas vias do presente.
Tive uma vontade quase irresistível de visitar novamente a irmã de caridade mas, pelo compromisso assumido em conjunto, apaguei o impulso e comecei a orar, sem palavras pronunciadas, ao Criador que sempre nos atende.
Descemos em um mergulho espetacular, e eu, distraidamente, estava sendo levado junto ao grupo. Era de se notar que alguém nos levava, com as suas possibilidades interiores já conquistadas através dos tempos, sob as bênçãos de Deus.
Começamos a caminhar como os humanos, em estreitas ruas de uma colônia de hansenianos. Homens, mulheres e, por vezes, crianças, desfigurados pela doença, eram os transeuntes daquelas vias. A observação não nos deixava ver um rosto alegre. A alegria, se existisse, estava perdida nos campos de provas, sob o guante da dor e do desprezo.
Visitamos inúmeros casebres, uns até com acentuado conforto, todavia, o bem-estar era esquecido pelo estado de depressão dos enfermos; os espíritos sentiam-se encarcerados no mar de carne, ansiando pela liberdade. Entramos em uma dessas casas, cujos donos conversavam frente ao aparelho televisor, dividindo as atenções entre a monótona novela e o assunto ventilado: a mulher se dizia
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desesperada, por lhes faltar saúde e conforto, e pela saudade dos parentes, que se esqueceram dos que eram seu próprio sangue. O marido, já mais educado pela grande mestra, a dor de muitos anos, falou com certa tristeza:
- Mulher, depois desta nossa enfermidade, comecei a ver a vida de outro modo. Eu acho que esse negócio de parentesco é assunto humano que, pra mim, quase não tem mais valor. Os nossos parentes, que devemos considerar como tais, são os que vêm aqui nos visitar todas as semanas, conversar conosco e nos trazer as coisas. Essa televisão - e aponta o dedo para o aparelho - que nos distrai todos os dias, foi presente dos desconhecidos. Qual o parente que iria nos trazer uma coisa dessa? Nenhum. Eles nem aparecem, pelo menos para nos visitar.
A mulher, chorando, ainda persistia em fortes lembranças de alguém da família. Kahena abeirou-se da senhora e impôs as mãos em sua cabeça, falando-lhe ao coração:
- Minha irmã, Jesus te abençoe. Não fiques triste, por te faltar as companhias familiares. Nós pertencemos a uma só família: a humanidade. Onde estivermos, estaremos em casa. Nós todos temos o nosso calvário, e devemos suportar esse drama com coragem, porque nunca faltará um cireneu para nos ajudar na subida.
Tem ânimo, e confia em Deus.
Aquelas palavras de Kahena serviram de estímulo para o coração abatido com as lutas e provas necessárias. Vimos que as lágrimas se estancaram e a senhora começou a refazer o ânimo, chegando a cadeira para bem mais perto do marido e dizendo:
- Tens razão, Júlio; nós precisamos aceitar o que Deus determinar para nós. A gente pode ser feliz, mesmo vivendo nas dificuldades. Isso deve ser trabalho da fé, como disse outro dia o "seu" Machado. Graças a Deus eu te tenho ao meu lado, sem nunca me abandonar. Sempre te vejo com novo ânimo. Que Deus te abençoe!
O Sr. Júlio sorriu nesta hora, e disse vitorioso:
- Assim é que eu gosto, mulher. Vamos esquecer a doença e viver na saúde. Lá no Centro Espírita aquele moço não falou que a doença é prenuncio da verdadeira saúde? Então, estamos no caminho dela. E eu, mulher, tenho certeza disso.
O casal estava em processo de depuração cármica. Se ajuntássemos os dois para fazer um corpo perfeito, era bem provável que ficasse faltando alguma coisa, tais eram as deformidades causadas pela doença. No entanto, ali estava nascendo uma fé vigorante, cheia de esperança, que pedia a nossa cooperação na subida do calvário. O senhor Júlio olhou para o velho relógio, que estava marcando vinte e uma horas. Desligou o aparelho com satisfação e falou à sua companheira, com intimidade:
- Velha, chegou a hora. Apanha lá o nosso instrumento de conversar com Deus, um pouco de água e meus óculos, que o coração está pedindo e me avisando que é hora do nosso culto. Já tem um mês que não o fazemos.
Dona Mariana foi chegando com as coisas pedidas, e o "seu" Júlio abriu o livro com todo respeito. Leu um longo trecho do "Evangelho Segundo o Espiritismo", sobre as bem-aventuranças, depois, uma mensagem de Vianney, o Cura d'Ars, mostrando a necessidade da dor, da cegueira material, a fim de se alcançar a luz espiritual.
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A mesinha estava ocupada por duas pessoas encarnadas; entretanto na sala, havia umas quinze almas desencarnadas em estado de oração, em respeita gratidão a Deus pelas belezas da justiça. O senhor Júlio terminou a leitura, fechou o livro e os olhos, e ficou em meditação. Miramez olhou para Celes com um semblante determinativo e esse entendeu a mensagem do olhar, colocou a destra na cabeça do dono da casa, e esse falou inspirado:
Meu Deus! Não sei o que ocorre comigo nesta noite. Estou sentindo que a liberdade se aproxima do meu coração, que a alegria invade o meu ser, maneira que desconheço. A facilidade de falar com o Senhor me impressiona, porque não tenho essa capacidade. Queria, meu Deus, que fosse transferido este estado de espírito também para a minha companheira, e que ela pudesse constatar o que sinto, neste momento de luz, nesta hora de paz, onde meu coração bate por alegria de sentir a vida em outra faixa de existência.
Parou um pouquinho ... e continuou, com as faces molhadas em lágrimas:
" Eu pediria, Senhor, em nome do Teu filho, e de todos os Anjos dos Céus, que eu pudesse ser visitado de vez em quando por esta felicidade que no momento desfruto, e que toda esta colônia de sofredores não se esquecesse de Te amar e de Te pedir, pelos meios de que dispõem, as bênçãos da paciência, da tolerância e, acima de tudo, a força do amor, como foi ensinado por Seu filho, Jesus Cristo.
Na hora em que ele pedira para que a mulher pudesse sentir o mesmo que ele, Kahena aproximou-se de dona Mariana, ajustando sua mente na dela, como que lhe doando um verdadeiro ambiente celestial. O irmão Júlio continuou, em plena felicidade:
Meu Deus ... Sei que temos recebido muito das Tuas mãos e de Jesus Cristo, mas, vou Te pedir para alguém que sofre mais do que nós: são os nossos parentes que temem esta doença e desprezam esses enfermos, talvez motivados pelo orgulho. Desejamos para todos eles muita paz e compreensão. O nosso perdão é sem condições e o nosso amor para com eles é sem exigências.
Assim Seja.”
A água parecia ferver, pelos fluidos comandados por Fernando e Abílio. Padre Galeno estava em plena meditação e Miramez aplicava certa massa, que parecia viva, nas lesões que se alastravam por toda a pele dos nossos irmãos hansenianos. Camadas de fluidos se acomodavam nas paredes, nos utensílios e no filtro de água, sem falar nas estrelas minúsculas que penetravam nas duas criaturas daquele lar de Deus.
Visitamos várias enfermarias; onde lá encontramos sofrimento maior. Por onde a enfermidade passava, fazia desaparecer órgãos, deixando rostos transtornados em profunda angústia. Miramez olhou para mim, e disse-me:
- Não perguntas nada?
Eu estava tranqüilo por dentro, mas engasgado de ver e sentir aquele drama, como se estivesse em uma guerra. O nosso guia espiritual, percebendo o meu pensamento, adiantou-se com firmeza:
- Isso aqui é mesmo uma guerra, meu filho! ... A guerra do passado contra o presente, um querendo manifestar o que realmente é, e o outro, querendo impedir o que já foi. Porém, nesse caso,
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existe uma força como terceira frente, que é a reforma da personalidade, para que o hoje não plante sementes deterioradas, evitando a colheita de frutos imprestáveis, no futuro.
Ponderou por segundos, e continuou com delicadeza:
- A lepra é o antídoto do orgulho e da violência. Ela serve para combater silenciosamente todos os tipos da prepotência enganosa, tanto para os que sofrem essa doença como para nós, que estamos aqui para visitá-los. Este ambiente é muito bom para a meditação, pois nos ajuda a rever o que somos, para nos conscientizarmos do que deve ser mudado. Já dizia, muito inspirado, um grande místico italiano: "Melhor é orar e compreender, pois que a dor só cessa, depois de aprendida a lição que lhe justifica a presença ".
Não quis, naquele momento, perguntar nada. Conservei-me meditativo, sentindo necessidade de silêncio para examinar os meus feitos. Cada um de nós abeirava-se dos leitos, conversando mentalmente com os hansenianos que, devo dizer, são meus companheiros de enfermidade, porque também sou enfermo, e talvez pior do que aqueles. Sei e sinto que o meu passado me agita de vez em quando, mas tomei uma decisão de ir para frente, com Deus e Cristo.
Vou deixar aqui um conselho, que certa vez Miramez nos deu, quando estávamos em um ambiente quase igual a esse. Antes da doação de fluidos para os enfermos, assim ele disse:
- A experiência nos deixou bem claro que devemos conversar mentalmente com o doente antes da aplicação do passe, estabelecendo uma corrente do emissor para o receptor a transmitir palavras de ânimo, de saúde, de alegria e amor, com tranqüilidade, pois o passe tem mais efeito por encontrar receptividade aguçada. Com o treino, ficareis hábeis neste serviço do Bem.
É o que estávamos fazendo, quando a oportunidade nos levara a um lugar como o que ora visitávamos, por misericórdia divina.
Trabalhamos muito tempo nas enfermarias. No fim, deu-me a parecer que Miramez deixou uma doente para que eu fechasse o meu serviço de passes magnéticos. Então, pus as mãos na enferma, e senti algo diferente: eu começava ver coisas que não estava entendendo bem. Insisti, mas não compreendi. Apliquei um passe demorado, conversei mentalmente com ela e ela me respondia, dizendo coisas que eu não perguntava e pedia socorro. Contou certas passagens que me pareciam ter ocorrido na Ásia ou na China. Fiquei meio confuso e, ao terminar o passe, notei logo a presença do nosso guia espiritual, que veio em meu auxílio Não agüentei mais o silêncio, perguntando:
- O senhor poderia me explicar esse fenômeno?
Miramez atencioso, passou a me explicar:
- Lancellin, o devedor nunca foge do credor, principalmente no mundo espiritual. Esta irmã que assistes neste momento, viveu na época do grande conquistador tártaro, Ghengis Khan, que fundou o primeiro império mongólico no século doze da Era Cristã. Devastou desde a Ásia Central até a Ásia Menor, queimando tudo que encontrava, por onde passava.
Miramez mostrou certa tristeza na feição, e prosseguiu:
- Essa aí, meu irmão, foi um dos seus comparsas, dos mais entusiasmados. No dia em que nada queimava, ficava triste. Possuía um cavalo bem adestrado, e ele, o cavaleiro, tanto o cavalgava de modo normal, quanto em pé sobre seu dorso. Era um verdadeiro artista para fazer o mal. Delirava com o fogo que ele punha e via se alastrar, deixando um rastro de cinzas. Essa mulher que ora vemos, tendo as vestes carnais desfeitas por essa impiedosa doença, é aquele cavaleiro, soldado de Ghengis Khan, e entre a lepra
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e o fogo selvagem já teve seis reencarnações. Por isso é que ela está mais ou menos tranqüila, pois já se acostumou um pouco com as doenças e está aprendendo as lições. Já se nota em seu coração alguns rasgos de amor. Queira Deus que seja esta a última vez que ela venha à Terra com essa dolorosa prova.
Fiquei assustado. Como pode uma pessoa sofrer tanto? Tive um impulso e obedeci: ajoelhei-me rente ao seu catre, e orei em seu favor, não conseguindo segurar as lágrimas, que desceram com abundância.
Enquanto estava em plena súplica ao Senhor, pedindo pela infeliz criatura, ainda podia ouvir o estalar do fogo queimando imensas regiões e devastando a natureza. Quando levantei, olhei para o seu rosto: ela prefaciou um sorriso, mas me causou pior impressão. Os olhos lhe faltavam nas órbitas, os dentes fugiram da sua boca, o nariz se afastara para sempre, expulso pela enfermidade, e a língua avolumada não permitia a conversa, nem aceitava com facilidade que passasse alimentação. Tornei a chorar! . . .
Miramez, de novo, aproximou-se de mim, vendo o meu estado e tornou a dizer:
- Ela também sente e ouve o rugir do fogo, o cheiro das queimadas, os sofrimentos das criaturas e dos animais indefesos. Isso é uma verdadeira inquisição dentro dela. É a colheita do que plantou!
Saímos daquela colônia, mas, confesso, estava um tanto transtornado diante de tamanho sofrimento. Ainda bem que fiquei conhecendo somente uma história, de uma pessoa encarnada. E se conhecesse as de todas? Creio que não suportaria. Quando encarnados, ficamos com os nervos abalados; quando desencarnados, desequilibramos o nosso psiquismo. A vida nos leva ao encontro do exemplo da colheita daqueles que plantaram.
Demos entrada em uma residência confortável, cujo dono era um grande industrial; seu nome suprimimos como norma de trabalho, e passamos a chamá-lo pelo número Quinze. Ele tinha perdido o sono naquela noite e folheava livros e revistas, sem no entanto, encontrar o que queria: um pouco de paz. Pedira desculpas à sua senhora, à qual muito amava, para que pudesse descansar fora do quarto habitual, para que ela pudesse dormir sossegada e por isso, ele se encontrava em quarto separado.
Quinze, já tarde da noite, não conseguia dormir. Virava-se para um lado, para o outro, e nada de sono. Parecia que Morfeu estava ocupado naquela noite. Todavia, lembrou-se de um recurso para sair daquele estado tenso: a oração. Era acostumado a ler livros espiritualistas e, de quando em vez, dedicava-se à prece.
Nós já estávamos dentro de seu quarto e o ajudamos na súplica. Abílio e Fernando começaram a operação limpeza, quando encontraram dentro daquele lar dois homens desencarnados, bem postos, como que altos comerciantes. Os dois estavam na sala-de-estar, esperando o colega Quinze para altos propósitos, em se referindo ao comércio.
Estavam os dois conversando, e vamos registrar aqui alguma coisa do que ouvimos, enquanto os companheiros de trabalho preparavam o ambiente para que eles pudessem sair da referida casa. Vamos dar-lhes dois nomes, para melhor harmonia dos fatos. Chamá-los-emos de João e Ateneu.
João, alto e magro, cabelos esbranquiçados, olhos vivos e fala fácil, virou-se para Ateneu e vociferou com certo humor:
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- Ateneu, você se lembra bem que todas as vezes que aqui chegamos já encontrávamos o F ... pronto para sairmos juntos. De uns tempos para cá ele está meio difícil. O "bicho" tá ficando mole, tá ficando velho. Que é que você acha?
Ateneu acendeu o cachimbo, deu umas tragadas como que para se lembrar das coisas com mais facilidade, e respondeu sorrindo:
- Olha, João, eu sei o que é. Pude observar, outro dia, o F . . . lendo uns livros duvidosos, que falam sobre Espiritismo.
Parou um pouquinho ... e deu uma risada.
- O F... agora vai virar fantasma. Você já o imaginou como fantasma? Vamos rir à beca dele.
E os dois gargalharam, envolvidos na fumaça do cachimbo.
Os dois Espíritos não estavam percebendo a nossa presença, nem desconfiavam, tal era a diferença de vibração entre nós e eles. Nesse momento, Padre Galeno chegou, sentiu o ambiente e considerou que seria mais conveniente ficar visível a eles.
Notei que Fernando e Celes tomaram posição, e Celes passou a fornecer um tipo de energia a Padre Galeno, que foi tomando forma, até aparecer, entrando na sala, para que eles não se assustassem com a sua presença repentina.
- Boa noite, meus amigos, boa noite!, saudou o padre. Mesmo assim eles se assustaram, e um olhou para outro, como que dizendo "vamos embora". E Padre Galeno perguntou pelo companheiro encarnado, e eles disseram:
- Nós também, padre, estamos esperando por ele, mas, a demora é tanta que estamos de saída. Depois voltaremos. O senhor pode dizer a ele, por nós, que tivemos que ir?
O padre abanou a cabeça afirmativamente e se despediu das duas entidades. Depois que eles ganharam a rua, um comentou com o outro, sorrindo:
- Não falei com você? O "rato" chegou em busca do F ... Depois nós vamos adverti-lo seriamente. Ele está entrando em um caminho errado e vai perder todos os seus bens, se se aliar a essa corja.
Aproximei-me de Padre Galeno e perguntei com ansiedade:
- Padre, eles não sabem que desencarnaram?
- Não, Lancellin, eles continuam a fazer negócios e permanecem dentro das empresas das quais foram donos quando encarnados, e ainda não desconfiaram. Dão ordens e, por vezes, são atendidos, por encontrarem receptividade intuitiva.
Arrisquei outra pergunta:
- Não é justo, constituindo uma caridade, que os alertemos de que já passaram para o lado de cá?
Respondeu o Padre Galeno:
- Nem sempre, meu filho; tu, por exemplo, já não achaste muito para a tua posição diante da evolução que alcançaste, saber o que soubeste sobre ti e a irmã Onze? Assim também são eles! Vamos torturá-los com a verdade que eles não estão preparados para ouvir? Deixemos que o tempo se encarregue disso com mais habilidade. Enquanto esperamos, trabalhemos onde fomos chamados a servir com mais proveito.
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Voltamos ao quarto e encontramos o Quinze afastando-se do corpo físico. Observei sua aura e pude notar uma cor esquisita, um marrom com listas mais escuras. Ele estava assustado, andando cambaleante pelo quarto e não via a nenhum de nós. Andou um pouco e sentou-se diante de uma escrivaninha. Começou a pensar na vida, na família, no mundo dos negócios, nas suas empresas. Como poderia ganhar a mais, para fazer frente às muitas despesas que estavam surgindo? Depois, vieram-lhe as idéias da vida espiritual. Achou conveniente preocupar-se mais com ela, a vida da alma. Ajoelhou-se e começou a orar, pedindo a Santo Antônio que lhe desse inspiração para o que fosse necessário fazer para uma melhor vida, em Espírito. E que não se esquecesse, também, de sua família e de dois de seus compadres que já tinham morrido e com os quais ele sonhava sempre. Enfim, que Santo Antônio pedisse a Deus e Cristo pela humanidade, para que pudessem desaparecer os rumores de guerras, a peste e a fome do mundo. Que não se esquecesse, igualmente, de abençoar suas empresas, e seus empregados, dando-lhes saúde e força para o trabalho.
Nesse ínterim, Miramez colocou a destra em sua cabeça e, em momentos, ele passou a ver alguns de nós. Emocionado, levantou-se e perguntou: Como entraram? Está tudo fechado! ...
Padre Galeno adiantou-se e disse:
- Meu filho! ...
Quinze pegou em suas mãos e beijou-as com ansiedade. Quando quis falar, o padre o interrompeu.
- Meu filho! ... Tu te encontras em desdobramento. Olhe ali o teu corpo físico, e apontou para a cama. Ele, que não tinha visto o corpo ainda, assustou-se, começou a tremer, dizendo:
- Padre, eu morri? Eu não queria morrer agora! Tenho mulher e filhos, tenho negócios a acertar, dos quais somente eu posso tratar sem prejuízo para as firmas! Eu não posso morrer!
Lágrimas escorriam em suas faces, e o desespero conturbou a sua mente. O medo de morrer turvou mais a sua aura, que já não era boa, escurecendo-a mais ainda, emitindo pequenos estalos que se refletiam no corpo carnal, levando-o a se contorcer. O Quinze só não voltava ao corpo físico, por impedimento de Padre Galeno, que o segurava pelas mãos.
Padre Galeno conservava-se visível ao Quinze pela ajuda de Celes e Kahena, que permaneciam ao seu lado emprestando fluidos para que o sacerdote tivesse condições para tanto. Analisando o cordão fluídico, pude identificar uma corrente de energia mental que partia de um foco de luz apoiado na cabeça espiritual do Quinze, correndo a uma velocidade incrível e que se derramava como chuveiro no seu cérebro físico, espraiando-se pelo seu sistema nervoso. Eis aí o porquê das contorções no agregado fisiológico.
- O medo, dizia o padre, é um estado negativo e perigoso, em certas horas. Ele destrói muitas possibilidades que temos para alcançar a luz, mas, como nada se perde, o medo, em doses homeopáticas e nos momentos convenientes nos assegura a estabilidade. Aqui no mundo espiritual fazemos exercícios, às vezes prolongados, para aquisição da coragem, quando precisarmos dela em trabalhos difíceis. Cada operação sempre requer um comportamento diferente. Só quando o Espírito já tem todas as aquisições em alto desenvolvimento, e participa de todas as andanças nos umbrais, por si mesmo desenvolve e assegura o que precisa no momento. No caso de Quinze, era necessário que recebesse algum empréstimo de certas
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qualidades, para que pudesse iniciar-se nas coisas espirituais, ainda como criança. Somente a idade espiritual irá consolidar as qualidades indispensáveis ao equilíbrio.
O industrial ficou meio triste, mas ouvia bem o Padre Galeno que continuou:
- Não morreste! Ninguém morre, meu filho. A vida continua em todas as direções que possas observar e, até onde o alcance da nossa mente se perde, ela avança, porque tudo é vida que pulsa no universo. Aquele corpo que estás vendo e querendo voltar a ele, é o teu corpo de carne; esse, com o qual te manifestas agora, é o perispírito, tão falado na codificação de Allan Kardec, ou seja, no Espiritismo.
Ele apalpava suas vestes espirituais e tinha o que pegar; quis olhar em um espelho para certificar-se de que era ele mesmo, e o espelho apareceu em sua frente, onde o industrial viu com assombro a sua duplicata. Abriu a boca e viu reluzir nela uma das suas presas, uma coroa de ouro que recentemente tinha mandado colocar.
Observou os cabelos, os olhos, as orelhas, uma pinta na testa. Falou alguma coisa; era a sua voz. Já mais calmo, avançou para o seu corpo de carne e tentou apalpá-lo; a sua mão começou a atravessar o físico. Admirado, ele perguntou:
- Padre, como pode ser isso? O meu corpo físico parece água ao toque destas mãos!
Padre Galeno respondeu com facilidade:
- Essas mãos que ora moves, meu filho, estão em outra dimensão. Também com a tua mão física, se pudesses mover-te agora em tua direção, aconteceria o mesmo fenômeno. São faixas diversas. Na química e na física, dois corpos não podem tomar o mesmo lugar no espaço mas, isso em se tratando de uma só dimensão da vida. Porém, como elas são inúmeras, pode haver vários corpos interpenetrando-se, sem perda alguma para nenhum deles. Quinze parou um pouco, e disse emocionado:
- Meu Deus! Que coisa linda! Que maravilha é a vida e as coisas de Deus!
E, com alegria, investiu no padre com muitas perguntas, das quais registramos uma, para que não prolonguemos muito o nosso capítulo.
- Padre, o senhor está falando dessas belezas, cuja maravilha assisti eu mesmo. A razão não pode negar a evidência. Por que é que a gente, quando está na carne, não pode observar essas coisas tão belas, a nos mostrarem a grandeza universal e a pluralidade das coisas? Não seria bem melhor se os homens encontrassem, passo a passo, essas lições com as quais ora estou sendo agraciado, principalmente essa que diz que ninguém morre?
Padre Galeno sorriu satisfeito e respondeu, sereno:
- Seria uma beleza maior, meu filho, se Deus resolvesse fazer na Terra um reino dos céus. E eu acho que esse é o Seu desejo ardente. No entanto, para estabelecer um céu na Terra é preciso anjos para habitá-la.
Todos rimos, já entendendo o desfecho dos ensinamentos do Padre Galeno. Kahena adiantou-se, pedindo licença, e rematou para o sacerdote:
- E onde estão os anjos?
- Todavia, continuou o sacerdote de Cristo, a Terra está cheia de fenômenos espirituais, meu irmão. Basta que os homens passem a analisá-los com o coração, esquecendo um pouco a ciência fria, que nunca se lembra do amor. A mediunidade é um desses fenômenos na Terra. O que ocorre é que os que a procuram para estudá-la exigem um controle que não está nas mãos dos homens e sim, na vontade dos
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instrutores espirituais, que conhecem os seres humanos e sabem filtrar todos os acontecimentos na altura evolutiva das criaturas. Nenhum cientista da Terra, por mais evoluído que seja, pode interferir nos programas que a evolução espiritual delineou. Quase todos eles são caçadores de prodígios, geralmente impulsionados pelo ouro e pela vaidade, sem conhecer e medir os sacrifícios acionados para tal efeito. Quase todos os médiuns de efeitos físicos, como nos trabalhos de materializações, sucumbem no auge das suas faculdades, por não encontrarem mãos que os ajudem mas somente mentes que deles exigem o impossível.
Quinze estava pasmado, porque sentia que o que ouvira era verdade. Sua mente estava refeita e a sua aura mudada, apresentando um azul claro, com algumas estrias de róseo. Depois que a serenidade assomou o seu ser espiritual, ele começou a ver todos nós, sem intervenção dos médiuns espirituais, e perguntou a todos:
- O que vamos fazer hoje?
Eu, que estava mais próximo dele, falei-lhe com atenção:
- Vamos esperar a deliberação do nosso guia espiritual. Garanto-lhe uma coisa: vamos trabalhar muito, se Deus quiser!
Miramez tomou a palavra:
- Meus companheiros de trabalho, que Jesus nos abençoe sempre! Estamos convocados esta noite para uma difícil operação de reencarnação, cujos processos são dolorosos, devido ao ódio entre os futuros pais e o filho reencarnante. A lei está dando a eles mais uma oportunidade de perdão e vamos ajudar nesse trabalho, no silêncio desta noite, de sorte que a oportunidade seja favorecida para todos os irmãos em questão.
O empresário em treinamento à viagem astral era o mais alegre e a euforia transbordava dos seus gestos.
- Meus companheiros - continuou Miramez, sério e enérgico - estamos de partida para mais um labor que nos requer, mais do que presença; que possamos usar todas as conquistas, em se referindo à educação espiritual: esquecer a maledicência e sabermos nos comportar diante de fatos e coisas, que não podem ser vistos pelo público, mas que devem ser estudados por Espíritos que já alcançaram o equilíbrio emocional e a tranqüilidade imperturbável no serviço comum do aprendizado. Devemos agora assistir e ajudar uma reencarnação, onde poderemos auxiliar e aprender, porque faz parte da escola divina do nosso Pai Celestial.
Abílio entendeu o pequeno silêncio e fez uma rogativa ao Senhor. Partimos esperançosos. Descemos em uma rua muito movimentada, mesmo àquela hora da noite, e passamos em frente à redação de um grande jornal, onde estava estampado um exemplar daquele dia, analisando o perigo da bolsa de valores, onde vultosas quantias pesam sob o impulso da ganância humana. Quem assistisse a uma dessas seções em busca de ouro, e que nunca tivesse ido lá, ficaria perturbado com a algazarra dos usuários, menos o Quinze, acostumado às atividades de incrementar o jogo para melhorar a sua posição no campo do empresariado. Foi o primeiro a notar as letras garrafais avisando sobre o perigo; assustou-se e olhou para nós, já meio hipnotizado. Abaixo do texto que o ferira em sua sensibilidade homem de negócios, estava escrito: "Grande prédio à rua tal, número tal, pega fogo nesta madrugada. O fogo se alastra sem
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que os soldados do fogo possam impedir a destruição". Quinze deu um grito, e não ouviu mais ninguém, dizendo:
- Eu preciso ir lá! Eu preciso ir lá! Pelo amor de Deus, me ajudem! Padre, reza por mim! Estou arruinado! Pede a Deus para que o fogo apague, reverendo!
Desesperado, saiu correndo e gritando. Diante desse fato, Miramez, disse ao Fernando:
- Leve-o para a sua casa carnal, meu filho, porque essa é que está pegando fogo verdadeiramente, o fogo do apego e da usura. Fernando saiu com ele nos braços, porque tinha desmaiado. Eu os acompanhei, para observar como ele acordaria. Fernando o colocou em outra cama e começou a dar-lhe alguns passes. Ele despertou lentamente e disse:
- Apagaram o fogo? Apagaram o fogo? E a bolsa, como vai indo? Responda-me, eu não sou mais o dono desta empresa? Pelo amor de Deus, ninguém me atende! Onde estamos? . . .
Fernando e eu o ajudamos a retomar a posse do corpo denso. Ele acordou suado e gemendo, passando as mãos no corpo, dizendo que estava muito quente. Começou a se lembrar do sonho. Sonhou - pensava ele assustado - que estava em cima de um prédio, no último andar, e que a sua carteira tinha caído lá de cima do edifício, tendo o dinheiro se esparramado pela rua. O povo que estava passando apanhava todo o dinheiro e ele gritava:
- Esse dinheiro é meu, chamem a polícia! Chamem a polícia! ... Até um padre que ia passando avançou em minha bolsa de notas!
Limpou o suor e disse:
- Graças a Deus foi um sonho! Que coisa horrível! Perguntei ao Padre Galeno:
- Padre, e foi o edifício dele que pegou fogo? Padre Galeno deu uma risada e respondeu:
- Nada, meu filho, nada! ... Tudo está quietinho no lugar certo. Até a notícia sobre a bolsa, ele leu tudo errado. Nada disso aconteceu. Ele está doente. E uma doença crônica e a cura é demorada. As vezes começa em uma encarnação para terminar em outra; isso, quando termina. Sabe qual é essa doença? É a enfermidade do apego.
Os companheiros encarnados, que estavam como aprendizes, também foram todos entregues em seus lares. Eles não estavam em condições de assistirem à operação de reencarnação, onde deveríamos cooperar, já quase ao amanhecer do dia.
Partimos e logo entramos em uma luxuosa mansão. Ali, fomos recebidos por uma equipe de trabalhadores espirituais, que esperavam a hora oportuna para começar o trabalho mais difícil, que é atar os primeiros laços do perispírito, após o encontro do espermatozóide com o óvulo feminino. Eles já tinham feito o encontro dos pais com o futuro filho, e todos concordaram em viver juntos e se perdoarem mutuamente, mas notava-se que as mentes dos pais estavam tisnadas em rancores, querendo o filho, mas, fazendo várias exigências. Levados aos corpos, acordaram e a mulher disse ao marido:
- Tive um sonho horrível.
Ele, meio acordado, meio dormindo, não escutou direito. Ela tornou a chamá-lo:
- José, não ouviu? Registrando melhor, ele respondeu:
- O que é, mulher?
- Tive um sonho horrível! Agora não posso dormir mais, fique acordado comigo. Tenho medo!
- Medo de que, mulher? Você está dentro de casa. Vamos dormir novamente.
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- Não, não posso!
Carinhoso, ele a abraçou tentando tranqüilizá-la e, em uma seqüência de carícias, chegaram à conjunção carnal. Em pouco tempo, dezenas de espermatozóides estavam a caminho do óvulo, em verdadeira disputa pela sobrevivência. Todos eles apresentavam-se envolvidos por luz azulada. Na maioria, essa luz era mais pálida, porém, um deles brilhava intensamente, como se fosse um cometa no céu uterino, em viagem vertiginosa em direção ao óvulo, que estava envolvido em uma aura vermelha.
Os operadores espirituais já estavam a postos para o grande momento. Uniram-se os dois microscópicos corpos, fundindo-se em um só, em uma das mais belas manifestações da perfeição da obra do Supremo Criador.
Depois de alguns segundos, em estágio de certas assimilações, tomaram nova forma. Dedos invisíveis trabalhavam com incrível habilidade, em um grau que ainda estamos longe de compreender.
O Espírito reencarnante tinha perdido os sentidos e estava ali mesmo, no quarto do casal, recolhido em um leito improvisado pela equipe de trabalhadores de Jesus. Foram feitas várias aplicações de passe no irmão que voltava à carne, e depois nos reunimos em oração, agradecendo a Deus por mais uma oportunidade de trabalho renovador, Miramez cerrou os olhos, orando com humildade:
"Deus de bondade e de amor!...
Nós agradecemos de todo o coração, pelo que nos foi ofertado durante esta noite de assistência, em todos os casos em que servimos de instrumento. Pedimos, meu Pai, que não Te esqueças dos que sofrem, de todos aqueles que visitamos e cujos estados merecem muitos cuidados.
Rogamos a Tua compaixão para todas essas criaturas, abrindo-lhes os olhos à luz da Verdade, e estimulando cada vez mais os seus bons sentimentos. Pedimos pelos aprendizes, que não suportaram os trabalhos, para que eles, de outra vez, possam nos acompanhar até o fim da jornada de trabalho educativo e caridoso.
Quanto a esses que se reúnem conosco neste momento, que a Tua luz os deixe em plena felicidade, para que no amanhã possam ser mais úteis, cheios de ânimo para o serviço do Bem sem fronteiras. Que a Tua paz, meu Deus, seja a nossa paz, hoje e sempre!"
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