Iniciação - Viagem Astral
Ajudando Sempre
O objetivo dos nossos trabalhos no mundo espiritual é realmente ajudar sempre, porque queremos copiar a natureza divina, que deve se expressar na natureza humana. O universo - já falamos, e todos os Espíritos que se comunicam com os homens sob a orientação de Nosso Senhor Jesus Cristo, o afirmam - é uma perfeita harmonia; a inteligência mal orientada é que torna o ambiente negativo para que surja o desequilíbrio, passando ela mesma a sofrer as conseqüências da sua própria invigilância.
Não turbes o teu coração, em face dos sofrimentos alastrados em todo o mundo, nem esmoreças o teu ânimo, diante dos infortúnios que se estendem por todas as nações, pois eles são frutos das sementes lançadas pelos próprios sofredores. Agora que o joio já cresceu no mundo e sufoca o trigo, haveremos de trabalhar sem exigências, por todos os meios possíveis e louváveis, para que o bem tome posição firme em todos os pontos de maior relevância no mundo, e isso não é idéia dos homens: é esquema de Deus.
Nós apelamos para todos os espiritualistas do mundo, onde quer que estejam, para aumentarem as fileiras dos que acompanham o Cristo e comecem, onde estiverem vivendo, a construir ou reconstruir a harmonia, ampliando os meios de as criaturas reconhecerem os seus tesouros internos e despertá-los; que reconsiderem os erros, facilitando o perdão; que apaguem os ódios, usando o amor; que respeitem os direitos alheios, como um dever sagrado.
Não existe outra solução para as criaturas da Terra, a não ser a prescrita por Jesus Cristo: amarmos ao próximo, como a nós mesmos, porque o amor nivela as criaturas.
Todas as guerras provêm do monstro do egoísmo, da inveja, do orgulho e aí entra o ódio que separa e destrói, que dificulta todas as coisas, que fecha os caminhos para a paz e nunca se interessa pelo bem das criaturas. Jamais existirá paz na Terra, com o esquecimento do Evangelho. Todas as ciências do mundo, reunindo-se, poderão trazer abundância e conforto físico para os homens, mas somente a educação das pessoas lhes poderá trazer a paz do coração e a serenidade imperturbável. E essa educação com o Cristo é mais harmoniosa e mais correta, de maneira que pode servir até para o proveito da própria ciência.
É muito interessante uma comunicação plena entre as criaturas, para que circule entre elas uma força poderosa que se chama amizade e amor. O isolamento é caminho para a morte, porque a vida se movimenta permanentemente no bem. Viver é ajudar sempre, em todas as direções. Os homens devem saber que eles não estão a sós; o trabalho pertence a nós outros, que com eles marchamos, lado a lado, por bondade e misericórdia do próprio Deus. O mundo espiritual está entrelaçado com o físico, em vários níveis, e um depende do outro. A Terra é casa, também, dos Espíritos de luz, que não perdem a oportunidade de assisti-la sempre, com todos os seus recursos.
Tu que nos lê, meu irmão, se tiveres alguma coisa a reparar em tua vida, faze-o hoje mesmo, porque amanhã será outro dia, que trará as suas próprias dificuldades. Busquemos o melhor caminho, aquele que somente faz amizades duradouras, aquele que não altera as leis naturais da vida. Todos temos direitos e deveres.
Ajuda-nos a tirar da cabeça das criaturas que o céu é um lugar de descanso eterno; ele é, por excelência, um lugar, se podemos chamá-lo assim, de trabalho eterno. A energia que circula no Espírito
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superior é totalmente aproveitada, sem que se perca uma fração sequer, em coisas menos edificantes. Quanto mais elevado o Espírito, mais recursos ele tem de ajudar.
O trabalho no nosso ambiente é vida, e todos o buscam como alimento superior.
Nós temos a Terra como um lar de proporções maiores que o de quatro paredes, mas, com as mesmas dificuldades e recursos na proporção do seu tamanho, e nós todos fazemos parte desta casa de Deus. O planeta está caminhando para um desfecho final, em relação aos reajustes; é o carma coletivo cobrando dos devedores, e a moeda do pagamento é a dor, e o monstro da confusão é o egoísmo. Nada no mundo chega para o ganancioso. Mesmo que seja consciente de que nada leva depois do túmulo, ele quer morrer com as mãos cheias de ouro, em um caixão forrado de escrituras de bens terrenos. Essa doença é crônica em todas as épocas da humanidade, porém, quem está com o Cristo reconhece que está próximo o momento da voz de Deus dizer: Basta! e o pensamento da luz invadir a mente dos homens, expulsando as idéias das trevas. É muito bom que todos compreendam que a era da luz já está se aproximando, e que todos nós deveremos cooperar com o Cristo na sementeira da educação e da disciplina.
Todos os dias e noites, multidões de Espíritos descem à Terra, ajudando a preparar os campos para que o Divino Mestre semeie a luz do Evangelho no ambiente dos corações. Os dons de ouro estão pulsando no cerne das almas, esperando o toque do amor ou da dor, para que sirvam mais.
Não esperes salvação por recursos externos. Cada qual é construtor da sua própria felicidade, não devendo se iludir com as falsas promessas que sempre acompanham os homens. Salvar é, pois, libertar, e a libertação da inferioridade depende do interior; é mudança; é transformação de atitudes; é instalação do amor na casa divina do coração, para que nasça o sol da independência em relação às coisas inferiores.
Constrói o teu próprio céu, na área da consciência que Deus te deu e vive nela, em paz, doando paz para todos os lados. Mesmo que os homens não creiam que estamos ao lado deles, continuamos a ajudá-los, porque esta é a vontade de Deus para com todos.
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O sol, visto de nossa Colônia, é um astro maravilhoso, de encantos que a linguagem humana se perde ao tentar descrever, e é o mesmo sol que ilumina a Terra e alimenta a vida em tudo. Explicar as coisas espirituais, na escrita e na fala para a Terra, é muito difícil para nós, por nos faltarem condições de interpretação dos nossos pensamentos e da realidade. Podemos comparar tal situação a de um índio que vai pela primeira vez a uma grande metrópole. Voltando à sua taba e, interrogado sobre o que viu no meio dos homens civilizados, ele sofre por não encontrar recursos favoráveis, nos gestos e linguagem da tribo, para transmitir o que ele realmente viu. É o que ocorre com os nossos maiores da espiritualidade, quando querem nos relatar as coisas dos planos superiores. Sentimos também muito embaraço quando falamos aos encarnados das coisas existentes no plano em que habitamos. São faixas diferentes uma da outra; entretanto, consegue-se alguma coisa na conjuntura da mediunidade que não esquece a disciplina e o amor, na feição em que a caridade se expressa na Terra.
O sol é o portador de elementos indispensáveis à nossa vida e da própria Colônia. Esse sol não é somente físico; o que alimenta essa estrela que é considerada de quinta grandeza, é o seu duplo, onde o esquema espiritual organizado produz e absorve matéria quintessenciada da respiração de Deus, transmutando esses fluidos sutis em magnetismo universal, por onde seus raios abastecem e vivificam a vida criada por Ele.
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Aqui, onde habitamos por misericórdia divina, cultivamos muita coisa. A agricultura na Colônia é bastante avançada, no tocante às coisas naturais. O estudo do universo, a harmonia dos nossos corpos, são sempre comparados para que a alimentação corresponda às nossas necessidades. Quem fugir da realidade natural não pode nem tem condições de viver bem.
Um agricultor aqui é um Espírito altamente iluminado pelos conhecimentos biológicos, começando pelo corpo humano, até onde pode ir no conhecimento dos corpos espirituais. A música, igualmente, não foge da pauta do saber, porque tudo na criação é melodia divina.
Descem até a nossa Colônia grandes instrutores espirituais, filhos da harmonia e, por vezes, revestem-se de corpos mais pesados e ficam no nosso meio por algum tempo, nos ajudando a compreender e a valorizar o que temos em mãos, e a saber aproveitar a luz em muitos aspectos.
As plantas e frutos são concentrações de energia sublimada, cujo aproveitamento a bênção do conhecimento nos proporciona. Na Terra, pelo que já sabemos, o adubo orgânico é o mais saudável para o equilíbrio do ambiente e para a integração harmoniosa dos frutos e sementes, onde o organismo humano pode reabastecer as forças gastas nas lutas diárias. Toda doença é falta de harmonia no mundo celular do agregado físico. É chegada a hora de resistirmos à sofisticação que nos leva ao desespero e à decadência e voltarmos à vida natural.
As conseqüências da vida anti-natural que os homens levam, os acompanham depois do túmulo, desorganizando, por vezes, até os corpos espirituais, e o preço do difícil reparo será a dor.
Quanto mais avança a medicina terrena, mais se alastram as doenças. E o pior é que os próprios cientistas não desconfiam do carro da ilusão em que viajam. Deveria ser meta prioritária de todo governo a educação das mentes, pois o psiquismo desajustado é ninho de perturbação que se manifesta como variados distúrbios orgânicos. A saúde espiritual e a física devem formar um conjunto harmonioso.
A energia cósmica nos chega sublimada das regiões superiores e nós a infestamos com os nossos sentimentos inferiores, e isso nos faz sofrer. Pudéssemos nós explicar a todos os Espíritos renitentes no erro, o desastre que operam no Espírito o ódio, a vingança, o egoísmo, o ciúme, teríamos a certeza de que o comportamento de todos seria outro. As gerações que lhes irão suceder esperam receber a herança da evolução do ambiente físico e psíquico da Terra. Apesar de todo o desequilíbrio da humanidade, o planeta oferece ilimitados recursos para os que escolhem a luz.
Juntemo-nos aos homens que já puseram os pés na senda da iniciação onde os desejos inferiores já foram para o segundo plano das suas vidas e tentam esquecê-los de vez. Eles são os que estão conhecendo a Verdade e ela irá libertá-los.
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Fomos para um grande salão, onde a música nos proporcionava condições para o trabalho mais vantajoso e nos despertava uma fé mais viva, por entrarmos em plena harmonia com o Universo.
Desta vez, acionados os comandos, e na vibração etérica, podíamos identificar uma velha composição adaptada ao nosso plano, que se intitulava Sonho de Amor, de Daniel François Auber, partitura grandiosa que nos fazia encher de emoção, sentindo nela a harmonia e a paz penetrarem pela nossa audição. Como é grandiosa a meditação envolvida pela melodia! . . .
Lembrei-me dos grandes salões de festas requintadas na França, e me transportei nas asas da saudade; entretanto, a diferença era muito grande. A algazarra dos humanos quando estão em euforia, as
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bebidas, o palavreado, os hábitos e vícios que desajustam um ambiente elevado, em todos os casos, são caminhos por que todos passamos para chegar à perfeição espiritual.
Terminado o banho de serenidade espiritual que tomamos pelo que ouvimos, Celes fez a oração de partida, a pedido de Miramez, e partimos com muita alegria em direção ao Brasil Central.
Quando estávamos descendo para a terra, Miramez, em rápidas palavras, nos cientificou de que lá embaixo havia algo de grandioso para o nosso estudo. Ele acrescentou:
- Essa nação prepara-se para ingressar no concerto dos povos, com uma cota grandiosa das luzes espirituais.
Pairamos por cima do Planalto Central, e o nosso guia espiritual ativou em nós a visão mais profunda, para que pudéssemos enxergar as coisas secretas, e sentir as profecias para o futuro, reveladas pela policromia estampada na natureza. Vi, com a visão que Deus me deu, partir de determinado ponto do Estado um caminho de luzes, saindo do chão e subindo aos Céus em forma espiral, de maneira a ganhar quase todo o território. Por esse caminho de luz desciam e subiam inteligências cujas funções desconhecíamos. Notávamos a aura da região, bem diferente das outras, caracterizando a fé e a esperança e configurando um futuro de esplendor. Povo de um sentimento aflorado, sua caridade e amor davam demonstração de vigorosa fraternidade. Ali o mundo espiritual parecia mais visível e mais atuante, por encontrar condições mais adequadas para o trabalho de intercâmbio espiritual. Mais no alto, víamos uma claridade distante, que prendia sobremaneira a nossa atenção. Era uma organização espiritual destinada a receber, instruir e mandar caravanas para a Terra em casos urgentes, principalmente no tocante à política e aos interesses internacionais. Todo país tem a sua direção espiritual, no comando das forças físicas da Terra.
Aproximamo-nos de uma instituição assistencial, localizada em uma cidade do Triângulo Mineiro, onde a fé falava mais alto que a própria razão. Descemos e nos misturamos aos trabalhadores espirituais da casa em variadas atividades. Antes, fomos recebidos com todo carinho que puderam nos dispensar, e em seguida trabalhamos juntos, adotando o emblema de ajudar sempre.
O diretor da casa naquela noite nos pediu, já que tínhamos certa experiência em trabalhos de desdobramento, para verificar os laços dos assistidos, laços que uniam o corpo físico ao espiritual, e o que podíamos fazer por eles. Acrescentou o guia da casa:
- Estávamos todos esperando por um momento como este, porque sabemos que muitos desequilíbrios partem do corpo espiritual e das junções dos corpos em questão. Esse "cordão de prata", em muitos casos, precisa de uma limpeza urgente para que não cause maiores danos ao organismo material. Nós vos pedimos, em nome de Deus, para cooperardes conosco neste sentido.
Miramez, que é um técnico por excelência nesse assunto, sorriu e acentuou: - Aqui estamos para isso, meu irmão. Fizeste o pedido à Colônia já há algum tempo, e hoje viemos, em nome do Mestre Jesus, para quem trabalhamos com alegria e sem conhecer cansaço.
A casa material não está nos moldes que a higiene deseja, mas, não podemos exigir mais esforços onde nos parece esgotada a energia. Vamos ajudar sem apresentar regras ou ditar normas. Onde se ajunta muita gente em função de resgate, precisa-se é de quem ajude, e que ajude com amor, nunca pedindo algo em troca.
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Visitamos várias dependências e notamos que estavam ali, internados na carne, muitos criminosos do passado, já abatidos e arrependidos dos crimes praticados. Estavam recebendo as bênçãos da renovação interior e tinham no Espiritismo esse conforto espiritual e a esperança de dias melhores. E alguém ali encarnado, era o instrumento desta renovação.
Abeiramo-nos da cama de um rapaz de cor parda, muito raquítico, e pus-me a observar o seu cordão fluídico, que perdera parcialmente sua vitalidade. De um lado, apresentava-se estático, sem manifestar circulação de energia, e na sua descida para o cérebro as suas próprias raízes eram moles nos centros de reajuste. Coloquei, como de costume, a mão sobre o laço fluídico e senti uma vibração demorada, uma lerdeza na pulsação. Aquele cabo de prata desperdiçava muita energia da mente, por não corresponder às idéias formadas e às luzes que recebemos do ambiente divino.
Procuramos o irmãozinho por ali, pois logo notamos que ele não poderia ter saído para longe, e o encontramos em um salão de aula espiritual. Assentamo-nos perto dele, que não nos notava, e sentimos a dificuldade com que ele assimilava as lições que a professora distribuía.
Miramez, de lado, comentou com respeito:
- Lancellin, este nosso companheiro em Cristo carrega consigo um desequilíbrio genético. Os seus próprios pensamentos em desequilíbrio alcançaram os genes e se expressaram no encontro do óvulo com o espermatozóide. A energia mental do reencarnante, nessa hora, prepondera e se firma em sua própria vida, com o que carrega de bem ou mal.
Não vamos aqui esmiuçar a sua vida passada, por não ser da nossa competência tal feito, e somente o fazemos quando o passado nos traz algo educativo. Ele já está arrependido e prometeu aceitar a dor para refazer o espiritual. O nosso fito, neste momento, é ajudá-lo a carregar a cruz dos seus infortúnios. Comparando-se com o martírio do Divino Mestre, que aceitou a ajuda do Cireneu, nós somos cireneus que podemos apenas ajudar, e não carregar a sua cruz, porque levar o lenho das provações é tarefa somente dele.
Olhou para Kahena, que veio com presteza. De lado, já estavam Celes, Fernando, Abílio e Padre Galeno. Ele olhou para o cérebro do rapazinho, de maneira que até eu podia observar com clareza sua cabeça espiritual por dentro, e notei que parecia uma casa onde as lâmpadas são fracas, meio apagadas.
Miramez levou os dedos no centro da vida do nosso irmão, tocou em alguns pontos, e contemplamos algo maravilhoso: o cérebro espiritual do nosso companheiro começou a funcionar com rapidez. Caminhavam raios de luz em todo o sistema nervoso; o córtex cerebral mudou de colorido e pulsava com mais intensidade. As duas glândulas, pineal e pituitária, começaram a secretar resíduo opaco que escorria por microcanais que chegavam à espinha dorsal. O líquido pardacento se avolumava na base do crânio, com tendência a descer pelo cordão de prata. Isto que estamos narrando é o que contemplamos no duplo do corpo físico, que retrata o soma fisiológico. E quando aquela sujeira espiritual começou a descer para o campo físico, Miramez tocou no ponto de união do cordão fluídico com a cabeça espiritual e acompanhamos a descida dos elementos corrosivos até o corpo de carne.
Quando esse líquido derramou no físico, o corpinho se agitou em convulsões. De modo a não acordá-lo, Miramez, com todo o cuidado, desviou o curso daquela energia gasta e ofensiva para os intestinos, e falou com bondade:
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- Lancellin, se esta energia alterada estacionar no cérebro, ele vem a falecer imediatamente. Ele ainda vive, porque ela se encontrava no campo espiritual, que tem muito mais resistência, e apenas fração mínima descia para o físico, onde alguns remédios podiam disfarçar a opressão, ou, se assim podemos dizer, a combustão exagerada.
A professora notou a operação de Miramez e conservou presa a sua atenção na aula, para que ele pudesse suportar a limpeza das forças negativas acumuladas. Notava-se em sua feição uma expressão de dor amena, enquanto o corpo físico continuava a se contorcer. Em instantes, ele acordou aos gritos. Acudiu-lhe aquela que lhe servia de enfermeira, que notando os gases liberados pelos intestinos, apressou-se a aplicar-lhe uma lavagem interna de água morna, aliviando o nosso irmão.
Miramez explicou:
- Ele vai ficar uns dias acamado porque o físico recebeu um abalo muito grande.
Naquela noite, trabalhamos em vários casos semelhantes a este que narramos, porém, nunca um caso é exatamente igual ao outro.
Retiramos do ambiente dois obsessores terríveis, que ficavam espreitando à espera de alguma invigilância, para armar a maior perturbação possível.
Vi Kahena meio agitada. Ela escapou por minutos da nossa companhia e emitiu um assobio estridente, em escala difícil de atingir. No mesmo instante apareceu um grupo de índios de estatura descomunal. Eles agarraram os dois sem querer ouvir nada e desapareceram com eles em um átimo de segundo. Kahena nos esclareceu:
- Quando o amor não é entendido, usa-se a energia. A força do bem deve ser respeitada imediatamente.
Ao nos retirarmos daquele lar, onde os reajustes se estendem em muitas modalidades, o guia da casa nos pediu com humildade:
- Se não fosse querer demais, eu pedir-vos-ia para passardes em casa do nosso irmão... Ele há muito está sofrendo insidiosa doença do fígado. Tem perambulado de clínica em clínica, sem conseguir um tratamento satisfatório. Será possível ajudá-lo?
Miramez, prestimoso, falou com bondade:
- Célio, nós estamos aqui, trabalhando, e a nossa meta é ajudar sempre. E nesses casos somos os mais ajudados, por aprendermos melhor como trabalhar com discernimento.
Despedimo-nos com alegria, abraçando todos naquele clima de fraternidade que Jesus sempre nos ensina.
A residência de... era um pouco afastada do centro da cidade; ficava nas franjas da comunidade e alguém já nos esperava na entrada: o anjo da casa, uma jovem sorridente que nos recebeu prazerosa. Depois do encontro fraterno, ela foi nos informando:
- Ele, o nosso amigo enfermo, teve uma crise de assustar os familiares. A essas horas da madrugada, tiveram que chamar um médico às pressas, e ele já está aí dentro. A simples presença do clínico já trouxe alguma melhora, pois ele parou de gritar.
Ela nos convidou a entrar. Abeiramo-nos do leito e lá se encontrava um homem já maduro, magro, olheiras acentuadas, rugas que revelavam muito sofrimento.
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Miramez correu a vista em seu todo físico e, depois de um exame minucioso, que notei ser no duplo etérico, disse com convicção:
- O caso dele é na vesícula biliar. Ela está deformada por cálculos que prejudicam sua função de coadjuvante do fígado. Olhou para Kahena e esta logo entendeu o pedido de ajuda e saiu com Celes. O médico, conversando com o enfermo, lhe falou com brandura:
- Não precisas te assustares, amigo. Estás com o fígado meio inchado. Já bebeste muito?
O doente respondeu:
- Nunca, doutor!
- E o cigarro, é um atrás do outro, não?
Ele respondeu vitorioso:
- Graças a Deus, doutor, nunca pus um pito na boca.
O doutor, meio sem jeito, acrescentou:
- Então deve ser herança. Essas doencinhas de herança são as piores.
O doente, gostando da conversa do clínico, falou choroso:
- Doutor, e o coração, como vai? Eu tenho até medo de falar em coração porque essa peça, se zangar... De uns tempos para cá, eu tenho sentido muita falta de ar.
O médico, com o aparelho de auscultar descansando no pescoço, deu uma palmadinha em sua perna e falou com conhecimento de causa:
- Fica tranqüilo, companheiro. Essa falta de ar é proveniente do fígado e talvez da vesícula biliar. O teu coração é dos mais jovens que eu conheço.
O doente alegrou-se e já não falava mais em dor. Mas interrogou:
- Essa tal de vesícula de que o senhor está falando, fica perto do coração? O médico sorriu como nunca e animou o enfermo, explicando:
- Não, não, amigo; ela é companheira do fígado. Ajuda-o no seu trabalho; é miudinha, mas pirracenta.
Riram os dois e o doente disse com satisfação:
- O senhor, doutor, é o melhor médico que eu conheço. A sua presença me cura. Antes de tomar qualquer remédio, já me sinto melhor. Graças a Deus! ...
O doutor, já idoso, sentia prazer em ir à casa dos seus pacientes. Formado em clínica geral, não era muito ligado ao modernismo, e estava cada vez mais convencido de que a presença do médico na casa do doente representava cinqüenta por cento da cura do enfermo. Prescreveu alguns medicamentos e, antes de se despedir, olhou firmemente para o seu cliente, dizendo com ar experiente:
- Se por acaso voltar a crise, meu filho, faze umas compressas de gengibre em cima do fígado, o mais quente que suportares.
Pensou um pouco e continuou:
- Olha, mesmo se não aparecer a dor, faze isto por uns dias e toma esses remédios, por favor. Vais ficar bom. Confia em Deus e em mim também, que isto é muito importante. Adeus!
E saiu.
Kahena estava chegando com essências de plantas curativas. Sem que eu perguntasse, ela esclareceu sorridente:
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- Lancellin! Isso aqui é da farmacopéia da natureza e do laboratório comum que Deus nos dá. Este plasma vegetal que vês é de Celidônia, da família das Papaveráceas. É conhecida por vários outros nomes e possui grandes virtudes curativas, quando buscadas na sua fonte natural. Ela é remédio para a vesícula biliar, cãibras do estômago e também nas crises de asma, nas inflamações da vista; faz desaparecer calos e verrugas, é remédio para combater icterícia e, junto com o picão, forma uma dupla que descongestiona o fígado e desintoxica o baço. E é calmante também. Essa outra, o picão, não precisa de maiores detalhes, todos o conhecem, como bênção da natureza para melhora desse órgão em questão.
Alguém da casa já estava aplicando as compressas ensinadas pelo doutor e, na abertura dos poros com os panos quentes, Miramez aproveitou e introduziu as essências colhidas por Kahena. Logo o doente já começava a dormir, trazendo alívio aos familiares, que teciam comentários elogiosos ao bom médico.
Miramez comentou:
- A origem desta enfermidade, Lancellin, não está nos erros da alimentação. O que predispõe essa pequena peça do corpo à doença é o ódio, meu filho. O fígado é como que o fio-terra das energias envenenadas da mente. Elas descem como raios gerados pelo ódio, provocando um impacto nas forças em harmonia no cérebro e transformam a força divina em magnetismo humano inferior, visitando todos os departamentos do corpo. Aqueles que estiverem mais sensíveis têm empobrecida a vida celular, desordenando a harmonia ali existente. Determinadas comidas também alteram muito a função normal no corpo, bem como a falta de mastigação; todavia, o organismo é dotado de defesas próprias e costuma se libertar desta opressão. Em muitos casos, quem sabe comer de acordo com a ordem natural, harmoniza o organismo de tal modo, que, por vezes, nem o ódio consegue perturbá-lo, a não ser quando o exagero domina todas as forças defensivas.
A função precípua da vesícula biliar é armazenar a bílis fabricada pelo fígado e derramá-la nos intestinos. A bílis atua na digestão, assim como a saliva, e facilita o aproveitamento das vitaminas e proteínas pelo organismo. Um trabalho de real valor da bílis é anular a acidez dos alimentos, garantindo a estabilidade orgânica. Ela tem inúmeras outras funções no corpo e, do modo que a deste nosso irmão se encontra, quase nada ela faz. Está com cálculos, que a cada dia crescem mais e a vesícula se inflama, podendo até levar a pessoa à morte física. Depois de pequeno intervalo, ele continuou:
- Essa ciência, meu filho, é sobremodo engenhosa, porque está ligada a muitos acontecimentos. Até o carma influi nesta área que se chama dor... E como influi! E por isso que propomos a todos os enfermos, por sugestões, pelos exemplos e pela leitura, melhorar os sentimentos, mudando o modo de pensar, porque, se o homem começar a se reformar por dentro d'alma, todos os instrumentos do Espírito acompanharão essa reforma. Na mente reside o sopro de Deus!
Eu me sentia confuso e pedi a Deus que me ajudasse no discernimento que somente a intuição pode fornecer. Perguntei, meio sem graça:
- E no caso deste nosso irmão, ele vai melhorar?
Miramez, com um sorriso, respondeu:
- Pergunta bem feita, meu irmão. Ele realmente vai melhorar, porque curar, isso depende dele. Os remédios indicados e aplicados diminuirão os cálculos e por algum tempo a vesícula trabalhará bem, mas, se ele, o doente, não se dispuser a curar a si mesmo, nos moldes acima citados, o campo predisposto
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formará novas pedras, e dessa vez será pior do que as outras. O reincidente paga sempre mais caro pelo que faz de errado, não?
Baixei a cabeça e comecei a meditar na vida, pedindo a Deus para me ajudar a entender as leis naturais, às quais certamente ninguém engana.
Fiquei ansioso por mais detalhes de outras enfermidades e de outros tratamentos. A gente não se cansa de ouvir a verdade, pois ela nos traz um bem-estar grandioso. Pensei: "A medicina terrena deveria conhecer os segredos das leis naturais, porque os médicos iriam curar muito mais, bem como preparar o são para conservar a saúde. Seria muito importante para a humanidade"...
Padre Galeno veio em meu socorro, dizendo:
- Lancellin, a literatura espiritualista está cheia desses avisos. Não é por falta da verdade que a medicina está nos caminhos que ora percorre, mas, por falta de interesse pelo assunto e muito interesse pelo ouro. Se um enfermo ficar curado definitivamente, irá esvaziando a bolsa do ganancioso.
Pensei logo: "E Deus, como fica diante dessas farsas, sem que tenha quem tome providências?" Ele sorriu, terminando seu pensamento:
- Deus fica no mesmo lugar de sempre, ajudando e dando vida a todos e a tudo. Acontece, meu caro, que os enfermos são também preguiçosos no que tange à sua própria cura. Somente querem tomar xaropes, por ser esse meio mais fácil e mais cômodo. Eles também têm a liberdade de procurar a verdade, como os médicos, e não querem. E até que resolvam, sofrem as conseqüências no sentido de despertá-los. O equilíbrio de todos os corpos, Lancellin, e a sabedoria das coisas, são conquistáveis. Na grande escola de Deus, existe tudo para nos preparar; basta querermos e chegarmos no ponto de compreender.
Silenciou um instante, para pensar melhor, e continuou bem humorado:
- O que estás vendo todos os dias, a ajuda constante de milhões de Espíritos trabalhando em favor dos que sofrem, é a misericórdia divina. Se Deus é Amor, no dizer do apóstolo João, esse Amor não nos deixa órfãos. Ele trabalha em nós, até que despertemos para os nossos deveres, aprendendo o que deve ser feito com os nossos próprios dons espirituais.
Suspirei aliviado, diante dos ensinamentos do querido padre. O enfermo já dormia profundamente, como o povo da casa. O ambiente estava sereno e nada havia de anormal. De nossa parte, despedimo-nos do guia da casa e partimos. Eu principalmente, estava fortificado pelas experiências, pelo que aprendi na grande escola de Deus.
Subimos aos céus do Triângulo Mineiro. As estrelas derramavam luzes e mais luzes sobre as terras do Cruzeiro, a nos prometer muita paz, aquela paz cuja expressão é o trabalho.
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Demandamos para uma metrópole do país, onde descemos em uma residência confortável Os ventos da madrugada sopravam na suavidade peculiar à natureza amena do ambiente. Quando íamos tocar o sinal, como respeito ao ambiente familiar na ordem espiritual, surgiu um vigilante em nossa frente, colocando-nos à vontade. Trocamos algumas palavras e logo fomos reconhecidos como irmãos dos mesmos ideais de servir sempre.
Era a casa de um coronel das Forças Armadas de nossa querida nação, que passamos a chamar de Dois. O nosso querido Dois ressonava sozinho em pequeno quarto. Ao seu lado, na cabeceira da cama, velava por ele um Espírito-senhora idosa, que ficamos sabendo, fora sua genitora e que sempre exagerou
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nas suas esticadas vigílias, pensando que desta forma estava atendendo ao seu dever de mãe. Excesso de zelo nem sempre corresponde ao dever cumprido. Que as mães me desculpem, mas essa expressão de amor terreno desajustado, deixa bem visível o egoísmo. Muitas mães não atendem à divisa do túmulo, continuando o mesmo apego aos filhos e, em muitos casos, perturbam os que lhe foram caros ao estagiar na Terra, quando participantes de um lar.
O coronel, naquela hora, estava distante do corpo físico, pois notávamos a estrutura afilada do cordão de prata. Concluímos que ele estava a grande distância da sua casa física.
A mãe do Dois não nos via. Estava desfiando nos seus finos dedos um rosário, concentrada no bem-estar do seu filho do coração. O guia espiritual da casa, com muita gentileza, nos contou com paciência, neste tom de fraternidade:
- Meus distintos amigos, que Jesus nos abençoe. A razão nos diz com segurança que os companheiros não irão nos censurar por não termos afastado essa nossa irmã desta espécie de fanatismo materno.
Deveis saber que a sintonia é uma verdade absoluta e que carece de respeito da nossa parte. Quando duas almas se afinam, nenhuma das duas pode reclamar das más conseqüências dos afetos. Essa nossa irmã está cega no seu amor de mãe e esqueceu os limites da sua assistência. Ela precisa reconhecer todas as criaturas como suas filhas, e, ainda mais, procurar o discernimento daquilo que se há de fazer em favor dos que ama.
Podemos retirá-la a qualquer hora, mas ele, o coronel, a atrai com as suas lembranças de carinhos maternos e dos cuidados exagerados por parte dela. O que temos de fazer, já está sendo feito: é esperar que o tempo, com a força das orações, possa fazê-la acordar, mudando de atitude no aspecto do dever para com o seu filho.
Entendemos logo a situação do guia espiritual da casa e o Padre Galeno respondeu-lhe com bondade:
- Meu filho, conhecemos de sobra esses casos. Ela é uma irmã inofensiva, pelo que entendemos como ofensa, e não nutre desejo do mal; contudo, é um carinho em situações erradas que se transforma em gelo, esfriando e alongando o tempo do despertar para a realidade. O nosso dever é conversar com as duas partes, mostrando-lhes a verdade que podem suportar. Certamente que existe o tempo, recurso de Deus, trabalhando em toda parte; no entanto, não podemos deixá-los somente entregues ao tempo; temos de fazer a nossa cota de empenho em favor dos que sofrem. Deus não dá aos homens a terra dadivosa e farta, não manda as chuvas e o sol, não fez a semente? Todavia, se as criaturas não preparassem o terreno, não plantassem as sementes e não vigiassem as lavouras, como iriam colher? A nossa parte é imprescindível, em todos os rumos da vida. E, em se falando do Espírito, as leis são as mesmas. O Senhor já fez o que tinha de fazer em benefício nosso e da humanidade, e Ele espera que façamos a nossa parte, e ainda mais, Ele nos ensina como fazer bem feito o nosso dever. Neste caso, se não pudermos esclarecer os dois, bastará desativar um deles da sintonia, que o outro se enfraquecerá e procurará saber o que deve ser feito.
O Espírito-guia da casa sorriu, deixando transparecer entendimento, mas seus lábios emudeceram.
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Escutei com atenção a predica do Padre Galeno e analisei com felicidade: como são divinas as leis espirituais! E pensando mais profundamente, não poderia ser de outro modo: eis a justiça, senão o próprio amor que dá tudo ao Espírito, o que ele realmente merece.
Miramez aproximou-se mais do corpo do coronel que dormia. O nosso irmão Dois já se encontrava em viagem de volta.
- Vede o cordão de prata, como se avoluma!
E continuou em tom de brincadeira:
- Lancellin, lembras-te daqueles copos de alumínio feitos de anéis soltos que, puxados para cima, se transformam em copo como os outros, e, quando não se precisa mais do seu uso, é só fechá-los para ocupar pouco espaço? É o caso do cordão fluídico: quando se precisa viajar, ele se estica e, quando de volta, ele se fecha. Isso é maravilhoso! Deus não se esquece de nada. Tudo foi e está sendo feito com perfeição!
Celes, Fernando, Kahena e Abílio já tinham feito uma revista em toda a residência, para garantir a ordem e os trabalhos correrem normalmente.
A mãe do coronel interrompeu-se ao perceber, pelo instinto maternal, o regresso do filho ao corpo, pensando no silêncio do seu próprio mundo: "Meu filho vai acordar. Será que ele não está se sentindo bem?"
E pegou novamente no rosário, e os seus dedos deslizaram nas contas lisas seguidos pelo automatismo das palavras. A sua mente não participava da operação do verbo condicionado na oratória instintiva. Arranjaram um nome específico para isso na Igreja Romana: rezar. O que nada tem a ver com meditação, na qual os pensamentos se apuram na força dos sentimentos elevados.
Retornando ao corpo, o nosso irmão Dois acordou algo assustado, falando mentalmente:
- Graças a Deus, foi sonho!
Levantou-se da cama, abriu a janela e respirou o ar mais puro, dizendo:
- Como Deus é bom! Fez um ar delicioso que nos mantém a vida. Como é bom viver!.. .
Voltou à cama e deitou-se novamente. Os pensamentos buscaram recordar algo que se passou em sonho. Acomodou-se novamente no leito, passando a pensar coisas. Aproximando-se, Fernando começou a olhar por entre seus olhos, enquanto conversava com ele, induzindo-o a sentir mais sono; desta vez, um sono especial, aquele que dá uma impressão de vida e que se chama viagem astral.
Miramez tocou levemente na cabeça espiritual da genitora de Dois e ela dormiu também. O guia da casa enlaçou-a nos braços, removendo-a para lugar apropriado.
O coronel começou a surgir por cima do corpo físico com bastante facilidade; pairou no ar, e com pouca ajuda se encontrava entre nós, procurando a sua mãe. Chegou a chamá-la muitas vezes. Ainda não nos estava vendo.
Celes e Kahena entraram em transe e o Padre Galeno deu início à sua aparição. Dois, que era meio avesso a padres, disse:
- Por que um padre aqui? Chamo minha mãe e vem um padre! Deve ser que ela precisou sair e pediu a esse reverendo para me fazer companhia. Essa minha mãe! Pensa que sou criança até hoje. Nunca vou deixar de ser criança para ela!
Padre Galeno sorriu e no intervalo das suas conjecturas o cumprimentou dizendo:
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- Louvado seja Deus, meu filho!. . . Que Jesus te abençoe. O coronel sorriu também e confabulou consigo mesmo:
- É da mesma escola que a velha. Tudo que fala vem com Deus, com Cristo e, por vezes, com rezas.
O sacerdote percebeu seus pensamentos, ofertou-lhe a mão, pelo impulso da fraternidade, e lhe falou com interesse:
- Meu filho, eu sou, realmente, da escola de Jesus Cristo, a quem devemos tanto e amamos muito. Nós queremos falar ao teu coração, e o ambiente nos convida a isso. Neste momento, o companheiro deve estar consciente de que se encontra em desdobramento; sabe perfeitamente que ninguém morre, porque aí ao lado encontra-se o teu vaso físico, e conversamos em Espírito e Verdade. Sabe, igualmente, que a tua mãe, que tanto te quer, já passou para o plano espiritual e precisa da tua ajuda, como irmão na eternidade. Como tu podes ajudá-la, viemos, em nome do mesmo Cristo, a te pedir para cooperar conosco em favor daquela que foi a tua genitora na Terra.
Dois teve uma sensação estranha, abaixou a cabeça e ouviu com interesse.
O sacerdote continuou:
- Nunca penses, meu irmão, que as religiões fazem o papel do ópio ou que anestesiam a mente para as coisas reais. Não compares todas as filosofias espiritualistas com o modo de entender da tua querida mãezinha. Cada criatura assimila o que pode na pauta do discernimento. Como Espírito inteligente que és, examina os preceitos do Cristo, antes de julgá-los! Quem conhece os fundamentos da vida, jamais se revolta com a vida dos fundamentos... Procura, meu irmão, acima das religiões convencionais, a Verdade, que ela te libertará!
O coronel levantou a cabeça humildemente e falou desconsertado:
- Padre, perdoa-me. Eu reconheço que falas a verdade. Expressas com desembaraço e a gente nota em tuas palavras a sinceridade. Quero que me ajudes a compreender o que disse, para que eu possa melhor conhecer o plano onde me encontro e as leis de Deus.
Padre Galeno abraçou o coronel com afabilidade, falando ao seu coração:
- Meu filho, já conheces o valor da oração?
Dois, despido de resposta, calou-se, e o Padre Galeno aconselhou-o com bondade:
- Pois bem, sei que não costumas orar, porém, é isso que te falta no caminho, para que possas compreender mais acertadamente a vida, dentro e fora de ti. Colocando as mãos em sua cabeça, pediu-lhe que pensasse em Deus, e fez uma sentida prece ao Criador e a Jesus, rogando-lhes que o guiasse.
Quando terminou, Dois abriu os olhos e assustou-se com tanta beleza no ambiente, passando a ver todos os companheiros da nossa jornada comum. Dois pediu desculpas pelo que falou, dizendo com humildade:
- Padre, eu quero aprender melhor o que se refere ao plano do espírito. Já começo a lembrar o que vieste fazer aqui e estou de pleno acordo no tocante à minha mãe. Eu aceito essa aproximação dela, por sentir compaixão, mas, pelo que falas, eu vejo a verdade: ela precisa de esclarecimento no que tange ao amor filial, que o exagero pode transformar em fanatismo, e daí, é um passo para o egoísmo.
Miramez aproveitou a pausa da fala do coronel, e acentuou:
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- Meu irmão, estamos satisfeitos com o que pensas. A alma que nos serviu, ou serve, de mãe na Terra, para nós outros é uma jóia preciosa, que nos pede pela lei o que nos deu com o tempo. Amor. Entretanto, o nosso verdadeiro pai e a nossa verdadeira mãe na eternidade são uma única criatura: Deus. Todos os Espíritos que se entrelaçam na vida em busca da perfeição são irmãos e, enfim, somos todos iguais. Carecemos de discernimento, esta é a verdade, para que depois dos nossos deveres assumidos no mundo espiritual e cumpridos no planeta, tomemos a posição de universalidade, vendo todos e tudo como pais e filhos, irmãos e companheiros, mestres e alunos, como sendo uma só família em Jesus Cristo.
Dois deixou escapar algumas lágrimas e respondeu, ansioso pelo aprendizado:
- Graças a Deus, estou entendendo muito bem o que tu queres dizer para o meu bem e o da minha mãe: o amor verdadeiro é aquele que nos liberta do mesquinho interesse que nos reveste de muitas capas, mas no fundo é o egoísmo.
Miramez acrescentou:
- É isto mesmo. O egoísmo, de vez em quando, fica tão bem vestido com as roupas das ilusões, que muitos o tomam como sendo o amor verdadeiro.
Após essa conversa inicial, entrelaçamos as mãos e saímos como pássaros, sentindo a fresca noite maravilhosa que sempre nos convida ao trabalho em nome de Deus. Nesta hora, estávamos levando muitos aprendizes que nem sempre nos vêem. Neste caso, a barreira é a vibração; contudo, eles sentem a nossa presença e sabem que alguém os guia.
Descemos em uma penitenciária, onde o crime era o assunto comum a todos e proliferava nas mentes que ali estavam para resgatar e pensar nas conseqüências do que fizeram. Os assaltantes sonhavam com aquilo que condicionaram na consciência, pelos seus atos.
Notamos, ao chegar, muitos grupos de Espíritos inferiores, vagabundeando de cela em cela, dando gargalhadas e inspirando aos detentos os mais sórdidos pensamentos, que a lei desaprova. Mas, em compensação, víamos outros tantos Espíritos iluminados, transitando em faixas diferentes, visitando esses tipos de doentes, levando a palavra pelas linhas da intuição, para aqueles sofredores.
Entramos em uma cela onde se encontrava um terrível marginal. A sua aura o denunciava - estava impregnada das mais terríveis taras que um ser humano pode praticar. Aquele irmão parecia mais um animal, por lhe faltar uma corrente mais contínua de pensamentos. A fixação das idéias era o seu comando e o impulso inferior, sua meta de viver. Notávamos que a sua mente primitiva se jungia a outras mentes espirituais do mesmo nível, por fios sutis, que lhe transmitiam os pensamentos com nitidez. Vi como funciona a mediunidade por toda parte: onde se encontram Espíritos, existe mediunidade!
Com a nossa chegada, ele se assustou e esgazeou os olhos raiados de sangue, por todos os lados da cela, e falou baixinho:
- Sinto coisas que não compreendo! Tenho o pressentimento de que vou sair daqui, é isso que mais desejo na vida.
Miramez sussurrou aos meus ouvidos:
- Esse tipo de irmão, com a mente macerada pelo crime, nem sempre sabe pensar sem falar. A boca denuncia seus pensamentos, e costuma falar o que pensa até quando há gente ao seu redor. Procura, Lancellin, analisar o odor que se desprende do seu corpo e que se infiltra igualmente em sua aura,
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chegando até a nos sufocar. É a energia que carreia para fora o magnetismo inferior dos seus sentimentos, mostrando por fora o que está por dentro.
O diretor espiritual da Casa de Detenção soube de nossa chegada na área e veio ao nosso encontro, sorridente, convidando-nos para uma sala de reuniões.
Agradecemos a gentileza e o acompanhamos com acentuado interesse. Chegando lá, ele notou a minha disposição em anotar acontecimentos. Tirou, então, de um fichário bem disposto, o currículo do detento e passou-o às minhas mãos. Comecei a anotar o que ali estava escrito: Nome do preso: ...
Ocorrências criminais: 33 assaltos
25 estupros
14 arrombamentos
05 assassinatos
Senti-me arrepiar, pela ferocidade daquele Espírito, frio nas suas decisões de matar e roubar. Conversamos muito sobre como agirmos para a melhoria daqueles homens ali estagiados por força do crime. O diretor espiritual pediu-nos ajuda e que, quando pudéssemos, viéssemos visitar aquela casa, pois aqueles homens estavam passando por duras provas a fim de despertarem os sentimentos do bem.
Voltamos ao presidiário com quem estávamos antes.
Lá chegando, vimos um Espírito que logo notamos ter sido a mãe dele, quando na Terra, ajoelhada, dentro da cela, lendo alguns trechos da Bíblia.
A veneranda anciã, chorava, pedindo a Deus que ajudasse seu filho a se regenerar, que tivesse piedade, pois ele não era tão ruim que não merecesse as bênçãos do Senhor. Pedia a Jesus da mesma forma. Fechando o livro, a senhora acentuou:
- Meu Deus, Deus de amor, envia um dos Teus anjos para libertar o meu filho das más influências, como aconteceu com Pedro acorrentado na prisão.
Celes e Kahena entraram em concentração ao lado do coronel e este sentiu o seu dever e falou com entusiasmo:
- Senhor, faça-se a Tua vontade, e não a minha.
Tornou-se, então, visível, à mãe do detento, que pegou em suas mãos, emocionada, e disse com humildade:
- Graças a Deus! É o anjo que Deus enviou! Cuida de meu filho, anjo de Deus, e eu farei o que o senhor desejar que eu faça.
O coronel, revestido de ânimo e sob a influência dos companheiros, dirigiu-se emocionado, à sofredora mãe:
- Minha irmã, que Jesus te abençoe sempre. Nós viemos ajudar mesmo o teu filho, e essa ajuda consiste em afastar-te desta cela, por enquanto.
Foste mãe devotada na Terra, e como Espírito, torna-te irmã. Tua ajuda não pode passar de certos limites. Este que foi teu filho está passando por reajustes sem os quais não despertará para as coisas espirituais. Se o tirarmos daqui agora, ele fará coisas piores do que já fez, e será muito pior para a sua vida. Aqui ele está protegido - o melhor lugar para teu filho é aqui mesmo.
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Peço, para o teu próprio bem, que te convenças disto. Ora por teu filho todos os dias, porém, não sofras com ele, pelo que ele mesmo fez por ignorância das leis de Deus. Ajuda-o sempre, sem te colocares em seu lugar, onde a justiça trabalha para que o amor chegue.
Ela olhou bem para o Dois e disse magoada:
- E para onde vou depois que sair daqui? Eu estou com Deus, estou com a Bíblia, não?
Retrucou o coronel, sob a inspiração de Miramez:
- Nós todos estamos com Deus, minha filha. Até este teu filho que se acha neste presídio está com Deus. Ninguém fica privado das Suas bênçãos; no entanto, precisamos compreender a Sua magnânima presença e saber receber a Sua visita no coração. Somente o tempo, na situação em que se encontra teu filho, pode lhe amadurecer os sentimentos, pelo veículo da dor.
Não queiras modificar os desígnios do Senhor. A lei se cumpre em qualquer parte do mundo, seja no plano físico ou espiritual. Esta prisão é um recanto de meditação que vai fazer muito bem a ele, mesmo que tenha uma aparência de maldade. Ele aqui está recebendo muitas visitas de pessoas caridosas, tanto que podes notar, estão ali naquele canto, vários livros que os visitantes já trouxeram para ele, que ainda não os pegou. Teu filho, primeiramente, é filho de Deus, e tem de fazer a parte dele para ser ajudado por Ele.
Ela se levantou muito confusa e deprimida. Kahena a tomou nos braços, com a ajuda de Fernando, conduzindo-a para um pronto-socorro ao lado da penitenciária.
O detento não tinha dormido naquela noite. Seus pensamentos iam a todos os seus atos do passado e voltavam a ele com inquietação, com certa disposição ao arrependimento.
Depois de levada a senhora para fora da ceia, ali nos reunimos em oração, onde Miramez ergueu a voz ao Criador do Universo:
"Deus de Bondade e Justiça!
Sabemos que o Senhor nos ajuda sempre onde quer que estejamos, e a certeza de estarmos cercados por Tuas bênçãos nos dá uma grande segurança naquilo que fazemos.
Nós Te pedimos, meu Deus, por esta Casa de Regeneração. Para esses nossos irmãos que ora estagiam neste regime de força, por terem se esquecido do amor.
Compadece-Te, Senhor, igualmente, de todos os Espíritos inferiores que buscam esta casa, por sintonia de vibrações. Que eles compreendam os seus deveres e que acordem para a luz do entendimento, onde o perdão marca a entrada na pátria da fraternidade.
Nós ainda Te pedimos, meu Deus, para os Espíritos de luz que se aproximam desta oficina de labor, que tenham mais força para entender esse objetivo de trabalho entre os que perderam a razão nos labirintos do ódio e esqueceram os sentimentos da cordialidade e da alegria.
Dá coragem a todos os trabalhadores de boa vontade na seqüência do bem, porque esse bem é semente de luz que haverá de frutificar nestes corações, por ora, de pedra.
Abençoa os Espíritos que choram e sofrem por seus familiares recambiados para estas celas de reajuste, mostrando a todos eles o Caminho, a Verdade e a Vida. Mas, acima de tudo, que se faça a Tua vontade e não a nossa.
Assim seja."
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Dentro daquela cela imunda espiritualmente, víamos clarões de luzes, desintegrando miasmas e criando ambiente para pensamentos sadios, de forma que aquele homem pudesse, por vários dias, respirar uma atmosfera que o levasse à modificação das idéias e, pelo menos começasse a pensar melhor.
Abraçamos a todos os componentes da equipe de trabalhos espirituais daquela casa e prometemos voltar quando oportuno.
Reunimo-nos todos, e começamos a entregar o pessoal às suas respectivas residências. O último a ingressar na carne foi o Dois, que acordou com a mente cheia de recordações, disposto a lutar sem parar, pelo bem da humanidade.
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