Iniciação - Viagem Astral
Abrindo Portas
Todos temos inúmeras portas para serem abertas. Estamos sempre sob a vigilância do egoísmo, com as portas fechadas em relação a Jesus Cristo, e Ele nos fala constantemente: Vinde a mim todos que estais cansados e oprimidos .
Essas portas são difíceis de serem abertas, porque cada um tem a sua própria chave; cada criatura tem uma senda por onde deve trilhar, e cada caminho que se nos apresenta mostra variadas aparências. O véu que nos cobre os segredos da vida se rasga de forma diferente ante o tempo e o espaço, sob as bênçãos do Criador.
O mundo está cheio de convites bons e maus que se estendem em todas as direções. Cercam-nos as dúvidas da escolha acertada, que depende da maturidade que já alcançamos e dos ditames dos nossos sentimentos. Instrutores espirituais descem do céu à Terra, todos os dias, em todos os cantos do mundo, e entregam as suas vidas em favor da harmonia de todos. Isso se pode constatar pelos relatos da história universal, sobre as vidas dos grandes homens, e um deles se sobressaiu dentre todos, por ser ele o Responsável Maior de todo o rebanho humano e espiritual pertencente à Terra: Nosso Senhor Jesus Cristo! A Este, a nossa deferência é sobremodo grandiosa, incomparável, pelo Seu amor. Ele poderia ter mandado alguns dos Espíritos puros do Seu sagrado colégio dos altos planos da vida; no entanto, veio Ele mesmo sentir as nossas necessidades e nos abençoar, vivendo a vida como homem.
A vida está cheia de encantos e segredos, guardados nas dobras do tempo, esperando para serem descobertos pelos Espíritos que são os herdeiros da fabulosa criação de Deus.
Ainda vivemos sob o regime de provações difíceis, e elas nos cegam e tolhem a nossa razão, de sorte a não vermos as coisas sagradas nem analisar com proveito as coisas nobres. Para sairmos desse disfarce da verdade, devemos apelar para as mãos de Jesus, que tem recursos inumeráveis para nos assistir; todavia, Ele nos mostra todos os meios de nos libertarmos mas, o processo da libertação depende de nós. Os caminhos com Jesus estão abertos; necessário se faz que caminhemos. Quem não sabe fazer a sua parte ainda não está vivendo.
Mesmo que todos os recursos da vida estejam acenando ou investindo sobre ti, eles são como a água que se encontra em toda parte, mas, como já falamos antes, é indispensável que a bebamos para saciar a sede. A nossa parte é indispensável, tornamos a dizer quantas vezes forem necessárias, para nos conscientizarmos desta verdade.
Se alguém, em nome da verdade, já bateu em nossas portas buscando nos acordar do sono da ignorância, façamos o mesmo com os que viajam conosco no caminho. A humanidade está sendo curada, e os que desejam a saúde, atendem à voz do Mestre: Levanta-te e anda.
Antes de Jesus, as iniciações eram todas à portas fechadas. Depois d'Ele, as portas se abriram. Os mais altos ensinamentos estão próximos das nossas mãos, e outros nos procuram, como que batendo às nossas portas, as portas dos sentimentos.
- O sentido dos conceitos espiritualistas de hoje é mais profundo, e os Espíritos superiores se empenham cada vez mais com o destino dos homens. Quantos deles se revestem da roupagem de carne para ajudar a humanidade? Muitos. E esses têm a sagrada missão de abrir portas mais sensíveis da
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mediunidade na Terra, para que o mais alto possa falar com mais desembaraço aos homens; é o intercâmbio do Céu com a Terra.
As religiões do mundo, para assegurarem a sua própria existência entre as criaturas, para não ficarem somente na história, precisam acompanhar o progresso, adaptando-se à realidade, e sem os avisos conscientes do mundo espiritual, não poderão existir. Sem se apoiar em leis da reencarnação estabelecidas pelo Criador, como poderão firmar seus alicerces na sólida estrutura da verdade?
Muitas outras leis devem ser conhecidas neste fim de milênio, para que essa verdade se amplie em todos os setores dos acontecimentos humanos. Adorar a Deus, a Jesus, aos santos e aos místicos, deixando de lado o cumprimento das leis que vigoram na eternidade, é hipocrisia, é ignorância, que não deixa a inteligência acudir às necessidades do coração.
Nós não fomos feitos desiguais uns dos outros; a verdade é uma só para todos. O sol é o mesmo, doando vida para toda a família solar. Deus é unidade de vida e de amor; classifiquemo-Lo com o nome que nos aprouver, é a mesma realidade que nos sustenta e dinamiza nossas forças. Há tempos que os Espíritos superiores batem às portas da humanidade, no sentido de ofertar a todas as criaturas as coisas de Deus, com mais elevação. Antes, o faziam veladamente, ocultando certas verdades, porque a luz sem os devidos anteparos pode cegar. Não obstante chegou o momento de uma luz maior ser colocada em cima da mesa, sem restrições, porque o progresso está pedindo e o trigo já dá sinais de maturidade e já pode ser arrancado junto com o joio, e este último ser lançado ao fogo, e queimado para a devida liberdade do trigo.
Quem tiver entendimento que entenda o que se ouve ao abrir as portas. Confiemos e esperemos em Deus, que Ele nos enviará Jesus novamente, mas desta vez, pelas vias do coração, para que Ele reforme os nossos sentimentos e acenda luzes na nossa consciência.
A extensão do trabalho nos campos espirituais em que habitamos é imensurável, e o colocamos na pauta das nossas conversações como sendo a própria vida, palpitando na emoção da vida maior: Deus. Curiosa se nos apresenta a individualidade de cada criatura e a diferença que os seus sentimentos assinalam, como portas que se abrem para o engrandecimento espiritual e divino.
*
Estávamos conversando animadamente no grande salão, que marca o ponto de partida de todos aqueles que ali se postam, em busca do serviço que a direção da Colônia indica. A música era a tônica do ambiente; ela harmonizava ou fornecia métodos sutis para que os nossos pensamentos se ajustassem às deliberações da fraternidade sem barreiras. Quem ali se reunia, respirava o perfume embriagador da amizade e da cooperação de uns para com os outros. Não havia lugar neste ambiente para a preguiça, para a discórdia. Não havia lugar nesta casa para o egoísmo nem para o orgulho. Não existia lugar para a vaidade, pois tudo ali era equilíbrio, e o trabalho constante era o lazer que encontrávamos. Não há palavras para explicar a serenidade que desfrutamos nesta Colônia, porque tudo que conseguimos dizer acerca do amor mais puro, desmerece esse amor. Quem quiser compreendê-lo deve, acima de tudo, senti-lo.
A noção de dever ante o que abraçamos é uma intuição permanente, graças a Deus. Partimos com muita alegria, observando as estrelas. Como são belas para quem as observa do mais alto!
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O magnetismo estelar desperta em quem as observa, uma esperança curiosa e fecunda. Desliza no colchão etérico universal uma gama de luzes que passeia na criação, com uma velocidade espantosa, em permanente troca de substâncias que desconhecemos. Cruzam e intercruzam-se raios de todos os tipos na Casa de Deus, fecundando vidas e harmonizando coisas. Ondas e mais ondas de todas as escalas invadem o universo, levando e trazendo mensagens. O preço de tudo isso é a divina moeda do Amor.
A nossa oração de apoio espiritual foi feita em plena volitação, quando estávamos a pouca distância para descermos em solo firme, na Terra.
Avistamos um comboio de passageiros rumando para uma grande capital, escorregando nos trilhos com aquele barulho característico de aço com aço. De repente, percebemos que os freios da composição haviam sido acionados, provocando fortes arrancos nos vagões e gritaria entre os passageiros, principalmente as mulheres.
Descemos imediatamente, em trabalho de socorro, e lá estava o drama: a locomotiva havia atropelado uma pobre mulher, que não a percebera e ajeitava uma trouxa de roupas, descansando nos trilhos. Ela era surda e não ouvira o barulho da composição.
Os passageiros desceram. Uns assustados, outros chorando, enquanto o maquinista se mostrava transtornado. O ajudante de máquina tentava acalmar o companheiro aflito.
Observamos algumas pessoas mais corajosas retirarem os despejos da mulher dentre os dormentes, qual se estivessem destrinchando um animal. Um irreverente ao lado, comentava:
- Deve ter esmagado até a alma . . .
E ficou a pensar consigo mesmo:
- Onde estará a alma? . . .
Colocaram os restos mortais num saco que alguém oferecera, puseram-no no porta-bagagem e foram embora em suspense.
Miramez, com a mente ocupada no acontecimento, disse com resolução:
- Vamos desligar esse Espírito dos despojos, por misericórdia de Deus. Todos merecem as bênçãos da assistência, quando resgatam uma velha dívida. Essa mulher já sofreu muito, pelo modo que aparenta sua vida.
Pegamos o trem já em movimento, e nos reunimos em torno do fardo de carne e ossos. Miramez aplicou alguns passes sobre o volume, onde o sangue minava por entre as fibras do pano, e vimos erguer-se a imagem de uma mulher formosa, dando ordens e estendendo deveres para os seus comandados.
Naquela mesma visão, percebi, não sei por qual processo, o Coliseu de Roma em minha frente, cheio de criaturas pedindo sangue, tomando vinho e gritando:
- Os leões! Os leões famintos! Soltem-nos! Os cristãos são hereges que não valem nada! São infernais e querem a nossa ruína!
E pude notar doze pessoas recolhidas dentro do estádio que servia de palco às feras, oprimidas pela gritaria dos inconscientes. Vi aquela mulher descendo as escadarias, o que não era permitido, pela sua posição; bastava que desse ordens, mas queria comandar e presenciar de perto os dramas. Chegou ao parapeito falando com toda autoridade aos gladiadores:
- Abri as portas!
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Rangeram os portões e os animais saíram cegos de fome. Os leões africanos ficavam sem comida, para que pudessem devorar as criaturas com a gana que o instinto inspira, e em poucos instantes só restava uma dúzia de humanos estraçalhados; e só se viam alguns ossos serem carregados nas bocas dos animais selvagens, enquanto o povo delirava, como sempre, sob a influência do magnetismo inferior.
A dama se esqueceu de voltar ao seu camarote de nobre, e gritava com todas as forças dos pulmões, dobrando-se no parapeito e, sem perceber o perigo, escorregou e desceu sem apoio, para dentro do círculo dos leões, onde duas patas gigantescas já a esperavam, enfiando as garras em seu peito, rasgando-o de cima a baixo, expondo suas vísceras. Os dentes pontiagudos do animal entravam em sua carne, destroçando-a em um átimo.
Quando os guardas chegaram ao local, em sua defesa, a grande mulher, a rainha dos inconscientes, cuja carreira fora marcada pela perversidade, já não possuía um corpo carnal.
Miramez, depois da operação de desligamento dos fios que ligam os dois corpos, notando o que eu havia percebido, acrescentou:
- Esta mulher, Lancellin, que viste no Coliseu, é a mesma que hoje mendigava aqui no Brasil. Além de mendigar pão para matar a sua fome, mendigava luz para matar a sede de tranqüilidade de consciência. Ela começou, na hora de sua fúria, a receber a justiça, e varou esse tempo todo, meu filho, reencarnando aqui e ali, reajustando contas e percebendo leis que devem ser respeitadas diante do próximo.
Esse fato de Roma não foi o primeiro. Antes mesmo do Cristo, ela já manifestava suas más tendências em outras nações, impondo sua autoridade, onde o céu lhe concedia viver, por misericórdia, Nunca faltou assistência para a sua recuperação, porém, desta vez ela guardou a lição dada pela escolha do tempo. Quando voltar de novo, esta nossa irmã estará regenerada, disposta a trabalhar em todas as direções em que existir sofrimento e dor. Que Deus a abençoe sempre.
Voltamos o interesse ao fardo de carne que viajava no comboio, e Miramez desligava a nossa irmã com todos os cuidados, cortando os últimos laços. Pairamos por cima do trem, onde a ex-mendiga foi entregue a Kahena e Celes, em pleno sono, com algumas alterações psíquicas. Os dois companheiros rumaram para a nossa Colônia, a pedido de Miramez, com a carga preciosa, obra de Deus, pulsando no seio da criação.
Dali partimos novamente para o trabalho, e já tínhamos combinado com os companheiros, que nós os esperaríamos em um hospital onde se reuniam nossos irmãos cancerosos, Espíritos que estagiavam ali, para embeber a esponja da carne em energias gastas, concentradas pelas maldades que o ódio gera.
Demos entrada na Casa de Saúde, que mais corretamente seria casa de doença, e fomos recebidos amavelmente por várias irmãs de caridade, Espíritos já lúcidos e conhecedores dos seus deveres diante dos que sofrem.
Miramez, que já era bem conhecido de todos, assim como Padre Galeno, entraram sem cerimônias, cumprimentando todas as companheiras da caridade, como se fossem da própria casa.
A irmã dirigente veio ao nosso encontro sorridente, dizendo:
- A casa e as portas estão abertas para os nossos amigos em Jesus.
Agradecemos, e ela perguntou:
- Esperam alguém?
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Respondeu o Padre Galeno:
- Sim, esperamos dois dos nossos, que não devem demorar-se.
As irmãs nos deixaram à vontade e foram atender aos deveres que as chamavam. Passamos para uma sala de silêncio e ouvimos música; era uma melodia que fora composta no mundo espiritual por Caetano Donizetti, famoso compositor italiano, desencarnado em 1848, e que continuou no mundo dos Espíritos o seu trabalho de alegrar compondo musicais. Essa melodia nos trazia ao coração uma serenidade indescritível, e, principalmente, levava paz aos enfermos. Ela se chama Veja as Estrelas nos Céus, e falava ao coração, das esperanças celestes e da presença de Deus em nós.
Os dois companheiros chegaram e Miramez perguntou:
- E a viagem? Kahena respondeu:
- Tudo bem, graças a Deus. Ela ficou na parte sul, no edifício cinco, terceiro andar, ala dois, enfermaria geral vinte e dois.
Miramez acenou a cabeça sorridente, dizendo:
- Que Deus a abençoe em seu novo plano de vida, e que ela acorde em paz para a nova etapa de renovação!
Como já sabíamos o que fazer, não precisamos perguntar. Levantamo-nos renovados para o trabalho, e quando olhamos em direção às enfermarias e apartamentos, Miramez falou-nos com bom humor:
- Quantas portas para abrirmos, não? Sorrimos todos.
De fato, logo pensei:
- Cada doente que se estende num leito é porta por vezes fechada, onde Jesus vem bater e convidar para urgente renovação. Nós estamos todos na grande escola de iniciação com Jesus Cristo, onde não deve faltar o alimento sagrado que se chama Amor.
Miramez parou frente aos enfermos de uma ala e disse com suavidade:
- Meus irmãos, essa doença é filha, de certa forma, do ódio. A pessoa que guarda ódio de alguém, distorce a energia divina, que se filtra pelos centros de força, buscando a alma, como alimento de Deus para a Sua criatura, e antes que ela chegue às suas zonas de sensibilidade, é impregnada por sentimentos negativos, que envenenam todo o organismo e os próprios tecidos sutis do perispírito. A vida anti-natural é coisa muito séria ... Tudo que fazemos, filosoficamente, plantamos, e, de acordo com as sementes será a colheita. Não vale, pois, a pena, entrar para a escola do crime, que as trevas abriram na Terra, para disciplinar os que têm prazer em errar.
Notávamos que muitos enfermos, com as portas dos sentimentos fechadas, às vezes aceitavam o que se falava do Cristo, da renovação moral e espiritual, mas os corações estavam longe dos assuntos, e isso significava demora de doença nos seus caminhos.
Lembremo-nos, nesta hora oportuna, que Jesus curava os enfermos de doenças incuráveis e dizia sempre: Vai, e não peques mais. O Mestre, evidentemente, era consciente da profunda ligação do erro com a enfermidade.
E Miramez acentuou com dignidade:
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- Não obstante, vamos trabalhar. Não dizem os próprios homens, que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Vamos bater às portas destes corações, com amor, aquele amor mais puro que pudermos sentir, e o resto é entregar ao Senhor, que Ele sabe o que fazer, diante da nossa ignorância.
Quantos já entraram aqui este ano? Porém, quantos já saíram melhorados em espírito? Muitos e muitos, e isso é fruto do trabalho destas irmãs a quem a caridade emprestou o seu nome angélico.
Senti-me ansioso para trabalhar, para auscultar as portas daqueles corações sofredores, e ver o que poderia fazer por eles, mas acostumei-me a não me afligir em se falando de curas, porque quem cura mesmo é Deus, pelos recursos dos próprios enfermos. Nós outros somos apenas instrumentos de sinais, para que eles possam acordar do longo sono em que se encontram. Já é muita coisa, se conseguirmos esse milagre de estimular o Espírito a andar com seus próprios pés.
Entramos em uma pequena enfermaria e começamos a trabalhar os corpos mutilados pela doença, a doença que se faz visível em muitos pontos do corpo físico das criaturas. Os meios de tratamento são variados, de conformidade com o caso, mas, a enfermidade se faz surda aos apelos dos irmãos estendidos nas camas. Todos os companheiros estavam em profundo silêncio, transmitindo passes demorados nos irmãos estendidos nos leitos. Uns dormiam, outros viravam-se nas camas, sem conciliar o sono. Olhei para Miramez, que auscultava com interesse um senhor de meia idade, que apresentava dois tumores no pescoço. Os punhos estavam inchados, bem como os tornozelos. Tinha as duas pernas atrofiadas, olhos pequenos, boca anormal e nariz esparramado no rosto. Lia-se na sua fisionomia a inquietação, provinda da consciência.
Miramez, vendo minha atenção no caso, acenou a mão e imediatamente me postei ao seu lado.
- Este homem é um camponês ou sitiante, como queiramos assinalar, e o câncer atacou seu organismo em variados pontos. A sua raiz malfazeja se estende por muitos tecidos do corpo de carne.
Olhei tudo aquilo, graças a Deus com serenidade, vendo na enfermidade uma porta, por onde Deus renova as criaturas. Sentei-me aos pés da cama para ouvir a revelação do nosso guia espiritual, e ele falou com desembaraço:
- Lancellin, esse nosso irmão foi um político, em época mais ou menos recente, no século XVII da era cristã. Tinha certos poderes nas mãos, e os usava contra seus adversários. As prisões onde ele mandava jogar os presos eram bem piores do que as pocilgas de sua confortável fazenda. Além de serem amarrados em esteios de cerne de aroeira, suas vítimas viviam em plena imundície. Muitos morriam de inanição, e o ódio dele era tamanho, que ainda mandava castigar os capatazes que demonstrassem alguma piedade para com os prisioneiros.
As pessoas esquecem a lei, mas a lei não se esquece de ninguém. Não há lugares para onde fugir, na ordem do universo.
O enfermo dormia tanto quanto a disposição orgânica pedia. Procurei examinar a sua cabeça, e notei um cérebro com poucas circunvoluções, que capacitassem uma vida mais ativa daquela região.
Procurei o cordão fluídico e me espantei; ele não saía do cérebro como os demais que eu examinara antes. O seu cabo espiritual, que ligava o perispírito ao corpo, saía do plexo solar. Acompanhei o cordão e encontrei o Espírito andando pelo hospital, como um verdadeiro fantasma, procurando alguém que nem ele mesmo se lembrava quem fosse. Examinei a corda que não tinha nada de luminosa. Era meio felpuda, com baixa vibração e grosseira, dificultando, em muitos aspectos, a sua elasticidade.
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Estranhei o fato e, voltando ao leito onde Miramez continuava na sua operação fluídica, perguntei com ansiedade:
— O senhor viu essa alteração na ligação fluídica desse homem?
Miramez respondeu-me, calmamente:
— Lancellin, há casos em que o ódio e a vingança distorcem a vida no seu natural, complicando a situação de quem gerou essas dissonâncias. Até o seu corpo astral está atrofiado e. se ele continuar alimentando ódio aqui e no plano espiritual quando desencarnar, ao voltar da vida na carne, perderá a sua aparência perispiritual e tomará a forma de ovóide, embotando por completo a consciência, e a sua recuperação poderá gastar milênios incontáveis.
A política é uma arte de ajudar com os recursos do próprio povo, mas o dinheiro da coletividade pesa muito na consciência de quem não o sabe usar. As pessoas que têm idéias diferentes das nossas, têm igualmente, seus direitos de viver e de trabalhar. Os poderes públicos são mutáveis, os homens passam, as leis humanas mudam, mas a lei divina não. Esta tem que ser obedecida, porque, ao contrário, as conseqüências são desastrosas.
Fiquei cismando, e perguntei:
— Mas, como ou qual o sistema mais adequado, para que os políticos venham a acertar nas suas diretrizes, para comandar os povos, sanando a fome e os desacertos, estabelecendo a paz?
Miramez olhou bem para mim, e disse com convicção:
— Até hoje, todos os sistemas humanos apresentaram falhas, porque os legisladores, quando fazem as leis, deixam sempre lugar para a usura, para que ela lhes assegure mais poderes. Quem faz as leis se esquece do amor, do perdão e dos direitos das criaturas. Somente um sistema político-social salva as nações dos desencontros e das dúvidas, dando a cada um o que ele precisa receber, é o socialismo cristão.
No dia em que uma nação experimentar, sem medo e com confiança, esse tipo de conduta, tudo será harmonioso, dos lares à nação. No entanto, é necessário que comecem a educar as crianças com mais amor, sem faltar teto, comida e as letras sagradas oriundas do Divino Amigo.
O povo tem o governo que merece, e o governo tem o povo a que faz jus. O que os políticos de uma nação ganham e gastam é suficiente quase, para equilibrá-la nas suas mais prementes necessidades. Por que não trabalhar por amor? Quase todos eles já são ricos. Não sei como não pesam em suas mãos as vultosas quantias que recebem, sabendo que aquele dinheiro tem o cheiro do sofrimento dos mais necessitados!
Suspirei e pensei tão fortemente, que cheguei a falar:
- E quando acontecerá isso?
Miramez respondeu com serenidade:
- Só Deus o sabe, Lancellin. Só Deus o sabe! ... Quando um político alcança uma posição maior, mesmo depois de morto, ainda quer se intrometer no mando do país. Esta é uma doença crônica. Mas, confiemos em Deus e no tempo, que não pedem licença aos homens e nem obedecem às leis humanas. O progresso é uma força superior que a tudo modifica para melhor.
Terminamos de dar os passes em todos daquela enfermaria e desejamos a todos boa saúde. Abraçamos as irmãs, e elas agradeceram a todos com afabilidade. Saímos para outros caminhos, a fim de encontrar outras portas e batermos, esperando que elas se abrissem à luz do entendimento.
*
Alcançamos o espaço, buscando rumo. O ar estava fresco e sentíamos aquela brisa confortável, com a natureza cantando a harmonia da vida em palavras indecifráveis. Na mesma hora, senti algo inquietando minha mente; eu queria saber alguma coisa que aquela Casa de Saúde despertara em mim.
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No processo de volitação, em busca de outras portas, estamos sempre aproveitando a oportunidade de intercâmbio das experiências e eu queria saber o porquê da dor, e enfrentei o nosso Miramez com esta pergunta:
- Que Deus me perdoe, se a ignorância me assomou nesta hora, mas eu desejaria saber, por que é necessária a dor para a criatura evoluir?
Sinto que os processos de evolução são drásticos, de um Pai para com os filhos. O Senhor não teria outros meios de alcançarmos a superioridade? Por que a dor?
Miramez silenciou por instantes, e respondeu com ponderação:
- Lancellin, como foi criado o Espírito, somente o Criador sabe. Vejo que queres buscar as coisas muito mais longe do que precisamos. Se ainda desconhecemos os rudimentos da vida, do porquê Deus fez isso ou aquilo, coisa que vamos demorar a perceber, por outro lado, estamos numa escola universal. Diante do que acabamos de observar, a razão aflora e entramos na "terra dos porquês", sem que as coisas sejam muito favoráveis ao nosso entendimento.
Leis, meu filho, principalmente as de Deus, não são explicadas nem impostas; elas são sentidas pela evolução espiritual. Nós mesmos falamos muito, em vários escritos, sobre a evolução da alma. Para que se possa compreender o sentido do assunto, porém, podemos dizer que não existe evolução do Espírito, do modo que encaramos o Espírito em relação a Deus. Nada que o Senhor faz, o faz com imperfeição, e, se Ele é a Perfeição Absoluta, como criaria uma alma imperfeita? Contradição das contradições! ... Todo Espírito é perfeito, por ter saído das mãos perfeitas de Deus. Todavia, é bom reconhecermos que tudo existe em estado latente. O mais acertado seria dizermos, em vez de evolução do Espírito, despertar do que já existe dentro d'alma.
E quanto à dor que tanto te assombra, ela não atinge o Espírito; essa desarmonia alcança apenas alguns corpos da alma, onde o pensamento possa atingir o raciocínio, que o humano acha um deslumbramento. O Espírito puro não precisa de raciocinar para saber das coisas. Ele já sabe. Quem raciocina para saber alguma coisa, é porque não sabia, e, nesse caso, a razão se atrofia para ceder lugar a outro sentido mais elevado, que se chama conscientização. No futuro, a intuição vai ocupar o lugar do raciocínio, e com vantagens extraordinárias, por ganhar tempo e não precisar de haver retificação naquilo que se fala.
Voltando à dor, ela é um fenômeno de amparo às criaturas; é um guia. Estudando somente os efeitos, encontraremos um monstro; entretanto, analisando as causas, nós a veremos como uma companheira a evitar maiores desastres. E nós estamos longe de colocar regras para Deus, de Lhe mostrar como Ele deveria ter feito as coisas. Ele escolheu o melhor para todas as criaturas. Em se referindo à dor, ela atua na parte que nos foi entregue para fazer, e nessa parte, nós nos debatemos, caindo e levantando sem os devidos acertos. Eis que ela surgiu para nos ajudar a compreender o nosso dever.
Sei que não estás a perguntar como foi criado o Espírito, mas, já tocamos no assunto, para que não se pergunte como Deus surgiu. E na verdade te dizemos que existem muitas explicações mostrando o que é Deus; no entanto, todas as tentativas existentes em todo o mundo, diminuem Sua personalidade, porque ninguém consegue explicar o Inexplicável.
Há muitas versões sobre o Espírito, mas a realidade ainda é mistério. O nosso maior interesse neste momento, é o próprio interesse de Jesus: - é a moralidade dos homens e das almas que ainda não
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conseguiram reformar-se, porque, neste ambiente de ferocidade, de mentiras e covardia, de vinganças e de ódio, enfim, de ilusões mundanas, Espírito algum consegue compreender o que por ora está incompreendido. Quando se restabelecerem todas as coisas, no dizer do Evangelho, quando o leão conviver em paz com a gazela, quando o lobo for amigo da ovelha, quando a cobra andar lado a lado com o batráquio, quando o gato for amigo do rato, quando os homens se entenderem bem, então surgirá para a Terra um novo sol, o grande sol da fraternidade. Aí poderemos conhecer o desconhecido e entender as coisas de Deus pelos caminhos da Verdade.
A minha atenção na resposta de Miramez, não me deixou perceber que estávamos viajando, e senti-me envergonhado do meu tamanho espiritual mas, na mesma hora compreendi que tudo existe dentro de mim, esperando o toque de luz dos dedos do Mestre de todos nós.
*
Chegamos a uma residência e tocamos uma campainha espiritual. Veio nos atender um senhor elegante e de boa fala, que nos convidou a entrar, com amabilidade. Perguntamos pelo Dezessete, nosso companheiro da noite. Ele nos respondeu cordialmente:
- Está dormindo, meus irmãos. Vamos entrar, fiquem à vontade.
Padre Galeno indagou:
- Como está ele?
O guia da residência complementou:
- Muito bem, muito bem! ... Ele melhorou muito, A leitura é a distração que mais lhe ocupa a mente, e já pensa em todos os momentos, em modificar aqueles impulsos violentos que lhe descontrolam o coração. Já verificou que o céu e o inferno estão mais próximos da criatura, do que pensamos, e isto é bom sinal. Graças a Deus! ...
Miramez sorriu e disse com bom humor:
- Ótimo! ótimo! Quando a alma começa a olhar para dentro de si mesma demonstra que está acertando o caminho para Jesus.
Adentramos o quarto onde Dezessete repousava tranqüilamente. Celes Kahena, Abílio e Fernando começaram a operação. Fernando buscou Dezessete pelos processos usados com os outros. Fui analisar o cordão de prata e Miramez passou a se inteirar de outros detalhes com o guia da casa.
Demorei a perceber o cordão de prata, mas ele lá estava, bailando no ambiente. Ao lado da cama notávamos uma obra inspirada que, por certo, ele estava lendo: Os Grandes Iniciados, de Édouard Schuré, e que o levava a caminhos mais acertados.
Dezessete era um solteirão de uns trinta e tantos anos, que despertara cedo para os estudos espiritualistas, porém, havia meses que não pegava num livro, preocupando-se somente com o conforto físico pessoal. Muitos irmãos desse tipo, seguindo essa via, acabam abandonando seu ideal mais nobre, que é conhecer alguma coisa em vida física, das coisas espirituais. Nunca sabem com ponderação, usar todas as coisas feitas e determinadas por Deus. Mas, Dezessete voltara ao seu dever e isso alegrava aos Espíritos familiares.
O cordão de prata estava muito fino, mostrando que Dezessete se encontrava longe de casa. Tive a idéia de interpor recursos para assistir, qual imagens de televisão, usando o circuito fechado, as imagens
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que vinham para o cérebro, aquilo que ele estava fazendo e vendo, mas Miramez, observando-me, veio ao meu lado e disse com energia:
- Lancellin! ... Esses fatos são coisas particulares da alma, que devemos respeitar com dignidade! Somente podemos interceptar essas imagens nos casos em que a nossa intuição mais apurada nos disser que o irmão está em dificuldades, como já aconteceu nos nossos trabalhos; do contrário o respeito é o melhor caminho. A observação só se deve fazer com a aquiescência do transmissor das imagens captadas e guardadas pelo cérebro. Nós entendemos a tua boa vontade de aprender e o dever de informar através da escrita mediúnica, porém, a decência impõe limites que nos compete observar.
Aceitei a lição, que foi qual jato de água fria nos meus impulsos de aprender, que estavam passando ao exagero. O cordão de prata do nosso irmão apresentava um azul luminoso por dentro e um róseo claro por fora. Os filamentos se fundiram, de maneira que não dava para perceber mais nada. Em realidade, ele deveria estar bem longe do corpo que entregara ao sono.
Miramez aproximou-se do corpo, notando que os trilhões de células estavam em harmonia e que ele dormia profundamente. Silenciou alguns instantes virou-se para nós outros que esperávamos, e falou sorrindo:
- O irmão está em excursão com vários Espíritos familiares de alto padrão espiritual. Não convém que o chamemos ao corpo, pois essa é uma oportunidade muito rara. Deixemos que ele aproveite essas bênçãos de Deus em seu favor, e que Ele o abençoe!
Perguntei:
- Miramez, ele está em viagem astral consciente?
O nosso benfeitor espiritual respondeu:
- Não, ele não está em desdobramento consciente; apenas num sono mais lúcido, pelo que pude observar, e que os processos de saída do corpo nos mostram. Quando o nosso Dezessete acordar, terá lembranças agradáveis que lhe servirão de estímulos na busca de uma vida mais pura. Esse passeio é como que um prêmio pelos seus esforços no auto-aperfeiçoamento.
Alguns dos seus familiares, residentes em planos mais elevados, sendo sabedores deste trabalho individual, alegraram-se com ele, e a satisfação os fez ofertar a Dezessete esse passeio-aprendizado. Não há plantio sem resposta.
Fiquei alegre por ele, e desejei-lhe um bom proveito ... Agradecemos ao guia da casa e partimos em direção à nossa Colônia. Como me encantava com as estrelas, que sempre foram motivo para a minha esperança, perguntei com muita alegria ao nosso guia espiritual, durante nossa viagem:
- Onde estamos, neste universo?
Ele, refazendo energias em uma respiração rítmica no que nós o acompanhávamos, parecendo banhado por mãos invisíveis que traziam como que algo divino, a escapar dos nossos sentidos, respondeu com satisfação:
- Lancellin, nós moramos na Via Láctea. Ela é o nosso abrigo no universo. A sua forma é a de uma grande serpente de barriga cheia, e o sistema solar em que moramos por misericórdia de Deus, se afigura a um átomo, cujo núcleo é o sol e os elétrons, os planetas. Em comparação ao tamanho desse aglomerado de astros, nós não existimos no seu ciclópico corpo dos mundos. A mesma dificuldade que
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terias de encontrar um grão de areia minúsculo em uma grande praia, teria de encontrar a Terra em que moras, se estivesses perdido na Via Láctea.
A luz, Lancellin, gasta mais ou menos trezentos mil anos para circular esse pequeno sítio de Deus, na imensidão da criação infinita. E, essa mesma Via Láctea, em comparação às inumeráveis galáxias que circulam a casa de Deus, não é maior que um grão daquela mesma areia do mar. O mais interessante, é que nada disso que existe fica sem as bênçãos do Senhor do Universo Tudo está em plena harmonia divina, com a divina seqüência do amor universal do Criador. De longe já observávamos as claridades emanadas de nossa Colônia, que se fazia visível, como convite a grandes esperanças.
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