Iniciação - Viagem Astral
Aprimorando Idéias
As nossas idéias devem ser aprimoradas, onde a vida nos chamar a servir e a nossa parte tem de ser feita com inteligência e amor. Os pesquisadores da Psicologia já concluíram que aprendemos muito mais pela observação, pela visão, do que através da audição. Entretanto, os resultados são muito melhores quando os dois sentidos são empregados simultaneamente.
Os nossos guias espirituais nunca deixam as lições teóricas sem as bênçãos da prática. Uma se completa com a outra. Nós, aqui, quando visitamos as zonas inferiores, não o fazemos com o intuito de desmascarar os ignorantes; isso jamais passa por nossa cabeça. Cada qual vive onde pode viver, onde a sua evolução comporta. O respeito aos direitos das almas está em primeiro plano e continua a ser assim em todas as faixas da vida. Somente Deus pode interferir, como Pai de todas as coisas.
Aqueles que já entenderam Jesus e O acompanham são os Seareiros da Sua vinha. O nosso trabalho é semear, e o grande celeiro, onde buscamos sementes, é, por excelência, o Evangelho do Mestre.
Deus entregou ao Cristo a sagrada missão de dividir o amor puro que aprendeu com o Senhor, em inúmeras virtudes que, por vezes, escapam ao nosso entendimento, para que depois, pela ação do tempo, elas se integrassem novamente no foco de luz que se chama caridade, que deve resplandecer em todas as nações do mundo, em todos os corações que vivem na Terra. O trabalho no mundo espiritual, onde vivemos, é intenso, mas tudo funciona na mais alta harmonia. O homem inteligente e de bem, quando desencarna na Terra e chega aqui no sítio em que nos postamos, vai logo pedindo trabalho ou procurando o que fazer. Não há tempo, no nosso ambiente, para lamentações e, muito menos, para alimentar idéias inferiores. O avanço é permanente e todos procuram a libertação espiritual. Se nós tentarmos idéias e pensamentos que não estejam nas regras do amor, sairemos do ambiente de serenidade que é a nossa colônia e alcançamos por sintonia, os lugares compatíveis com o que pensamos e vivemos. Essa é a verdade absoluta como justiça real.
Quando ingressei aqui, a minha ocupação maior era ver os defeitos dos políticos da Terra, era criticar os livros mal informados, era o volume de ignorância que punha o mundo a perder. Enquanto não saí disso, nada pude fazer em meu beneficio, nem em favor dos outros. Esse erro é difícil de ser visto por quem o comete, pois ele vem da cegueira espiritual. Enquanto estivermos comentando as coisas negativas, não estaremos construindo e deixamos de fazer o bem que Deus nos pede realizar. Rogamos aos homens da Terra para mudarem com urgência o modo de ser, se ainda não o fizeram, e que se dêem as mãos com firmeza para as mudanças elevadas, no aprimoramento das idéias com Jesus Cristo.
O mecanismo dos nossos pensamentos ainda escapa às nossas deduções. A nossa razão ainda é fraca para o devido entendimento; contudo, temos em mente os rudimentos para entendermos a sua escalada na grandiosidade da vida. Podemos chegar a alturas imensuráveis pela educação da mente, chegar a ponto de participarmos na criação das coisas e, diante de Deus, sermos co-criadores. Essa é, pois, a mente iluminada pela sabedoria e pelo amor.
Há no mundo, e mesmo no plano rente à Terra, muita gente esperando a volta do Cristo, descendo de sobre as nuvens. Perguntamos a esses irmãos:
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O que o Senhor vem fazer novamente na Terra? Curar com o toque das Suas mãos, enfermos que precisam mais de enfermidade do que da própria saúde? Jesus viria mudar o curso da política financeira, as idéias religiosas e ver os homens continuarem do mesmo modo? Jesus com certeza viria trazer o céu à Terra para os homens morarem neste Céu com todas as suas inferioridades? Qual seria o destino deste céu? O Cristo viria ajudar aos homens no despertar dos seus poderes, com um passe de mágica, e de que modo esses homens iriam usar esses dons? Jesus, meus irmãos, já veio, e nós não O conhecemos. Precisamos reconhecê-Lo, para que Ele more em nossos corações. Não precisamos de nada mais para a nossa felicidade, além daquilo que Ele nos ofertou na Sua vinda, há quase dois mil anos atrás, o Evangelho.
Se Ele já veio à Terra uma vez, nos dando tudo de que precisávamos, compete a nós outros irmos ao encontro d'Ele, nos altiplanos da vida espiritual. E para tanto, temos de nos preparar suficientemente. Existem falanges e mais falanges de anjos trabalhando com os homens dia e noite ajudando-os no aprimoramento das idéias, para que elas se iluminem, dando lugar ao amor que salva, que engrandece e que nos leva ao Cristo.
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Estávamos passeando nos jardins da colônia. Flores emitiam claridades de cores variadas e recendiam em fragrâncias diferentes que nos embriagavam a todos. Passavam por nós grupos de Espíritos, travando conversações, talvez como as nossas: comentando trabalhos, planejando viagens e coletando dados para melhor servirem. Alguns já conheciam companheiros do nosso grupo, e cumprimentavam-se mutuamente, manifestando alegria. Sentia meus pulmões se encherem de ar puro, dando-me uma agradável sensação de bem-estar. Outros Espíritos estavam assentados nos bancos entre as flores, lendo livros e comentando trechos das obras, com contentamento. As estrelas brilhavam de modo diferente do que o que os homens contemplam. Elas eram mais vivas e a gente sentia sua luz, como sendo uma mensagem de paz e trabalho.
Permanecer na colônia é uma coisa maravilhosa, é sentir a vida mais presente; no entanto, o dever nos chama por intermédio da consciência, para ajudar a quem permanece no mais baixo. O umbral nos oferece oportunidades grandiosas para que conheçamos uma luz mais dignificante. Jesus está mais presente onde existe sofrimento, onde a dor acicata, pois foi Ele mesmo quem disse:
" Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados."
Nós podemos e devemos ser os instrumentos de consolação daqueles que sofrem e choram, para que possam alcançar a ascensão espiritual.
A música se fazia presente nas correntes de ar que respirávamos, pois ela constitui alimento das almas que procuram a harmonia no concerto do universo. Os sons nos davam a impressão das águas do mar calmo, onde os peixes, em cardumes, sensibilizam ainda mais as moléculas desse líquido sagrado, em um canto que somente os deuses podem entender.
Demoramos em uma praça encantadora, onde desenhos de estrelas feitos pelas plantas nos mostravam o céu na Terra. O centro de um lago ostentava um modelo do humano, obra espetacular, transparente, de maneira que podíamos ver todo o seu movimento interno: o sangue circulando no interior
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das veias, a irrigação do cérebro, até a fabricação dos glóbulos vermelhos e brancos. O coração no seu ritmo natural, os rins filtrando o líquido para a bexiga, a flora intestinal, o estômago, fígado, pâncreas e demais órgãos em pleno funcionamento. Não poderemos nos esquecer dos pulmões, como dois foles sustentando o corpo com o oxigênio, dando-lhe vitalidade. Sete luzes acesas eram as sete glândulas endócrinas. Víamos os roteiros abertos pelos meridianos, dando passagem à energia cósmica, com a qual o baço pulsátil supria a carência orgânica. Os filamentos quase invisíveis da rede nervosa visitavam todo o complexo estuante e incompreensível do corpo humano. Observei a medula espinhal com o seu potencial energético e ainda invisível aos olhos humanos.
Tive a oportunidade de observar algumas células (maravilha das maravilhas) do corpo humano e analisei, na freqüência que um aparelho ao lado podia mostrar, a intimidade dessas células que são antenas vivas, com poderes transcendentais ainda escondidos nas dobras do tempo. O núcleo é como que agitado por energia divina em forma de plasma, ou força nervosa; a bainha de mielina dá passagem à força poderosa para visitar o axônio e irrigar as raízes com fibras mais sutis. Suspirei intimamente, extasiado! ... O corpo humano é dotado de beleza rara e constituído por uma sabedoria que escapa à nossa razão. Tive o ímpeto de ajoelhar e gritar: - Deus existe!
Mas, lembrei-me logo de que eu sabia que Ele existe. Emocionado, em gratidão à obra do Criador, chorei... Quando acabei de chorar, olhei para o lado e fiquei estático; mais alto, quase invisível, eu via o mesmo corpo em desdobramento, e notava-se, com bastante clareza o cordão de prata ligando um ao outro. Ele começava bem visível no corpo, que representava o físico, e terminava no perispírito. Fiquei abismado com o porte do segundo corpo. Superpostos aos mesmos órgãos, mas bem visíveis, lá estavam os centros de força localizados no corpo astral. Que coisa linda! Que Deus abençoe os homens, a fim de que eles compreendam a riqueza que possuem. Quando fui olhando ao redor, comecei a observar os muitos corpos usados pelo Espírito imortal, jóia rara, obra prima de Deus! Não pude observar os detalhes, por não suportar a grandeza que engendra a vida nos vários corpos do Espírito. E o mais interessante é que somente vemos os outros corpos, começando pelo que representa o físico; aí, a vida vai se abrindo e na seqüência ganhamos os outros.
Miramez veio em meu auxílio, por notar minha confusão mental e disse com tranqüilidade:
- Lancellin, tem muita coisa aqui na colônia que se encontra invisível a muitos olhos, por lhes faltar visão para ver. No entanto, o tempo vai nos mostrando gradativamente a verdade que podemos suportar. Dá graças a Deus pelo que puderes observar, porque a gratidão nos alarga os sentimentos de amor no coração Nós ainda estamos nos rudimentos do saber, em relação aos Espíritos puros.
Senti, vi e notei, que a verdade também pode perturbar, quando não estamos preparados, e me lembrei desta máxima oriental: A água aparece, quando o poço está pronto. Miramez, para completar o que faltava na minha observação comentou:
- Olha, meu filho, no aparelho ao lado, que poderás verificar, em tamanho aumentado, as células nervosas. A tua acuidade mental esqueceu dos outros dispositivos em seqüência, que poderiam te mostrar com rara perfeição, os órgãos sexuais do homem, na sua estrutura. Na tela, por efeitos eletromagnéticos, os espermatozóides aparecem nadando no esperma, como cardumes de peixes em busca de algo, que lhe possa completar. E, mais adiante, o encontro com o óvulo, o acasalamento, donde surge a vida do corpo físico e os primeiros laços do Espírito ao corpo.
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Em outra seqüência, verias o trabalho do cérebro com todas as suas divisões, facultando a função dos sentidos humanos para que se expressem no mundo com todos os seus detalhes. E, ainda mais, notarias o grande fenômeno do metabolismo celular, os olhos humanos em exercício, e muitas outras coisas que depois poderás observar com mais tempo e tranqüilidade emocional.
Tive ímpeto de voltar à observação mais profunda; entretanto, algo dentro de mim, me falava:
- Basta, Lancellin, por hoje é só. Tudo em excesso é prejudicial c nos coloca em desespero!
Fiquei contente com o que tinha visto e aprendido. Alguma coisa que estou escrevendo não representa nem dez por cento da realidade, pois a linguagem é fraca para traduzir o que sentimos aqui e o que analisamos, bem como, também, pela minha condição de aprendiz primário na ciência do Espírito. Uma coisa eu vos digo: é fascinante!
Nesse transe de aprendizado é que fiquei conhecendo, mais ou menos, o que é o corpo humano. As sete maravilhas, classificadas como tais na Terra, todas juntas, ainda ficam longe de poderem ser comparadas com o corpo humano. Ele partiu de uma ideação divina, e a beleza maior é que ele acompanha o progresso no seu empuxo evolutivo.
Miramez estava ao meu lado, e pude fazer-lhe outra pergunta, que se manifestava sempre em minha mente.
- O nosso irmão poderia nos dizer por que ainda não trouxemos alguns dos irmãos em treinamento de viagens astrais conscientes aqui à Colônia? Seria um passeio agradável para eles. Por que não fazemos isso?
O nosso guia espiritual olhou para mim, e me senti como uma criança dando os primeiros passos. Ele respondeu com amabilidade:
- Lancellin, tu não estás suportando as maravilhas daqui, mesmo tendo o costume de visitar essa morada espiritual, quanto mais eles! Não poderemos violentar as consciências, nem com o mal nem com o belo que eles ainda não podem suportar. Tudo o que fizermos, se for feito no limite traçado pela natureza, mesmo que ainda não conquistemos a felicidade, sentiremos a sua presença benfeitora.
Meu irmão, caso tenhas a ventura de andar e trabalhar com um anjo por cem ou duzentos anos, estejas certo de que ele não te mostrará os poderes que possui de uma só vez. No correr do tempo, a tua observação irá descobrindo os valores imortais da alma que te guia, sem se perturbar. Ainda mais, esses Espíritos com os quais estamos trabalhando e aprendendo não podem enfrentar grandes excursões, pois o cordão de prata se partiria. Essa bênção de Deus que liga o corpo espiritual ao físico depende de muito exercício e de uma certa educação mental, para aumentar a sua elasticidade. Existe nele uma conjunção de valores espirituais, que a mente iluminada pode fornecer, cujos recursos somente a disciplina pode ofertar.
É, como já foi dito muitas vezes, que Deus tira do nada para fazer o tudo. De fato, de vez em quando eu me abalo ao contemplar certas verdades espirituais. E aí deduzi que, se nós pegássemos um índio que nunca viu a civilização e o trouxéssemos para uma grande metrópole, ele ficaria perturbado, pois não suportaria ver a verdade que o progresso desenhou no curso dos milênios.
Passamos para o salão de música para asserenarmos as mentes, e ouvíamos duas músicas intercaladas, uma nos concitando ao avanço, semelhante às obras de Ricardo Wagner, compositor famoso, que revolucionou o mundo artístico da época. A outra parecia com a Ave Maria, de Gounod. Uma melodia
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completava a outra, nos intervalos que requeriam meditações. Dali, partimos, fortificados pela graça do Senhor da Vida, participando com os demais mensageiros, do aprimoramento das idéias. Notei que todos participavam da alegria pura, aquela que nos incentiva ao trabalho digno. Entrelaçamos as mãos e voamos, como pássaros de Deus em busca do aprendizado com Cristo. No intervalo da viagem, a minha mente inquietou-se por perguntar. E levei a Miramez essa interrogação:
- Onde ficam aqueles vampiros que se encontravam no matadouro? Eles edificam cidades, como os Espíritos do Bem?
Miramez, solícito, respondeu ponderado:
- Meu filho, não existe preguiça total, nem quem deixe de fazer alguma coisa em seu próprio benefício. Essas entidades, por mais lerdas que sejam procuram também um pouco de conforto e, por vezes, constroem habitações no limite das habilidades, mas sempre usam os fracos para o trabalho mais pesado. Os mais inteligentes os comandam com aspereza, sem compaixão. Muitos deles residem nos próprios matadouros, outros, em casas abandonadas, que os homens relegam ao esquecimento, e alguns, até nos arvoredos.
Em época de guerra, estão sempre nas frentes de batalhas, sugando energias dos que tombam sem vida, disputando cadáveres como aves de rapina. Eles procuram, também, aprender com os homens nas guerrilhas, como invadir cidades e tentam ocupar as comunidades que construímos para o bem da humanidade, por já estarem prontas; no entanto, nada conseguem com a covardia e o egoísmo de que são dotados. Para isso, tomamos sérias providências. Alguns deles, isolados ou em grupos, moram em cemitérios; todavia, de vez em quando são desalojados dos lugares que escolheram para viver. A lei é igual à da Terra: quem ocupa um imóvel que não adquiriu, está sujeito a sair a qualquer momento. Há lutas também entre eles, grupos com grupos, para tomar lugares ocupados. É, pois, uma verdadeira inquietação, existindo total desarmonia.
Pus então as mãos na cabeça, admirado. E monologuei, no silêncio dos recursos mentais: "Como é feliz quem se esforça para praticar o amor! Se eu tivesse o direito de sair pelas ruas gritando, e pudesse fazê-lo, não teria nenhum acanhamento de expor essa necessidade humana e espiritual da qual também sou carente: A prática do amor, mas, do amor que se fez conhecido pelo verbo do Cristo ".
Em plena volitação, notei que Miramez escutava algo que eu não percebia, e descemos rapidamente, adentrando em uma casa onde se usava o porão para reuniões espiritualistas. Os médiuns se vestiam harmonicamente; nos cantos do salão, velas acesas e "pontos" riscados, no chão, além de outros acessórios. Os aparelhos mediúnicos formavam círculos em torno de vários doentes, alguns meio agitados, e as doenças neles eram classificadas como obsessão, a pior das enfermidades na atualidade.
Os desequilibrados eram cinco pessoas: dois homens e três mulheres. Depois de tudo pronto, o diretor encarnado dos trabalhos passou a orientar os Espíritos que acompanhavam os enfermos para os médiuns designados, servindo de ponte e dando ordens mentais, que eram obedecidas. Nesse exercício, fomos chamados para cooperar com os trabalhadores da casa na melhora dos enfermos. Kahena, Celes, Abílio e Fernando cercaram os médiuns, e Padre Galeno e Miramez puseram-se ao lado dos doentes. Miramez tirou um pouco de fluidos dos médiuns, comparou-os, com a sua profunda percepção, com os dos Espíritos obsessores, e operou a passagem dos Espíritos, cada um para o médium afim, de sorte que incorporaram com muita facilidade. Alguns dos médiuns que eram bastante conscientes queriam recuar,
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por estarem perdendo a noção do tempo e não poderem dominar seus próprios corpos, o que não era costume. Padre Galeno orava, como sói acontecer nos casos mais difíceis do trabalho de Miramez. O presidente dos trabalhos, satisfeito, voltou e sentou-se na sua tenda de trabalhos, enquanto os Espíritos resmungavam nos instrumentos mediúnicos. Ele elevou os pensamentos a Deus e começou a falar. Nesse momento, Miramez adaptou sua garganta à do dirigente encarnado e ajudou-o a conversar com facilidade. Foram estas as suas palavras.
- Meus filhos, sei quem são vocês e peço, por caridade, que me ouçam. Conheço as dificuldades que têm nas zonas em que vivem. São todos infelizes e fazem os outros sofrer por ignorância, por não conhecerem os caminhos da felicidade. Nós estamos aqui, nesta humilde casa de caridade, porque descobrimos que o mal não compensa, e somente o bem sem exigências dura eternamente, trazendo-nos a paz de consciência.
Se nós pensássemos como vocês, estaríamos fazendo o mesmo, e creio que já o fizemos em outras eras. Foram a experiência e as conseqüências dos males que praticamos, que nos colocaram aqui, como instrumentos do amor. Dos nossos irmãos que nos ouvem, sabemos que nenhum conhece alguém feliz fazendo o mal; nós conhecemos inúmeros de posse da tranqüilidade de consciência, conquistada pelo amor que pratica. Sei que entre vocês existe um evangélico e um sacerdote, e muito me admira fazerem parte de um grupo de obsessores com a pretensão de destruir, de fazer padecer esses nossos irmãos encarnados que ora se reúnem aqui pedindo socorro. Eu reconheço que todos vocês têm seus direitos, os quais muito respeitamos, mas, junto aos direitos existem deveres a cumprir diante de Deus e das suas próprias consciências. Meditem!.. .Meditem por instantes e me digam se estou com a razão, ou se firo alguns de vocês, ao penetrar em área que pertence a vocês mesmos.
Alguns estavam indignados com o doutrinador, outros, ouviam-no pacientes e até aceitando a sua fala, lógica e mansa, sem pretensão nenhuma, a não ser a de ajudá-los. Não obstante, nenhum deles podia falar nada; estavam amordaçados pelas suas próprias energias inferiores.
Continuou o presidente da casa:
- Sei, e eu sou quem mais sei, que não são essas velas acesas que estão me dando forças para falar a vocês todos, nem tampouco as palavra alinhadas no Evangelho provêm de coisas feitas pelas mãos dos homens. Sei também que estes riscos nos cantos do salão não asseguram a minha moral nem os faz me ouvirem pacientes. Se falarmos de Evangelho com vocês, com o coração vazio de amor, nada valerá igualmente; o que vale para a alma é a vivência dos ensinamentos de Jesus Cristo, em espírito e verdade. As demais coisas são acessórios, que o tempo se encarrega de consumir pela força da evolução. A pureza de sentimentos é o nosso apoio e o amor puro, a nossa defesa. Não é decorando capítulos e mais capítulos do livro sagrado que seremos salvos, nem celebrando missas e mais missas que chegaremos aos céus. Nem pagando dízimos, nem comprando entrada no reino de Deus conseguiremos a salvação. Nós somos salvos pela reforma interior, que custa o dinheiro da boa vontade, do sacrifício e do suor, para a conquista do ouro divino que se chama Virtude. Peço a vocês que não olhem para mim me comparando pelo lugar que estou, mas pela vida que eu levo cada dia, pelos meus pensamentos, pelos atos que transcorrem na minha existência. Eu sou o que faço, o que penso e o que falo.
O presidente doutrinador estava, nessa hora, iluminado, e com o decorrer da palestra ele foi se afinando cada vez mais com Miramez, de modo a nada falar dele mesmo; era a mensagem do mundo
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espiritual, para os Espíritos obsessores. Aqueles, depois de livres, não quiseram falar nada. Então, foram convidados a partir, deixando os obsediados em paz e os médiuns estirados no chão. Foram dados passes em todos eles, pela equipe de trabalhadores da casa e por nós, chamando-os à consciência. Os doentes dentro do círculo já estavam se sentindo aliviados.
Miramez voltou a falar a eles com certa energia, usando as faculdades do doutrinador:
- Com relação a vocês, meus irmãos, o meu empenho é bem maior. Se querem ficar livres destas inteligências que escolheram os caminhos do mal, faz-se necessário uma coisa muito séria: aprimorar as suas idéias, modificar seu modo de ser diante do mundo e de suas próprias consciências, porque, se vocês não fizerem a reforma interna, corrigindo certas faltas que abrem caminhos para os Espíritos inferiores, eles voltarão novamente, trazendo consigo outros companheiros. Esta reunião foi uma misericórdia de Deus, para que vocês tenham forças para as mudanças da vida que ora levam. Não precisam pensar que vocês têm vidas retas, porque se assim fosse, não estariam ligados a Espíritos infelizes. Vejamos o que disse Jesus, anotado por Lucas no capítulo onze, versículos vinte e quatro a vinte e seis:
"Quando o Espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso, e, posto que não ache, diz: voltarei para minha casa donde sai. E, tendo voltado, a encontra varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete Espíritos, piores do que ele, e, entretanto, habitam ali, e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro".
A casa é o nosso corpo, com a nossa mente ornamentada de ilusões. Acho que não é preciso dizer mais nada; o que vocês ouviram dá para entender o que deve ser feito em vocês mesmos, para que aqueles Espíritos não voltem, trazendo companheiros piores que eles. Cuidem de que a melhor magia do mundo é a do amor. Amem a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmos, que os anjos jamais deixarão de ajudar a todos.
Que Deus os abençoe.
O próprio doutrinador acordou da sonolência, meio assustado, mas logo notou que estava tudo em ordem. Pediu a um companheiro da reunião que fizesse a prece de encerramento, no que foi ajudado por Padre Galeno, e todos nós nos alegramos com a vitória do Bem. Os Espíritos malfeitores foram levados por dois índios convidados para tal mister por Kahena, que disse a eles:
- Não os maltratem, a violência não constrói. Neste caso, levem-nos mostrando que o mal é sempre fogo que queima aquele que o acende.
Foi fluidificada a água por duas irmãs competentes da casa, e dados mais conselhos aos irmãos enfermos, que se despediram com os corações repletos de paz e a mente desejosa de praticar o que ouviram.
Ao sairmos da organização onde estávamos, os dirigentes, satisfeitos, nos agradeceram e pediram para que voltássemos mais vezes, pois a casa nos receberia com todo carinho. Sorrimos e falamos juntos:
- Agradeçamos a Deus, que nos favoreceu a oportunidade de trabalhar, aprendendo o que nos faltava.
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Partimos ao clarão da luz da lua, e descemos em um apartamento, onde tudo era silêncio. Entramos em grande quarto, por ordem do guia da casa, e fomos em busca de um irmão, que passamos a chamar de Vinte. Ele é advogado, atuante em causas trabalhistas, bem como em outras áreas a que a profissão o chama. Vinte tinha perdido o sono, e devorava páginas de um livro que lhe informava sobre o comportamento humano. Tinha sede de saber sem, contudo, buscar na oportunidade desse saber, a educação dos instintos. Os estudiosos das letras sagradas devem se conscientizar de que somente a prática mostra o que aprendemos. O sábio que não usa a sua sabedoria para o seu bem e para o bem da humanidade, fica na mesma situação do homem nu que, esforçando-se para conseguir roupas, depois de obtê-las, guarda-as, e continua andando nu.
O Vinte era verdadeiramente estudioso, decorava páginas e mais páginas de livros espiritualistas, mas não lhe agradava a conduta mais ou menos reta. Soltava seus instintos como o animal sem os cuidados do cavaleiro. Contudo mostrava por dentro alguns sinais de despertar espiritual e, necessário se fazia cuidar deste bruxulear de luzes no coração. Vinte punha as mãos no rosto e formulava uma prece ao Criador, para que lhe desse a paz que o livrasse daqueles tormentos que ora o oprimiam. Pedia a Jesus que tivesse compaixão dele, dando-lhe forças para vencer a carga que se manifestava para os seus ombros.
Mas, ele era bem conhecido no nosso meio. Se lhe tirássemos a carga, fazia qual o muar de tropa, quando o tropeiro lhe tira o peso: ele deita e rola na primeira poeira que encontra, salta e corre para o verdejante pasto que o espera e sacia todos os instintos de fome e sede. Nosso irmão, ao ficar um pouco livre da obsessão, pela misericórdia divina, enfronhou-se em meios onde o magnetismo é dos piores, abrindo-lhe portas para outros Espíritos se apossarem dele, como verdadeira tirania sensual.
Vinte, se conhece as leis da afinidade, as esqueceu. Nós atraímos o que somos ou desejamos ser. As nossas companhias espirituais refletem a nossa personalidade. Quem não gosta de política, não lê assuntos políticos, nem participa das reuniões sobre tal, assim acontecendo com o futebol, com as letras, as artes etc. Estamos no meio sintonizados com o que somos. Se queremos mudar as nossas companhias espirituais, mudemos o modo de pensar, sentir e viver, pois, atraímos o que passamos a ser.
Bem, voltemos ao Vinte, que estava aflito para dormir, mas, não o fez por sentir, mesmo na inconsciência, a presença das entidades que o estavam esperando do lado de cá: eram mulheres que se esqueceram da decência, e ele não queria essas companhias espirituais, embora buscasse as mesmas aventuras no mundo da carne.
A sua mente, ao encontrar uma mulher, paralisava-se em pensamentos fixos, como se estivesse hipnotizado, em êxtase na sensualidade. O nosso dever era incentivar os seus sentimentos elevados, para que ele pudesse ingressar nas hostes do bem e firmar-se nas qualidades enobrecedoras.
Fernando aproximou-se e começou a conversar com ele mentalmente, formando idéias de bom nível espiritualista e acalmando sua tensão, que já era bastante visível. O nosso Vinte se acomodou na cama afrouxando os nervos, denunciando mais calma. As mulheres que vieram ao seu encontro faziam algazarras na casa, esperando com ansiedade que ele dormisse. Elas não nos viam.
Passei entre elas, para melhor ouvir as suas palavras e pensamentos e senti um aroma acre, como um ardor sufocante de alguma resina, e aquele mal cheiro vinha direto às narinas do nosso irmão, mas, era interceptado por Miramez. Graças a Deus me senti equilibrado, coisa que eu próprio admirei, no meio daquelas mulheres terríveis.
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Kahena, Celes e Abílio teciam algo em torno da sala onde as entidades infernais estavam, e depois fiquei sabendo que elas estavam presas por determinado tempo, para que o Vinte pudesse sair conosco. O nosso companheiro encarnado já estava começando a dormir. Quando era tocado pelos hábeis dedos de Miramez, tomava aquele choque, como se fosse uma corrente elétrica em seus nervos. Ia saindo do corpo e tornava a voltar com medo.
Fernando começou a conversar com ele telepaticamente, até que dormiu. Pairou acima do físico à altura de uns dez centímetros em seu duplo, e podíamos perceber bem visível a influência dos nervos físicos no corpo astral. Ele foi subindo devagarinho e virando verticalmente, pairou no ar e fez força para andar; no entanto, pesava-lhe a atmosfera. Miramez pôs a mão em sua cabeça espiritual e ele se equilibrou com os pés no piso, dando alguns passos. Ouviu as vozes dos nossos colegas de trabalhos mas, nada via. Padre Galeno fez com que ele olhasse para o corpo e verificasse que era o seu próprio. Ele ficou assombrado, mas logo se recuperou. Perguntou, então:
- Onde estão os Espíritos, meus guias? Será que eles vão descansar quando estamos dormindo?
Fernando falou aos seus ouvidos:
- Meu irmão, toda proteção ser-te-á dada; porém, nem sempre podes nos observar. Nós estamos aqui, por misericórdia de Deus, para te ajudar no desdobramento espiritual consciente, de sorte a notares a realidade da vida, usando dos teus dons de pensar.
Meu irmão, sempre te falamos através das leituras; a princípio, desconfias, depois esqueces, inundando a tua mente com pensamentos inferiores que lhe instigam para ambientes inferiores também.
Não vamos falar para que renuncies ao sexo, mas, te pedimos que o eduques. Tudo que existe pode ser usado com decência, sem que a moral se envergonhe. Tudo que foge ao equilíbrio incomoda os outros, física ou moralmente. Repito, não é somente observar os direitos de alguém que vive conosco. Não! Respeito mais apropriado a todos nós é aquele que tem sentido universal. Não se interessar pelos reinos de vida abaixo de nós, é desrespeitar a própria vida que nos faculta as sensações de viver. A vida na Terra é um ensaio para a vida no plano espiritual, e conforme a evolução do Espírito, também ensaiamos aqui para viver aí no plano da carne.
Vinte ficou meio atordoado ao ouvir tanta verdade, mas foi humilde, meditou alguns instantes e ponderou ao Padre Galeno:
- Padre, eu preciso da ajuda do senhor. Já sei que trato com um sacerdote e ficarei muito feliz se o meu irmão em Cristo me ajudar a vencer essas minhas deficiências.
Com a assistência de Celes e Kahena, o Padre Galeno foi ficando visível ao nosso irmão. Esse quis ajoelhar-se todavia, o Padre Galeno não consentiu, dizendo:
- Guarda as tuas emoções como sementes para o bom combate, e nunca deixes desperdiçá-las com coisas sem importância. Somos irmãos e, sobretudo, filhos de Deus.
A fé alimentada por Vinte, no momento que o viu, ascendeu sua vibração, de maneira que Kahena e Celes foram liberados das forças que emprestavam para o sacerdote ficar visível, e o Vinte passou a ver os outros nossos companheiros. Ficou deslumbrado e partiu conosco.
Depois de alguns segundos de volitação, descemos, sem que Vinte o percebesse, em um velório, onde uma família inteira comparecia em estado de emoção desregrada; uns gritavam, outros choravam, outros lamentavam, e os que se calavam pranteavam por dentro, perdendo a pequena paz que restava das
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suas experiências. O caso era grave para o lado do desencarnado: ele, ainda ligado ao corpo, mas já consciente, andava no salão para lá e para cá, falava com os familiares, sem que esses o ouvissem, que parassem com choro e lamentações, que ele estava sofrendo com aqueles desequilíbrios emotivos, mas tudo em vão.
Lembrei-me logo de observar o cordão fluídico do recém-desencarnado; para mim era uma experiência nova, e fui ao encontro dele. Parecia um cabo enorme, que acompanhava o Espírito onde esse fosse. Da metade para baixo, até o cadáver, a sua cor era meio arroxeada, e por ele subia um exército de fragmentos vivos; no entanto, no percurso do cordão de prata, do meio para o astral, eles começavam a ficar lerdos, e iam caindo como penas no ar. Notei que alguns deles eram absorvidos pela respiração humana e umas pessoas o faziam mais que outras. Fiquei meio assustado e perguntei a Miramez sobre isso:
- E o perigo que poderia ter para a saúde humana? O nosso benfeitor respondeu com tranqüilidade:
- Lancellin, isso que tu vês, assustado, é o mesmo magnetismo animal que se individualiza pelas emoções desregradas. São filhos do medo e da dúvida. Observa que os que respiram em grande quantidade ajudaram a criá-los pelas lamentações, desespero, tristeza, ou, às vezes, a própria usura dos bens que foram deixados pelo morto, que continua a viver do nosso lado. Certamente que eles, esses fragmentos vivos, podem causar danos; porém, somente onde encontram sintonia com o baixo teor magnético de que são portadores. Onde a vibração é outra, eles não encontram agasalho. Mas, mesmo assim, o organismo humano é dotado de defesas, que os expulsam por um processo que se chama circulação de forças, e sempre o faz quando a criatura está dormindo e respira espiritualmente no espaço, com mais facilidade, o prâna mais puro. Esse desce pelo cordão de prata e desobstrui os canais interrompidos no organismo pelas forças deletérias. Isso é mais trabalho da mente instintiva.
Quanto a nós que aqui estamos, desde quando dermos guarida a esses agentes do desequilíbrio, eles estarão nos perturbando, seja aqui neste ambiente ou em qualquer outro lugar. E eles, meu irmão, somente atingem o meio do cabo fluídico, por serem destruídos, ou adormecidos, pela luz que desce da mente do Espírito desencarnado. Dada a sua evolução já alcançada, tem ele a sua defesa própria, mesmo neste estado de perturbação em que se encontra.
Entendi, então, que ninguém recebe o que não merece, em qualquer lugar em que estiver na criação de Deus, em qualquer dos planos que existem no Universo. Quem conhece a verdade, desconhece o medo e a insegurança.
Os companheiros começaram a Operação Limpeza e foi-se asserenando o ambiente. O próprio desencarnado se mostrava mais tranqüilo e foi conduzido pelos encarregados do velório para uma câmara de repouso, até o último desfecho.
Padre Galeno pegou o Vinte pela mão e falou com ele, com mansuetude:
- Meu filho, agora é a tua vez. Aproxima-te daquela irmã, que a idade já mostra ter algumas experiências, e fala aos outros do velório alguma coisa, porque a mediunidade pode ser exercida em qualquer lugar que o Senhor nos chamar no Seu trabalho de consolo aos que sofrem e choram. E acrescentou:
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- Vê bem o teu comportamento! Lembra-te de que qualquer outra idéia negativa pode passar para a mente da nossa anciã, e causar-lhe grandes danos, psíquicos e morais. És responsável pelo que transmites!
Vinte consertou o corpo, aproximou-se da velhinha com os olhos cerrados e pediu a Deus que o ajudasse. Começou a falar à velhinha, que se animou assentou direito e deu passagem às idéias do nosso colaborador, nestes termos
- Eu posso chamar todos vós de filhos, por ter idade para isso. Devemos parar de lamentar um fato comum em todo o mundo e em todos os tempos. A morte é inevitável, e se ela ainda não desapareceu nos bastidores do mundo e das criaturas de Deus, é porque o Senhor está achando isso conveniente para nós todos. Aceitar com paciência uma coisa irremovível é ser inteligente, é agradar a Deus e aos anjos, a Jesus, à Maria Santíssima, que vela por todos nós, todos os dias de nossas vidas. Ninguém que conhecemos, até hoje, ganhou algo com lamentos, com revolta ou choro escandaloso, mas conhecemos muitos que ganharam muito com a educação e a disciplina dos seus sentimentos.
A velhinha pediu um copo de água, que sorveu com vontade, e continuou sua fala:
- Aqui, todos devem conhecer a vida do Nosso Senhor Jesus Cristo, o que Ele passou, sem condenar ninguém, sem blasfêmia, sem reclamação. Subindo o Calvário, mesmo agüentando o peso da cruz e sendo chicoteado, perdoou a todos, e não reclamou de ser crucificado entre dois ladrões.
Por que nós, com todo o conforto que desfrutamos neste século XX, vamos proceder contrário ao que o nosso Mestre nos ensinou? O comportamento nosso fala alto, mas bem alto, da nossa educação!
Não quero ver ninguém chorando aqui. Para demonstrarmos sentimentos e saudade daquele que foi para o reino de Deus, não precisa ser por intermédio de escândalo. Claro que todos sentimos e vamos sentir a falta que faz esse nosso filho do coração, porém, se Deus o chamou, por que vamos contra o Senhor, que sabe muito mais do que nós o que deve ser feito?
De agora em diante vou tomar uma atitude, e concito-vos que façais o mesmo: quando puder, eu irei aos velórios e levarei para lá algum livro que revele tranqüilidade e amor, tal como o Evangelho. Eu estou sentindo que isso ajuda a alma a ir em paz. E, quando não estiver lendo, vou cuidar dos meus pensamentos e conversar coisas elevadas, que ajudem a asserenar o ambiente, como está esse agora. Que Deus, Jesus e Maria Santíssima, abençoe a todos nós!
Vinte se afastou da velhinha, e ela mesma ficou admirada com o que disse, bem como todos os membros da família, que já a conheciam e sabiam que ela não tinha essa capacidade. Acharam uma maravilha. O velório estava todo sereno. Chegavam de vez em quando, Espíritos visitando o recém-desencarnado, amigos fora do corpo físico e parentes que tinham precedido ao morto.
Passamos para a câmara onde estava o desencarnado e ele já dormia sossegado. Padre Galeno abraçou o Vinte e falou com alegria:
- Muito bem, meu filho, muito bem! ... Continua assim, e que Deus te abençoe sempre, para que o teu trabalho seja trabalho que constrói, que edifica, que ajuda as criaturas sofredoras.
Vinte estava com os olhos molhados de lágrimas, pelas palavras do sacerdote.
Eu, ao lado do desencarnado, esquentava a cabeça para saber se ele dormia no corpo espiritual e onde estava a chama divina da consciência. Fiquei a procurar com a pouca visão que possuo. Nada conseguindo, Miramez veio ao meu encontro, satisfazendo a minha curiosidade, nesta dissertação:
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- Lancellin, o que procuras está aí mesmo, invisível aos teus olhos, porque essa dupla saída do corpo e do perispírito é para quem está preparado na ciência divina que gera no coração o amor puro. Ainda é cedo para o nosso irmão, mas, ele está bem, bem até demais em relação à posição que exerceu na Terra. A sua consciência está adormecida, em repouso juntamente com o corpo astral, e isso é bom para ele.
Logo foi entrando um Espírito de porte esbelto, fascinante mesmo, fala fácil, despejando simpatia para todos os lados. Senti respeito ao ver aquele irmão. Ele cumprimentou Miramez, que cordialmente nos apresentou e ao toque de sua mão, senti seu magnetismo invadir meu ser. Tive a intuição naquele momento que aquela vibração era uma cota de gratidão, por ter sido ele o pai terreno daquele recém-desencarnado. Conversou satisfeito com todos nós e já era conhecedor dos nossos trabalhos na face da Terra. Alegrou-se muito com o meu pequeno dever, de transmitir aos homens alguma coisa do mundo espiritual. Ele me falou com interesse:
- Continua, meu filho, nesse trabalho revelador. Estás bem assessorado por almas de grande experiência. Nós precisamos valorizar a mediunidade que não se esquece de Jesus, nosso Mestre e Senhor, pois, ela é a chave que garante a permuta dos valores. E, ainda mais, a mediunidade exercida com dignidade consola e instrui, desmancha as dúvidas e enriquece o coração das virtudes ensinadas e vividas pelo Mestre. Se não fosse a mediunidade, não teríamos na Terra o Evangelho, se não fosse ela, não teríamos as religiões; se não fosse o intercâmbio do céu para a Terra, como estaria a ciência? Em plena decadência. Os cientistas não sabem disso porque não têm olhos para ver. Bateu em meu ombro e continuou:
- Olha, querido irmão, não te esqueças também da reencarnação. A idéia das vidas sucessivas vai libertando os homens do egoísmo e do orgulho por mudar as pessoas de posição, de vez em quando. Ela existe pela força da justiça divina. Que Deus te abençoe.
Eu fiquei, não posso negar, algo vaidoso, com aquelas palavras de conforto e de estímulo. E Padre Galeno se adiantou, falando-me com benevolência:
- Lancellin, encontramos o que semeamos nos caminhos que percorremos. Esse irmão que ora nos conforta com a sua palavra fácil e alentadora, desceu de regiões elevadas, para visitar seu filho, quando na carne, e rejubila-se pelo progresso que ele alcançou nesta reencarnação. É mais um amigo que granjeaste, pelo que ajudaste a fazer em benefício do recém-desencarnado. O bem imortal irradia-se em todas as direções da vida, e traz como resposta o que plantamos.
Eu estava para estourar de alegria. A vontade de trabalhar certo me assomou à alma e parecia que toda a energia do mundo estava acumulada em meu coração. A comunicação é verdadeiramente uma ciência, que por vezes desconhecemos.
Passei os olhos pelo recinto, procurando os companheiros e notei a falta de um: era Fernando. Miramez se aproximou de mim e falou baixinho:
- O que ocorreu não deve servir de desestímulo para ti. Fernando foi levar o Vinte até sua casa de carne.
E passou a narrar:
- Foi entrando no velório uma mocinha no alvorecer da juventude, toda chorosa pela morte do seu avô. Seu traje e sua aparência atraíram a atenção do nosso Vinte, que logo se perturbou. Foi chamado
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à atenção por Fernando, mas ele se auto-hipnotizou, e não houve outro recurso senão levá-lo ao santuário do corpo, para acordar, Não pôde, assim, continuar no trabalho. Somente orou e esqueceu de vigiar. Ele vai acordar preocupado com aquilo que mais despertou a sua emoção e tornará a dormir, saindo em corpo astral com as mulheres que lá o esperam e que andam com ele por sintonia de sentimentos.
Fiquei pensando: "Meu Deus! O Vinte não estava cooperando conosco neste instante!? Por que essa mudança de atitudes?" Miramez, pacientemente tornou a me falar:
- Lancellin, Vinte é uma pessoa de certa boa vontade, porém, na sua lavoura mental cresce o joio com o trigo, que não pode ser arrancado no momento, para que não se perca o trigo também. Deixemos que chegue o dia da safra, para haver a separação. Toda violência, por agora, é trabalho improfícuo, que não coaduna com o respeito e os direitos dos outros. Nada se perde; portanto, o que ele aprendeu e deu motivo para o aprendizado florescerá nas bênçãos de Deus.
Agradeci a Deus por tudo que recebi, nas luzes destes encontros e partimos., Fernando já havia voltado e volitamos para a nossa colônia. Em pleno espaço, oramos todos, em um cântico de gratidão.
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