Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 29 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Experiências

Estávamos reunidos, pela graça de Deus, acima de uma floresta, cujo verde se ostentava como roupagem da Terra.

O lugar, onde nos recolhíamos em preparo para o trabalho, era um posto de socorro destinado a prestar assistência, principalmente, aos índios, porque ninguém fica desamparado das bênçãos do Criador; cada criatura recebe o que merece ou o que lhe cabe na pauta das suas necessidades. Deus está em toda parte, cabendo a nós outros estar com Ele em todos os lugares.

Nós nos reuníamos em uma imensa enfermaria, onde era dada a assistência indispensável a inúmeras entidades recém-vindas do fardo físico, naquela grande cidade de árvores. Para os olhos espirituais, nesse parque verde se espraiava uma grande civilização, composta de Espíritos e de vez em quando viam-se caravanas de socorro descendo e subindo em pleno labor, que escapava, às vezes, à nossa curiosidade.

Logo que chegamos àquele posto avançado de assistência espiritual, o serviço nos convidou a cooperar, e não nos fizemos de rogados: comecemos no difícil trabalho de comunicação entre os índios desencarnados, com o qual Miramez se alegrava, entregando-se profundamente ao exercício da fraternidade. Toda a nossa turma se movimentava em passes de conforto e de despertar, procurando tirar das lembranças dos nativos aquela vivência física, de quando estiveram se movimentando na carne. Vários deles queriam voltar, para que fossem cumpridos os seus deveres ante a tribo a que pertenciam. Mas, estavam se acalmando com o amparo recebido de muitas entidades elevadas, cooperando com a harmonia daquele posto de caridade.

Quando todos se entregaram ao dever, sentimos que algo vinha em nossa direção e constatamos logo que era um avião terreno de descomunal tamanho. Eu, para falar a verdade, mesmo sabendo das diferenças de planos, senti uni calafrio que custei a controlar, o mesmo acontecendo com alguns dos nossos companheiros, que depois comentaram o fato. Os trabalhadores já acostumados com tal situação nem deram por conta do que se passava. Miramez estava atento e nos convocou a atenção, naquele tom amável de costume:

- Não perturbeis os vossos corações com fato tão simples e comum de todos os dias. Cuidai imediatamente de tranqüilizar a mente, concentrando-vos no trabalho que edifica. É do conhecimento de todos, sem precisar de mais detalhes, que esse corpo material que se aproxima se encontra em outra dimensão e nada pode nos causar de estranho. Tampouco o barulho de seus possantes motores pode nos chegar aos ouvidos, a não ser que a eles dispensemos atenção, furtando-nos, assim, ao dever a que fomos chamados a servir.

Bastou isso, para nos acomodarmos, e o avião passou em nosso meio, como que cortando o ninho de casas, sem nos afetar em nada. Trabalhamos ali a tarde toda, onde sentíamos uma grande satisfação em ajudar. E como era correspondida a assistência de todos que ali se movimentavam!

Terminado o serviço de assistência, reunimo-nos em conversação ao pé das redes ou camas simples, muito parecidas com as usadas pelas tribos, enquanto Miramez entabulava palestra com o diretor do posto.

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Curiosidade de minha parte levou-me a me aproximar de Fernando, que conversava com uma jovem que, apesar da aparência indígena, possuía traços que denunciavam ser ela oriunda dos brancos. Aproximei-me para verificar.

Era uma jovem mulher, com mais ou menos trinta anos. Comecei a registrar o entendimento dela com o nosso companheiro de trabalho, que a interrogava nestes termos:

- Como te chamas, minha filha?

- Nesta tribo, deram-me o nome de Juriti.

- Então, não pertences à raça dos índios?

- Não, senhor. Eu fui apanhada por eles em certa tarde, quando meus pais e companheiros da família entravam pela mata à procura de seringueiras. Eu, com treze anos, achava aquilo uma festa. Corria para aqui e ali e, o senhor sabe, antes que o sol desapareça a mata já está escura. Eu não desconfiava de que alguém nos espreitava. Os índios andam pela mata de maneira que a gente não percebe. Eu fui me distanciando do povo e, quando os vi, quis gritar, mas, mãos rudes taparam minha boca, quase a me sufocar e correram em disparada, levando-me. Chorei por muitos dias, mas não adiantava ficar chorando por toda a vida. Duas mulheres índias, as irmãs Bali e Balu, foram minhas amigas, ou talvez eu possa dizer, minhas mães. Confortaram-me até com o leite dos seus seios cansados de amamentarem os seus muitos filhos.

Eu sentia uma terrível saudade dos meus pais, mas, havia horas em que eu era confortada, não sei como, nem por quem. Sentia um certo alívio e, quando vi que não havia solução para o meu caso, eu me adaptei aos nativos, como sendo irmãos, sangue do meu próprio sangue.

Juriti levantou um pouquinho a cabeça, no que foi ajudada por Fernando e por mim; recostou-se nas fortes trancas de corda que lhe serviam de apoio, desenhou em sua boca pequena um sorriso agradável e falou pausadamente:

- Meus senhores, vocês estão me ouvindo, talvez por quererem me ajudar. Eu estou represada por dentro e há muitos anos não posso falar a pessoas que possam me entender como vocês. Eu, hoje, estou bem melhor, graças a Deus, e posso falar, caso vocês queiram e tenham a paciência de me ouvir.

Fernando imediatamente pegou suas mãos embrutecidas pelos duros afazeres da tribo e beijou-as com amabilidade, falando baixinho palavras de ânimo, para que ela pudesse sentir-se à vontade, descontraindo-se.

De certa forma, isso era uma terapia espiritual para Juriti. Ela continuou sua fala interessante, principalmente para mim, que notava naquela mulher certo rasgo de entendimento e, de certa forma, de uma lucidez que dava para encabular. Já bem consciente da sua atual situação, queria saber do seu passado, antes desta encarnação.

Fernando escutava pacientemente, e ela prosseguiu:

- Olha, nunca mais tive notícias dos meus pais e parentes. Perguntava a todos os caçadores que conseguia encontrar, aos que vigiavam as divisas de terras, aos que chegavam de outras tribos amigas, e nada! Por vezes chorava, de outras feitas entrava numa onda de tristeza, o que era muito pior. As lágrimas parecem refrescar as lembranças e nos dão um toque de esperança no coração. Eu, com aquela idade, já lia alguma coisa e escrevia. O meu pai era um homem de certo saber. Veio parar nessas bandas fora da civilização por conveniência, pois a sua conduta no passado pedia distância da justiça dos homens.

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Quando vocês chegaram aqui, eu percebi de quem se tratava, pois conheço, há muito tempo, o nosso pai espiritual, Miramez. Quanto eu devo a esse amigo que nunca se separa dos que sofrem! Ele conhece a minha vida muito mais do que eu própria.

Lágrimas derramavam-se nas suas faces, sem que a perturbassem. De vez em quando, caía em profunda meditação, ao se referir aos dramas da sua vida.

Ela continuou, com a voz trêmula de emoção e sofrimento moral: Quando fui levada para a tribo, o sofrimento maior foi espiritual. Na ala onde fui colocada, as mocinhas da minha idade se casavam cedo, mas, antes disso fui agredida por um índio mal-encarado que sempre vinha à tribo o não tirava os olhos de mim. Pegou-me buscando água um pouco distante da taba e quase me matou; era qual um animal, ou pior. Como demorei a voltar, foram atrás de mim encontrando-me inconsciente, de maneira desagradável. Esse índio sumiu, nunca mais apareceu por lá, onde a morte o esperava. Fui tratada pelos meios que a tribo dispunha, mas nunca mais tive boa saúde, e uma grande tristeza se apoderou do meu coração. Não tinha mais alegria e, ainda mais, daí a algum tempo tive de casar-me com um nativo que me fazia contar a história do estupro sempre, enquanto ele rolava no chão de tanto rir. Eu não podia parar, pois ele me agredia se eu o fizesse. Foi um drama terrível. Tive vários filhos, que peço a vocês que os protejam onde estiverem. Sinto saudades deles.

Quando notou cansaço naquela mulher valorosa e simples, Fernando colocou seus dois dedos nos lábios de Juriti amavelmente e disse:

- Chega, minha filha Vamos esquecer os infortúnios e pedir a Deus por tua paz.

Ela recostou mais o seu corpo nas cordas que lhe serviam de cama e fechou os olhos, querendo expulsar mais lágrimas de saudade.

Miramez aproximou-se de nós dois, deu um sinal para os outros e falou com brandura:

- Eis aí mais uma lição de grande proveito para todos nós, mostrando que a colheita está sempre presente nos caminhos do semeador.

Esta nossa irmã teve uma existência de muito conforto e poder em Portugal, na Idade Média.

Graças à sua inteligência e arte de cativar, ela reuniu significativo poder de mando em suas mãos e tomou para si resoluções que não lhe competiam, deixando de usar sua influência para o bem da coletividade. Abusou dos que estavam sob seu domínio, mandando matar pessoas como se fossem animais, desrespeitando o direito alheio para satisfazer o seu orgulho e vaidade.

Chegou a usar seu infernal poder até fora do seu país, sem medir conseqüências. Era jovem e linda, aprimorando seus conhecimentos acerca dos assuntos de interesse da época, desde culinária até política, e dessa a altos conceitos teológicos, com as pessoas mais versadas em tais ramos.

Mandou à morte pela fogueira, um aplicado estudante de astronomia que se recusou a lhe ensinar os segredos dos astros e as maravilhas do infinito, por ver nisso apenas mais um capricho da jovem mulher.

A Inquisição, nódoa negra das páginas do catolicismo, iniciou-se com meras conversações teóricas durante o papado de Alexandre III, consolidando-se com Lúcio III, através do Concilio de Verona, em 1183. Foi introduzida em Portugal por D. João III e oficializada em 1536. Seu alegado objetivo era acabar com as heresias, para que a suposta religião de Deus se oficializasse no mundo.

 

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Esta nossa irmã, que agora vemos deitada nesta cama tosca, já com as idéias reformadas e a mente embaçada pelo passado distante, foi quem mais incentivou a ida dessa falange do umbral inferior para Ribeira Velha.

Pelas bênçãos da reencarnação, ela já passou por várias existências, das quais essa última foi a mais branda. Ainda resta algo do seu carma volumoso, que está dentro de sua consciência, como o líquido na garrafa. É hora de destampar o frasco, virando o seu conteúdo para que se derramem pelas bordas do copo as energias coaguladas em faltas variadas.

A carne é qual uma esponja que absorve as impurezas cármicas agregadas no perispírito, em forma de enfermidades múltiplas e problemas inúmeros. Somente após a sua depuração, a consciência voltará ao seu porte natural, que se chama tranqüilidade imperturbável.

Atentemos para a infinita bondade de Deus, ao nos dar renovadas oportunidades de limparmos a mente e o coração das maldades milenárias e tornarmo-nos Espíritos puros, trabalhando na obra do bem e realizando aquilo que a coletividade espera de todos nós.

Lembrando-nos do que já fizeram nesta Terra, em nome de Deus, as Cruzadas e a Santa Inquisição, tomamos consciência do quanto precisamos melhorar, porque muitos de nós estamos ligados a esses movimentos por fios cármicos inseridos em nossas almas e muito deveremos trabalhar com Jesus, para rompê-los.

A nossa irmã Juriti vai se recuperar gradativamente, de agora em diante, e entrar na faixa de servir por amor, em grupos de trabalho a que melhor se adaptar. O tempo irá dizer o momento de voltar à carne, aqui ou além, onde Deus achar conveniente para a sua limpeza cármica. Para tanto, é preciso muita fé, porque será o seu calvário. Que Deus a abençoe.

Não poderia ser mais proveitosa do que foi essa dissertação do nosso companheiro Miramez. De minha parte, fiquei meditando por instantes nos dramas por que passa a humanidade. Cada pessoa em particular é uma história diferente com base nos mesmos desequilíbrios.

E a minha história? Sei de alguma coisa a respeito e não sinto prazer em pensar nela. Quero é trabalhar com amor e por amor, para que a força, a alegria e a coragem não se apartam de mim, tornando-se parte da minha própria vida.

O horário já nos chamava a atenção; era hora de recomeçar. A madrugada estendia seu manto em grande parte da Terra, e naquele silêncio que instiga à meditação, as estrelas pareciam mais perto. Sentíamos seus raios beijarem a nossa atmosfera e, de vez em quando, ouvíamos o canto das aves a ressoar no seio das matas. Arvores ciclópicas, no cinetismo que lhes é próprio, buscavam no ar e na água o oxigênio para o enriquecimento da seiva e a nutrição das suas células expulsando, no mesmo engenhoso trabalho, grande quantidade de matérias outras gastas, que aliviava a sensibilidade vegetal.

Aguardávamos o sinal do nosso instrutor para partirmos. Estávamos, nessa hora, mais além do posto, respirando com as árvores, elementos que nos faziam mais fortes, energias que nos davam mais vida para o bom êxito dos trabalhos que nos empenhávamos em fazer.

Miramez cerrou os olhos e orou, externando amor e alegria:

"Senhor! De novo estamos a pedir trabalho. Ainda achamos pouco, muito pouco, o que realizamos. A nossa consciência pede serviço, porque acreditamos no labor constante, como ponte para

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a sabedoria e como ambiente para o amor. Dá-nos esta graça; a graça do serviço sob as Tuas bênçãos. Em nome de Jesus Cristo, pedimos que nos ajudes a compreender os que sofrem e a amar aos que nos odeiam, refreando em nossa mente o desejo de reclamar, quando nas nossas obrigações.

Indica-nos, Senhor, para onde devemos seguir em Teu nome e d'Aquele que sempre nos têm seguros em Suas mãos, a nos indicar o melhor. Não nos deixes cair em tentações, para que o tempo não seja desperdiçado e a assistência aos que mais sofrem, não fique esquecida. Nós agradecemos pela oportunidade que tivemos esta noite e pelas lições recebidas, confirmando assim a necessidade urgente das reformas internas, ampliando a nossa capacidade de amar. Esperamos, Pai, as Tuas diretrizes.

Assim seja!"

Sentimo-nos renovados por dentro e o ambiente por fora ajudava-nos na alegria e na esperança. Quem pode ver a Terra mais de cima, onde a visão abarca a esfera terrestre com mais amplitude, é que pode sentir o espetáculo maravilhoso deste planeta girando no espaço, como que solto, mas controlado por forças invisíveis, numa junção magnética que garante os compromissos assumidos com a humanidade para lhe servir de casa transitória rumo à libertação espiritual. Quem percebe do mais alto a mecânica dos astros, o sistema solar com a sua cadeia de planetas e esses com os seus satélites, em uma harmonia indescritível no cosmo, sente-se tomado pela idéia de Deus e de como somos pequenos perante Ele.

Partimos todos juntos, cantando um hino de gratidão a Deus. Todos de mãos entrelaçadas, volitávamos pela força do pensamento, e esse, buscava no amor seu sustentáculo. Antes, fôramos avisados para acendermos as luzes e todos juntos parecíamos um só clarão! Nada nos preocupava.

Somente o dever é que assumia posição em nossa mente e o coração assinalava com alegria as diretrizes do bem, do amor e da caridade, que libertam a todos em clima de paz.

Conosco já estavam muitos Espíritos que vieram a nós em busca de um novo aprendizado, aquele que Jesus está sempre nos mostrando: o trabalho no bem, com amor. Essas almas ainda estavam nos fluidos da carne, retemperando as forças, corrigindo assaltos mentais e escoando energias mal gastas do passado. Elas estavam em estado de sono, com um pouco mais de lucidez, para fixar com mais nitidez as lições ministradas nos trabalhos em curso.

Estávamos chegando aos verdes mares e nos regalávamos com as águas que se agitavam em um impulso natural. Sobre aquele manto de águas que se estendia aos confins do horizonte, faziam-se notar várias outras caravanas espirituais em tarefa similar à nossa. Descemos na praia e ali tivemos nossa primeira intervenção: um casal estava assentado em uma grande pedra e, de repente, o homem, rudemente, sacou uma faca que brilhou à luz da lua e, com uma fúria sem precedentes, visou o coração da sua companheira, que seria transpassado.

Miramez, bem próximo, emitiu um pensamento como chispa de luz, em certa área do cérebro do homem; turbou-lhe a visão e ele perdeu a força no golpe da comprida lâmina. Fernando sugeriu mentalmente à mulher que caísse para o lado. Ela obedeceu e se levantou, saindo a correr sobre o lençol arenoso. Seu companheiro, ao descer a faca e não encontrar o corpo visado, desferiu um murro no corpo granítico, dando um grito de dor, perdendo a visão da mulher, que desapareceu nas sombras de árvores próximas.

 

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Saímos em direção ao centro da capital do Ceará. Grande silêncio, alta madrugada; sopravam os ventos em várias direções. Sentíamos grande alegria por saber que somente o bem, nas linhas da caridade e do amor constitui a grande realidade da vida.

Chegamos a uma simples residência, onde uma senhora idosa perdera o sono e buscava na cozinha algo que a fizesse dormir. Lera muito durante a noite e pensava nos muitos conflitos que enfrentara em toda a sua existência. Encontrava-se quase só, mas consolava-se ao se sentir na companhia de Deus, dos Espíritos e de Jesus Cristo, que nunca faltam nos momentos difíceis. Por vezes, sorria, sem contudo, acalmar seus impulsos de tristeza e pensava:

"Eu sou espírita, tenho que me conformar com esses dramas que ainda são necessários, mesmo que eu os encare como desastres da vida. Também, já estou chegando ao fim da vida".

Ela pressentia algo no ar e perguntava a si mesma:

"Será que estou com visitas hoje? Parece que sim. Ah! ... Como eu queria estar entre eles!"

Após uma curta oração, entregou-se ao sono.

Na verdade, o quarto da anciã estava cheio de entidades. Miramez, diante da simples cama da nossa irmã, que vamos passar a chamar de Duzentos e Quinze, aplicou-lhe vários passes verticais, como se fosse um chuveiro de fluidos, limpando certo tipo de magnetismo, e falou com ela através das duas lâmpadas acesas em seu crânio. Ampliamos nossa visão e o milagre aconteceu: pela primeira vez fomos agraciados pela visão mais profunda, percebendo as ondas mentais do nosso instrutor, ondas estas carregadas de sons, mas, em uma harmonia que escapa ao nosso entendimento. Os coloridos mudavam de acordo com o assunto e na linguagem pálida do mundo, podemos chamá-las de super-micro-ondas luminosas, a levar a mensagem à nossa irmã adormecida, mas ouvindo perfeitamente a palavra telepática do nosso benfeitor espiritual, que assim se expressava:

- Minha filha! Confia em Deus acima de tudo. Nós, quando estamos na Terra em um corpo físico, nos sentimos influenciados por muitas correntes de pensamento. A nossa sensibilidade registra uma imensidão de coisas, que certamente não nos servem, entretanto, de acordo com o nosso estado no momento, gravamos tudo com mais ou menos intensidade. Essa influência, por vezes, poderá nos prejudicar ou reter-nos em zonas inferiores, depois do túmulo. Ninguém foge da lei universal; temos que entendê-la e respeitá-la. A nossa estimada irmã já conhece uma doutrina que consola e instrui, e já vem sendo consolada e instruída. O momento é para iniciar com mais profundidade a vivência dentro e fora de casa. Quanto a alguém que viveu em tua companhia e de cuja ingratidão sempre te lamentas, esse irmão está em marcha evolutiva como tu, carecendo das tuas preces melhor compreender os desígnios de Deus.

O teu mal maior é reclamar todos os dias, e isso não leva a nada; ao contrário, piora a tua situação espiritual. O Espírito que reclama dos infortúnios por que passa, cria em torno de si um ambiente inferior, um endurecimento no corpo vital, de maneira que, dificilmente, a alegria pode se manifestar; o amor universal desaparece, somente se manifestando o amor-próprio. Até a caridade que sempre fazes, toma o cunho daquilo que pensas e sentes.

Para que ela seja amor verdadeiro, é preciso te libertares por dentro de todas as inferioridades. Busca o perdão, mas te esquecendo das faltas recebidas, porque, se não perdoares, ficarás no mesmo nível do ofensor.

Mudou o tom de voz, imprimindo nela um pouco de energia com amor:

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- Querida irmã, levanta-te e vamos limpar a mente nos serviços do Cristo, que Ele, para todos nós, é o Caminho, a Verdade e a Vida!

Duzentos e Quinze estremeceu, já ligeiramente afastada do corpo físico. Miramez aplicou passes nos dois corpos e, separando-os, acalmou a nossa irmã, afastando-a para que não fosse influenciada pelo soma.

A anciã viu, em primeiro lugar, os encarnados que estavam conosco em aprendizado. Entrou logo em conversação com eles e, infelizmente, prendeu-se somente a reclamações e pedidos de assistência para seus filhos. Era um pensamento fixo, que determinava todos os seus assuntos.

Após muito esforço de Celes e Kahena, ela pôde ver parte da equipe e se deslumbrou, caindo em prantos e beijando as mãos dos nossos companheiros. Logo estava pedindo ajuda, em nome de Deus e de Jesus.

Galeno, segurando suas mãos que denunciavam o trabalho ao longo dos anos, falou ao seu coração, com o seu modo carinhoso de se dirigir aos que sofrem:

- Minha irmã, esquece o passado, que nada constrói para a tua paz. Procuremos Jesus, mas não pela ótica da reclamação. Nós atraímos o que pensamos e o que sentimos e, às vezes, a bondade de Deus nos envia correntes divinas de fluidos imponderáveis, nos quais, por invigilância, injetamos as nossas inferioridades. Deus nos atende por muitos meios, os quais não percebemos, quando estamos envolvidos pelas emanações entorpecentes das lamúrias. Se queres melhorar, vive mais o presente, atendo-te mais àquilo que o Mestre está nos chamando a realizar!

Duzentos e Quinze, com as mãos de Galeno no rosto como que procurando esconder a vergonha, molhava-as de lágrimas, porque reconhecia a verdade nas Palavras que ora escutava dos lábios do seareiro do Senhor.

Galeno continuou, transmitindo-lhe mais segurança: - Ergue-te, minha filha! Não gastemos o tempo em pranto desnecessário

Vamos trabalhar, vamos dar aquilo que temos em mãos para distribuir!

Partimos dali, ansiosos por coisas novas. Pairamos no ar, de onde viam toda a capital fosforescendo de luzes. Pressentíamos as angústias que enchiam as almas que a povoavam, presas aos compromissos gerados pelo que fizeram uns aos outros.

Observamos um casebre ao longe, onde pálida luz de uma lamparina dava a conhecer as condições da família.

Miramez apontou e seguimos na direção que seu indicador marcava. Três crianças dormiam em um couro de boi aberto e alguns trapos serviam-lhes de cobertas. As crianças dormiam serenamente e, adiante, em um quarto onde se podia ouvir o soprar dos ventos, estava um casal, cuja mulher, que mal respirava, jazia num catre. O homem, sentado em uma rústica cadeira, a cochilar, já tinha esgotado todos os seus recursos para melhorar o estado da enferma. Agora, era esperar o que Deus determinasse.

Kahena olhou para Miramez com ansiedade e ele lhe falou ao ouvido algo que não pudemos distinguir. Essa valorosa alma desapareceu como que por encanto, enquanto Celes, Fernando e Abílio rodearam a cama em meditação. Galeno tomou posição diante da situação e começou por lembrar Jesus nas bodas de Caná. Falou do chamamento dos discípulos, da difusão do Evangelho, do despertar das massas para a vida espiritual, do Calvário e da conversão de Paulo de Tarso.

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Miramez levou as mãos ao facho de luz que ligava Duzentos e Quinze Espírito ao corpo, imprimindo nele seus recursos energéticos. Depois, distribuiu vários passes em todo o trajeto da coluna vertebral até a base da mesma. Nossa companheira conscientizou-se de que estava realmente em espírito e sorriu para Padre Galeno. Ao ver nosso instrutor Miramez, ia começar a chorar, mas, esse a impediu, dizendo:

- Não é hora para esses sentimentos, minha irmã! Vê o quadro desta família! Precisamos trabalhar com urgência!

Ela entendeu a situação, falando à consciência da senhora estendida na cama, maternalmente:

- Não te desesperes, minha querida! Estamos aqui para ajudar! Imprimiu tanto amor nas palavras, que a mulher abriu os olhos e observou com toda a nitidez a anciã, com as mãos em sua cabeça. E falou com dificuldade:

- Minha mãe, Maria Santíssima! Ajuda-me, minha mãe, eu quero criar meus filhos, que são todos pequenos. Peço à senhora para me ajudar. Eu não quero morrer agora. A senhora, que é mãe de Jesus, pede a Ele por mim, pede!

Lágrimas molhavam seu rosto sofrido, sem interrupção. Duzentos e Quinze, ouvindo tudo com paciência, falou à enferma com esperança, batendo de leve em seu rosto:

- Sossega, minha filha. Deus não Se esquece de ninguém. Ele está em toda parte a nos ajudar. Maria e Jesus, em quem tanto confias, irão ajudá-la. Tu vais ser curada, em nome de Deus!

Nesse momento, Kahena retornava, trazendo muitos recursos para o engenhoso trabalho de Miramez. Via-se o miocárdio da enferma tomado por uma espécie de massa que impedia tivesse ele a vitalidade necessária para bombear o sangue aos pulmões, onde ele iria se reabastecer de uma seiva mais pura, mais viva, que chegava como oxigênio.

Miramez observava a situação difícil da doente e deu um sinal para que todos déssemos as mãos em torno dele e da enferma, e que orássemos em silêncio. Galeno já tinha terminado a sua dissertação evangélica. Enquanto vibrávamos, fazendo uma corrente ao redor do velho catre da enferma, Miramez, em profunda concentração, coisa que dificilmente se via, buscava algo muito raro no plano dos fluidos. Notamos que seu centro de força coronário tonalizou determinadas cores, impossíveis de serem descritas pela linguagem pobre dos homens. Girou em várias velocidades até que criou uma tonalidade única, encantadora.

Da sua mente serena e lúcida, partiu um fio de luz, como que um bisturi divino, que penetrou o tórax da enferma, entrou no coração da nossa irmã, manejado pela vontade do nosso benfeitor espiritual em uma harmonia impressionante, chegando ao lado da massa que estava impedindo aquele órgão de trabalhar no ritmo próprio. Notou-se, então, o milagre: aquela luz queimou, como que por encanto, a matéria que causava o mal, transformando-a em secreção que foi absorvida pela corrente sangüínea. A operação demorou uns cinco minutos. Com a habilidade de um grande cirurgião, Miramez recolheu aquela luz cortante, ao mesmo tempo cicatrizante, e pegou o que Kahena trouxe com todo carinho e amor, aplicando-o com suas hábeis mãos ao nariz da enferma, que depois de respirar com dificuldade, foi melhorando, até passar a respirar profundamente aliviada.

O silêncio continuou e Miramez desafogou a mente daquela atenção profunda no trabalho. Tinha seus grandes olhos marejados de lágrimas, filhas da gratidão ao poder de Deus. Falou-nos com doçura:

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- Quero, de todo o coração, que o Senhor tome estas minhas palavras, como gratidão. E que Jesus e Maria, a mãe de todos nós, também as ouçam: muito obrigado!

Terminamos o trabalho com muita alegria. Os companheiros encarnados já sabiam o que fazer para voltar aos seus compromissos com a carne. Despedimo-nos, ficando conosco apenas a Duzentos e Quinze.

Fomos levá-la até sua casa. Entramos, e ela, muito contente, beijava as mãos de todos nós, pedindo-nos que a protegêssemos, que estava velha e cansada do mundo.

Miramez passou as mãos pelos seus cabelos de neve, acentuando:

- Vai, filha, para a tua morada. Ainda tens algum tempo na carne. É bom que aproveites todo o tempo que Deus te forneceu por misericórdia. Tem coragem e confia, que tudo passa. Somente o amor persiste, na eternidade da alma!

Ela acordou meio assustada, olhando para os quatro cantos do quarto enquanto pensava:

- Será que foi um sonho? Parecia-me que o quarto estava cheio de gente! Eu queria ser consciente das minhas saídas do corpo durante o sono! Deus há de me ajudar, para que isso aconteça um dia.

Levantou-se animada, em busca do banho, cantarolando, e de vez em quando passavam por sua mente algumas recordações de sua vivência no trabalho espiritual.

Miramez asseverou confiante:

- Vede como é difícil a consciência perfeita do encarnado em desdobramento! Falta muita coisa aos candidatos. Ela, durante uma parte do dia, vai ficar em uma vibração positiva, no entanto, à tarde, já recomeçará a reclamar do peso da vida, voltando a ficar envolvida em magnetismo inferior. Somente o tempo e os problemas poderão, de maneira mais agressiva, ajustá-la nos caminhos de Jesus!

Saímos volitando como de costume, voltando à casa onde estivemos, para ver os resultados. Estava ansioso para avistar a mulher que fora tratada. Encontramos o homem admirado à beira do catre, vendo que sua esposa respirava livremente e dormia como um anjo. As crianças brincavam em correria, em direção às salinas.

O mar suspendia suas ondas como que saudando o novo dia, e nós cantávamos em louvor ao Pai, internamente, ao ver o bem-estar daquela família que tanto sofria. Por um instante, a mulher acordou e chamou o marido, que atendeu sorrindo e perguntando como ela se sentia.

Ela, sorrindo, olhou para ele e começou a chorar, emocionada. Depois, perguntou pelas crianças. Elas, que já estavam de volta, entraram gritando e abraçando a mãe.

- Mamãe, a senhora sarou? Perguntou uma delas. E ela, com a fala meio cansada, disse:

- Sarei, meus filhos. Nossa Senhora, mãe de Jesus, me curou esta noite. Eu a vi, graças a Deus, graças a Deus!

O marido, emocionado, chorou também com a mulher e os filhos.

Aquela que já estava, havia quase um mês, alimentando-se pouco, anunciou estava com fome. Queria comer e, se possível, levantar-se. E foi o que fez. Os vizinhos foram chegando e, em poucos minutos, uma pequena multidão já sabia do ocorrido. Alguns diziam que era um milagre.

- A Joana ia morrer e sarou! Como Deus é bom! exclamavam.

Miramez assumiu a palavra com sabedoria:

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- O mundo é uma escola que nos ensina no decorrer da vida.

Aquela mulher enferma, candidata à morte pelo mal que sofria, tomou a Duzentos e Quinze como se fosse Nossa Senhora, mãe de Jesus. O estímulo da fé foi tanto, que deu condições de fazermos o trabalho, por ordem superior. A fé, como diz o Evangelho, transporta montanhas de toda ordem. Foi o que aconteceu. Ela foi picada, há uns doze anos, por um inseto hemíptero, da família dos Reduvídeos, chamado popularmente de barbeiro; inseto temível, a medicina oficial ainda não descobriu uma vacina preventiva ou a cura para o mal que transmite. E ainda não descobriu porque o tempo espera o esgotamento do carma coletivo, que não vai demorar tanto mais.

Fomos agraciados por uma oração que Galeno improvisou e partimos cantando hosanas ao Senhor.

Duas semanas depois, passei pela casa onde foi operada a mulher e, já se via de longe, somente alegria havia no singelo lar. Retratos de Maria Santíssima estavam pregados em todas as paredes. A mulher, antes enferma, já se encontrava lavando algumas roupas das crianças, mantendo a idéia de ir pagar uma promessa em intenção a Maria de Nazaré, no mês de maio.

Curvei a cabeça diante da grandeza de Deus e não tive palavras para orar: chorei o quanto o coração pediu!

 

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