Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 30 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Coletando Dados

A noite estava carregada de nuvens negras, impulsionadas pelo vento, entre o ribombar dos trovões e as descargas elétricas, no fenômeno natural de purificação do ambiente terreno. Aves e animais assustados, procuravam refúgio onde sua visão não percebesse o aguaceiro prenunciado.

Quanto a natureza entende a necessidade do homem e de todos os demais seres viventes na moradia planetária! O mar é uma fonte inesgotável de vida que abastece vidas; as águas sobem em forma de vapor, modificam-se nas alturas, recompõem-se por coesão molecular e, novamente como água, caem pela lei da gravidade nos pontos que as inteligências superiores acham conveniente. Contudo, face às provas coletivas pelas quais a humanidade ainda tem que passar, alguns pontos do mapa, principalmente no Brasil, enfrentam grande escassez de chuvas.

Em certas linhas paralelas aos meridianos da Terra, fisicamente, há forças magnéticas que expulsam as nuvens de determinadas regiões. Para esse ambiente é que são direcionados os seres que deverão passar pelos testes de carência desse líquido sagrado. Não obstante, eles são agraciados por outros meios, onde o coração e a inteligência são beneficiados, de sorte a manter o equilíbrio do fardo, colocando Deus como a Eterna Justiça e o Amor sem limites.

Quando esses Espíritos deixam o corpo físico e despertam no mundo espiritual, conscientizam-se de que tudo está certo no programa universal de Deus.

Tudo o que ocorre na Terra, no campo material ou moral, é para o bem da humanidade. O mundo está passando por rudes processos de reajustamento, e o desfecho desse fim de cicio irá suplantar todas as profecias, por estar a atmosfera planetária sobremodo carregada de forças deletérias que irão cair em tormenta sobre seus próprios geradores, em diversas formas. Tudo isso constitui processos evolução de todos os povos.

Os sofrimentos serão morais e físicos, porque um sempre está ligado ao outro, por fios invisíveis mas, indestrutíveis.

O Brasil está em uma posição privilegiada, na trajetória das forças destruidoras que estão por vir; no entanto, não é um privilégio, na acepção verdadeira do termo: é porque o rebanho que reencarnou sob as luzes do Cruzeiro, nas terras da promissão, já conquistou esse direito, nos caminhos tortuosos dos reajustes e no esgotamento cármico das suas velhas dívidas de nação a nação. Porém, há milhares de almas que, mesmo sem nascerem aqui nas terras brasileiras, ao pressentirem a aproximação da besta apocalíptica e do magnetismo explosivo dos ódios, vão ser acolhidas nas terras do Evangelho como aves de arribação, porque os seus fardos já estarão leves. Há, ainda, milhares de Espíritos que nasceram aqui por misericórdia de Deus, no sentido de guardarem a esperança de retornarem, um dia, ao coração desta pátria de luz. Serão atraídos, entretanto, para o meio dos explosivos retificadores, de onde sairão renovados na fé e arrependidos dos desvios dos sentimentos.

O planeta em que vivemos, encarnados e desencarnados, por força do progresso, haverá de alcançar mais um grau na ascensão espiritual.

 

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Mas, o nosso dever, no momento, não é alimentar profecias, nem despertar o medo nas criaturas: a tarefa mais urgente que nos chama é o aprimoramento íntimo, é descobrirmos a nós mesmos, em atendimento ao convite do Cristo, que chega a nós de todas as direções.

As religiões se aproximam, no silêncio dos anos, sem que os homens, em sua maioria, dêem por isso. Elas tendem a se fundir, tendo como princípio somente o bem e, como necessidade premente, difundir as verdades espirituais.

Quem dirige as religiões, como outros ramos de atividades humanas, não são os homens; primeiramente, se encontra no leme do barco de todos os nossos destinos, a mão de Deus, Supremo Criador de todas as coisas e Infalível Inteligência, que comanda toda a sabedoria universal.

Parte da humanidade, principalmente os religiosos, se preocupa muito em se salvar, esquecendo-se de que essa salvação depende muito mais da obediência as leis irremovíveis do Pai, ou seja, às leis naturais que nos regem a todos. Não será uma simples leitura, nem uma simples palavra, que irá nos colocar como anjos diante do Senhor mas, a purificação dos sentimentos, a pureza dos pensamentos e, principalmente, a vivência permanente das leis de Deus, ministradas por Jesus.

Deus não criou ninguém destinado à perdição. Todos se salvarão, porque para isso Ele deixou os caminhos delineados para todas as criaturas, de sorte a se purificarem por variados processos.

Se Ele é onisciente, como iria fazer alguns para se perderem definitivamente? E como, sendo a Perfeição Absoluta, iria fazer coisas imperfeitas? A razão não nos deixa acomodar em tais idéias.

O mundo espiritual está atento a todos os passos da humanidade, e ela tem, certamente, o livre arbítrio, mas, com limites, como o pássaro dentro de uma gaiola. A liberdade maior somente será dada quando o liberto conhecer seus reais deveres diante da grandeza do Criador, supremo mandatário em toda a extensão do infinito.

Falanges e mais falanges de Espíritos superiores, comandados por Jesus Cristo, descem para a atmosfera da Terra neste fim de século, para receberem luzes de outros mundos que irão coadjuvar as inteligências que aqui permanecerem e distribuir almas endurecidas para outras plagas onde se afinizem por lei dos iguais.

No entanto, não ficará ninguém sem as bênçãos do Senhor, que tudo nos deu para sermos felizes junto a Ele, na eternidade.

Estamos coletando dados, pela misericórdia do Pai, em todos os campos, sentindo a vida e colhendo experiências com a finalidade de que todos nós encontremos a nós mesmos e descubramos as leis naturais que garantem a harmonia de todas as coisas criadas.

Os homens criam as leis e não podemos duvidar que elas, quando formuladas por legisladores justos, são inspiradas na Grande Lei. São, entretanto, instáveis, servindo ao limite de evolução de um povo. O progresso arrasta nações e continentes, mundos e sóis, constelações e galáxias, forçando todos esses ambientes a modificarem seus sistemas de vida, onde ela exista, pelo empuxo evolutivo.

Quando a criatura chega a um nível evolutivo, começa a perceber a harmonia da vida e, afinizando-se com ela, tudo em si também se harmoniza. Ela sente, então, o prenuncio da felicidade. Existem muitos métodos de conquistar esse estado, porém, o maior deles é o tempo, que age em todos nós, pelas mãos de Deus.

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Reunimo-nos em um grande salão, onde o respeito a Deus e a Jesus era a tônica do ambiente, pois estávamos em um templo que obedecia às normas da Reforma.

Chegamos ali em busca de mais dados para o nosso aprendizado. A Igreja estava cheia; quase todos se encontravam de bíblia nas mãos, lendo e procurando discernir os textos e notávamos um mundo de perguntas e respostas, em forma de monólogo.

O pastor já se encontrava em seu lugar de destaque, meditando sobre vários tópicos, passagens belíssimas da vida do Divino Mestre, entretanto, o raciocínio o levava a outras interpretações, e os sentimentos despertavam em seu coração um ambiente agradável, por ir se encaminhando por outras deduções mais elevadas. Mas, o condicionamento de regras já fixadas na sua consciência o prendiam de maneira cruciante. Passava as mãos na cabeça já grisalha, como que a tirar certos pensamentos que não desejava. Lembrava-se da escola onde se formara, do velhinho de cabelos de neve que já nascera ouvindo o livro sagrado e tornou-se um pastor de renome internacional. Lembrava-se das suas advertências sobre o modo pelo qual poderiam surgir na mente, interpretações diferentes daquela que o Espírito Santo ordenara e sobre o cuidado com Satanás, que é sutil e penetra em ambientes nos quais, por vezes, a razão não desconfia; ele não aceitava a evolução das idéias nas interpretações dos textos evangélicos, nem o progresso, em se referindo às coisas de Deus,

Balançava a cabeça, em um gesto que lhe era próprio e desviava o pensamento, conversando com alguém que estava próximo. Gostaria de descobrir de onde vinham aquelas idéias, que não se coadunavam bem com as linhas da Igreja. Pensava em perguntar, conversar com os outros irmãos do mesmo nível, mas, o que iriam pensar? Aquilo tornou-se um drama que povoava a sua mente. Procurou esquecer, porém, foi nascendo em seu coração uma tristeza indizível, transformando até as suas próprias feições.

Não sentindo melhora, mesmo quando entre os outros companheiros que, notando algo diferente, procuravam despertá-lo para a alegria e o entusiasmo na missão grandiosa de ser instrumento da difusão da Boa Nova de Jesus, pediu licença e buscou refúgio na oração a sós, em uma sala destinada à meditação sobre as coisas do Senhor.

Levava a bíblia contra o peito, como se fosse a coisa mais sagrada do mundo e, se pudesse, a colocaria dentro do coração. Emocionado, orou com humildade:

"Meu Deus! Como posso Te servir, de sorte que a consciência não desaprove minhas atitudes? Como entender na profundidade que os Céus desejam, os assuntos deste livro que, por excelência, é santo? Senhor, Tu bem me conheces! O Teu coração conhece o meu e bem sabes que eu quero ouvir a Tua verdade acima de todas as idéias das ciências, das filosofias das religiões, incluindo esta, à qual pertenço que muito respeito e a que me entreguei como pastor de almas, mesmo sabendo que Tu és a realidade universal, que nos apresentas mais evidente na inconfundível presença de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Que fazer, meu Deus, com essas idéias que, de quando em vez assolam minha mente, povoando o meu coração? Não tenho o direito de julgá-las como sendo negras, pois me trazem um bem-estar intraduzível. Encontro-me num dilema que já passa a conflito, no meu mundo interior.

Sei que o Espírito Santo nos inspira para falarmos dos conceitos deste livro, para ampliar com cuidado os ensinamentos que vertem das páginas deste pergaminho de luz, mas, não podemos sair das

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regras traçadas pelos nossos superiores. Eles passaram, deixando a herança das revelações, como planta na lavoura dos nossos corações, a serem cuidadas pela nossa inteligência educada, nas diretrizes que nos deste, por intermédio dos profetas consagrados no Velho Testamento e dos companheiros de Jesus Cristo. E essas idéias que estão vindo a minha mente? Será que estou sendo provado, como o testemunho que teve Jesus no deserto, sendo tentado pelo maligno? Tudo isso me confunde, por ver as idéias que ouço no coração trazerem uma clareza de conceitos nunca antes ouvidos por mim, nem lidos em livros que vêm as minhas mãos.

Silenciou, para que as lágrimas pudessem aliviar o coração, enxugou o pranto como criança indecisa, ao pensar que tudo o que fazia estava errado. Com a voz embargada, pressionada pela verdade, ele continuou:

"Faça-se a Tua vontade, Senhor, e não a minha. Entrego-me aos Teus desígnios, sem escolher o que devo fazer ".

Todos estávamos reunidos ali, respirando igualmente aquele salutar ambiente de luz e de paz. Flores de luz brincavam no recinto de oração, buscando no corpo físico do pastor, por afinidade de vibrações, a integração psicossomática. A aura do nosso companheiro tornava-se um arco-íris cercando a sua alma, como se fosse um resguardo na garantia da serenidade. Ele quis se levantar, já conformado e ciente de ter cumprido o seu dever, mas, não conseguiu: algo invisível o impedia.

Fernando que, pelo olhar sereno e seguro de Miramez, se aproximara dele, locando a destra no encaixe da medula alongada com o cérebro. Da sua mão, notava-se um feixe de luz de intensidade deslumbrante, visitar todos os departamentos inter-cerebrais do nosso irmão, atingindo, por último, as duas glândulas, minúsculas lâmpadas, dentro da cabeça daquele que acabara de orar ao Senhor.

Fernando saudou-o, falando-lhe brandamente:

- O Senhor esteja contigo! Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

O pastor abriu os olhos, olhou em torno; nada via, nem escutava pelos ouvidos da carne. Meio espantado por nunca ter ouvido algo com tamanha nitidez, em voz tão suave e confortadora, sentiu alegria no coração; fechou novamente os olhos e pensou com ansiedade:

"O que queres que eu faça?"

Fernando falava no tom peculiar à sua natureza elevada. No entanto, o fenômeno maior, característico, que todos admirávamos, eram as imagens transmitidas em consonância com os sons espirituais. A televisão está, por assim dizer, mil anos atrás do que assistíamos naquele momento, de alma para alma. Disse Fernando:

- Meu filho, na época dos profetas bíblicos, os benfeitores espirituais falavam aos seus intermediários dizendo que eram o próprio Deus, firmando a sua personalidade com Isaque, Jacó, Moisés e uma interminável linha de profetas, diante da estrutura do povo da época, que somente acreditava na palavra direta do Senhor. Esses profetas tinham ordens para assim proceder, ordens da Divina Força que nos sustenta. Porém, os tempos passaram. Depois, os homens começaram a ouvir o Espírito Santo,

 

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trazendo as mesmas leis, ampliadas de modo inteligente, que poderiam interpretar como sendo o próprio Criador, em esquema diferente, dividindo-se em Pai, Filho e Espírito Santo.

Agora, na dimensão em que te encontras, na época em que vives, quem fala não é Deus, nem o Seu Filho Maior, tampouco o Espírito Santo. É um teu irmão em Cristo, que abre os braços para Ele, assim como tu, pedindo orientação, pedindo refúgio, pedindo trabalho.

O maligno, no qual tanto pensas, somente existe no teu pensamento; é criação condicionada, que se integrou ao teu psiquismo e tomou corpo no teu mundo mental. Por vezes, pode até ser visto. O que crias, anda contigo, lado a lado. Não gastes tempo precioso temendo Satanás. Faze o bem, em lugar do tempo que gastas te preocupando com o mal e te defendendo. A maior defesa contra o mal, é fazer o bem. Pensar no mal, é atraí-lo.

A mente do pastor estava acesa, ouvindo tudo, como se estivesse frente a frente com alguém, que lhe falasse com toda a autoridade. Fernando continuou em tom paternal:

- Nós precisamos ter a coragem necessária para dizer a quem quer que seja, aquilo que a consciência nos inspira. Foste chamado para pastorear almas; és o orientador de um rebanho, todavia, se a tua orientação não for mudando acompanhando a evolução, ficarás para trás, como a simbologia nos ensina ao se referir à mulher de Ló. A Bíblia certamente é um livro sagrado, pela força educativa que ela encerra, porém, com facilidade poderás descambar para os extremos de determinadas exigências e, eis o pior, exigências estas feitas em nome de Deus e de Jesus. Quando os Céus notaram o exagero nas interpretações do Velho Testamento, Deus enviou Seu filho querido, para explicar as leis, na sua profundidade espiritual. Chegou a ponto de condensar os dez mandamentos em dois apenas, quando disse: "Aqui está toda a Lei e os profetas." Não achas que isso é muito sério? Se Jesus veio tornar livre a letra do Novo Testamento, e disse que enviaria outro consolador que ficaria eternamente conosco, esse consolador, certamente, viria trazer outra feição das leis naturais, em uma dimensão que comportasse todos os tipos de raciocínio, uma fé que pudesse encarar a verdade face a face.

Os teus ancestrais andaram a pé, montados em animais, em carros de bois e adestrados cavalos. E quantas vezes nos vemos viajando em aviões velocíssimos, reclinados em cadeiras de que os antigos deuses, forjados pelos homens, sentiriam inveja? Por que nesta parte ninguém é conservador? Isto é o progresso, e o progresso é força de Deus em todas as direções da vida. Avança, principalmente na moral, que concerne a todo o tipo de aperfeiçoamento das criaturas. Se tens um emprego a assegurar e regras a obedecer, se milhares de pessoas exigem a tua fidelidade na direção de uma igreja, atende primeiramente à tua consciência, porque é somente pela consciência amadurecida pelo tempo, que Deus fala àquele que escolheu para educador. Negando-se a isto, não terás paz. Que Deus te abençoe!

O pastor, que de ora em diante passaremos a chamar de Vinte e Sete, ou Reverendo, saiu daquela meditação profunda como se estivesse hipnotizado, mas, lembrando-se de tudo. Se quisesse, poderia, por sua boa memória, escrever tudo o que ouvira daquela voz, pela qual passou a sentir afeição e amor. Levantou-se de onde estava e murmurou, para que somente os anjos o escutassem:

- Meu Deus, sinto-me iluminado por fora e por dentro, graças a Deus!

Voltamos ao templo e o encontramos repleto. As cadeiras não comportavam todos e centenas de irmãos de crença permaneciam de pé, para ouvir a palavra do nosso querido Vinte e Sete, que naquela

 

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noite se sentia outro homem. A mansidão ocupava seus sentimentos; não obstante, a energia era dona da sua límpida inteligência.

Subiu à tribuna e falou demoradamente acerca da missão de Jesus Cristo mas, de um modo que os companheiros de fé jamais haviam ouvido. Alguns dos ouvintes se assustaram, com os conceitos avançados e que não constavam das diretrizes da Reforma; outros, o abraçaram depois do culto, dizendo:

- O senhor estava com o céu nos lábios e Cristo no coração!

Passamos a verificar os assistentes: mais ou menos oitocentas pessoas encarnadas, degustando o manjar espiritual da noite, lendo e relendo trechos do livro santo, não percebiam mais de três mil desencarnados de todos os tipos, de todos os graus evolutivos e com os mais variados interesses, que se movimentavam dentro do salão.

Um Espírito de grande elevação se postava acima da casa, com uma corte de cooperadores em uma cabine espaçosa, de onde transmitia suas bênçãos em forma de luzes de todos os matizes, de conformidade com o caso de cada um. Somente essa cúpula de diretores dos trabalhos espirituais pôde nos ver, recebendo-nos fraternalmente e abrindo portas para o nosso diretor Miramez realizar conosco as experiências que desejasse. Nosso benfeitor, aproveitando a oportunidade de nos ser útil, dirigiu-se a nós, nestes termos:

- Companheiros de ideal! Agradeçamos a Deus pelo que pudemos fazer, no que tange ao aprendizado. Recolhemos alguma coisa que nos fez enriquecer o coração e ampliar a nossa inteligência. É bom que sintamos que em tudo no mundo, ou em todos os mundos, em todas as faixas de vida, existe direção espiritual. Mas essa direção, mesmo sendo de alta hierarquia, respeita os direitos de todos em conjunto e de cada um em particular; dá a cada um segundo as suas necessidades e ninguém, em plano algum, recebe o que não merece. Só o que merecer, por ter plantado na lavoura de Deus, em qualquer lugar do universo, receberá, sem que lhe falte um ceitil no seu salário. Essa é a justiça que se espalha na criação de Deus como o éter cósmico que tudo interpenetra, como o amor que vibra no coração da vida.

Miramez deu uma olhada para a massa humana e espiritual que ali estava e falou com dignidade:

- Quando temos ordens para mudar um pouco o modo de pensar, como o que fizemos com o nosso amigo desta noite, sabemos que nem todos irão aceitar essas interpretações do Evangelho. Ele pode falar aqui, todos os dias se quiser no entanto, somente quem já se encontrar preparado é que irá entender. A água aparece quando o poço está pronto.

Todas as religiões estão se modificando. O tempo está encarregado dessa mudança, mas, é tão sutil, que poucos percebem esse mágico despertar das almas. Estamos todos caminhando para a realidade maior e Deus sabe a hora certa de subirmos mais um degrau na escala evolutiva. Ninguém engana o Senhor, nem acrescenta nada no programa da Divina Providência.

Existem muitos religiosos que temem a dissolução das suas religiões e têm medo de que elas caiam no esquecimento do povo, pela mudança do comportamento das novas gerações. A esses, dizemos que não devem temer pois, somente a Verdade ficará de pé e, quem estiver com ela não cairá.

Seguimos o nosso Vinte e Sete rumo a sua casa. Ele permanecia meditativo, pouco disposto a conversas naquela noite, porém, por dentro estava alegre, solfejando um hino ao Pai.

Paramos em uma grande residência. Em enorme mesa na sala de refeições, viam-se os preparativos para uma leve ceia. Alguns familiares estavam reunidos com amigos que sempre

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acompanhavam o pastor depois dos cultos evangélicos. Sua esposa, muito bonita e prestativa, com fina educação social mas, pouco ligada aos serões evangélicos, fazia tudo para agradar ao marido e convidados, não obstante, não gostava de assistir às conversações sobre o assunto religião que era, pensava ela, remoído todos os dias. Escapava para uma saleta onde seu maior interesse era a televisão ou a leitura de revistas.

Vinte e Sete e seus companheiros trocaram algumas palavras acerca da palestra da noite, notando-se a satisfação dos seus amigos pelas dissertações novas, trabalhadas em campo moderno, porém, perigoso, para quem não soubesse compreender a feição mais alta do cristianismo. Após algum tempo, os amigos despediram-se meditativos.

Vinte e Sete, quando se sentia inspirado à meditação, dormia em outro quarto, para que pudesse meditar bem descontraído sobre a vida de Jesus. Perto da esposa, sentia algo que embaraçava o seu campo de entendimento e a intuição. A mulher, por sua vez, ficava um tanto ou quanto alegre, por poder desfrutar das suas novelas, revistas e criações mentais em visualizações negativas. Amiúde, acontecia essa separação do casal.

Kahena, que já se encontrava no quintal, olhando para as árvores como se estivesse conversando com elas, aproximava-se de quando em vez rente às flores, inalando o perfume que lhe agradava, apologista que era, da natureza. Abílio já estava, havia muito tempo, preparando o ambiente com facilidade, dando a cada passo o tom correspondente às necessidades da noite. Fernando examinava algo na biblioteca, com muita atenção. Celes procurou Kahena no jardim da casa e entrou em conversação com ela, a respeito dos trabalhos. Galeno estava a rever alguns tópicos do Evangelho, para a meditação da noite e Miramez acompanhava o pastor, já com visíveis sinais de sono, até o leito. O relógio anunciava a meia-noite.

Todos se reuniram no quarto do Vinte e Sete. Além de nós, com responsabilidade para esse trabalho, dezenas de outros espíritos se encontravam sob a nossa tutela em um aprendizado maior, em estado, como já dissemos, de sono mais lúcido.

Enquanto Miramez dava instrução referente ao comportamento da noite, deslizei devagarinho, com a sua aquiescência, para o quarto da esposa do Vinte e Sete. Já tinha combinado com o nosso instrutor, para que pudesse coletar dados sob outro ângulo e daí extrair ensinamentos para todos nós.

A linda mulher ainda não havia adormecido; as imagens da televisão tinham direcionado seu pensamento para situações inferiores, com relação ao sexo e ela, sob a influência de infeliz entidade, totalmente entregue à sensualidade, moldava a forma-pensamento de um homem forte e atraente. Era de tal intensidade e força gerada por sua mente em desalinho, que a sua criação quase se tornava visível e sensível a ela. Ainda perturbada pela situação gerada por ela mesma, entregou-se ao sono. Tão logo adormeceu, seu acompanhante espiritual, demonstrando certa experiência, a retirou do corpo físico e ela, logo que se viu livre, veio aos seus braços, partindo os dois, abraçados, para o espaço, em profunda simbiose de sentimentos.

Ainda pensativo, voltei ao quarto de Vinte e Sete e, logo chegou Miramez em meu socorro, dizendo:

- Lancellin, de fato aqui é, pode-se dizer, uma casa de oração. Vinte e Sete está em plena sintonia conosco e se esforçando para a sua ascensão espiritual, porém, tem algumas raízes ainda ligadas às

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sombras do passado. A sua esposa, mesmo dentro desta casa e sendo companheira de um homem reto, nesta encarnação, atrai o que pensa e vive o que deseja. Ele, em épocas recuadas, era um delegado violento e egoísta, num vilarejo da Inglaterra. Ficou conhecendo essa que é hoje sua esposa, como mulher de um camponês extrovertido e andarilho. O delegado, apaixonado por ela, não encontrou outro recurso para a conquista, a não ser matar o seu adversário no amor. E foi o que fez. Certa manhã, encontraram o infeliz camponês dependurado em uma árvore, já sem vida. Ela buscou o delegado, cientificando-o do fato e ele, muito prestativo, fez todas as investigações, obviamente sem esclarecer coisa alguma.

A infeliz criatura, que já trazia dentro de si sensações inferiores, sentiu-se sem amparo e cedeu à influência do policial.

Essas almas já passaram por programações retificadoras, e o delegado que demonstrou pendor para os ensinamentos evangélicos, veio se esforçando em todos os sentidos e lutando em duras provações. Em próximas reencarnações eles deverão passar por situações dolorosas, com enfermidades do berço ao túmulo, em abençoado processo de renovação.

São almas afins e o delegado que hoje é o pastor, ainda tem pequenas ligações com eles, que no futuro irão nascer, talvez, como seus filhos, para receberem das mãos do Vinte e Sete, a educação segura e uma disciplina amorosa, para que se consolide entre todos, o amor.

Confesso que fiquei estarrecido. A lei não brinca com quem brinca com ela. O plantio é fácil mas, a colheita é dolorosa, porque nos alerta, pelo sofrimento, que deveremos saber escolher as sementes e o terreno para semear.

Miramez, dois metros distante da cama do Vinte e Sete, que já dormia, projetou seu olhar firme na raiz do nariz do reverendo, chamando-o:

- Vem, meu filho, não temas! Estamos todos aqui esperando por ti! O corpo espiritual do irmão começou a se deslocar lentamente, estremecendo e transmitindo essas impressões ao corpo físico mas, Miramez sustentava-o em equilíbrio. Vinte e Sete teve um pouco de medo, porém reagiu logo e, em poucos segundos, estava ao nosso lado. Espreguiçou, esfregou as mãos no rosto, abriu os olhos mas nada viu. Estava consciente e seu corpo obedeceu aos gestos do corpo astral; estava sob influência total.

O reverendo, ao avistar seu corpo na cama, apalpou-se assustado; quis falar alguma coisa e, quando experimentou, teve um susto, ao ver que a boca do corpo físico repetia as suas palavras. Começou a sentir certo mal-estar, pensou em voltar ao corpo e, quando já ia fazê-lo, houve interferência da nossa parte e ele não conseguiu.

É bom que lembremos aqui da força do pensamento. A mente cria o que desejamos no momento ou em curto espaço de tempo. Isso, de acordo com o que estamos desejando. Quando Vinte e Sete sentiu a impossibilidade de voltar ao corpo, lembrou-se fortemente da bíblia e essa apareceu em suas mãos, como por encanto. Ele a beijou de joelhos, abriu-a com ansiedade, buscando algo que pudesse confortá-lo. Seus dedos escolheram, pela graça do Senhor, um dos trechos da Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo doze, versículos de 1 a 11, que assim diz:

A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Sabeis que, outrora, quando éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos ídolos mudos, conforme éreis guiados.

 

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Por isso vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito DE Deus afirma: anátema Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo.

Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E há também diversidade no serviço, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas, o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso.

Porque a um é dado, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento. A outro, no mesmo Espírito, fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de Espíritos; a um, variedades de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las.

Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as como lhe apraz, a cada um individualmente.

Naquela confiança que seu coração sentia, abriu os olhos devagarinho, como se estivesse no céu e, vendo-nos em torno de si, disse com a voz embargada pelos sentimentos que afloraram:

- São os profetas? Meu Deus! Não mereço tanto!

Ainda de joelhos, começou a chorar. Depois de alguns instantes, Miramez tomou-o pela mão e disse com serenidade:

- Levanta, meu filho. Não somos profetas; também somos homens. Não passamos de simples companheiros em busca de trabalho com Nosso Senhor Jesus Cristo. Somos espíritos que tivemos, como ocorre contigo, um corpo de carne. Agora nos situamos no plano do Espírito, mas, com as mesmas necessidades de aprender com Jesus em todos os campos do saber universal. Estes que ora chegam a este recinto onde teu corpo repousa, (estavam entrando muitos Espíritos em processo de sono, que havíamos levado conosco) são igualmente encarnados, teus companheiros de lutas humanas, porém, estão aqui coletando dados sobre a vida no além.

Nós viemos convidar-te para um passeio, de caráter bem diferente do sono comum a todas as criaturas, porque é uma iniciação consciente. Apontou para o envoltório carnal do pastor, dizendo:

- Vê! Aquele é teu fardo físico, e esse que usas agora, é um instrumento mais refinado que serve com mais presteza ao espírito. Não será preciso darmos melhor interpretação ao lindo trecho da carta de Paulo que leste. Sabemos que já entendeste. Segue-nos com confiança, porque é o mesmo Deus que opera em tudo.

Partimos para uma cidade mineira, onde existe antigo casarão que serve de exílio para os nossos irmãos em estado de alienação mental. Ambiente carregado, sufocante, dificultava a nossa respiração. Muitos dos nossos companheiros encarnados que nos acompanhavam foram obrigados, por tais circunstâncias, a voltarem aos corpos, mas, todos assistidos, e muitos acordaram no fardo da carne com impressões horríveis pelo que viram e sentiram no ambiente de desconforto.

Vinte e Sete revestiu-se de ânimo, em nome do Cristo, como nós outros, e elevou sua mente a Deus em sentida prece, de sorte a asserenar os ânimos. Abílio não parava um só instante, usando seus recursos de limpeza, com o auxílio de Kahena e Fernando. Celes, concentrado ao lado de Galeno, pôde ficar bem visível a um cortejo de Espíritos malfeitores e doentes que ali permaneciam.

 

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Miramez fez um círculo fluídico em torno dos enfermos que ali se postavam em estado de calamidade e apareceu diante dos Espíritos desequilibrados que também estavam cercados. Uns ajoelharam-se diante dele, outros, espavoridos, desapareceram. Ele acercou-se mansamente dos que ficaram, saudando-os em nome de Deus. Para Miramez aparecer diante dos doentes mentais, exigiu-se grande esforço de Celes e Kahena, que logo se recuperaram por processos que foram conquistados em muitas experiências.

Celes, inspirado por Galeno, falou aos Espíritos doentes, alguns vingativos. Dissertou sobre o perdão, a urgência do amor e da amizade, da necessidade que todos têm de se curarem e que, para isso, ele conhecia um médico das almas sofredoras, que era Jesus. O ambiente encheu-se de luz espiritual; parecia, pelo que sentíamos, um templo religioso. Tudo serenou. Muitos choravam pedindo socorro e mãos caridosas confortavam a todos, com palavras de paz e de carinho, de sorte que eles, mesmo não vendo, ouviam e sentiam que estavam sendo ajudados. Nisso, Miramez se aproximou de uma velha de olhos esbugalhados, cabelos em desalinho, feição carregada, extremamente magra, e nos mostrou um fenômeno de possessão muito raro, segundo ele.

- Vede bem esta senhora.

Olhamos e pudemos observar que em torno dela existia um sem número de Espíritos jungidos à sua própria carne, como limalha ao ímã; no entanto, um deles era quem comandava mais a sua personalidade. Era esse que Miramez tinha mais interesse em afastar, e ele nos explicou porquê.

- Se afastarmos esse doente da alma, incrustado na nossa irmã, também enferma, os outros poderão ir se desligando devagarinho. Não poderemos retirar todos de uma só vez, porque ela não resistiria, e não é conveniente que ela desencarne agora. No entanto, quando o último sair, ela deverá desencarnar. Aí, então, ficará mais fácil conduzi-la para uma casa de repouso no nosso plano.

Pensou durante breves instantes e continuou, explicando-nos:

- A nossa irmã enferma tem que ajudar um pouco. Nós vamos ajudá-la, a fim de que ela tenha um mínimo de lucidez e se disponha a modificar suas idéias, para que nos surja a facilidade de retirar o irmão que a obsedia infernalmente.

Miramez pediu a Vinte e Sete que se aproximasse mais da nossa irmã enferma e colocasse as mãos em sua cabeça. Orou com sentimento, para que o amor e a fraternidade fossem o clima e o perdão, a chave do despertar espiritual dos algozes:

- Senhor! Novamente estamos buscando a Tua ajuda, para que possamos trabalhar com eficiência. Permite, meu Deus, que neste momento, as almas reconsiderem tudo aquilo que porventura tenha sido feito no passado e que a oportunidade seja aproveitada por todos nós, Espíritos endividados nos torvelinhos de muitas existências.

Consente, Pai de bondade e de amor sem limites, que o nosso trabalho não fique em vão; que os corações despertem e se unam, em busca da eternidade, onde a harmonia divina é o clima constante e o amor, o alimento de todos.

Suplicamos a Jesus, em nome de Deus, que nos ouça, enviando a esta casa de sofrimento o socorro que nos possa ser emprestado, levantando os caídos e curando os enfermos, afastando a morte e

 

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dando vida aos desequilibrados, insuflando o ânimo em todos os nossos corações para que possamos, ao Teu lado, amarmos a todos eles como nossos irmãos espirituais.

Em torno de Miramez, fachos de luz irradiavam-se de sua personalidade grandiosa, em elevada sintonia com os maiores da espiritualidade superior.

Fazíamos um círculo em torno dos doentes encarnados e desencarnados. O antigo delegado, diante da prece de Miramez, teve o seu rosto transformado, mudando sua roupagem espiritual, e víamos, em vez de Vinte e Sete, um padre da Ordem dos Capuchinhos. O terrível obsessor da doente foi igualmente se transfigurando e Vinte e Sete reconheceu nele a sua avó de linhagem nobre e feições duras. Os dois olharam-se demoradamente, Espírito para Espírito e se abraçaram em uma união de saudades. A mulher, estava alucinada com a visão que há tanto tempo procurava e seu neto, a quem ela tinha custeado todas as despesas nos estudos, para que ele fosse um santo, segundo o seu ponto de vista.

Mostrava-se feliz e, depois de um certo tempo, de sensibilidade aflorada, Miramez controlou a mente de Vinte e Sete e esse falou como padre à sua querida vovó, que ele simplesmente chamava de mãe, por falta daquela que ele não conhecera:

- Mamãe! Deus te abençoe!

Ela, quando ouviu essa palavra, Mãe, dos lábios do seu neto, naquele mesmo tom que ela tanto conhecia, entregou-se a demorado pranto. Disse Miramez:

- Isso faz bem ... isso faz bem! Deixem-na chorar. Ao ouvido da anciã, Vinte e Sete falou com ternura:

- Mamãe. Eu estou grandemente recompensado. Como Deus é bom! Eu queria encontrar-te, para agradecer o quanto fizeste por mim. Aprendi muito, no tocante à vida que levei como frade. Ela me fez conhecer o Senhor mais de perto, a respeitá-Lo e amá-Lo. Mas, não fiques pensando que sou santo. A minha carga é muito grande e o meu fardo é pesado ainda, porém, estou trabalhando para melhorar. Tenho pedido por ti e vou continuar a pedir, mas, esquece a vingança. Não penses no mal e perdoa os que te ofenderam. O salário do pecado, diz a bíblia, é a morte. Quando estamos envolvidos no mal, estamos mortos para Deus!

Ela registrava tudo, porque era o seu neto do coração quem lhe falava. Ele continuava passando a mão em seus eriçados cabelos, com carinho, em uma fala que a tudo domina: a do Amor.

- Mamãe, vamos orar a Deus, pois Ele sempre ouve a quem ora no clima de arrependimento sincero.

O pastor e a infeliz alma ajoelharam-se e ele proferiu sentida oração, e quem viu antes aquela senhora e a observasse agora, não acreditaria em tal transformação: os cabelos se acomodaram como por encanto, as feições tomaram um ar de serenidade agradável e ela acompanhou, palavra por palavra, a prece do seu neto do coração. O antigo obsessor implacável que acompanhava aquela mulher, reunindo outros companheiros na mesma faixa, os quais igualmente sofreram com seu orgulho e com o seu mando em épocas passadas, tornou-se manso como um cordeiro; a luz do amor tocara o seu coração.

A doente encarnada recebeu do nosso grupo vários passes reconfortantes e se sentiu aliviada da carga que lhe estava sendo retirada. Sentou-se entristecida em um canto do salão e percebemos que seu raciocínio voltava. O pranto era o sinal da melhora.

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A avó de Vinte e Sete, ao ser desligada da enferma e começar a mudar a sua mente em relação aos pensamentos antes alimentados, entrou em profundo sono e logo foi transportada, para uma dependência adjacente à instituição, para depois ser levada à casa de repouso mais conveniente.

Vinte e Sete, já em seu estado natural como pastor, recebeu ali mesmo pelos irmãos que dispunham de tais recursos, transfusão de energias, porque estavam abaladas as suas forças emocionais. Lembrou-se de Jesus, quando Ele asseverou: Aquele que perseverar até o fim, será salvo e pensou:

"Eu vou perseverar até o fim pois, neste trabalho encontro alegria de servir, em nome d'Aquele que é tudo para mim".

A sua querida avó foi entregue aos cuidados de Espíritos altamente adestrados no trato com almas desequilibradas e estávamos todos cheios de alegria com ricas anotações de experiência novas.

O nosso Vinte e Sete, nas dependências espirituais da casa de caridade, ajoelhou-se com todo o respeito ao lado da cama bem cuidada da sua avó, em estado de sono, pegou as duas mãos encarquilhadas e beijou-as demoradamente, dizendo:

- Deus te abençoe, mamãe. Que Jesus seja o teu guia de agora em diante e que a senhora nunca mais saia do rebanho de luz e de paz!

Acompanhamos Vinte e Sete até a sua residência. As estrelas pareciam sumir no esplendor do sol. Ele, ao entrar em sua casa, já dentro do quarto e em plena consciência do seu estado, olhou para todos nós sem palavras; apenas chorava de gratidão e acordou buscando o relógio, achando que dormiu demais. Sentado no leito, começou a rememorar os acontecimentos como se assistisse a um filme.

Saiu cantarolando para o banho, um hino da igreja, em explosão de alegria que só o céu poderia dar ao seu sensível coração.

Enquanto volitávamos lentamente rumo a uma colônia próxima, Miramez comentou com alegria e segurança:

- Graças a Deus conseguimos apartar esses dois Espíritos ligados por sintonia de ódios centenários. Esse caso é um dos mais terríveis que conhecemos. Como sofre quem desconhece o valor e a grandeza dos ensinamentos de Jesus, quando nos diz que devemos, não somente perdoar aos que nos ofendem e caluniam mas, ainda, orar por eles! Eis aí a chave da libertação para todos nós.

No entanto, o perdão alcança áreas inconcebíveis para o homem comum, e é o que não deve passar despercebido pelo cristão. Perdoar é uma das feições do Amor, e das mais ligadas à evolução. Na verdade, podemos dizer que o perdão, na sua profundidade, se confunde com o amor. Não vamos nos aprofundar no caso desses irmãos, por nos faltar tempo, mas, quem sabe, em outra oportunidade falaremos disso? O tempo urge e precisamos trabalhar na seara de Jesus, o nosso Guia, nosso Caminho.

Miramez parou por um instante, meditativo, e disse com um tom de felicidade:

- Vamos todos, em uma só voz, agradecer a Deus, olhando para as estrelas.

E todos nós, com as mãos para o infinito, repetimos em coro:

- Obrigado, Pai!

A caravana, olhada de longe, parecia um carro de luz, cheio de experiências colhidas nas trevas.

 

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