Iniciação - Viagem Astral
Fernando
Fernando nasceu em Salvador, Bahia, no ano de 1850, data em que o mundo espiritual superior estava preparando aquele Espírito, já encarnado, que viria a ser o Codificador do Espiritismo, para a sua grande missão de restaurar os ensinos do Cristo no planeta.
Falanges de Espíritos superiores desceram à face do globo terrestre, com a sagrada tarefa de ajudar na difusão da Doutrina dos Espíritos, que trazia a bandeira radiante de Jesus Cristo, tendo nela gravada, com letras de luz, a sublime divisa: DEUS, CRISTO E CARIDADE.
O Espiritismo seria revelado objetivando a reformulação dos conceitos dos homens, fazendo conhecido o verdadeiro Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, o evangelho do Amor, suplantando o evangelho do interesse, por onde os homens estavam trilhando. Ele viria por Kardec, não para desfazer as coisas boas feitas pelos homens, mas para dar impulso às virtudes esquecidas, abrindo igualmente as portas por onde se poderia ver e sentir a existência dos Céus, mostrando que ninguém morre e confirmando com maior lucidez a teoria da reencarnação, de maneira a dar a todos a segurança na filosofia da continuação da vida.
Fernando nasceu nessa época de luz e não deixou de aproveitar algumas réstias da claridade gloriosa, que de tempos em tempos bafeja os homens com um convite, em nome da esperança e da felicidade. Era um apaixonado pelas letras, Pela comunicação entre as criaturas e acordou bem cedo, como que por força do passado, entrando nas dimensões das análises. Lia muito, principalmente a respeito dos grandes filósofos e pensadores, além dos grandes nomes das letras. Ficava, por vezes, imerso em meditações, buscando algo que ele mesmo não sabia o que era.
Quando terminou os estudos elementares no Brasil, partiu para a França terra de sua paixão. Tinha loucura para ingressar naquelas grandes escolas, de onde saíam luzeiros imortais das letras e das ciências. Conheceu na Cidade-Luz o grande historiador Júlio Michelet, com quem trocou idéias e falou do Brasil com muito entusiasmo, cativando o então já velho escritor, que fascinava a todos pelo estilo e dialética. Foi a Roma conhecer as obras do gênio escultor e pintor Miguel Ângelo, cuja inspiração lhe fez compreender que existe alguém ajudando o homem em determinados feitos. Conheceu, igualmente, o grande poeta francês Vitor Hugo. Fernando sorvia em suas obras o néctar do saber e o descortino de um grande literato. Já se sentia francês, pelo que estava recebendo dos mestres da escrita e da palavra. Tinha muitos amigos e pouco se envolvia com as coisas vãs, cuidando de se ilustrar, de enriquecer o seu mundo interno com as belezas do saber, com a ciência da vida.
Quando de posse de uma vasta cultura, voltou ele ao Brasil e encontrou os seus pais arruinados. Uma nuvem negra de infortúnios havia baixado sobre sua família, contudo, ele chegou na hora, prestando assistência a todos, na ordem das suas forças e capacidade.
Mortos os seus genitores, seus parentes se apossaram dos bens imóveis, alegando que eles ajudaram os seus pais a adquiri-los e que ele, Fernando, nada fizera para colaborar. Fernando nada disse, nem quis usar de seus direitos. A filosofia que lhe ocupara o cérebro era bem superior aos mesquinhos bens terrenos. Assim, partiu para a França novamente, sem exigências. Sentiu uma grande felicidade em Paris, em 1905, com a separação da Igreja do Estado, fato que ele sempre esperou ver consumado, por
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pensar que a Igreja constituía um entrave ao progresso político e que as consciências deveriam ser livres. O Estado era subordinado a uma religião que mudava, por vezes, os destinos, a fim de atender aos seus interesses.
Em 1914, durante a Primeira Grande Guerra, Fernando, que até então tivera uma vida tranqüila, foi atacado em sua residência por dois assaltantes. Recebeu forte pancada no crânio e um golpe de sabre na garganta, que lhe destruiu as cordas vocais. Fernando não morreu, caindo, porém, em estado calamitoso, tanto físico quanto financeiro.
Anos antes, um casal de gregos havia chegado a Paris sem recursos financeiros e choravam na via pública, por fome e falta de teto, quando foram vistos por Fernando que, apesar de tomar conhecimento do seu problema, seguiu diante. Já em casa, após ter meditado por alguns instantes.
Fernando pegou um livro ao acaso e encontrou esta frase, que logo lhe atraiu a atenção: 1 Gnothiseauton*
Sentiu, então, que não conhecia a si mesmo, por sua frieza diante do drama enfrentado pelos recém-chegados. Resoluto, chamou um serviçal, ordenando fosse ele levar certa importância em dinheiro aos gregos. Dali a alguns dias, estava o casal instalado em uma casinha humilde, mas bem posta, nas cercanias de Paris, onde podia morar dignamente, recebendo uma mesada de Fernando, até que reorganizasse a sua vida.
Foi nesse rancho humilde que Fernando, inválido e abandonado pela sociedade, onde era antes bem-amado e cortejado, achou pousada, recebendo o carinho e os cuidados do casal a quem ajudara e que o tomou como hóspede permanente. Todos os dias ele ouvia a leitura dos escritos dos apóstolos de Jesus, em idioma grego.
Incapacitado de se expressar, por terem sido prejudicadas as suas faculdades. Fernando só conseguia chorar emocionado, diante dos consoladores ensinamentos do Meigo Nazareno.
Dezesseis anos mais tarde, aos oitenta anos, livrou-se do fardo físico, voltando ao mundo espiritual, onde trabalha na sementeira de Luz, sem perguntar onde ou quando, sem pensar em receber algo em troca.
Semeia por amor, esse amor que liberta.
Sentiu, então, que não conhecia a si mesmo, por sua frieza diante do drama enfrentado
pelos recém-chegados.
1 Conheça-te a ti mesmo
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