Iniciação - Viagem Astral
Aprendizado
Lembrando o capítulo anterior, é bom que nós mesmos procuremos a explicação do que tange a Espíritos que assistem os vários aspectos da natureza, como sejam: o ar, as águas, a flora, a fauna, as montanhas etc. Para tanto pedimos ao nosso abalizado companheiro Miramez para nos falar com mais segurança, em vista da sua grande experiência em todos esses departamentos da natureza, onde a Terra se manifesta como uma universidade.
Demonstrando esse interesse diante de nosso benfeitor espiritual, ele nos acudiu prestativo e passou a discorrer sobre o assunto que muito nos interessa, assim dizendo:
- Antes de falar no assunto, sem dúvida de alta importância e que muito nos agrada, é justo que busquemos na grande obra basilar de Allan Kardec, "O Livro dos Espíritos", algo em que possamos nos alicerçar e que permita maior compreensão dos leitores, em sua maior parte, espíritas.
Na pergunta 560 daquela obra, pergunta-se aos Espíritos:
Tem atribuições especiais cada Espírito?
Responde o emissário da Vida Maior:
-Todos temos que habitar em toda parte e adquirir o conhecimento de todas as coisas, presidindo sucessivamente o que se efetua em todos os Pontos do Universo.
Mas, como diz o Eclesiastes, há tempo para tudo. Assim, tal Espírito cumpre hoje, neste mundo, o seu destino, tal outro cumprirá, ou já cumpriu o seu em época diversa, na terra, na água, no ar ...
Assim, temos respondida a questão em pauta, pelo livro que tanto respeitamos; no entanto, poderemos questionar mais um pouco, porque o ser humano, principalmente os estudiosos, que são poucos, gostam de maiores detalhes para melhor assimilação dos valores.
Partindo da premissa de que Deus é o Supremo Criador de todas as coisas Ele, como Inteligência Maior, nos fez a todos para que pudéssemos ajudar, ou co-ajudar, na expansão infinita de tudo que existe. E se algum leitor perguntar-nos porque Ele nos criou, não poderemos responder, por caber apenas a Ele próprio essa explicação.
Criar as coisas é atributo apenas do Pai e essa receita Ele não deu a ninguém, pelo menos é o que nós sabemos no plano em que habitamos por misericórdia d'Ele. Toda criação de Deus, até a mínima partícula de matéria, é velada com todo amor e carinho, em todas as direções, mesmo nos lugares em que o raciocínio não pode alcançar. Jesus Cristo é o diretor da Terra e com Ele trabalham legiões infindáveis de Espíritos, até aqueles que se encontram inconscientes do estado em que vivem. Daí, podemos deduzir os fenômenos que se processam em todos os departamentos da natureza. Eis porque empenhamos todos os nossos esforços para fazer as criaturas crerem na sobrevivência da alma depois do túmulo, porque nada se perde na Criação. Desde a massa do neutrino, aos grandes acúmulos dos mundos, tudo faz parte da imensa sinfonia sob o camartelo divino.
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O homem do mundo físico precisa acordar para as realidades espirituais. A hora está aí, e é por ela ter chegado que estamos trabalhando sem interrupção, usando todos os nossos recursos para que eles abram os olhos de todos à luz da Verdade.
Todavia, é bom não esquecer que, em todo empenho digno de ser visto como obra útil na formação de valores espirituais, o alicerce é o Amor.
Os mares são divididos, assim como a terra e o ar, as plantas e os animais, e em cada divisão há um plano de assistência infalível por ser de ordem divina. Nos oceanos, desde o protozoário à baleia, não falta a proteção dos Espíritos encarregados nesse labor de Deus.
As montanhas, campinas, lavouras, cerrados, matas, horticultura, floricultura, pecuária, tudo recebe as bênçãos de Deus, através dos Espíritos adestrados neste ramo de operação.
O ar e o fogo têm suas falanges que os orientam; as chuvas, até mesmo as tempestades, os tufões e os furacões, que aparentemente são destruidores, limpam a natureza carregada de magnetismo inferior plasmado na atmosfera pelo próprio homem, que descuidou da higiene mental.
A natureza quando está em fúria, no dizer de muitos, principalmente no tocante a terremotos, está respondendo ao homem que a irrita com a química mental distonante, a imprudência, o ódio, a prepotência, as guerras fratricidas e o egoísmo desmedido.
Os trovões e os relâmpagos são desintegradores dos miasmas que se acumulam como nuvens na atmosfera terrestre, que têm sua filiação profunda nos sentimentos inferiores dos homens, principalmente no abuso do sexo, gerado por uma filosofia de deturpação de tão elevado atributo.
Queremos que todos saibam que os Espíritos assistem em todos os lugares, muito mais do que se pensa, mas nunca fazem o que o homem tem que fazer por si mesmo. A cada um de nós, encarnado ou desencarnado, foi reservado um dever, e só a nós compete realizá-lo para o nosso benefício e para a felicidade de todos.
E que Deus nos abençoe a todos!
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Entendemos que, dito isto, de agora em diante o leitor compreenderá melhor todos os lances do nosso trabalho, por já conhecer como se ergue a estrutura da vida universal, como tudo vive na vida do Criador e com a certeza de que nada passa despercebido por Ele.
Do vírus ao homem e desse ao anjo, na escrita de Deus nada fica esquecido. Neste simples livro, nós queremos mostrar aos leitores que vale a pena ser bom, ter pensamentos retos e, todos os dias, dar aquele acerto na conduta, porque será nesse esforço diário que chegaremos aos altiplanos da Vida Maior. Nós sentimos grande alegria quando um Espírito, quer seja encarnado ou desencarnado, começa a se libertar da escravidão dos instintos grosseiros e as suas mãos alcançam o florescer da Verdade.
Neste capítulo, intitulado Aprendizado, iremos todos aprender com aqueles que vêm ao nosso encontro buscando conhecimentos.
Este grupo de trabalho não está forçando ninguém; foi tudo combinado antes com os candidatos às viagens astrais. Não estão sendo narrados aqui os entendimentos processados, por faltar espaço e por não ser dos ensinamentos mais urgentes. Procuramos aproveitar melhor o tempo e o espaço, para o bem de todos.
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No capítulo anterior, ficou parecendo que o único aprendiz era Vinte Nove, mas não foi assim. Acompanhavam-no dezenas deles e todos foram atendidos com a maior boa vontade. Foram ministrados os mais elevados conceitos sobre a conduta do homem, mostrando-se o que deve ser feito para que surja a harmonia espiritual e física, da mente e do corpo.
Ao passarmos a outros capítulos, de vez em quando focalizaremos outros companheiros em serviço, em permanente teoria ao pé do trabalho.
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Estávamos já reunidos, nesta hora, em linda praia do litoral brasileiro, onde o mar se agita como mãos em súplica ao Criador; as espumas brancas nas ondas, parecem o véu usado pelas noivas ou pelas mulheres em alguns templos, em busca da prece. Tanto a lua como as estrelas, fazem um ambiente de saudade para aquele que usa esta hora para meditação e que sente, por vezes, aquela saudade sem saber ao certo de quem ou de quê.
Se existisse um relógio neste momento à beira-mar, certamente estaria com seus ponteiros juntos para o alto, como duas mãos postas em oração, porque é nessa hora que iniciamos os nossos trabalhos.
Miramez cerrou os olhos, e compreendemos que o momento era de silêncio, e todos cercamos o nosso companheiro de labor.
E ele falou com tranqüilidade, conversando com o Pai:
"Senhor de bondade e de carinho!
Permita-nos reunir em Teu nome aqui e agora, nesta linda paisagem marítima, onde as ondas, antes de nós, Te falam na linguagem das águas, no cântico que lhes é próprio, da gratidão que queremos expressar.
Novamente estamos de saída para o trabalho que nos ofereces por misericórdia. Como somos, ainda, tardos de entendimento, Te pedimos para nos ajudar a compreender, na profundidade que os casos necessitarem, como resolvê-los na paciência e na energia que o equilíbrio nos mostram.
Somos muitos, mas queremos ser mais ainda, na assistência de amor.
Somos muitos, mas queremos ser mais, na assimilação dos nossos deveres, ante o Teu olhar magnânimo e justiceiro.
Somos muitos, mas queremos ser, ainda, muitos mais no desempenho grandioso que a caridade nos oferta a todos.
Estamos diante desse gigante de águas, onde os ventos brincam as ondas, sussurrando-lhes segredos que escapam aos nossos ouvidos. Pedimos que, em Teu nome, os luminares das águas possam nos ajudar nos trabalhos onde o amor nos inspira e a benevolência nos assiste. Escuta-nos, Senhor, porque não podemos fazer nada sem o Teu apoio, sem o Tua intervenção no nosso modo de ser!
Ajuda-nos a decidir corretamente o que tem que ser feito, sem ultrapassar as leis da evolução e as provas educativas das criaturas e dos povos.
Abençoa-nos, agora e sempre".
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Quando abrimos os olhos, sob a luz dos astros que nos clareavam, percebemos que estávamos sendo festejados por inúmeras entidades dos vários reinos da natureza, onde a beleza era o porto seguro da harmonia.
Cambiantes de luzes nos chamaram a atenção: olhamos para o mar e, como que deslizando sobre o festejar das águas, notávamos um grupo de entidades espirituais aproximando-se de nós, numa harmonia que a todos nós encantava.
Um dos Espíritos, que parecia ter as vestes em forma de ondas e cuja claridade o destacava, avançou em direção do nosso grupo e foi recebido por Miramez. Entenderam-se por alguns minutos, sem que pudéssemos perceber o que falavam, porém, notamos o bem-estar que se irradiava do nosso instrutor espiritual.
- O tempo urge, disse Miramez. Vamos!
Partimos para Salvador, grande metrópole deste país abençoado. O nosso grupo já contava com cento e tantos companheiros, todos atentos naquilo que iriam observar. Era, na verdade, um aprendizado diferente, por estar a prática junto à teoria.
Baixamos em um bairro da cidade. Poucos carros deslizavam nas ruas. Alguns transeuntes mal humorados buscavam seus lares e outros, não tinham condições sequer de andar nas calçadas. Aproximamo-nos de um deles, por sinal, o mais sofredor, e sentimos imediatamente o odor dos bebedores
e o cheiro de fumo, denunciando logo que ele era mastigador da erva que escraviza milhões de pessoas em todo o mundo.
Notamos mais de perto que três entidades o seguiam na mesma onda vibratória, sendo que uma delas nos parecia ser sua mais ferrenha inimiga. Demonstrando conhecer o poder do pensamento, em rápida concentração assumiu posição de mago negro, buscando com as mãos algo no ar, que nos parecia uma pasta visguenta e avermelhada, e chegou-a ao nariz da vítima, que a absorveu com facilidade.
Eu quis gritar para espantar o terrível obsessor de junto daquele homem; no entanto, o nosso guia espiritual não permitiu, dizendo:
- O que acabas de constatar é um problema sério de sintonia. Poderemos é certo, livrar o obsediado desse irmão infeliz, cego e surdo ao convite do Bem todavia, vamos perder muito tempo e valores espirituais que poderiam ser aplicados em lugares de maior proveito. Ele ficaria livre hoje, agora, mas amanhã estaria de novo buscando as mesmas companhias. O melhor remédio para ele atualmente, é a dor, os problemas e, talvez, a desencarnação. Cada criatura tem as lições que merece.
A infeliz criatura cambaleou, pisando aqui e ali; ora descia do meio-fio, ora subia, já perfeitamente sem rumo.
O Espírito malfeitor enfiou as duas mãos criminosas pelas costas da sua vítima, como se estivessem quase materializadas, ao lado do coração. Pegou com segurança esse músculo engenhoso do corpo humano e o apertou com força; o irmão embriagado deu um grito de dor, levando a mão ao peito e tombou ao chão. Lamentavelmente, sua cabeça atingiu o meio-fio, fraturando-se. A entidade malfazeja saltou de lado, junto das outras entidades da sua estirpe e deu sonoras gargalhadas. Podíamos notar, de onde estávamos, que da sua boca pingavam gotas de plasma sangüíneo em sua essência, sorvido nos momentos de agonia daquele sofredor.
Miramez adiantou-se e nos esclareceu:
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- Meus companheiros, verdadeiramente assistimos a esse tipo de espetáculo todos os dias, em várias faixas da vida, sem podermos amparar os sofredores como nos pede o coração. O fato que presenciamos é produto da ignorância. São almas que resvalaram na consciência e não aceitam, ainda, a voz do Mestre.
Este irmão que sucumbe fisicamente neste instante, deve ter algum mérito na pauta das vidas passadas, em seus programas de reencarnação. Vejamos quem o assiste agora.
Os vampiros espirituais já tinham se retirado e, ao lado do rapaz, via-se uma senhora manifestando muito carinho, porém, tendo dificuldades em ampará-lo, pela emoção que tomava o seu ser, imantado de amor maternal.
Aproximamo-nos, a um gesto de Miramez, do cadáver, reunindo-nos em torno dele. Miramez fez algumas evoluções com as mãos em torno do recém-desencarnado e enfiou, podemos dizer assim, dois dos seus treinados dedos na cabeça do mesmo. Ouvimos algo estalar, deslocando pontos sensíveis da alma ligada ao corpo. Miramez retirou com toda amabilidade o fardo espiritual do físico, colocando-o nos braços da sua genitora, que já havia tomado outra posição mais realista, referente às emoções. Ela parecia estar orando; lágrimas escorriam em suas faces, mas sem a perturbação comum aos Espíritos desequilibrados.
Quis beijar as mãos do nosso companheiro, entretanto, foi ele quem fez tal gesto, dizendo:
- O trabalho foi teu, querida irmã. Todo o serviço que realizamos foi graças ao clima do teu amor. Leva-o e cuida dele.
Como já estávamos acostumados a viagens astrais, logo notamos que não foi cortado o cordão fluídico do irmão assistido. Novamente Miramez nos esclareceu com presteza:
-Ainda não pode ser desfeito o cordão de luz, atado desde a volta do Espírito ao corpo. Ele está sem condições para receber um choque desta natureza, que no Espírito mais elevado é coisa natural. E acrescentou:
- Para tudo existe o momento certo, que o próprio tempo nos mostrará. Queremos frisar com bastante clareza que os irmãos encarnados que nos acompanhavam em aprendizado, não estavam em desdobramento consciente; é como uma espécie de sonho, com maior lucidez, entretanto.
Partimos para onde o dever nos chamava. Começamos a adentrar em uma velha casa de saúde, onde tudo denunciava harmonia, onde tudo nos parecia paz.
Como a obra de Deus é grandiosa! Poucos minutos antes, estávamos em uma praia, onde multidão de Espíritos trabalhava em várias ocupações, comandados por um só sentimento. Ao chegar a esta casa de saúde, o clima era o mesmo. Entidades entravam e saíam pela força da caridade e todos os enfermos recebiam assistência compatível com as suas necessidades.
Logo estávamos entrando em um apartamento, onde um médico se recolhera para curto descanso. Vestindo um pijama, procurou a janela, diante da qual fez algumas inspirações profundas. Passou os olhos pelo céu faiscante de estrelas e desejou, no fundo do coração, poder passear pelos astros.
Recolheu-se em oração, como de costume, e nada leu, dominado pelo cansaço de esticadas horas de trabalho árduo naquela casa de Deus. Nesse ínterim, Abílio já havia iniciado a operacão-limpeza, purificando o ar ambiente e fazendo circular novas energias naquele pequeno campo de repouso. Fernando aproximou-se, enquanto o clínico se acomodava no leito, entrando em completo relax, sentindo
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um grande bem-estar e uma tranqüilidade consciencial nunca antes percebida por ele, imaginando de onde poderia estar vindo tão reconfortante sensação.
Naquele ambiente de paz, entrou Fernando, telepaticamente, em conversação com o irmão que passaremos a chamar de Cento e Vinte.
- Querido irmão, diz Fernando. Aqui estamos contigo neste ambiente saudável que construíste pelo dever cumprido diante dos afazeres nesta casa onde em primeiro lugar, pensas na recuperação dos enfermos colocados sob a tua assistência. Isto muito nos comove e nos dá força para novos trabalhos de recuperação dos espíritos revoltados e dos sofredores que aparentemente se encontram desamparados em muitos quinhões da natureza, com duras provas e resgates pesados, por força da lei de causa e efeito.
Viemos convidar-te a um trabalho fora do corpo. Se quiseres descansar na paz de Jesus, vem conosco a outro tipo de tarefa, para que tuas energias sejam renovadas pelo amor. Abandona temporariamente o teu fardo material, para que ele descanse mais descontraído e venha olhar as estrelas, como tanto gostas, porém, com os olhos da alma, que elas ficarão mais visíveis.
Cento e Vinte escutava aquela voz mansa e harmoniosa, nos meandros da consciência e, de vez em quando, sorria, demonstrando a certeza de que alguém do mundo invisível estava lhe falando.
Abriu as portas para a ação magnética do nosso companheiro em serviço e Fernando tornou a falar com tranqüilidade:
-Cento e Vinte, faze a tua parte. Vem, em nome de Jesus, para o nosso reino, o reino do Espírito, juntar-te a nós para que possamos ser unos no labor caritativo, que passa a ser também um aprendizado valioso para o teu coração.
Miramez aproximou-se sutilmente da cama e, estando nós todos em meditação, estendeu suas mãos em direção aos pés de Cento e Vinte, pegou-os, puxando para cima, separando-os dos pés do duplo; puxou-os devagarinho, deu alguns arrancos trêmulos e tornou a puxar. Cento e Vinte começou a sentir as pernas adormecidas. Levou as mãos até elas, temendo estar sofrendo algum mal súbito; quis se levantar para procurar algum colega, no entanto recebeu novamente um jato de fluidos entorpecentes com palavras de ânimo e logo se acalmou, quase dormindo.
Miramez. com meio sorriso nos lábios, falou baixinho para todos nós, que estávamos ansiosos por sua fala sábia:
- Existe uma coisa terrível nos caminhos do aprendiz, que torna necessário o combate urgente: é o medo. Ele constitui uma barreira que nos faz gastar muitas energias para asserenar os ânimos, contudo, há certos companheiros que necessitam de um pouco de temor, para que a coragem em demasia não entorpeça a razão nem adormeça os sentimentos.
Guardamos suas palavras no recesso da nossa mente para usá-la na hora precisa.
O corpo espiritual do Cento e Vinte já se encontrava flutuando sobre o físico, somente faltando desligar a cabeça. Nosso irmão já dormia e, com a carga magnética lançada por Fernando ressonava profundamente.
Miramez, graças à sua vasta experiência nesse assunto, notou que o irmão em preparo para a saída consciente do fardo físico tinha muita sensibilidade na região do córtex cerebral. Retirou as mãos da difícil operação craniana, balançou-as para os lados e notamos uma mudança na sua fisionomia, parecendo buscar alguma coisa fora do nosso ambiente de trabalho. Estendeu os braços em certa direção e
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recebeu algo no ar, das mãos de alguém que não percebemos quem fosse. Em suas mãos avolumou-se um material de um róseo lindo, que logo escureceu um pouco, mesmo com a pálida claridade do ambiente. Miramez aplicou tal material em torno do córtex do candidato e notamos o afloramento de todo o fluxo mental do Cento e Vinte. Tornou-se, então, bem visível, a sua cabeça perispiritual, desligando-se de sua irmã material.
Falou brandamente o nosso companheiro maior:
- Vejamos o quanto é bom ter amizade. Precisamos de alguns fluidos que são mantidos no seio dos oceanos, por não suportarem a atmosfera poluída pelo magnetismo inferior da crosta, nem resistirem à luz intensa dos raios solares, assim como à luz elétrica muito forte. O trabalho foi intenso para fazer chegar até nós o bastante para que o nosso irmão em questão recebesse a sua ação calmante e saísse sem sofrimento da casa física.
Cento e Vinte flutuava acima do corpo, sem ter consciência do seu estado; era como se estivesse repousando.
Miramez nos pediu atenção; não éramos poucos os que estávamos naquele apartamento, e levou a destra com habilidade à pineal e à pituitária, que estavam apagadas. Com o toque espiritual, elas se acenderam como duas chamas vivas, formando um círculo luminoso em torno da cabeça do Cento e Vinte corpo. Depois disso, Miramez nos mostrou, como se fosse em uma tela, os dois geradores endócrinos muitas vezes aumentados, com todos os departamentos secretores de hormônios, qual se assistíssemos a um filme de ficção científica. Estavam elas em alta vibração e vida nova tomava o cordão de prata do candidato. Uma luz diferente corria naquele cabo divino até o cérebro do duplo de Cento e Vinte em desdobramento.
Ele abriu os olhos entre admirado e aturdido. Olhava para os lados, via tudo que lhe pertencia; viu a cama e seu corpo físico. Ao ver o seu veículo material, seu instinto de conservação quase o levou novamente para a morada passageira, não fosse a pronta ação de Fernando, que o segurou com amabilidade falando-lhe com carinho, embora sem ser visto pelo clínico:
- Meu irmão, controla as emoções. Não sabes que além do corpo físico existe outro que o domina? E depois outro e mais outro, que vão se sucedendo e que escapam às nossas fracas análises? Controla-te. O medo que ainda demonstras é desfavorável a essa espécie de treinamento espiritual. Tu estás bem adiantado na teoria, por guardar no cofre dos conhecimentos grande tesouro da sabedoria espiritual, no entanto, estás muito falho na prática, Ainda precisas de muito adestramento, e se as nossas mãos não conseguirem treiná-lo, somente uma instrutora de alta linhagem que conhecemos poderá realizar isso em ti. Parou um pouco, depois continuou, algo triste:
- É a dor.
Cento e Vinte tranqüilizou-se um pouco, ouvindo aquela voz tão agradável e se dispôs a orar, inspirado pelo ambiente de grande dignidade. Quando terminou, sentiu de novo uma paz enorme no coração e começou a ver, com alguma nitidez, o quarto cheio de companheiros do nosso plano. Buscou instintivamente os braços do nosso Galeno e desatou em pranto comovedor. Aquelas mãos tão acostumadas a doar carinho, que servem a fraternidade legítima, deslizou em seus crespos cabelos, acalmando-o, auxiliadas por pequenas frases, formuladas pelo coração.
Estando nós todos guardando silêncio, falou com bondade:
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- Filhos do coração! Quanto eu sou grato a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo por estar aqui junto de vós! É altamente gratificante estar cercado por esse grupo de irmãos que não medem esforços para servir em quaisquer circunstâncias. Vejo e sinto o esforço descomunal de vários Espíritos, ordenados por Deus para servir na natureza, que ainda têm tempo para nos ajudar, sem contudo quererem ser vistos. Ser-nos-á difícil qualificar essas almas de Deus, na sua profunda humildade!
Quanto a todos que aqui estão, nós queremos dizer com toda a emoção que podemos sentir no trabalho do Cristo, que aproveitem a oportunidade do despertar espiritual, dada pela Vida Maior. Sois os candidatos às viagens astrais conscientes em um futuro próximo. Sabeis o que é isso, em termos de evolução? É grandioso, quando a consciência não perde os caminhos traçados por Jesus, nosso Mestre e Senhor.
Procurai assimilar bem as lições que os fatos oferecem, porque essas são as melhores. Nunca vos esqueçais da harmonia, principalmente a mental.
Parou por instantes, como que buscando algo de novo para nos falar, e disse com proveito:
- A ciência do mundo está às portas das verdades espirituais. Parece-nos que bate nelas com ansiedade e os céus irão abri-las. A demora, por enquanto, é no sentido de que os homens tomem novas posições, no tocante à aplicação das forças a descobrir.
A força mental no super-homem do futuro será muito maior que as recentes bombas inventadas e armazenadas pelas nações, mas, somente será dado aos homens descobri-la e usá-la, quando o amor puder dirigi-las, para o bem da humanidade.
Jesus nos espera pacientemente, como diretor do progresso coletivo, e acima de toda a ciência da qual é conhecedor, tem outra força maior em Seu magnânimo coração, que é a força poderosa do Amor.
Galeno silenciou e seus olhos estavam marejados de lágrimas, ao se lembrar das duas bombas lançadas em duas cidades japonesas e que destruíram milhares de lares, interrompendo milhares de vidas humanas.
Finalizando, com a voz quase imperceptível, falou com emoção:
- Mas Deus sabe o que faz, na hora que Lhe convém.
Depois de tudo preparado pela misericórdia de Deus, Miramez fez-se à frente de todos nós, levando-nos, pela força mental que lhe é própria, a uma arrojada volitação. Em regular movimentação, admirávamos o encanto da cidade, faiscando de luzes como um ninho de Deus em favor das criaturas e pensávamos em quantas provas se processavam naquela lavoura humana; quantos resgates, quantas dores, quantos ajustamentos para motivar nas almas o interesse pela reconciliação, pelo amor, pela caridade e para o conhecimento! ...
Diante de todos os fatos de que chegamos a saber ou dos quais participamos diretamente, concluímos que a dor é a maior realidade, nessa faixa humana em que todos nós passamos. Somente ela dá condições para que despertemos e acudamos ao chamado de Jesus Cristo. Fora da dor, no estágio em que se encontra a humanidade, não há solução para os problemas que nós mesmos criamos nos caminhos.
Descemos em uma residência bem distante da metrópole, onde percebíamos uma certa tristeza. Víamos e sentíamos isso nas plantas, no ar, por todo o ambiente. Ali moravam vinte e duas pessoas, e das crianças aos velhos, a lepra denunciava o porquê do caráter depressivo e o ânimo reduzido nas conversações entre elas.
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Víamos a alegria na feição dos companheiros, e principalmente, do nosso instrutor, que penetrava na residência como sendo hábito comum.
Os aprendizes inconscientes, em processo do sono natural, mantinham-se a postos junto de Celes e Kahena, os únicos que conseguiam ver e conversar, por manterem intencionalmente um certo grau de densidade no perispírito. Os outros estavam, para eles, invisíveis. Alguns dos candidatos mais sensíveis, desconfiavam de que alguém os acompanhara. Cento e Vinte, que antes já tinha constatado a presença de toda a equipe responsável pelos trabalhos, perdia alguns de vista aqui e ali, em virtude de uma constante mudança de vibrações. Ele, como clínico acostumado com doenças de todos os tipos, deveria se sentir descontraído no seio daquela família sofredora, no entanto, tinha horror à doença de Hansen. Sentia com pavor o mau cheiro que desprendia dos enfermos, o qual o fazia recuar olhava para as suas próprias mãos bem tratadas e pensava na enfermidade que poderia tomar de assalto o seu corpo e destruir a sua vida e sua profissão.
Subitamente, encontrou-se a sós no grande casarão. Baixando em muito o seu padrão vibratório, não conseguia mais perceber os companheiros que lhe davam a oportunidade, em nome de Deus, para que ele compreendesse a verdade espiritual e desse início ao aprendizado com o Cristo.
Perdeu a consciência do trabalho que estávamos realizando e logo não estava mais em viagem astral consciente. Voltou à normalidade do sono, todavia, em pior estado do que aqueles outros que ali se encontravam, assimilando os ensinamentos mais vivos que a oportunidade poderia oferecer. Esquecendo-se de todos os compromissos, o medo tomou conta do seu ser e dominava todas as outras emoções; hipnotizou a si mesmo e obedecia somente ao pensamento fixo de horror à lepra.
Foram feitos alguns esforços para reequilibrá-lo, mas tudo em vão.
Miramez adiantou-se serenamente e falou com bondade:
- Oremos por ele, em silêncio. Esta é a sua primeira viagem e esperamos que em outra oportunidade ele venha mais consciente do seu dever. Isso, meus irmãos, é a força do passado, que vem à mente como realidade. Para esgotar essa energia inferior coagulada na subconsciência, são necessários recursos variados, quais sejam a leitura sadia, caridade permanente, perdão constante, reforma íntima e persistência no bem até o fim.
Se o querido irmão não se empenhar em realizar essa linha de conduta, que para muitos se torna um prazer, sem dúvida alguma receberá a visita da velha professora, a dor.
Cento e Vinte fechou-se pela força do egoísmo e do medo e se foi afastando de costas, desejando fortemente ir embora. Um dos nossos companheiros o acompanhou prestativo, assistindo-o em sua volta ao corpo, onde o médico acordou no corpo suado, tremendo e com o coração aos saltos. Levantou-se da cama tirando o paletó do pijama e pareceu ver na sua pele alguns pontos coloridos, algo esquisitos. Gritou por socorro, tremendamente assustado. Um médico e amigo, estava de plantão, veio em sua ajuda, encontrando-o de feição transtornada, mas tranqüilizou-o, ao se inteirar do que se passava, dizendo:
- Foi um sonho, e deu boas gargalhadas.
Cento e Vinte nunca tivera um sonho dessa maneira, tão nítido, tão real. Estava desassossegado, mas o companheiro, com poucas palavras o acalmou, dizendo:
- Toma um calmante, parceiro, e vai descansar. Tiveste um pesadelo. Algum dos enfermos impressionou tua mente. Continua a dormir e isso passará.
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Cento e Vinte consertou o corpo, espreguiçou várias vezes e, lembrando-se vagamente do casarão, dos leprosos, daquelas chagas, recomeçou a sentir-se mal. Disse então ao colega:
- Eu vou contigo, participar do teu trabalho pelo resto da noite. Não quero mais dormir.
Vestiu-se apressadamente e saiu conversando com seu companheiro sobre assuntos da profissão, procurando esquecer o ocorrido. Mantinha a impressão de que não era sonho, mas realidade, e de vez em quando olhava para os braços, sentindo leve coceira.
Voltando à nossa tarefa, após a assistência a todos os moradores daquela triste residência, verificamos que alguns irmãos que não conseguiam dormir, já demonstravam em seus rostos sofridos os primeiros sinais do sono reparador.
A um olhar de Miramez, Galeno passou a orar:
"Deus, Suprema Inteligência, que nos fez a todos e a todas as coisas que existem! Nós Te agradecemos do fundo do coração por esses meios, que qualificamos de recursos naturais e que tanto nos ajudam a servir, que nunca nos faltam no momento em que precisamos.
Senhor! Sabemos da Tua paternidade absoluta e do Teu amor sem limites, bastando que entremos pelas portas que a Tua sabedoria nos abre por misericórdia. É o que Te pedimos neste momento de trabalho: que nos ajudes a compreender melhor os nossos deveres e a Tua vontade, nos caminhos que, por vezes, haveremos de percorrer.
Pedimos-Te nesta hora, Senhor, para estes nossos irmãos em decadência física, por esta família que tanto sofre com o derrame cármico na esponja da carne. Pedimos-Te, em nome de Jesus, o alívio para estes sofredores, o ânimo a estes corações, no sentido de que eles tenham mais Paz e um pouco mais de esperança.
Ser-nos-á de grande proveito, se a Tua bondade nos permitir, voltar a esta casa outras vezes para compartilharmos deste drama, não sofrendo com eles em falsos sentimentos, porém, incentivando-os para a paciência para a tolerância, para a esperança. Que a alegria não seja esquecida nestes corações em provas e que a Tua paz seja com todos nós".
Naquele momento, já eles se acomodavam nas camas e muitos já ressonavam tranqüilamente. Chuva de fluidos espalhavam-se por toda a casa. O ambiente estava agradável e foram aplicados passes magnéticos em todos eles e algumas curtas conversações, pelo processo de telepatia, condicionando idéias nas suas consciências, para que, quando despertassem, as sementes de vida, de alegria e de paz começassem a germinar.
Partimos alegres, sob o clarão das estrelas e as bênçãos do infinito.
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