Iniciação - Viagem Astral
Estendendo Luzes
Estamos em regime de urgência, no que tange às coisas espirituais. Nós somos legiões de Espíritos trabalhando na grande vinha do Senhor, estendendo luzes em todos os rumos por onde a escuridão se faz sentir. Não somos almas perfeitas; estamos longe da perfeição, mas, não longe da boa vontade.
Armamos um esquema para perseverar até o fim, estudando todos os problemas, usando todos os meios lícitos para realizarmos o progresso que nos compete. Já somos conscientes dos obstáculos, da cruz e do calvário que deveremos enfrentar, e isso nos dá um grande ânimo, para que possamos vencer todas as dificuldades, sem a carência da fé. Lutar é disposição de todas as criaturas, porém, lutar com discernimento é característica daquele que está vencendo a si mesmo.
Nós não estamos querendo convencer ninguém, não estamos usando de violência nas áreas de fé de criatura alguma, não exigimos mudanças de conceitos dos que vivem e pensam diferente do nosso modo de ser, porque respeitamos as consciências no ponto mais sublime que escolheram para viver, pela lei de afinidade. Estamos escrevendo, a pedido de muitos companheiros que vivem na Terra e buscam conhecer outros mundos, procurando entender outras faixas de vida. A esses ofertamos as nossas experiências, como sendo patrimônio comum, pertencente a todas as criaturas. A vida é uma incessante troca de valores materiais e espirituais; assim como recebemos dos nossos maiores, ao chegarmos aqui, sentimo-nos no dever de doar, igualmente, alguma coisa aos que estudam, na Terra, a vida além do túmulo.
A morte é um fenômeno normal da vida dos homens. Mesmo que estes não se acostumem com ela, ela existe, e deve ser considerada, como sendo uma colecionadora de talentos. O Espírito é um viajor eterno, que cada vez sobe mais como na decantada fábula bíblica, a escada de Jacó. Subir é a ordem que Deus deixou nas mãos do homem, diante da vida e do progresso.
O que queremos é que os homens não fiquem distantes de nós, Espíritos desencarnados, e que aquele tradicional medo de fantasmas acabe, juntamente com a ignorância. Somos os mesmos homens; a diferença é que perdemos a capa, mas ainda nos resta a túnica, como corpo espiritual que nos obedece, qual animal domesticado. Com a perda da roupagem, não se perderam as qualidades, ao contrário, ficamos mais conscientes dos nossos deveres e mais sensíveis às belezas imortais de que somos herdeiros, por parte do nosso Pai Celestial. Negar as leis de Deus não pode ser procedimento do homem inteligente, cujo raciocínio completa os sentimentos.
De que adiantaria se se reunissem todos os astrônomos do mundo e eles negassem a existência do sol que aquece a Terra todos os dias, e está visível a todos os seres? De nada valeria. Nada alteramos da verdade, quando negamos essa verdade. Fechar os olhos para não ver a luz é ser partícipe das trevas. Nós não vivemos de argumentos, mas argumentamos ponderadamente para viver. Melhor do que as palavras, são os nossos exemplos e a nossa conduta.
Jesus está tendo muito mais valor, para os homens, agora, do que quando estava andando no mundo, curando e pregando a Boa Nova do Reino de Deus.
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Quando a vaidade nos toca, impelindo-nos para estarmos sempre presentes nos acontecimentos que podem nos "elevar" em relação aos outros, demonstramos exatamente o contrário. O impulso de superioridade que nos leva a mostrar aos nossos irmãos o que realmente não somos, pode nos tolher as faculdades em que estamos empenhados em conquistar. Tu não precisas falar de ti mesmo, mas é bom que não te esqueças da seguinte verdade: a tartaruga também anda, mas a gazela chega primeiro.
O despertar dos dons espirituais é uma ordem divina, no entanto, se não for feita a parte que nos toca, o andar nosso em busca da luz, será igual ao da tartaruga.
Este capítulo nos incentiva a estendermos luzes em todos os rumos, e essa luz existe com fartura nos celeiros de Deus, sob a vigilância de Jesus Cristo, que nos convoca em todos os momentos para trabalharmos sob a Sua proteção. O Evangelho já é conhecido por quase todas as pessoas, espalhadas por toda a Terra, e é repetido e divulgado por variados meios que o progresso emprestou.
Somente falta uma etapa, a mais importante, que é a vivência. Quem consegue viver os preceitos do nosso Mestre está livre porque conheceu a verdade.
Começa hoje, meu filho, a estender luzes. Sabes como? Cortando as arestas que ainda existem na tua personalidade. Não é preciso que alguém aponte os teus defeitos. Tu mesmo poderás descobri-los, se existir vontade para tal empreendimento interior.
Quando entramos aqui, nesta Colônia de trabalho, é esta a primeira proposta que recebemos: examinarmo-nos a nós mesmos e vermos o que podemos fazer em nosso próprio benefício.
Quando aconselhares alguém a perdoar, faze-o com maior profundidade a ti mesmo; quando aconselhares o amor e a concórdia, a paz e o trabalho, sabendo que o mais beneficiado és tu próprio, aí, então, estarás preparado para ouvir o que falamos, porque é para essa gama de Espíritos que escrevemos, irmãos que acordam com um só toque da verdade, e buscam a sua felicidade, sabendo que esta se encontra bem pertinho dos seus corações.
*
Estávamos no grande salão de música, ouvindo a harmonia dos sons no nosso plano, quando nos veio à mente o que os humanos poderiam, ao ler este livro, desejar saber: é a respeito do porquê trabalhamos geralmente à noite e sobre a nossa vida na Colônia. Vai aqui o esclarecimento: preferimos trabalhar à noite, respeitando sobremodo o direito dos homens de descansar, porque ela nos oferece um ambiente mais calmo; a agitação dos homens asserena-se ao clarão das estrelas. Também os raios do sol, diretamente, dificultam o processamento dos fluidos doados pela natureza.
Os Espíritos inferiores descem à Terra com freqüência à noite, aparecendo no cenário das suas confabulações, e assim poderemos impedi-los em muitas investidas que idealizam para perturbar.
Durante o dia temos outros deveres, tais como: planejar trabalhos, escrever, examinar fichários, visitar doentes recolhidos na Colônia, estudar, servir de cicerone para outros companheiros que vêm nos visitar, de outros sítios de Deus. São inúmeros os nossos deveres e, quanto a descansar, também temos os nossos direitos, e desfrutamos dessa bênção, embora não tanto quanto os homens. A nossa alimentação é fluídica, devido à faixa de vida mais sutil que levamos. O exercício de respiração completa nos dá uma idéia de como poderemos, aqui, complementar a nossa alimentação, tendo como base as essências.
Quanto mais puro é o Espírito, mais essa pureza atinge todos os seus afazeres e o progresso não deixa de aperfeiçoar a sua alimentação. Há almas que se alimentam, por assim dizer, somente de amor,
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que, quando desabrocha com mais intensidade no coração, automaticamente se afina com o hálito do Criador fortificando a quem ama com esse fluido imponderável.
Nós outros estamos no caminho, nessa conquista universal que a caridade nos faculta. E os homens têm todos os meios nas mãos, por misericórdia divina, para que possam começar hoje mesmo a exercitar os seus dons. Eles são sendas por onde se pode entender e ganhar a libertação ou, pelo menos, dar o primeiro passo nos caminhos da esperança.
O tempo não pára. Sutilmente o progresso avança e com ele os Espíritos caminham. É bom que analisemos como era a alimentação dos homens há um século mais ou menos, e poderemos observar as diferenças exigidas pelo tempo. E no amanhã? Essas diferenças vão continuar na Terra, como também em nosso plano. Nada estaciona, tudo avança. O organismo de carne vai obedecendo, nas sucessivas reencarnações, a essa mesma lei, e vai se adaptando de acordo com as exigências evolutivas. Os Espíritos encarregados desta melhora nunca se esquecem deste empuxo que se processa através dos tempos: da ameba ao homem, da mônada ao anjo. A lei atinge a tudo e a todos. Deus não é deus de inércia; Ele existe aos nossos olhos, pelo cinetismo universal.
Ainda no salão de música, notamos que os companheiros, quanto mais trabalho recebiam, mais ânimo se expressava nas suas feições. O corpo espiritual de cada um ficava mais jovem, vibrátil e mais leve. A facilidade de locomoção era enorme, embora nem sempre usassem de certas faculdades conquistadas por direito.
Tive a curiosidade de observar em um nosso companheiro, onde se partira o seu cordão de prata quando de sua desencarnação. Falei com ele a respeito e o irmão em Cristo sorriu, dizendo afetuoso:
- Lancellin, estás parecendo criança! Quer saber tudo! Será que estás na época dos porquês?
E acentuou com bom humor:
- Podes observar o tanto que quiseres, desde quando não me impeças a leitura que estou fazendo!
Era o nosso irmão Fernando, apaixonado por livros e que não perdia uma só oportunidade de consultar os grandes mestres. Meditei uns instantes, pedindo a Deus uma visão ampliada e busquei o centro genético de Fernando. Naquele meu olhar minucioso, fui transportado para a época do seu renascimento na Terra; assisti à junção do espermatozóide com o óvulo, como sendo, para mim um deslumbramento da natureza. Não descreverei o que todos já sabem.
Fernando-Espírito, ao lado do leito, com apenas parte da consciência submetia-se à difícil operação de um mensageiro de Deus, ao lado de mais dois companheiros espirituais.
O Espírito que estava orientando os trabalhos deu alguns passes suavemente na cabeça espiritual do candidato a renascer, como que puxando alguma coisa de seu cérebro espiritual, e pude notar, das raias dos centros de força, surgirem filamentos tenuíssimos, que avançavam como se fossem microondas e se uniam, por junção magnética do operador, em um cordão, cujas pontas se espalhavam como fios finíssimos, atendendo à mente poderosa do benfeitor espiritual.
No momento da fecundação, aqueles filamentos se dividiam como se fossem dedos abarcando o bastonete e o óvulo, obedientes a um comando mental, e essas duas partes distintas do homem e da mulher, se fundiam em uma simbiose espetacular, onde notávamos as cores em evidência de um azul encantador e um vermelho que ostentava a beleza do complexo humano e divino.
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Em rápida seqüência, pude contemplar o crescimento do corpo, e esses filamentos se estendendo por todas as células que surgiam, aderindo-se nelas, por força de atração, até que pude notar o homem já maduro, onde fios se estendiam em todas as direções do seu corpo. Pude, igualmente, observar a desencarnação; os laços tênues foram se desligando sob comando espiritual e voltaram à sua moradia, o perispírito encolhendo e espraiando-se como riscos de luzes, na integração de todos os centros de força nele encravados.
Pude observar mais coisas, mas a emoção não me permitiu registrá-las, devido ao estado de desajuste mental de minha parte. Quando abri os olhos, voltando a mim, estava ajoelhado, chorando de felicidade.
Saímos do salão em direção a uma plataforma central, onde muitos Espíritos esperavam, e nós também, o veículo que nos transportaria a todos. E ele foi logo chegando suavemente: tinha a aparência de um charuto voador, e nós que o esperávamos, não notamos bem sua presença, porque ele se confundia com o próprio ambiente. Uma grande porta de lado se abriu, e por ela desceram vários Espíritos. Atrás, em outra divisão, havia uma espécie de ambulância, com todas as suas características.
Entramos e nos assentamos em confortáveis poltronas. Não existia iluminação: a própria matéria de que era revestido o seu interior é que clareava com precisão o ambiente interno do aparelho. Dos lados, havia dispositivos de aumento da claridade individual, caso fosse necessário. A música também era individual; algumas explicações de alguém que orientava e logo dominávamos o nosso assento. Fiquei ao lado do Padre Galeno que, já familiarizado com o aparelho pôde me dar certas indicações.
Ansioso dentro da nave espacial, interroguei o sacerdote, nestes termos:
- Padre, sei que o soldado, quando sai para a frente de lutas, não sabe para onde vai; somente quem o comanda, não é? Para onde vamos, que não podemos saber?
Padre Galeno, satisfeito como sempre, respondeu-me com atenção:
-Lancellin, tu te esqueceste do nosso programa de trabalho, que fizemos durante vinte noites de iniciação? Esta é a penúltima do nosso roteiro. Se fizeres um esforço mental, lembrarás para onde vamos.
Busquei no bolso um folheto de apontamentos e pude observar a verdade, mas não fiquei satisfeito, acentuando:
- Queria mais detalhes, pode ser?
Padre Galeno, contente com a minha disposição, começou a descrever as diretrizes:
- Lancellin, vamos para uma região pesada, onde a força, a vaidade e o orgulho comandam. O egoísmo, lá, é como que a virtude em nosso meio. Lá ainda existe a escravidão, e os mais fracos são espezinhados e submetidos a duras provas; É um verdadeiro umbral que desconhece o progresso e a liberdade existente em outras cidades espirituais comandadas pela luz.
Sentia calafrios durante a narração do Padre Galeno, mas, ao mesmo tempo tinha curiosidade, por conhecer tal lugar. Pensei: "Deve ser o inferno de que fala o catolicismo, e os Espíritos que dominam esse lugar certamente são os demônios". Padre Galeno, percebendo minhas idéias, complementou com delicadeza:
- É mais ou menos isso, Lancellin ... É mais ou menos isso!
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Olhei para os companheiros e os outros grupos que estavam viajando naquele veículo, verificando que muitos passageiros estavam como que dormindo, e pensei se deveria fazer o mesmo. Olhando para o sacerdote, ele amavelmente respondeu-me:
- Não, meu filho, eles não estão dormindo; estão trabalhando em outras modalidades de serviço e aprendendo. Uns estão recordando regras de trabalho, outros orando, em profunda meditação. Alguns aproveitam o tempo para o exercício do desdobramento, ou redesdobramento espiritual, e ainda outros estão lendo lições imortais no éter cósmico, o que é uma arte engenhosa e de muita utilidade.
Fiquei encantado com os recursos do Espírito. Nesse momento, acionaram uma campainha dentro do aparelho e todos despertaram. Em uma parte saliente do mesmo, estava de pé, tranqüilamente, o nosso guia espiritual, Miramez, que nos desejou muita paz e bom proveito nos trabalhos que estávamos empenhados em realizar. Todos se mostravam atentos para ouvir o nosso benfeitor, e ele assim se expressou:
- Caros companheiros, em primeiro lugar vamos pedir a Deus que nos abençoe a todos, e que Jesus nos guie pelos caminhos onde os nossos deveres nos impulsionem a concretizar o bem.
Não precisamos nos impressionar com o lugar no qual iremos trabalhar, pois tudo isso pertence à Casa de Deus. Ele está em toda parte a nos mostrar o que tem para ser feito para a compreensão dos que ali se encontram. De certa forma, a luz é filha das trevas; é de lá de dentro que explodem as claridades mais sublimes. É do chão que nascem as árvores e as flores dão a sua presença como ósculo de Deus, para as criaturas. Os dejetos nos esgotos correm para os rios, e lá adiante tornam-se em adubos na química da natureza, o que faz florescer os mais substanciosos frutos, pela irrigação das águas.
Nada se perde em lugar algum da criação de Deus. Cada coisa tem seus objetivos e seus valores. Essa região que vamos visitar e, por vezes, trabalhar na fecundação da fraternidade, ajuda a despertar as almas endurecidas que esqueceram o amor e têm alergia pelo bem da coletividade. Elas ainda ignoram o valor da cooperação de uns para com os outros, somente conhecendo os caminhos do amor-próprio, dirigido pelo egoísmo. Vêem na vingança um direito, como sendo justiça.
Os dirigentes conhecem as virtudes, mas tem-nas como fraquezas do Espírito. Nunca falam da esperança e, sim, de lutas, de guerras e conquistas. A nossa operação é valiosa, quando respeitamos os direitos deles e usamos dos nossos deveres sob a regência de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Estamos conversando aqui, com irmãos que já escolheram as sementes e estão saindo a semear sem imposição, sem revolta e sem interesse algum, a não ser o amor, aquele que não exige.
Miramez silenciou por instantes, para que pudéssemos assimilar o alimento espiritual, e pude observar o interesse de todos da caravana. Ele continuou:
- Todos nós iremos ficar invisíveis diante deles, e até mesmo a nossa nave, que irá se confundir com o ambiente em que eles moram.
Se modificarmos as nossas vibrações, se nos ligarmos, por pouco que seja, às suas atitudes, ou nos revoltarmos com seus gestos, qualquer reação inferior que sentirmos por injustiça da parte deles, em relação aos outros que estão presos, sob o seu jugo, entraremos imediatamente na faixa em que vivem e nos confundiremos com eles, por lei de sintonia. Aí as conseqüências serão imprevisíveis.
Podemos fazer muito pelos que sofrem nessas sombras, onde os seus atos os levaram a viver, desde quando tenhamos equilíbrio das nossas emoções espirituais.
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Não somos os únicos nessas viagens de aprendizado e todos nós devemos nos conscientizar do bem que desejamos fazer e da luz que se faz necessária que assimilemos. Cada um de nós se responsabiliza pelos seus próprios atos e responde pelo que é, onde quer que seja. Ninguém ilude ninguém pelo que é, por isso é que devemos pensar nestes termos: Eu sou o que sou.
Todo o medo que surgir nas nossas lides com os nossos irmãos desse umbral, tisnará as nossas vibrações e retardará o movimento inter-atômico dos nossos corpos, e aí ficaremos mais materializados e, portanto, visíveis a eles, ao passo que, se acendermos no coração a fé, se a confiança em Deus iluminar os nossos corações, poderemos trabalhar em qualquer lugar, como os raios do sol, a chuva e os ventos, sem alteração e com a mesma serenidade, servindo com o mesmo caráter de benevolência.
Já entramos na região das sombras; os nossos aparelhos de sensibilidade eletromagnética acusam que a nave está encontrando dificuldades de avanço, em face do peso das criações mentais dos que vivem nesta casa de sombras. Se quiserdes observar isso, será de utilidade, para que tenhais uma idéia verdadeira sobre onde vamos trabalhar.
Ele acionou um dispositivo ao alto e uma grande tela, como se fosse em cinema, retratou o ambiente exterior, que estava sendo televisionado por aparelhos de alta precisão, encaixados na própria nave, a captar imagens, enviando-as para a tela no interior.
Pensei que eu estava livre das fobias ... Meu Deus! ... Ao presenciar na tela aqueles antros, como as cavernas onde a fumaça negra era a tônica do ambiente, com um salpicadinho de chuvas, que deveria ser fria, senti que era irrespirável aquele ar e que o magnetismo deveria ser dos piores.
Bandos de aves esquisitas passavam sem que nos vissem, emitindo sons horríveis, enquanto homens mal encarados, com roupa à guisa de farda, e armados, patrulhavam as cavernas.
O pior que a tela nos mostrava eram as entidades trabalhando nessas zonas, sem a menor piedade dos vigilantes. Chicotes estalavam no ar, como que pedindo disciplina, silêncio e mais trabalho.
Dava para se notar em uma praça mal iluminada, um edifício de proporções descomunais, com guardas nas principais entradas, e um pátio enorme, onde se postava a direção do lugar, como se fossem forças armadas. A água que corria ali em encanamentos primitivos, sem que ficasse resguardada, era de cor parda e meio grossa, onde proliferavam vírus magnéticos de muito baixo teor. A alimentação era jogada aos famintos, de maneira estúpida, em panelas de barro (era o que nos parecia), e a comida era coletiva; comiam com as mãos, que não conheciam o asseio. As fisionomias eram cadavéricas, sempre em alta tensão, demonstrando ansiedade.
Preparados emocionalmente, não mudamos o nosso comportamento diante da degradante situação. Fui também alertado para não descrever o que não poderia ser lido e sentido pelos homens. Nem tudo podemos falar. As imagens negativas transformam-se em forças que desgastam os nervos humanos e impressionam as mentes, condicionando-as ao medo ou à revolta, por desconhecerem os homens, os meios de modular as emoções em campos neutros. A criatividade, não tendo disciplina, estraga o coração.
Fomos avisados de que tínhamos chegado ao lugar de pouso costumeiro. Despressurizou-se o ambiente e a grande porta abriu-se automaticamente, Senti uma vertigem e quase perdi os sentidos, não fosse a ajuda dos nossos irmãos. Mesmo sabendo o que iria respirar quando descesse da nave, senti que entrava em mim a pior coisa que existia no mundo. Invadiu-me uma depressão que eu nunca conhecera, nem por informações. Mesmo passando mal, a minha mente buscou o porquê daquele lugar, indagando
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como podem seres espirituais viver naquele ambiente e ainda trabalhar em regime de opressão. Como se acostumar àquele lugar desprezível, sendo que há no espaço de Deus, tantos outros lugares agradáveis?
Lembrei-me da nossa Colônia e tive saudades dela, como de um céu, e agradeci a Deus por estar morando num ambiente de luz e bem-aventuranças, em relação àquelas sombras.
Fui devagarinho livrando-me da opressão, mas não do mal-estar, que perturbava a minha harmonia interna. Não pude suportar as interrogações e perguntei com humildade, ao nosso guia:
- Eu queria, se possível fosse, saber como esses Espíritos podem viver aqui, e ainda mais, trabalhando nesse regime de força. Eles não poderiam se mudar para outras plagas mais favoráveis? Os próprios chefes seriam beneficiados, viveriam melhor e mais felizes, não?
Miramez, solícito, respondeu com tranqüilidade:
- Lancellin, cada Espírito vive no próprio ambiente que escolheu para viver por indução dos sentimentos. As aves não vivem voando em grandes alturas? Os peixes nas profundidades dos rios e dos mares? Os animais nas selvas? As minhocas no seio da terra? Os búfalos nos pântanos e os porcos não procuram com prazer o ambiente de lama, e comem com gulodice os dejetos dos homens? ... Os Espíritos se adaptam àquilo que são, por natureza. Quem sabe, nós mesmos já não passamos por essas zonas de tormentos, para despertarmos a luz que existe hoje dentro de todos, por misericórdia de Deus?
A vida é verdadeiramente uma escada, que deveremos subir sem reclamar. É chegando aqui que sentimos no coração o quanto Jesus nos ama, por ter descido dos altiplanos da Vida Maior, para vir até nós e nos ajudar a conhecer a verdade. Ele veio trazer a luz ao seio das trevas. O nosso meio, em relação ao ambiente de luz do Cristo, é bem pior do que este, se o compararmos ao nosso.
Visualiza, Lancellin, e respira o ar da Colônia em que habitamos, que ele virá ao teu encontro, por linhas que tu desconheces, por enquanto. A mente educada é um manancial de conforto e de felicidade Os que aí moram merecem o nosso respeito e o nosso carinho, Temos de ajudá-los para que eles saiam o mais depressa possível deste ambiente de trevas, na seqüência que o progresso exige e que vão percebendo a luz. Ninguém está aqui por querer. Todos almejam, no imo d'alma, o melhor. A ignorância é que tolhe os sentimentos e embrutece a razão.
Miramez pensou por instantes, em que o silêncio era conselheiro, e falou paternalmente:
- Meus filhos, vamos unicamente nos preocupar em servir com discernimento, para que a luz não se apague em nossos corações. O trabalho nesta zona de sofrimento deve ser feito qual no ambiente dos médicos já experimentados e acostumados a ouvir lamentos, revoltas e sofrimento alheio, sem se perturbarem nos seus serviços de bons clínicos. Contudo, o nosso procedimento vai mais além. Não vamos ser frios diante das necessidades dos nossos irmãos, mas não podemos sofrer com eles, ao ponto de entrarmos em suas baixas vibrações e ficarmos presos com eles, nas malhas do próprio carma que os prenderam, para que aprendessem o valor do bem. A nossa visita aqui é de urgência para aqueles que já escoaram suas dívidas com a lei, e tem por fim levá-los para os lugares que a sua gradação permitir.
Cada grupo tomou, naquelas zonas inferiores, rumos diferentes. O aparelho pousou numa praça, silenciosamente, e quando estávamos distante dele, olhei para trás para ver seu porte elegante, e quase que não o percebi - ele vibrava em faixa quase invisível para mim, quanto mais para o ambiente em que estávamos. Tive vontade de perguntar mais outras coisas, mas o tempo se esgotara e o trabalho nos solicitava a todos.
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Passamos em frente ao palácio do governador e ouvimos um barulho, como se fosse um aviso, e era: costumava o governador com seus asseclas visitar várias regiões da cidade, para manifestar suas opiniões sobre o andamento dos trabalhos. Vimos uma carruagem puxada por quatro cavalos pretos com listas vermelhas na cabeça precedendo uma comitiva de uma dezena de Espíritos, todos com vestimentas aparatosas. A carruagem seguia com alguns cavaleiros à frente e outros atrás, e os que passavam nas ruas faziam reverências.
Há muitos detalhes dessas cidades de regiões umbralinas que suprimimos, por força de necessidade, como já foi explicado, para o bem dos próprios leitores.
Partimos para as prisões nas cavernas, onde entramos em profundo silêncio. Muitos Espíritos ali estavam presos às paredes, por grampos aferrolhados nas mesmas. Uns gritavam, outros estavam desmaiados, alguns estavam chorando, parte permanecia em silêncio.
Abeiramo-nos de um rapaz de cor negra, com as vestes rotas, olhos inchados, corpo esquelético, boca entreaberta e respiração ofegante pelo cansaço. De vez em quando, lágrimas assomavam aos seus olhos, escorrendo pelas faces empalidecidas. O moço, sentindo perder todas as forças naquele antro de sofrimento, falou mais pelo pensamento, mesclado com uma fala sumida:
- Meu Deus, sei que o Senhor existe, porque o próprio sofrimento me fez descobrir Sua existência. Eu quero, se pode me ouvir, falar com o Senhor, onde quer que esteja! ...
Não temo hoje mais nada porque não tenho mais nada a perder. Já experimentei todos os tipos de opressão, conheço todos os sofrimentos, e o meu íntimo me induz a outro estado de vida, porém, se o Senhor achar que devo permanecer aqui, ficarei. Entretanto, confesso, não suportarei mais este ambiente em que vivo. Não sei se é o termo, porque aqui nem a expressão vegetar pode ser empregada. A situação é de somente definhar, mas mesmo assim confio em Sua ajuda, pois em meu coração não existe mais lugar para negar a Divindade. Sei que o Senhor permanece na glória do universo para sempre, e se Jesus Cristo pode ouvir igualmente um celerado como eu, que tenha piedade de mim . . . E perdeu os sentidos.
Contemplamos uma luz pálida, mas viva, partir do seu coração espiritual e subir até a cabeça, abrir-se em flor no topo do crânio, e se tornar mais brilhante, como se muitas mãos implorassem ao Criador as bênçãos da vida. E o mais importante do espetáculo foi a resposta da Luz, em favor daquela criatura de Deus.
Mesmo naquele ambiente, olhamos instintivamente para cima e a nossa visão não conheceu barreiras. Pudemos observar a amplitude do infinito, e do mais alto surgiu uma claridade a nos chamar a atenção. Aquela luz inteligente veio em nosso rumo e notamos que Miramez ajoelhou-se. Repetimos o seu gesto de humildade e a luz foi se aproximando com um explendor tal, que muito mal a podíamos encarar. Desceu à caverna suavemente, e pairou no centro da flor que se formara na cabeça daquele rapaz em estado deprimente.
E a luz visitou todas as pétalas daquela flor que nasceu em seu coração dando vida nova ao centro energético daquela vida, e se desfez como por encanto em todas as moléculas daquele ser em sofrimento. Era a resposta de Deus ao filho pródigo.
Kahena, Fernando e Abílio começaram a desprender o moço daquela parede úmida. Padre Galeno e Celes limpavam o ambiente, e Miramez, com as mãos na cabeça do infeliz, o fez abrir os olhos que já demonstravam alguma vida. Ele suspirou, dizendo baixinho:
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- Parece que Deus me ouviu, queira Deus que sim. Entrego-me a Jesus, aos Seus braços. Faça de mim, Senhor, segundo a Sua vontade . . . E tornou a perder os sentidos.
Retiramos o moço dali, com todos os cuidados que requeria, quando surgiu um guarda. Entramos em uma dependência, e ele não viu o preso. Nessa dependência, Miramez meditou em profundo silêncio que acompanhamos, e pediu em pensamento ao Senhor, recursos para a proteção daquele que estava nascendo para a vida espiritual.
Na mesma hora notamos um barulhinho, como que vibratório, e o nosso assistido foi coberto de um fluido meio luminoso, que foi apagando o doente. O preso das cavernas ficou também invisível aos guardas daquele antro das trevas.
Fernando, disposto e sorridente, agarrou o fardo espiritual, lançou-o aos ombros e disse:
- Vamos! ...
Nós o acompanhamos em silêncio e atingimos a nave que nos havia trazido. A porta se abriu e entramos, colocando o rapaz na parte reservada para esse trabalho. Tomamos todas as providências que o caso requeria, e descansamos na parte dianteira do aparelho, satisfeitos.
Miramez, renovado em ânimo, nos falou com sabedoria:
- Meus irmãos, vimos o quanto deve ser feito nestes ambientes de trevas. Esta cidade da escuridão, encravada nestas zonas inferiores, tem de ser visitada por criaturas de boa vontade, empenhadas em servir, sabendo ajudar, para que não venhamos a cair nas mesmas tentações, por ignorarmos os métodos de trabalho. A boa vontade apenas não nos dá garantia neste labor - é preciso conhecer também. Para que tenhamos uma idéia do trabalho a fazer em prol dos que sofrem, escutai bem: somente nesta cidade o recenseamento mostra um milhão de habitantes. É uma verdadeira cópia da Inquisição, talvez até a matriz, de onde surgiram as idéias para a sombra negra que se intrometeu na Igreja Católica Apostólica Romana; alguns dos dirigentes são os mesmos.
Miramez calou-se, pensando em algo que não pude perceber, e neste intervalo preparei perguntas, no sentido de receber esclarecimentos. Assim me expressei:
- Eu poderia saber, se pode uma cidade como esta ter sido fundada antes da descoberta deste país?
Miramez respondeu com facilidade:
- O aparecimento de uma cidade espiritual, seja das trevas ou da Luz, nada tem a ver com descobertas materiais. No entanto, esta é filial de uma cidade central que existe na Itália, desde as primeiras Cruzadas. Elas se estenderam para a Espanha, Portugal e Brasil, não se podendo esquecer que os cambiantes mais fortes foram para a França. Esta que estamos visitando foi denominada de "Cidade da Justiça", pelos antigos inquisidores. Os primeiros que ajudaram a formar este antro negro vieram da escola de Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, para combater a Reforma, aberta por Lutero.
Loyola queria conservar a unidade da Igreja Católica, mesmo que fosse preciso matar. Para ver seu ideal glorioso, não media sacrifícios nem respeitava direitos alheios. E assim como construiu prisões terríveis na Terra, para o sacrifício dos hereges, depois de desencarnado, construiu cidades fechadas, para manterem prisioneiros os mesmos hereges da sua faixa, imolando-os com todos os tipos de castigos,
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servindo-se deles como escravos para os seus mais baixos desejos. Quem dirigiu esta cidade infernal por muitos anos foi um rei da Espanha e seus terríveis sequazes da Inquisição.
Fiquei meio estonteado com a revelação e perguntei de novo:
- Mas, o que têm os animais com isso, se eles nada fizeram no movimento infernal? Esses cavalos que puxam as carruagens? . . .
Miramez, com ar de humor, dando a parecer que eu era criança, falou com discernimento:
- Lancellin, esses cavalos que vemos puxando carroças não são propriamente cavalos, no verdadeiro sentido da palavra; são Espíritos que tomaram essa forma, e que, intimamente, sentem prazer em serem cavalos, tendo em vista que seus instintos vibram no mesmo nível do animal!
Os antigos inquisidores eram também magos negros. Eles têm poderes de transformar essas almas em animais, desde quando elas cheguem a esse nível, pela prática dos instintos inferiores. Muitos deles estão inconscientes, outros pedem para serem transformados; é a petrificação da consciência ... E prosseguiu com ar meio de tristeza:
- Não existem aqui somente cavalos-homens, mas também homens-cavalos. As formas nesta cidade são variadas, de maneira que aqui existem lugares que não queiras visitar por enquanto, até que te prepares para tal empreendimento. Dante, nas suas visões infernais, não conseguiu retratar nem vinte por cento da realidade da cidade italiana que visitou!
Não podemos perder tempo, o serviço é urgente e Jesus nos chama para o trabalho de erguer almas que começam a despertar para Deus.
Enquanto conversávamos, foram chegando outros companheiros com fardos espirituais que depositavam no hospital volante, onde dois enfermeiros cuidavam dos doentes com o maior interesse. Para tanto, tinham muita prática, o que os tornava ágeis na arte de dar assistência espiritual.
Terminando, pressurizou-se o ambiente da nave, depois da porta fechada. Verificou-se a ordem, ligou-se um aparelho que sintonizava com a central de comunicação da Colônia, e partimos suavemente.
Quando nos assentamos nas poltronas confortáveis, fazia-se ouvir uma melodia chamada Salve o Cristo, Nosso Senhor. Descansamos no prazer de ouvir e sentir a harmonia dos sons. Ao término da música, Padre Galeno pediu licença e orou com emoção:
"Deus de grande sabedoria, de grande paz, de grande força! Não temos condições de pedir nada, porque já nos deste tudo, sem intervenção de pedidos. Pedir por que, se tudo é perfeito na ordem do universo? Seria desconfiar da Tua onisciência!
Não, não queremos pedir nada; queremos sim, agradecer pelo que recebemos de alegria e de assistência espiritual, pelo que nos foi mostrado do que deveria ser feito, na pauta dos nossos serviços. Nós vamos, em Teu nome e no de Jesus Cristo, desejar que os nossos irmãos dessa cidade que visitamos, despertem, Senhor, para o arrependimento, de forma a nos mostrar, como assistimos acontecer àquele rapaz nas cavernas negras, o fenômeno do coração arrependido, a resposta que deste, pelos fios do amor que visita toda a criação, pelo sistema da caridade divina.
Nós, Senhor, agradecemos pelo aprendizado, que cada vez é diferente e promissor, enriquecendo as nossas experiências e dilatando a nossa confiança em Ti e na vida, em nós e em nossos semelhantes que nos ajudam a trabalhar. Que as Tuas bênçãos nos iluminem, agora e sempre.
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Assim seja".
Chegamos à Colônia do Triunfo. A plataforma tinha um encaixe na sua base, porque o aparelho era bem mais leve que a atmosfera ambiente. Quando descemos, já estava tudo preparado, e os doentes foram conduzidos para os departamentos onde lhes eram preparadas acomodações.
Notei que depois de descermos da nave, uma turma de limpeza entrou em ação com aparelhos manuais, que pareciam projetar um fogo pelas suas aberturas e depois fazia o papel de aspirador de substâncias queimadas. Fui logo informado por Fernando de que a nave, quando vem das regiões inferiores, fica saturada de magnetismo negativo, e, antes que alguém a toque, deve ser limpa dessas substâncias, onde prolifera um vírus malfeitor.
Fiquei pensando: "Como pode, meu Deus! Tudo que se refere ao desequilíbrio dá trabalho e se mostra perigoso, e onde passa o amor existe beneficio e se irradia a paz! Como é bom conhecer esta verdade! . . ."
Padre Galeno foi chegando de mansinho e afirmou com convicção:
- Justamente, Lancellin. E neste sentido que trabalhamos constantemente, a semear o amor e a caridade, por serem sementes de Deus, e os seus frutos são deliciosos! O mal, meu filho, é sempre o mal, e quem o planta no seu clima de liberdade, é obrigado a colher seus reflexos, que serão desastrosos. Jesus foi e é um Sol de Deus, que desceu dos Céus à Terra, para iluminar os caminhos dos homens, mostrando a cada um o que deve fazer para a sua própria felicidade.
E terminou com alegria:
- Graças a Deus, já conhecemos essa verdade, e ela, graças a Jesus vai nos libertar.
Passamos uns instantes no salão da música. Trocamos idéias sobre os trabalhos e volitamos em direção à Terra, em busca de novos labores espirituais.
Desta vez reunimos primeiro os aprendizes encarnados, que formaram um grupo de quinze companheiros. Depois de todos estarem em estado de sonho, os levamos a um parque, onde se estendia uma grama disciplinada pelas máquinas. Assentamo-nos todos nela, a fim de ouvirmos o nosso guia espiritual. Miramez mostrou sua presença em uma saliência que a natureza fizera e falou:
- Meus filhos! ... Ouvi com bastante precisão, no entanto, a visão poderá vos faltar, talvez por um pouco, dada à dimensão diferente em que vivemos. Deveis então, apegar-vos à palavra do Divino Mestre, quando assevera:
Bem-aventurados os que não vêem e crêem.
Nós queremos falar aos vossos corações. Todos estão mais ou menos livres do fardo físico, por instantes, para que aprendam a se livrar dele definitivamente, quando o momento chegar.
Não é por acaso que estamos aqui reunidos; ele não existe. É por força das necessidades espirituais, é o bem que nos une, e o amor que nos leva à satisfação de nos juntarmos em serviços do Cristo.
Pedimo-vos que aproveiteis o tempo que passa, na auto-educação; pedimo-vos que entreis na escola da disciplina de vós mesmos, e não vos esqueçais de abraçar o dever, diante dos convites que
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chegam em todos os momentos aos vossos ouvidos, de amar, de servir e de perdoar. Se fechardes a audição à voz da caridade, ficareis cada vez mais carentes da luz de Deus dentro do coração.
Desenvolvei, meus irmãos, a humildade em todas as suas modalidades, porque sem essas portas abertas, o aprendizado não se realiza e nunca passamos da faixa da ignorância.
Vós estais alistados numa ordem de iniciação espiritual, a qual nos compete ajudar. O proveito do aluno marca para nós a sua gradação espiritual na escala da sua própria vida. Procurai todos assegurar vossas idéias em sentimentos de pureza espiritual, sem que o fanatismo ocupe lugar em vossos pensamentos. A verdade é, por assim dizer, liberta dos paralelos que desequilibram as emoções. Não vos afasteis do dever que empenhasses antes do ingresso no fardo de carne.
Alguns dos companheiros, em estado de sonho, se emocionaram por perceberem alguns dos nossos companheiros de trabalhos. A mente os levou a isso, com o interesse de servir e fazer o amor crescer em seus corações. Miramez continuou:
- A vida no corpo físico é passageira; é uma fração de segundo, em relação à vida na eternidade, em Espírito. Buscai entender isso e sereis felizes. O interesse maior dos maiores da espiritualidade é, pois, a modificação do homem amparado no Evangelho.
Mudança de comportamento é mudança de vibração. Devemos ascender à procura de algo mais elevado. Este, sabemos, constitui o anseio de todos os Espíritos, filhos de Deus.
Esperamos que todos os que nos ouvem tomem esta atitude, que o bom cristão sempre abraça e leva a sério. Que Jesus abençoe a todos.
Quase todos choravam diante do espetáculo espiritual. Aquela visão os encheu de felicidade: era para eles uma bênção de esperança, senão as portas se abrindo para a espiritualidade maior. Dali volitamos à procura de trabalho, pretendendo fazer o melhor.
Entramos em uma residência, cujo asseio e simplicidade nos agradava sobremodo. E um casal espiritual veio nos receber sorridente. Aquelas entidades nos abraçaram fraternalmente e beijaram as mãos do Padre Galeno e Miramez. Ficamos à vontade na ante-sala, conversando animadamente, e o casal informou a Miramez que tudo estava normal, em preparo para a viagem consciente do dono da casa, mas que a mulher não poderia participar naquela noite, por estar contrariada em demasia, por comezinhos motivos de nenhuma profundidade.
Celes, Fernando e Abílio já estavam verificando a casa e em seu derredor, fazendo a devida limpeza de ambiente para a harmonia da residência.
Kahena e Padre Galeno foram a uma grande chácara ao lado, em busca de alguma coisa que não percebemos.
Entramos para o quarto do casal, com autorização dos guias da casa. Eles estavam dormindo; ele mais tranqüilo que a mulher. Notávamos, de vez em quando, as esticadas que os nervos dão naqueles que ainda não aprenderam a controlar a fala diante de certas circunstâncias.
Fomos logo observar com presteza os cordões fluídicos do casal que dormia. O da senhora estava desarmonioso, saltando mais que os seus próprios nervos físicos; luminoso, mas com estrias escuras nos lados. Avançava para a direção do norte do país.
O do homem, totalmente luminoso e vibrante, apontava para o sul do Brasil. Os corpos estavam juntos, porém, os Espíritos separados por lei de afinidade espiritual. Compreendi logo a justiça se fazendo
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presente através das leis naturais. Notei o silêncio de Miramez e ele levou os olhos ao cordão de prata do homem, que vamos passar a chamar de Trinta e Dois. Este estremeceu um pouco e o nosso guia falou mentalmente, tomando o cordão de luz como microfone, nestes termos:
- Meu filho! Volta ao teu corpo para sairmos juntos nesta madrugada, em nome d'Aquele que é a vida.
Trinta e Dois acordou suavemente, percebeu o ambiente sereno, olhou para a companheira que dormia um sono agitado. Observou o relógio: quatro horas da madrugada. Elevou o pensamento a Deus e orou com fervor, acomodando-se de novo na cama.
Miramez falou com carinho aos seus sentimentos, pelos fios encadeados da telepatia:
- Dorme, meu irmão, dorme novamente e vem para o nosso meio consciente. Devemos trabalhar com Jesus onde Ele nos chamar a servir. Vem! Vem!...
Nisto, o corpo astral de Trinta e Dois se foi afrouxando e começando a dar sinal de saída. Seu duplo pairou acima do corpo físico, como se fosse um raio de luz que entra e sai da água, ou como se tira uma roupa, deixando-a pendurada num cabide. Com a ajuda do guia espiritual, ele foi subindo e ganhando a posição vertical, no meio do quarto. Procurava alguém que não via, dizendo:
- Pareceu-me ouvir alguém chamar!... Ouvi mesmo, me chamaram. Reparou a sua consorte dormindo e pensou: "Coitada, ela hoje está nervosa... De uns tempos para cá, ela tem mudado muito o seu jeito de ser nesta casa. Pode ser o trabalho ou mesmo a idade. Que Deus a abençoe".
Dirigiu-se a uma velha escrivaninha, assentando-se em uma cadeira, no lugar em que sempre o fazia, quando em corpo físico. Pôs as mãos no rosto, como freqüentemente costumava fazer e pediu a Deus pelas suas necessidades, mais ou menos assim:
“Meu bom Deus! Permite, Senhor, que eu não desconheça a verdade. Que ela possa manifestar-se para mim, como sendo a Tua presença, da forma que achares conveniente.
Jesus, entrego-me a Ti, esperando a Tua vontade, e não a minha, porque sabes mais do que eu, o de que mais preciso na vida.
Maria Santíssima, Mãe de Jesus, tem piedade de nós, principalmente de minha esposa, dando a ela o conforto necessário, para que compreenda os melhores caminhos a seguir. Não nos deixes cair em tentações. Amém ".
Os sentimentos de Trinta e Dois atingiram o inesperado: ele se foi iluminando e aquele conforto espiritual avançou para o corpo da esposa, dando-lhe um ambiente de maior serenidade. Quando a luz ia alcançando o seu corpo, ele o percebeu e mentalmente a contraiu, despejando a luz sob seu comando novamente em sua companheira, com a feição de quem doa por amor.
Algumas lágrimas escaparam de meus olhos, ao sentir tanta renúncia de uma alma para outra, e inquietei-me por saber algo daquele senhor.
Miramez, que estava ao meu lado, me disse com simplicidade:
- Lancellin, este nosso irmão está na carne, por amor a essa criatura que O acompanha como esposa. Ela lhe pediu de joelhos e chorando, para acompanhá-la na reencarnação, para não se perder novamente em infrações que poderiam levá-la à bancarrota. E ele renunciou ao plano de paz, de trabalho e de luz onde estava, e desceu às tribulações da carne com ela. Mas, em muitos pontos da vida, a sua
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companheira se esquece das promessas e continua no ciúme desregrado, no ódio e vingança contra quem a fere.
Em muitos casos, é preferível que a alma se sinta órfã, sem nenhum amparo visível, porque tendo os sofrimentos multiplicados, o Espírito usa os seus próprios recursos de defesa.
Trinta e Dois levantou a cabeça e nos viu a todos. Fez menção de ajoelhar-se; no entanto, os companheiros não o permitiram, e o abraçaram fraternalmente, com os olhos umedecidos de lágrimas. . .
Trinta e Dois, serenamente, disse para nós:
- Eu sinto muita alegria em receber-vos aqui. Isso para mim constitui bênção de Deus, mas não posso somente receber. O que posso fazer em vossa companhia?
Padre Galeno adiantou-se e falou com bondade:
- Podes fazer muito, meu filho. Viemos te buscar para isso: para trabalharmos juntos, e junto a Jesus.
Kahena, que havia chegado com Padre Galeno, trouxe alguns fluidos que foram aplicados na companheira de Trinta e Dois, após o que ela começou a respirar melhor, ficando mais tranqüila e o sono passou de simples para profundo.
Entrelaçamos as mãos e volitamos, vendo e sentindo a amplidão do infinito de Deus. Procurei analisar o cordão fluídico de Trinta e Dois, a policromia era encantadora, o azul se confundia com o celeste, e o amarelo nos fazia perceber a harmonia mental que a sabedoria fez nascer. Pude escutar os sons emanados do seu cordão de prata, que poderia dizer, de ouro, e escutei como que uma música que era ouvida por ele mesmo e que os seus sentimentos escolheram. Ele tinha completo domínio sobre seus pensamentos e refletia com a grandeza de um mestre em trabalho, mesmo tolhido pelos liames da carne.
Fiquei admirado, procurando entender. E Miramez não se fez de rogado; alinhou-se comigo, segredando aos meus ouvidos:
- Lancellin, isso não é de assustar. Na Terra estão muitos desses, reencarnados. Eles, por vezes, não precisam de mais experiências no planeta, contudo, necessitam de outros conhecimentos para se completarem na unidade do bem mais puro. Mas, voltando à carne, ganham muito em outros rumos, amadurecendo mais para a assimilação em outros campos de saber, de que são carentes; ainda é a mesma lei que diz que nada se perde, tudo se transforma em luz! Transforma-se mesmo em luz...
Chegamos a uma casa, onde a família era sobremodo numerosa. O pai estava em estado desesperador; sofria fortemente das coronárias, que se encontravam interrompidas pelo excesso de gordura, em forma de colesterol. Ele sofria dores agudas no peito, e em certos momentos, achava que não suportaria. Tinha sempre comprimidos à mão, para serem colocados debaixo da língua e confiava neles porque melhoravam o seu estado, contudo, sentia a morte abeirando-se da sua residência.
Os filhos eram oito, e cada um trazia mais dificuldades para o lar. A mãe tinha as pernas inchadas, em razão de dificuldades renais, o que não deixava de alterar o ritmo do coração. Aquele reduto familiar se encontrava em pânico.
Três Espíritos de mediana elevação compunham parte da família, por laços de um passado distante. Eles, quando nos viram, alegraram-se, manifestando muito contentamento. Entramos no lar e sentimos a atmosfera espiritual carregada. Todos dormiam, uns até embriagados, sendo que um deles, além de traficante de tóxicos, também o usava em largas proporções.
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Celes, Fernando e Abílio entraram logo em trabalho, dos mais difíceis. Agruparam-se espiritualmente junto àquela família, meia dúzia de entidades viciadas em variadas modalidades de entorpecentes, e que tinham como médiuns alguns dos familiares com as mesmas intenções.
Miramez, a pedido dos Espíritos da casa, examinou a senhora, cuidadosamente. Kahena conversou um pouco com o nosso guia espiritual e saiu com Padre Galeno, a fim de providenciar medicamentos na farmácia da natureza.
Miramez verificou o precário estado do aparelho circulatório da irmã e as dificuldades de o sangue transpor os obstáculos criados pelo endurecimento das artérias. As suas paredes estavam grossas como um cano velho por onde passam detritos. Os rins infeccionados dificultavam a filtragem do sangue, e muitos dos seus inúmeros canais se encontravam entupidos por cálculos irremovíveis, pelo diagnóstico da medicina, a não ser pelo processo da cirurgia.
Miramez chamou Trinta e Dois, pedindo-lhe que se concentrasse e colocasse suas mãos sobre a cabeça da doente, ao que este obedeceu prontamente, como se fosse mestre no caso de cura. Vimos, então, avolumar-se em torno da sua cabeça, um fluido meio esverdeado com franjas douradas, e dali passar para as mãos hábeis de Miramez, que o aplicava nos centros de força da nossa irmã enferma. Depois, ele aplicou vários passes nela.
Quando terminou o tratamento espiritual, chegaram Kahena e Padre Galeno, trazendo o fruto da colheita que as árvores ofertaram, e que foi aplicado na corrente sangüínea da mulher. Na primeira aplicação, pudemos perceber a limpeza realizada, o fluido parecia um corrosivo a agir nas paredes das veias interrompidas, e logo o fluxo de sangue ganhava os rins, já quase paralisados pela alteração. Graças à ajuda espiritual, eles já conseguiam eliminar as secreções que passavam para a bexiga. Outro tanto de impurezas surgiu nas paredes dos intestinos, para serem depois expulsos pelos mesmos, em forma de fezes. Depois, foi aplicado uma espécie de cataplasma, de um verdadeiro plasma vegetal, nas regiões dos rins, que penetrou como por encanto todas as células dos filtros humanos, desobstruindo os canais mais sensíveis desses aparelhos. A pressão sangüínea também não era boa e foi aplicada, então, uma espécie de fluido de um marron claro na espinha dorsal da nossa irmã, e algo que desconhecia por completo, na cabeça. Vi que ela imediatamente mudou de feição e o sono serenou.
Os três Espíritos que davam assistência à casa estavam muito interessados na saúde da mulher; ela era o esteio da família, e se desencarnasse, o que seria dos filhos?
O homem daquele lar estava muito doente também, mas ele nunca se preocupava com a situação da casa, entregando-se à bebida, aos vícios, à perda de sono e ao completo desinteresse pela educação dos pequeninos. No entanto, a bondade de Deus sempre chega ao coração do pecador, para que ele possa despertar à luz do entendimento espiritual. Seus protetores trabalharam muito tempo com ele, procurando defendê-lo de certas irradiações maléficas, vindas dos seus amigos inferiores.
Procuramos analisar os cordões de prata do dono da casa e pudemos observar o efeito do cigarro e do álcool nas suas estruturas mais íntimas. A ação desses dois agentes químicos abaixa a catalisação dos fios da vida e empobrece os seus movimentos, criando uma capa em torno do cordão fluídico, insensibilizante e de cheiro insuportável. A alma dorme muito; no entanto, não se satisfaz no sono, por interromper certa energia divina que vem do mundo espiritual, por intermédio deste cordão luminoso, para as baterias orgânicas.
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Passei a examinar o cordão fluídico da mulher, e este pareceu-me mais vivo, com uma luminosidade mais intensa, porém, muito volumoso, por não sair ela de perto da residência, preocupada com os filhos e com o marido.
Os filhos estavam todos desdobrados, em uma taberna, junto a uma falange de Espíritos inferiores a eles afinados, na maior algazarra que podiam fazer.
Miramez falou com serenidade:
- O nosso irmão, por esses três dias, deverá desencarnar, mas, suavemente.
A mulher vai ficar boa até determinado tempo, e, quanto aos filhos, continuarão como estão. Estes estão sintonizados com as trevas e ficarão do jeito que são; mais tarde irão aprender com a dor, o que não aceitam pelos conselhos.
Trinta e Dois, consciente do seu trabalho, pediu a Miramez pela sua esposa em tom de rogativa, e nosso orientador respondeu com amplitude de conhecimentos:
- Meu filho, a ela já foi dado o que podemos dar, como sendo misericórdia. A nossa irmã é revoltada, e quanto mais assistência recebe, mais cresce a sua revolta. Somente a uma voz ela vai obedecer: a do anjo da dor. Ele sabe falar com mais profundidade, porque tem o poder de conversar com as criaturas por séculos e milênios, sem enfadar-se do ouvinte.
Registrei com atenção esse final de conversa, e para ser sincero, tive medo. A hora já estava avançada e partimos para a casa de Trinta e Dois. Chegando lá, ele avançou para o corpo com respeito, beijando as suas próprias faces, agradecendo a Deus pela oportunidade de trabalho que lhe foi concedida. Abraçou-nos fraternalmente, agradecendo a todos e pediu a Miramez para sempre o incluir nessas saídas, caso possível.
Fizemos um círculo em torno de sua cama, e ele se escondeu novamente no fardo carnal, abrindo os olhos que ainda vislumbravam nossa presença.
Miramez, cordial, nos convidou a orar ali mesmo, começando a dizer:
Senhor de todos os mundos!...
Estamos gratos pela Tua assistência, nos campos onde percorremos desta vez. Nós Te pedimos mais força, mais ânimo, mais amor, mais caridade, mais perdão, para que possamos sentir a Tua luz dentro de nossos corações.
E que a Tua bênção se faça presente hoje e sempre, neste lar.
Assim seja.
Partimos para a Colônia, volitando quais pássaros na luz do entendimento de Deus, cantando um hino de gratidão, por sentirmos a proteção do Pai, pela luz das estrelas.
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