Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 21 de 47

Páginas do PDF

Iniciação - Viagem Astral

Celes

Por força do passado tenebroso, Celes nasceu em berço misérrimo, em um bairro do Rio de Janeiro. Seus pais, muito carinhosos, cobriram-no de afeto, proporcionando-lhe um lar feliz, embora pobre. Apenas o seu estado físico aborrecia e preocupava seus genitores, que, sem dar mostras disso aos parentes e amigos, comentavam com tristeza entre si, por vezes, na calada da noite.

"Mas", diziam, "se é a vontade de Deus, que assim seja". Liam a Bíblia todos os dias, principalmente à beira da cama de Celes, que arregalava os olhos, parecendo dizer que estava entendendo, por processos que os pais desconheciam. Aquele lar era seguidor da Reforma religiosa e, por índole, não gostava de fanatismo. Respeitava todos os credos, como sendo, todos eles, caminhos para Deus.

Celes nasceu aleijado, tendo as duas pernas atrofiadas; não tinha braços, faltava-lhe uma orelha e a natureza suprimira-lhe, ainda, os cabelos.

A palavra, no começo, foi muito difícil: Celes era gago. No entanto, a força de vontade fê-lo desenvolver as vias do verbo e passou a conversar quase que normalmente, com uma lucidez impressionante, tanto que muitos irmãos da igreja que seus pais freqüentavam, vinham visitá-lo e ouvi-lo falar de passagens da Bíblia, vistas sob novo aspecto, expostos, porém, de um modo que não punha em perigo os conceitos estudados pela Igreja.

Os pais de Celes já não sofriam com seu estado físico, e muito menos ele. O seu mundo era mental e ele usava todos os recursos da sua inteligência para se relacionar com o mundo exterior.

Celes, no ano de 1.100, foi um grande personagem nas Cruzadas, movimento infernal que levou muitas almas a sofrimentos indescritíveis. Conhecia e freqüentava os aposentos de Pascoal II, Papa de 1099 a 1118. Certa feita, cinqüenta dos mais ferrenhos inimigos aprisionados foram torturados de maneira inacreditável: carrascos desumanos trucidaram esses homens e mulheres esticando suas pernas e braços em rodas apropriadas, movidas por braços humanos, todos os dias um pouco, cortando-lhes, depois, uma orelha, como marca de quem era contra as coisas de Deus. Os cabelos eram arrancados em pequenas mechas, provocando uma leve queimação, depois era passado um líquido quente que matava a raiz dos mesmos.

Eram sem paralelos, as idéias satânicas daqueles homens e Celes sentia prazer em participar de tão horrendas práticas. Não foi dele a idéia, que, contudo, teve o seu apoio. Celes tinha, acima de tudo, ódio a todos os estrangeiros, referindo-se a eles com asco.

Por esses traços, poderemos deduzir como foi a vida passada de Celes, todavia, tais atos foram sementes plantadas no seu próprio caminho. Ele, transformado e sentindo o nascimento do Cristo no coração, pediu para voltar à Terra e reparar suas faltas no longo caminho da existência. E foi o que ocorreu. Essa sua vida como Celes, no Rio de Janeiro, foi sua mais recente reencarnação que ele, com firmeza e coragem, soube suportar com humildade e amor, desfazendo-se do fardo incômodo do passado, para brilhar como o sol na pátria espiritual.

Voltando à Cidade Maravilhosa, vamos encontrar Celes como centro de atrações para os componentes da Igreja. A casa dos seus pais se tornara um recanto onde todos se regalavam nos fins de semana e nos feriados. Porém, as coisas não permanecem como os homens querem e sim, como Deus

56

determina. Às vezes, as verdades são sufocadas no seu nascedouro, como a água ao encontrar obstáculo; todavia, assim como ela contorna todos os impedimentos, muito mais a verdade; a água da vida desconhece as barreiras humanas. Quanto mais a ignorância pretenda sufocá-la, mais será conhecida, por ser oriunda de Deus.

Um certo domingo à tarde, a casa dos pais de Celes estava cheia de visitantes. Eram cantados hinos ao Senhor e Celes, acomodado em travesseiros, sentia-se no seu mundo e se alegrava com os sorrisos de todos. Cada qual queria ouvir e falar com ele e isso, para seus pais, era motivo de grande contentamento.

Aproximou-se a noite e foram servidos chá de cevada e torradas, entretanto, o serão evangélico continuava sendo o melhor alimento. Depois de alguns instantes, foram se despedindo os irmãos em Cristo, ficando somente o pastor e senhora, que desejava falar a sós com Celes acerca dos acontecimentos daquela tarde.

Fechadas as portas, o pastor, com palavras mansas e gestos estudados para impressionar profundamente os ouvintes, olhou para Celes com piedade e falou com autoridade:

- Filho, notei em tuas palavras aos fiéis que tiveram a bondade de fazer-te uma visita, estranhas interpretações acerca da Bíblia, que não deve ter interpretações particulares. Não podes esquecer a obediência aos valores imortais que os Céus colocaram em nossas mãos. Como sabes, cada Igreja de Deus tem seu representante e nesta a que tu e teus pais pertencem, sou eu quem anuncia certas coisas, porque sei dar a elas o cunho da verdade que nos pertence. Continuando a falar assim, tua boca, que antes falava sobre as coisas do céu poderá passar a servir de instrumento do maligno. Não fiques ofendido com minhas palavras. Sendo inteligente como és, sê obediente e eu impedirei que a inteligência do mal fale por teu intermédio. Se me ouvires, serás, talvez, um canal da voz do Espírito Santo, que conosco anunciará o Cristo.

O ambiente ficou meio tenso. Celes e seus pais mostraram-se inquietos, mas, logo a educação fê-los asserenarem-se, por se tratar de um pastor da igreja e, muito mais, pelas lições recebidas todos os dias, do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Naquela disciplina familiar, Celes sentiu uma harmonia interna nunca antes percebida, mas, por dentro não concordava com as palavras do pastor. Notou que a sua garganta parecia revestida de uma substância que ele não podia definir no momento; o seu cérebro, tinha ele a impressão, crescia de maneira milagrosa; as faculdades do raciocínio ampliaram-se, de sorte a tornarem-no um gigante do saber. Alguns traços de uma matéria sutil escaparam pelos cantos da sua boca e leve formigamento pareceu escorrer do único ouvido.

O pastor olhou para Celes, quis continuar mas não pôde: algo lhe impediu. Abriu a Bíblia, como recurso naquele momento e começou a ler a defesa de Paulo, em Atos dos Apóstolos, capítulo 24, versículo dez. Quando chegou ao versículo 14, leu em voz alta:

"Porém, confesso-te isto: que seguindo o caminho a que chamam seita, assim eu sirvo ao

Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que estejam de acordo com a lei e nos

escritos dos profetas".

 

57

E continuou, no versículo 15:

"Tenho esperança em Deus, como também

estes a tem, de que haverá ressurreição, tanto de justos

como de injustos"...

E se calou, sem saber ao certo porque o fizera.

Celes, tomado por uma força desconhecida, mas percebida pelo pastor, falou com mansuetude, na linguagem peculiar aos grandes mestres:

- Reverendo, peço-te escutar-me um momento, pois quem te fala aqui e ora não é o Celes, nosso irmão em Jesus Cristo. Sou eu, em nome da Verdade, aquele que teve a felicidade de abrir os caminhos que ora segues com tanto ardor. Eu sou Lutero, aquele que lutou até os extremos para libertar o livro sagrado que tanto amas.

Vim falar-te em nome de Deus, porque conheço o teu íntimo e sei que a tua consciência não é capaz de desfazer a Verdade. Se foi dito que conhecerás a árvore pelo fruto, presta atenção ao que te digo pela boca deste que ora me serve.

Em tuas orações a sós, dentro dos teus aposentos, já me viste e te certificaste de que posso me comunicar contigo, só que não tinhas deduzido ainda que eu podia igualmente falar através de outrem, tão bem quanto te inspiro.

Não vou dissertar sobre o ponto que leste, por ser desnecessário no momento. Mais tarde, quando o releres, eu te intuirei, para que tenhas um melhor entendimento.

Se pensas que estás sendo vítima da mentira e que é um Espírito maligno quem fala contigo, saiba que sou eu aquele que te assiste todos os dias em teus aposentos. Teu lar, por ser uma escola onde se ensinam e se vivem os preceitos d'Aquele que é a Verdade e a Vida, está fechado para aqueles a quem tu chamas de Satanás. Se insistes em pensar que sou o demônio, estejas certo de que serei o demônio que irá te acompanhar até o fim, pois tu mesmo pregas na igreja que o homem atrai para junto de si, segundo aquilo que ele é e pensa. O que dizes agora que eu sou?

Estou em total concordância com a tua resolução de fazer da tua igreja um local de plena fraternidade, de muito amor entre as criaturas e de incentivo à paz nos lares, ensinando que Cristo é a nossa esperança. Por enquanto, até breve e que Deus te abençoe.

Ao terminar sua elocução, Lutero deixou Celes, que começou a abrir os olhos espreguiçando-se e viu o pastor chorando, bem como seus pais. Não podia negar o que acontecera com ele. Sentia a verdade palpitar em seu íntimo e pensava em como poderia ter acontecido tal fato.

Ninguém ficou sabendo do ocorrido, pois o pastor pediu a todos que silenciassem sobre o fato, mas, que ele viria sempre a sós conversar com Celes, por achar que era a vontade de Deus.

As conversas com Lutero se repetiram por muitas vezes. O pastor não pregava o que ouvia de Lutero por intermédio de Celes, não obstante, mudara muito em seu comportamento na igreja, assim

 

58

como em suas pregações. No seu coração aceitava como verdadeira a comunicação dos Espíritos, chamados mortos com os seres denominados vivos.

Ao fim de suas difíceis provas, Celes voltou ao ambiente espiritual e continua sendo médium, para que outros espíritos se manifestem por seu intermédio. É uma criatura maravilhosa que nos ajuda constantemente sem reclamar e com amor.

Acreditamos que seu perfil ficou bem delineado em nossa narrativa, e por isso não vamos detalhá-lo.

Que Deus o abençoe.

...as coisas não permanecem como os homens querem,

e sim, como Deus determina.

 

59